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O Acaso: Monod e Maturana – Miriam Graciano

O Acaso: Monod e Maturana
Miriam Graciano

(Hoje lhes ofereço um texto da filósofa Miriam Graciano – UNi.Fed. Lavras, MG . Nelson Vaz)

  1. Introdução:

Este trabalho consiste em uma leitura comparada da obra “Acaso e Necessidade: Ensaio sobre a filosofia natural da biologia Moderna” de Jacques Monod, com a obra “Origem de las Especies por medio de la Deriva Natural” de Humberto Maturana e Jorge Mpodozis [1]. Embora essas duas obras se baseiem em teorias evolutivas que divergem em questões epistemológicas centrais, tal diálogo se faz possível na medida em que ambas adotam os mesmos pressupostos biológicos, a saber: que sistemas vivos são sistemas determinados estruturalmente, e que devem ser compreendidos em sua totalidade como “máquinas que se constroem a si mesmas”.

Em um primeiro momento, procuro analisar o ponto de vista biológico e epistemológico subjacente a obra de Monod, através da explicitação de seu arcabouço teórico. A partir desse ponto, com a suscitação da dicotomia acaso e necessidade em biologia, procuro então refletir sobre essas mesmas questões na obra de Maturana e Mpodozis, utilizando eventualmente, como auxilio bibliográfico, outros textos de Maturana. Maturana e Mpodozis são biólogos que vêm propondo uma teoria biológica que vai de encontro com o paradigma hegemônico das ciências biológicas ao qual Monod parece filiar-se. Daí a importância e riqueza que espero poder extrair de tal debate.

Na parte final desse trabalho, faço algumas reflexões de cunho nitidamente epistemológico, baseando-me na obra “Filosofia da Ciência Biológica” de David Hull. Hull problematiza em sua obra duas questões que julgo fundamentais para a compreensão e análise de um debate teórico desse tipo em ciências biológicas. A primeira delas consiste em uma reflexão sobre o que ocorre em ciência quando duas concepções teóricas se encontram em jogo. Ou seja, ele faz uma pergunta sobre o que acontece em ciência quando mudanças conceituais podem ser percebidas, se se trata de um caso de redução ou de substituição teórica. A segunda questão que quero extrair da obra de Hull, para uma maior reflexão sobre os autores aqui abordados, trata-se do debate existente entre organicismo e reducionismo, ou vitalismo e mecanicismo. Acredito que tal reflexão se faz fundamental na medida em que as teorias biológicas em questão descendem, cada uma delas, de uma dessas duas tradições teóricas divergentes.

 

  1. Teoria sintética – a biologia da qual fala Monod:

A obra de Monod “Acaso e necessidade” é nitidamente permeada e guiada pelos pressupostos fundamentais da Teoria Sintética da Evolução. Essa teoria consiste em uma releitura da teoria da evolução das espécies proposta por Darwin a partir de dados da biológica experimental, particularmente da biologia molecular e da genética. Ela recebeu esse nome por tratar-se de um esforço teórico que sintetizava a Teórica Clássica (darwiniana) com a Teoria Genética proposta por geneticistas e matemáticos no primeiro terço desse século.

O pressuposto epistemológico fundamental desse campo do saber é que a natureza é uma realidade objetiva independente de nós que a observamos, cujas leis ou códigos universais nos cabe decifrar. De certo modo, os biólogos adeptos dessa visão epistemológica identificaram o código genético nos seres vivos, a essa lei universal e portanto invariante da natureza. Há mais de meio século esforços teóricos e experimentais têm-se voltado a decifrar tal código através da investigação bioquímica dos processos biológicos, reduzindo a tarefa de compreender a vida à compreensão dos processos moleculares dos seres vivos.[2]

Monod, já no prefácio de sua obra “Acaso e necessidade”, reconhece as dificuldade de tal empreendimento, embora afirme que a teoria do código genético constitui a base fundamental da biologia, assim como a genética dá o estatuto de universalidade dessa disciplina.

Contudo, se hoje em dia a teoria molecular do código genético não pode (e sem dúvida jamais poderá) predizer e resolver toda a biosfera, constitui desde já uma teoria geral dos sistemas vivos. (Monod, 1971; p.10)

Nos dois primeiros capítulos da obra, ele irá criticar as chamadas teorias vitalistas apontando que essas, para sobreviverem necessitam de que subsistam na biologia verdadeiros paradoxos ou mistérios. Este é um dos argumentos utilizados pelo autor no intuito de justificar a sua teoria, que é no fundo a Teoria Sintética. Entretanto, paradoxos e mistérios perpassam toda a sua obra sem serem devidamente tratados. Aliás, a proposta principal da obra, que é tratar a dicotomia acaso e necessidade em biologia permanece insolúvel, na medida em que Monod é ambíguo em suas conclusões. Por outro lado, a própria obra tem como pano de fundo um grande paradoxo através do qual ela é guiada, que pode ser explicitado através das seguintes perguntas:

 

  1. a) Uma vez que o determinismo genético é fato e se impõe como necessário, como compreendermos a emergência do novo, do contingente ou do acaso, que é o que as teorias evolutivas querem explicar?

