Gregory Bateson

O anti-acaso e porque ele é necessário

Citações de Gregory Bateson

O anti-acaso e porque ele é necessário[1]
(A imanência da ordem)
Steps 343-345 (Ballantine edition, 1972)

Para Gregory Bateson, não tratamos do que é importante na evolução:

“A Evolução tem sido mal ensinada. Estudantes – e mesmo biólogos profissionais – admitem teorias de evolução sem nenhuma compreensão profunda do problema que a teoria pretende resolver. Eles aprendem muito pouco sobre a evolução das teorias sobre evolução.”

Na Ciência moderna, perdemos o fio do que é importante em meio aos detalhes que não paramos de inventar. Isto não ocorria quando a religião era a força dominante:

“A realização formidável dos redatores do primeiro capítulo da Gênese, na Bíblia, foi sua percepção do problema: De onde vem a ordem? Eles observaram que a terra e a água foram, de fato, separadas e que as espécies foram separadas; eles perceberam que tal separação e classificação no universo representava um problema. Em termos modernos, podemos dizer que este é o problema implícito no Segundo Princípio da Termodinâmica: se eventos ao acaso levam as coisas a se misturar, através de que eventos não-ao-acaso as coisas se separaram (se classificaram)? E, o que é um evento ao acaso?”

Bateson está nos perguntando: Seria a vida um não-acaso? Ele continua :

“Este problema tem sido central para a biologia e para muitas outras ciências nos últimos 5000 anos, e não é um problema trivial. Com que Palavra deveríamos designar o princípio de ordem que parece ser imanente [2] no Universo?”

Bateson descreve uma lenda de uma tribo (Iatmul) de uma região pantanosa da Nova Guiné, sobre a criação do mundo.

“No início havia um enorme crocodilo, Kavwokmali, que agitava seus membros na água e mantinha a lama em suspensão. Então, o heroi Kevembuangga o matou com uma lança, a agitação cessou, a terra se separou da água, e Kevembuangga bateu seu pé em terra firme. Os estudantes precisam considerar o que ocorre com o espírito humano quando se crê que toda separação no universo provém de uma força transcendente, ou, ao contrário, quando se crê, como creem os Iatmul, que o potencial para o aparecimento de ordem está imanente no mundo.”

“Os estudantes deveriam ser levados a considerar “A Grande Cadeia do Ser”, com a Mente Suprema no topo e os protozoários no fundo, e entender como esta Mente Suprema foi invocada como princípio explicativo durante toda a Idade Média. Mais tarde, pelo trabalho de Lamarck[3], a “Grande Cadeia do Ser” foi invertida: a Mente Suprema passou de explicação a problema. O problema passou a ser a explicação do complexo pelo simples. Em vez da Mente Suprema inventando tudo, uma cadeia de complexidade crescente, até gerar a linguagem humana, onde aparece a Mente Suprema.”

(Tradução e adaptação: Nelson Vaz)

[1] Bateson,G.(1970) On empty-headedness among biologists and State Board of Education. BioScience 20, pages: missing in original quotation; reprinted in Steps to an Ecology of Mind.(1972) Ballantine Books, New York, p.343-345.

[2] “Imanente” (Do latim immanente ) Adj. 1. que existe sempre em um dado objeto e inseparável dele. 2.Filos. que está contido em ou provém de um ou mais seres, independentemente de ação exterior [Opõe-se a “transcendente”] . Holanda ,A.B.- Novo Dicionário da Língua Portuguesa.

[3] Para notas sobre Lamarck, ver Miriam Graciano.