Contos

O anjo azul

O anjo azul

Tive este sonho. Um enorme anjo azul transparente envolveu todo o prédio com suas asas e, quando a Reitora chegou à janela e olhou para fora, ele a encheu de sabedoria e bondade. Para ela foi como se a brisa chegasse a enchesse de paz e todos notaram que, quando se voltou para a sala de reuniões, ela sorria de uma maneira diferente, vaga, mas muito bonita. Estava ainda assim quando se aproximou, sentou-se e convenceu a todos com uma voz macia e poucos gestos, diferente do que reservava para tais ocasiões. E logo as palavras de todos se pareciam às suas e todos assinaram os papéis que ela mandou datilografar na hora e guardaram os outros papéis em suas pastas e se foram felizes para suas casas, acenando aos poucos estudantes que ainda estavam no Campus a esta hora do entardecer.

No dia seguinte, quando cópias dos papéis chegaram aos Departamentos, tudo parecia sem sentido. A moratória sobre as notas e todas as formas de exame parecia uma brincadeira. Cursos sem provas? Mas a explicação soprada pelo anjo transparente, estava ali também, nas entrelinhas. Deveria haver confiança entre todos. Confiança dos mestres em que os aprendizes queriam aprender. Confiança dos alunos em que os mestres podiam ajudar. Durante dois semestres, a confiança em lugar da burocracia. Ninguém faltaria aos seus compromissos e as aulas continuariam melhores que antes – exceto nos casos em que eram mesmo desinteressantes e pouco importantes para a vida de todos, aulas sustentadas pela intimidação. Todos poderiam agora se reunir e compartilhar esforços.

Surgiram logo, genuínas, as perguntas. Todos perguntavam o que queriam saber. Nada passava em silêncio. Não se fazia de conta que estava claro o que não estava. Tudo era mais lento, mas autêntico. As aulas eram tumultuadas, ruidosas, mas fecundas. Mais longas: começavam cedo e se estendiam pela noite. De repente, o campus parecia enorme, com todos os laboratórios abertos a todos, e os grupos conversando pelo gramado.

A segunda portaria da Reitora, surgiu um mês depois. Talvez, tenha sido o tempero fundamental em tudo o que acontecia. Por duas semanas, ela transferia de Departamento, ao acaso, todos os professores, mesmo os que alimentavam animais e cuidavam de aparelhos que não desligavam nunca. A maioria dos professores, foi parar em um Departamento do qual nunca ouvira falar. Botânicos na História, Músicos na Metalurgia, Lingüistas na Imunologia, Educadores na Fisioterapia. Parecia recreio e, de certa forma, era. Divertido, mas muito sério. Todos perceberam suas semelhanças, em meio às suas diferenças. Quando se reuniam nos jardins e nos auditórios para discutir, discutiam com base numa grande concordância inicial. Isto me entusiasmou tanto, que acordei.