 

  1. b) Se para explicar-se a diversidade da biosfera sem ferir o necessitarismo da genética, identificamos “acaso” a “erro genético”, este mesmo “acaso” não retorna e se impõe à necessidade como aquilo que de fato direciona a evolução e a diversificação biológica?

 

  1. c) Ou ainda, se lançamos mão do conceito de “pressão de seleção” no intuito de conciliarmos acaso e necessidade em biologia (ou em outras palavras, erro de codificação e determinismo genético), não acabamos por deslocar o determinismo de um ser que se quer tratar, e se pressupõe a princípio, como determinado em sua estrutura (genética), para um meio a ele externo e do qual ele independe?

 

Acredito que tais questões não são apenas contraditórias, mas são verdadeiros mistérios trazidos a tona por uma visão, mais do que biológica, epistemológica, a princípio equivocada e enganadora. Entretanto, sigamos passo a passo o desenrolar dessa obra procurando obter a partir de seus argumentos uma maior compreensão da sua proposta teórica.

No primeiro capítulo de seu livro Monod afirma, sob a forma de um postulado, que a natureza é objetiva e não projetiva, e define os seres vivos distinguindo-os de todas as estruturas de todos os sistemas presentes no universo, através de uma força interna que lhe confere a sua estrutura macroscópica. Esta força é em outras palavras, o código genético que determina internamente e de forma autônoma as estruturas externamente complexas dos seres vivos. Não obstante, essa propriedade fundamental dos seres vivos, uma vez analisada mais atentamente, a nós se revela como teleonômica e portanto projetiva. Embora a natureza não seja projetiva, o gene enquanto parte integrante dessa natureza, o é.

Monod reconhece essa contradição como uma contradição epistemológica, e aponta que o desafio da biologia é decifrá-la, uma vez que a natureza não projetiva, através da sua objetividade, nos obriga a reconhecer o caráter teleonômico dos seres vivos, e a admitir que, em suas estruturas, eles realizam e perseguem um projeto. Esse caráter projetivo e teleonômico dos seres vivos, é transmitido de geração em geração como marca da invariância reprodutiva que caracteriza cada espécie como uma espécie. Mas, se por um lado, isso explica a especificidade dos seres vivos, por outro lado, não explica a diversidade dos mesmos.

Monod acredita que a teoria seletiva pode solucionar todas essas questões e, a partir do terceiro capítulo dessa obra, começa a reinterpretar a Teoria da Seleção Natural, através da bioquímica e da genética. Desse modo, ele atribui às proteínas um papel fundamental, considerando-as como os agentes moleculares essenciais das performances teleonômicas dos seres vivos; e, considerando os seres vivos como máquinas químicas cujo crescimento e multiplicação se realizam através de seu metabolismo. O metabolismo, por sua vez, é definido como o processo de reações químicas realizadas pelos organismos através das quais os constituintes essenciais das células são elaborados. E conclui:

O organismo é uma máquina que se constrói a si mesma. Sua estrutura macroscópica não lhe é imposta pela intervenção de forças exteriores. Ela se constitui de modo autônomo, graças a interações construtivas internas. (Monod, 1971; p. 58)

Mais adiante, no capítulo V, Monod reforçará essa idéia fazendo um paralelo entre os organismos vivos e Afrodite que “nasceu da espuma das ondas de onde seu corpo desabrochou de si mesmo, por si mesmo.” (Monod, 1971; p. 97)

Todo esse processo, denominado posteriormente por Maturana e Varela de autopoiético, é identificado aqui, e portanto reduzido, ao processo de biossíntese das proteínas. Monod destaca nesse momento as propriedades estereoespecíficas das proteínas, propriedades essas que possibilitam o reconhecimento entre moléculas de um mesmo organismo. E é ao nível do microscópico, a partir das estruturas primárias das proteínas, que Monod procurará apreender tais propriedades cognitivas dessas mesmas proteínas; assim como procurará extrair da genética a explicação da vida.

Como pano de fundo desse reducionismo encontramos a descoberta dos ácidos nucleicos que encantou a biólogos e bioquímicos a partir dos anos 50, viabilizando a enunciação do postulado: um gene, uma proteína. Comecemos por explicitar essa idéia a partir da análise da estrutura de uma proteína.

As proteínas são moléculas constituídas a partir de um repertório de 20 aminoácidos. Estes aminoácidos combinam entre si através de ligações químicas denominadas ligações peptídicas formando assim uma proteína. Cada proteína possui quatro níveis de estrutura:

– Uma estrutura primária que corresponde a seqüência de aminoácidos e a localização das pontes dissulfetos quando estas ocorrem[3].

– A estrutura secundária se deve ao arranjo espacial dos radicais de aminoácidos que estão próximos uns dos outros; isto é, conforme a seqüência de aminoácidos que estão próximos, devido a diferença de tamanho molecular assim como de carga elétrica, a proteína se dobra de um modo ou de outro (por exemplo, em α-hélice).

-A estrutura terciária se deve ao arranjo espacial de aminoácidos que estão longe na seqüência linear; entretanto, o critério de separação entre estrutura secundária e terciária não é claro.

-A estrutura quaternária é o arranjo espacial, a forma final de uma proteína.

 

Agora, façamos um caminho inverso. Seguindo da estrutura quatenária à estrutura primária de uma proteína notaremos que é a seqüência, a ordem em que os aminoácidos que a compõem se encontram, o que em última análise confere a forma e portanto as propriedades, ou função, de uma proteína.

Por sua vez, cada aminoácido corresponde a uma determinada trinca de nucleotídeos[4]. Mais de uma trinca poderá codificar a um mesmo aminoácido, mas o fundamental é que cada trinca (codon) de nucleotídeos determina um e apenas um aminoácido. Por exemplo, tanto o triplé GGU, quanto o triplé GGC codificam a glicina; mas GGU (ou GGC) codifica só e somente só a glicina, e a nenhum outro aminoácido.

Daí a possibilidade de se dar um salto teórico que vai da complexidade da conduta de um organismo vivo às proteínas que o constituem, e dessas aos genes que as determinam. Esta aí também a porta de entrada que nos leva do estudo da biologia ao estudo da química dos componentes moleculares de um organismo vivo. Monod segue essa trajetória que o levará a acreditar ser possível através do gene, do determinismo genético, explicar fenômenos de outra ordem, tais como o acaso e a necessidade que se impõem como questões filosóficas mediante seu próprio esforço teórico. Entretanto, enquanto questões filosóficas, acaso e necessidade só poderão ser compreendidos sob um ponto de vista filosófico e não bioquímico.

A questão da necessidade está posta e explicitada por Monod nos quatro primeiros capítulos de seu livro; é necessário que:

– os seres vivos sejam determinados geneticamente;

– o gene seja invariante de geração em geração; e

– o código genético seja teleonômico e projetivo.

 

Mas, como surge então o acaso? O acaso aparece na obra por duas vias distintas: através de uma questão mais geral, que é a necessidade de se explicar a diversidade da biosfera, coisa que o necessitarismo da Teoria Sintética de forma isolada não só não podería explicar, como também vetaría. E, através de descobertas experimentais da própria biologia molecular.

No capítulo V, Monod descreve o trabalho de Sanger, de 1952, como sendo ao mesmo tempo uma revelação e uma decepção. Sanger foi quem sequenciou pela primeira vez uma proteína globular. Entretanto, tal estudo ao mesmo tempo que revelava as propriedades eletivas de uma proteína, revelava também a ausência de qualquer regularidade. Monod relata que havia a esperança de que com o passar dos anos se elucidasse tal questão, podendo-se então deduzir uma lei geral, mas que ao contrário de todas as espectativas a única lei que puderam encontrar foi o acaso.

essas estruturas existem “ao acaso” no sentido em que, conhecendo exatamente a ordem de 199 resíduos numa proteína que compreende 200 deles, é impossível formular uma regra, teórica ou empírica, que permita prever a natureza do único resíduo ainda não identificado pela análise. Dizer da seqüência dos aminoácidos num peptídeo que ela existe “ao acaso” de forma alguma significa, é preciso insistir, uma confissão de ignorância, mas exprime uma constatação de fato. (Monod, 1971; p.112)

Porém, logo em seguida Monod faz desaparecer o acaso subsumindo-o na necessidade, uma vez que justifica através da invariância genética a manutenção do necessário e não mais do casual que se encontra na origem de todo o processo.

Mas se, neste sentido, toda estrutura primária de proteína nos aparece como puro produto de uma escolha ao acaso, (…) devemos reconhecer que essa seqüência atual de forma alguma foi sintetizada ao acaso, pois essa mesma ordem é reproduzida, praticamente sem erro, em todas as moléculas da proteína considerada. (…) O acaso é captado, conservado, reproduzido pela maquinaria da invariância e assim convertido em ordem, regra, necessidade. (Monod, 1971; p112-113)

 

A outra via pela qual emerge o acaso é, como já mencionado, a própria evolução das espécies. E aí também, o acaso terá que ser suprimido. O acaso é a todo instante, desvelado para em seguida ser negado ou esquecido, deixando-nos apenas com o que é necessário[5].

Monod tenta superar as dificuldades geradas pelo necessitarismo de seu sistema, afirmando que a diferenciação entre duas espécies é o resultado de um grande número de mutações independentes, sucessivamente acumuladas e ao acaso recombinadas através de um fluxo genético que ocorre com a reprodução.

Entretanto, tal afirmação trás o acaso novamente à cena, e com ele o reconhecimento, por parte do próprio autor que a seleção opera sobre os produtos do acaso, e portanto não pode ser algo tão necessário quanto ele tenta afirmar.

Esse impasse deverá ser superado por um terceiro conceito chave associado aos demais: o conceito de pressão de seleção.

Pressões de seleção são as condições externas, o meio, que em última instância decidem qual mutação é benéfica ou não à vida. Entretanto, tal conceito não só não ajuda a superar as dificuldades já apontadas, pois novamente trás consigo o acaso, como também gera uma outra dificuldade. Como sustentar o determinismo genético, e portanto o determinismo estrutural dos seres vivos, se em última instância o que seleciona, e portanto determina o vivo, se encontra fora de sua estrutura?

É curioso notar que assim como a genética, a própria base teórica de Monod se encontra em uma trinca, através da qual podemos decodificar a sua obra, a saber:

 

Replicação/Invariância Genética/Necessidade

Mutação/Erro/ Acaso

Seleção/Pressão de Seleção/Diversificação.

 

Para encerrar essa seção quero destacar o fato de que Monod não soluciona a dicotomia acaso e necessidade acabando por apresentar uma conclusão contraditória em sua obra. Isto é, ao mesmo tempo que ele admite o acaso na biosfera, ele o nega, reafirmando o determinismo genético e com ele o necessidade até mesmo da conduta dos seres vivos; ou ainda, nos fornecendo uma leitura extremamente necessitarista da história humana.

O destino se inscreve na medida em que se cumpre, não antes. (…) O universo não estava grávido da vida, nem a biosfera, do homem. Nosso número saiu no jogo (acaso) de Monte Carlo (Monod,1971; p. 163-164)

Essa evolução deveria não só facilitar a aceitação da lei tribal, mas criar a necessidade da explicação mítica que a funda (…). Somos descendentes desses homens. Sem dúvida, foi deles que herdamos a exigência de uma explicação, a angústia que nos pressiona a procurar o sentido da existência. (…) De minha parte, não duvido de que essa imperiosa necessidade seja inata, inscrita em algum lugar na linguagem do código genético, nem de que se desenvolva espontaneamente. (…) Nos insetos sociais, a estabilidade das instituições não deve quase nada a uma herança cultural, mas tudo à transmissão genética. O comportamento social é inteiramente inato, automático. (Monod, 1971; p. 185-186)

Para Marx como para Hegel, a história se desenrola segundo um plano imanente, necessário e favorável. (…) Entretanto, limitado à história humana e mesmo revestido das certezas da “ciência”, o materialismo histórico permaneceria incompleto. Seria necessário acrescentar-lhe o materialismo dialético que, este sim, fornece a interpretação total que o espírito exige: a história humana e a do cosmo nele são associadas como obdecendo às mesmas leis eternas. (Monod, 1971; p. 187)

Ainda que se possa pensar ou afirmar que Monod trabalha a questão do acaso e da necessidade de forma dialética, e que portanto não há que se anular a tensão entre eles, ao meu ver, Monod nos dá a entender que ele quer dissolver tal tensão, e que de fato pode fazê-lo. Entretanto, a tensão permanece.

 

 

 

 

 

 

  1. Deriva Natural – a biologia da qual fala Maturana:

A brochura “Origen de las Especies por medio de la Deriva Natural. Ó, La diversificación de los linajes a través de la conservación y cambio de los fenotipos ontogénicos“, de Maturana e Mpodozis[6], apresenta uma proposta explicativa da evolução das espécies diferente daquela na qual Monod se baseia para tratar a dicotomia acaso e necessidade em ciências biológicas.

A principal diferença entre eles, é que Maturana e Mpodozis têm como pressuposto epistemológico fundamental que “Tudo que é dito, é dito por um observador”; isto é, que aquilo que chamamos de realidade ou objetividade não independe de quem a observa, e de fato é no observar do observador que domínios de realidades são configurados. Portanto, ao contrário de Monod, eles não pensam a natureza como uma realidade objetiva e independente a ser desvelada. E uma vez que a natureza não é objetiva, não há como apontar para nenhum de seus aspectos como algo que por sua objetividade nos obrigue a pensar os seres vivos como seres teleológicos ou dotados de um projeto. É o observador em seu observar que os configura de um modo ou outro. Mas Maturana e Mpodozis não configuram o seres vivos dessa maneira. Logo, não se deparam com nenhuma contradição epistemológica, entre o que se espera da natureza, a ser decifrada, e o que se observa nos seres vivos. A tarefa da biologia para eles é uma outra.

Apesar dessas divergências teoricas fundamentais, Maturana e Mpodozis adotam três dos mesmos pressupostos adotados por Monod. Eles também defendem a idéia de que uma explicação científica deve-se apoiar no determinismo estrutural, e deve ser uma explicação mecanicista. Eles afirmam que uma explicação científica consiste na proposição de mecanismos gerativos que postos a operar originem a experiência a se explicar. Ou seja, os sistemas vivos para serem tratados do ponto de vista científico, devem ser tratados como sistemas determinados estruturalmente e submetidos a uma explicação do tipo mecanicista. A terceira semelhança é que eles também definem seres vivos como sistemas autopoiéticos – definição idêntica a de Monod ainda que ele não adote essa mesma terminologia. Entretanto, toda a proximidade entre estes autores parece se esgotar aqui.

As divergências conceituais entre eles quanto à biologia são profundas, e se iniciam no momento em que Maturana e Mpodozis afirmam não existirem seres vivos mais ou menos adaptados. Eles partem de um princípio em si mesmo tautológico, que afirma que a conservação da adaptação entre ser vivo e meio é uma condição de existência do ser vivo; isto é:

 

“a congruência operacional entre seres vivos e suas circunstâncias é uma condição constitutiva de sua existência”

 

Por isso: ou o ser vivo conserva sua adaptação e vive, ou não a conserva e morre; logo, não podem existir seres vivos mais ou menos adaptados.

Outra divergência conceitual básica, é que, como já foi mencionado, Maturana e Mpodozis não tratam os sistemas vivos como sistemas teleonômicos. Para eles a vida transcorre em uma deriva estrutural que não exibe nenhum esforço, intencionalidade ou propósito. O próprio termo deriva já conota esse caráter sistêmico e espontâneo do viver. Por outro lado, também por um princípio tautológico, eles adotam a visão de que meio e sistema vivo mudam juntos, sendo que o meio não preexiste ao ser vivo. Vejamos:

O observador induz o nicho ou domínio de existência do ser vivo como a parte do meio na qual o ser vivo de fato se encontra a cada instante de seu viver. O nicho ou domínio de existência do ser vivo, portanto, não é caracterizável com independência do ser vivo que o constitui. O único modo pelo qual o observador pode conhecer o nicho de um ser vivo, é usando esse mesmo ser vivo como indicador. Para o observador, que pode tratar o meio como contendo o ser vivo assim como incluindo seu nicho, este pode parecer como preexistindo ao ser vivo que o ocupa. Mas (…), na medida em que o meio inclui ao nicho e o nicho não preexiste ao ser vivo, tampouco preexiste o meio ao ser vivo que o ocupa; mas antes, surge com ele. (Maturana e Mpodozis, 1992; p. 14)

Portanto, ser vivo e meio mudam juntos de maneira congruente em uma coderiva. Esta concepção irá gerar também uma divergência no que se refere ao conceito de pressão de seleção.

Para Maturana e Mpodozis a deriva filogênica[7] é um processo sistêmico e histórico, no qual as distintas classes de organismos surgem em um meio cuja dinâmica estrutural é independente deles, realizando distintos nichos que não preexistem ao operar dos organismos que os ocupam. Por isso, nada do que ocorre durante a diversificação das espécies pode ser compreendido como uma força ou pressão de seleção. Conjuntamente à crítica feita ao conceito de pressão de seleção, é feita também uma crítica à noção de seleção, que é no fundo o que tal conceito visa justificar.

Não restam dúvidas de que um observador, que ao olhar uma população que muda em dois momentos distintos de sua história vê uma sobrevida diferencial de algumas das classes de indivíduos que a compõem, pode dizer de maneira legítima que os sobreviventes resultam selecionados no devir dessa história. O que o observador não pode dizer, é que o mecanismo que gera a sobrevida diferencial observada seja uma seleção. A seleção é o resultado de tal sobrevida diferencial e portanto não pode ser sua origem. Portanto, o que um observador chama de seleção (…) é de fato o resultado de um processo sistêmico não dirigido por nenhuma força ou pressão. (Maturana e Mpodozis,1992; p.22)

A seleção natural é um resultado, não um mecanismo gerativo. (Maturana e Mpodozis, 1992; p.41)

Em consequência dessa análise, a conduta adquire um papel fundamental para a compreensão do processo evolutivo. É o fluir da conduta de um ser vivo o que modula o curso de sua epigênesis. Entretanto, a conduta de um organismo não especifica nem determina as mudanças estruturais do organismo, ela apenas limita e guia o curso de sua deriva ontogênica. A conduta é definida por eles como uma realização dinâmica do organismo no fluir de suas interações em um meio; como realização de um modo de vida que é a cada instante parte da realização de um fenotipo ontogênico. Posto que a conduta de um ser vivo surge da relação organismo-meio, a dinâmica estrutural desse mesmo organismo também não pode determinar a conduta ainda que participe da sua geração. É por isso que eles afirmam que em um sentido estrito não pode haver determinação genética de aspectos da conduta de um organismo, já que esta surge de maneira sistêmica durante a sua deriva ontogênica.

Podemos dizer, portanto, que a conduta dos seres vivos é o mecanismo que guia o suceder da deriva ontogênica e da deriva filogênica, e não a constituição genética ou uma pressão externa. A conduta, ao limitar a deriva genética no curso da conservação de uma linhagem, guia o curso desta sem determinar quais mudanças genéticas se produzem nele. (Maturana e Mpodozis, 1992; p. 22)

Temos aqui, então, uma crítica mais radical aos pilares teóricos sobre os quais Monod se apoia. Trata-se da crítica ao determinismo genético.

(…) as semelhanças e diferenças que vemos entre os seres vivos, resultam das dinâmicas sistêmicas de constituição e conservação das linhagens e não da presença de alguns tipos particulares de moléculas como os ácidos nucléicos ou proteínas. (…) nenhuma classe ou tipo particular de moléculas determina nem pode determinar a constituição ou conservação das linhagens. (Maturana e Mpodozis, 1992; p. 28)

Sem dúvida a conservação genética é parte da conservação dos fenótipos ontogênicos e modos de vida, mas no entanto não os determina, está aberta a uma mudança que não vemos porque não a esperamos. (Maturana e Mpodozis, 1992; p. 41)

Para Maturana e Mpodozis todas as características de um ser vivo resultam de um processo global do qual os seus componentes participam sem que nenhum deles seja por si só responsável. É a realização da autopoiese, o operar enquanto sistema de um organismo, o que se deve conservar de geração em geração para que uma linhagem possa ser definida como uma linhagem de seres vivos. Entretanto, enquanto há reprodução, há a possibilidade de variação no modo como se realiza a autopoiese, e há a possibilidade de que na sucessão de reproduções se conserve um modo de realização da autopoiese produzindo-se assim uma nova linhagem de seres vivos. Sendo assim, a evolução das espécies é compreendida como um processo geral, sucessivo, espontâneo e inevitável.

(..) o estabelecimento de uma nova linhagem implica que se gerou uma dinâmica sistêmica, organismo-meio que se conservará enquanto as variações que se produzem no genotipo total não interfiram com a conservação do fenotipo ontogênico que define a essa linhagem. Que o surgimento de uma nova linhagem não seja um processo genético ainda que a genética o faça possível, é o que faz da diversificação das linhagens um processo que pode ocorrer em poucas gerações, tanto na conservação quanto na mudança, e o que faz possível a coderiva de seres e sistemas que têm dinâmicas de mudança estrutural que são operacionalmente independentes. (…) a conduta opera de fato como a dinâmica de conservação do fenotipo ontogênico e o modo de vida, e guia o curso da deriva filogênica. Assim, uma mudança de conduta que comece a conservar-se de geração em geração em uma linhagem de seres vivos, constitui de fato uma mudança no fenotipo ontogênico conservado na reprodução desses seres vivos, e a fundação de uma nova linhagem. Se esta nova linhagem se conserva, a transformação de conduta operará como um limite e referência no transcorrer do genótipo total dos organismos membros dessa nova linhagem, e tal mudança ocorrerá não como o resultado de uma dinâmica seletiva, mas sim como o resultado de um deriva ganética filogênica delimitada pela deriva filogênica natural da linhagem (Maturana e Mpodozis, 1992; p. 23-24)

E, é através da compreensão da história evolutiva como uma história de conservação e mudança, que eles explicam tanto a diversificação da biosfera quanto a manutenção de determinadas espécies.

Embora em sua exposição Maturana e Mpodozis firam o determinismo genético, eles negam estar falando de um ponto de vista lamarquista. Ainda que a herança seja um fenômeno sistêmico e não molecular, e que a conduta desempenhe um papel fundamental no devir da deriva filogênica dos seres vivos, o devir desses não resulta da herança de caracteres adquiridos. As variações na realização de uma conduta se dão dentro de um campo de condutas possíveis que não se herdam; o que ocorre é que ao se estabilizar um certo conjunto de relações, ou todo o sistema muda em torno da conservação dessa relações, ou então ele se desintegra enquanto sistema de uma dada classe.

Quanto ao surgimento da vida na terra, este fica explicado através da hipótese de um surgimento espontâneo de unidades autopoiéticas em uma dinâmica de variação, vida e morte.

 

A partir dos conceitos aqui explicitados, quero fazer agora uma reflexão pessoal a respeito da dicotomia acaso e necessidade, assim como apontar para um caminho de pensamento em história.

Ainda que se mantenham as noções de autopoiese, mecanicismo e determinismo estrutural, na medida em que outros conceitos vêm a esses se associarem, as inferências que se pode exptrair da proposta teórica de Maturana e Mpodozis é substancialmente diversa daquelas extraidas da obra de Monod.

Com a substituição do conceito de pressão de seleção pelo conceito de deriva natural, e na medida em que determinismo estrutural não significa mais estabilidade ou direcionamento projetivo de um componente estrutural (o gene) – mas faz referência a um estado global e anterior de um sistema fechado em si mesmo – deparamo-nos com um sistema teórico no qual a necessidade se encontra enfraquecida, e a dicotomia entre ela e o acaso se dissolve.

Não há nada de fixo, imutável ou estritamente necessário nos sistemas vivos, nem tampouco a evolução das espécies consiste em um processo que opera sobre os frutos do acaso – ela não consiste em uma seleção de mutações benéficas ocorridas ao acaso. Nem mutações nem condutas ocorrem ao acaso, mas refletem relações dinâmicas, são fenômenos necessários e correlacionados a manutenção da identidade autopoiética. Deriva natural também não é um termo que faz referência a um mero fluir casual, pois ela opera sob sistemas determinados estruturalmente. Ou seja, ao mesmo tempo que a afirmação de que os seres vivos se encontram à deriva abre um leque de possíveis ontogenias, este campo de possibilidades é meramente conceitual (ou especulativo), na medida em que uma só dessas possibilidades ocorrerá de acordo a uma estrutura prévia assim como à história de interações do ser vivo em questão.

Deriva natural, ao meu ver, é um conceito que se abre para o futuro respeitando as marcas do passado. Por isso mesmo, ele é um conceito que pode nos ajudar a pensar a história dos homens como aquilo que emerge na medida em que se inscreve; como um devir no qual cada acontecimento se origina como uma transformação de acontecimentos anteriores.

Sei que a questão da necessidade e do acaso está novamente colocada, mas agora sob a forma de uma díade e não mais de uma dicotomia ou contradição. Falo em díade porque os conceitos aqui explicitados, são conceitos que conotam aquilo que é ao mesmo tempo necessário e contingente. Acaso e necesidade não se apresentam aqui de forma isolada, através da qual um expressa a negação do outro, pois trata-se de uma complementariedade.

 

  1. Comentários finais:

Nessa parte do trabalho, procuro fazer uma reflexão, a partir das idéias contidas na obra” Filosofia da Ciência Biológica” de David Hull, que visa estabelecer uma melhor contextualização dos autores anteriormente abordados, particularmente no que diz respeito à tradição em biologia a qual se filiam.

Hull inicia a sua obra apresentando um interessante debate entre empirístas lógicos e outras vertentes epistemológicas. Hull inicia a sua obra analisando se a transição entre genética mendeliana e genética molecular, trata-se de um caso de redução como afirmam os empiristas lógicos, ou de um caso de uma verdadeira substituição teórica. Ele chega a conclusão de que é muito pouco provável que esse exemplo seja um exemplo de redução teórica. Pois, uma grande variedade de conceitos são redefinidos; em um plano mais geral, o próprio arcabouço teórico se encontra reestruturado; assim como no que diz respeito à metodolgia ou preocupação experimental, encontramos uma acentuada diferenciação. Logo, a transição da genética mendeliana à genética molecular deve ser tratada como sendo um caso de substituição e não de redução. Em um plano geral Hull parece aderir a tese anti-redução presente tanto em Popper, quanto em Feyerabend ou Kuhn, uma vez que ele os considera os três maiores epistemólogos do nosso século, e que afirma estarem de acordo em relação ao fato de que reduções formais sejam impossíveis.

Acredito ser possível aplicar essa interpretação ao caso das teorias evolutivas, afirmando que o que ocorre aí são verdadeiros casos de substituição paradigmática. A Teoria Sintética não é mais a Teoria Clássica (darwiniana), assim como a Teoria da Deriva Natural é também uma outra e distinta teoria da evolução, e não uma ampliação ou melhoria de alguma teoria a ela anterior. Sei que a maioria dos biólogos discordam dessa interpretação, e acreditam estar falando o mesmo que Darwin, ou no máximo fazendo uma releitura ampliada e aperfeiçoada de sua teoria, uma vez que novas descobertas ou dados experimentais a possibilitam. Creio que isso se deve por um certo desconforto, ou dificuldade por parte desses mesmos pesquisadores em aceitar que a biologia, assim como a natureza que ela descreve e explica, é diversa e não subsiste de forma objetiva e independente de nós que a observamos. É em nosso fazer, através de nosso observar, que natureza e biologia se configuram enquanto tal.

Outra questão fundamental, abordada por Hull, que eu quero retomar aqui, é o debate entre reducionismo e organicismo. Hull aponta três outros pares de termos que são usados para designar essa mesma controversia, são eles: mecanicismo e organicismo, materialismo e vitalismo, ou reducionismo e holismo. Geralmente, mecanicismo, materialismo e reducionismo designam uma mesma corrente de pensamento em biologia. Por seu turno, organicismo, vitalismo e holismo, designam uma segunda e oposta tradição de pensamento em biologia.

Hull enfatiza que durante certas fases da sua história esse debate aconteceu como se pudesse ser resolvido empiricamente, e em outras fases ele foi predominantemente teórico gerando uma polêmica que perdura há quase dois séculos.

O mecanicismo, ou reducionismo, representou durante um longo período a expectativa de que toda a ciência pudesse ser reduzida à mecânica. Entretanto, na medida em que a mecânica se revelava como um modelo inadequado até mesmo para a própria física, ciência a qual ela pertence, tal crença foi perdendo seu sentido. Mas ao contrário do que se imaginava isso não resultou em um golpe decisivo contra o mecanicismo. Com o surgimento da Teoria Sintética essa questão reapareceu, aglutinando de um lado seus defensores que a consideravam como a expressão da viabilidade de uma explicação mecanicista em biologia, e de outro lado seus opositores que a acusavam de não passar de um dogma redutivista que tratava os seres vivos como se esses fossem apenas pilhas de moléculas.

De qualquer modo o mecanicismo persistia enquanto base teórica em biologia, que reafirmava a possibilidade, senão a necessidade, de se tratar os seres vivos como máquinas; assim como reafirmava em grande parte dos biólogos a crença em um desenvolvimento tal da ciência que acabaria por conduzí-los a uma teoria unificada, síntese de todas as versões anteriores.

O vitalismo, por outro lado, apontava o seres vivos como seres essencialmente diferentes dos seres inanimados. Esta posição teórica apresentava uma versão mais linear, que afirmava que os seres vivos eram dotados de um fluido vital que se transmitia na reprodução e se extinguia com a morte. Entretanto, essa versão do vitalismo desembocava em uma aporia. Como explicar o surgimento da vida na terra se substâncias inanimadas não apresentam um tal fluido? Ou seja, se as criaturas vivas surgiram de formas não vivas em um passado remoto, a vida não pode ser explicada através da noção de fluido vital.

Uma outra vertente do vitalismo afirmava que a vida não era um fluido mas sim uma força vital. Sob esse enfoque, força vital não cosistia em um conceito substancial como fluido vital, mas tratava-se de uma propriedade dos seres vivos resultante da organização do material do qual são feitos. Desse modo dissolvia-se a questão do surgimento da vida, pois enquanto uma propriedade organizacional de certos sistemas materiais a vida poderia perfeitamente ter surgido a partir da não-vida.

Hull nos alerta para o fato de que atualmente os mecanicistas (ou reducionistas) não acreditam mais que os seres vivos sejam aglomerados moleculares, assim como os organicistas já não acreditam que a vida seja um fluido vital. Atualmente, reducionistas e organicistas tratam os seres vivos sob um ponto de vista organizacional, e mecanicista.

Não obstante, estas duas correntes de pensamento em biologia continuam divergindo em questões ontológicas e metodológicas. Do ponto de vista ontológico elas se diferem quanto a natureza da própria organização para a qual apontam; e sob o ponto de vista metodológico, quanto aos aspectos dos sistemas vivos a serem enfatizados.

Monod, Maturana e Mpodozis, ao meu ver, podem ser estudados como herdeiros dessas duas correntes de pensamento.

Monod, evidentemente, pode ser definido como reducionista no sentido anteriormente apontado. Ou seja, ele acredita e declara que os sistemas vivos devem ser compreendidos como máquinas; que a partir da análise da micro-estrutra pode-se compreender não só a macro-estrutura, como até mesmo a conduta dos seres vivos; e que é possível uma teoria universal, ou unificada, que dê conta de explicar a vida e todos os fenômenos a ela correlatos.

Por sua vez, Maturana e Mpodozis podem ser enquadrados na corrente organicista, no sentido em que tratam a vida como algo resultante de uma organização particular; que não acreditam ser possível explicar a conduta dos seres vivos através da redução a componentes estruturais elementares; e que sob o ponto de vista metodológico buscam enfatizar os aspectos mais gerais dos seres vivos.

Mas de qualquer modo essa é uma delimitação não muito precisa, e que necessitaria uma maior investigação, na medida em que os limites entre reducionismo e organicismo têm-se tornado cada vez mais tênue.

Referências Bibliográficas:

Hull, D. (1975) Filosofia da Ciência Biológica. ZAHAR, Rio de Janeiro.

Maturana, H. & Mpodozis, J. (1992) Origen de las Especies por medio de la Deriva Natural. O La diversificación de los linajes a través de la conservación y cambio de los fenotipos ontogénicos. Museo Nacional de Historia Natural, Chile.

Monod, J. (1971) O Acaso e a Necessidade: Ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna. Vozes, Petrópolis.

[1] Maturana, H. R. and J. Mpodozis (1992). Origen de las espécies por medio de la deriva natural. Ó, La diversificación de los linajes través de la conservación y cambio de los fenotipos ontogénicos. Santiago, Museo Natural de Historia Natural.

Maturana, H. and J. Mpodozis (2000). “The origin of species by means of natural drift.” Revista Chilena de Historia Natural 73:261-310.

 

[2] O texto de Graciano (1996) precede a publicação do código genético humano e de outros animais por meio de técnicas modernas da genômica. No então, esta elucidação, longe de responder as perguntas esperadas, criou uma nova série de perguntas, algumas das quais são discutidas por Evelyn Fox Keller em: “O século do Gene” Belo Horizonte, Crisáida, 2002.

[3] Dois dos 20 aminoácidos, cisteína e metionina, apresentam um átomo de enxofre em sua composição. Quando se encontram em uma proteína duas ou mais átomos de enxofre, estes átomos se aproximam e se ligam aos pares através do que se denomina pontes dissulfetos.

[4] Nucleotídeos são a menor unidade de um ácido nucléico, seja ele um ácido desoxiribonucleico (DNA) ou um ácido ribonucléico (RNA). Os nuceotídeos do DNA são a adenina, timidina, citosina e guanina (simbolizados pelas letras A, T, C e G); e os do RNA são a adenina, uracila, citosina e guanina (simbolizados pelas letras A, U, C e G)

[5] Ao meu ver tal atitude teórica se fundamenta no pressuposto epistemológico que afirma que: a natureza está escrita sob a forma de leis; estas leis especificam uma relação de invariância; e portanto, as proposições mais fundamentais da ciência são proposições universais de conservação que revelam tais leis. Este pressuposto é explicitado pelo próprio autor, mais adiante, na p. 118.

[6] Maturana, H. & Mpodozis, J. (1992) publicación del Museo Nacional de Historia Natural, Chile Traduzido pelos autores ao inglês em: Maturana, H and J. Mpodozis (2000) The origin of species by means of natural drift. Revista Chilena de Historia Natural 73:261-310.

[7] Deriva filogênica: Sucessão reprodutiva de ontogenias com ou sem mudança do fenótipo ontogênico que se realiza em cada ontogenia da sucessão. Se se conserva o fenótipo ontogênico na sucessão de ontogenias, forma-se uma linhagem. Se não há formação de linhagem porque na reprodução o novo organismo se realiza sob a forma de um novo fenótipo ontogênico, há um transcorrer do fenótipo ontogênico na deriva filogênica (Maturana & Mpodozis, 1992; 2000).

Ontogenia: É a história de mudanças estruturais de uma unidade sem que esta perca a sua organização (Maturana & Varela, 1987).