Inéditos

O avesso

180715 – O avesso

O estudo de respostas imunes pode ser o exato avesso do que seria  necessário para o entendimento a atividade imunológica. As respostas imunes,  tanto as induzidas experimentalmente quanto as que ocorrem durante infecções envolvem expansões oligiclonais, e estas constituem a principal fonte de patologia imunológica. Em outras palavras, o estabelecimento de uma “memória” imunológica, ou seja, de  uma prontidão para respostas imunes mais intensas e mais rápidas quando se repete o encontro com um dado antígeno — a reatividade de “tipo secundário” — é o objetivo explícito do uso de vacinas anti-infecciosas e é considerado um dos fenômenos fundamentais na manutenção da saúde imunológica. No entanto, esta mesma reatividade exacerbada é também o fenômeno básico nas reações “alérgicas” e pode ser invocada também em “agressões” (episódios) e “doenças autoimunes” (crônicas) nas quais, aparentemente, o organismo executa respostas imunes a seus próprios tecidos.

Durante vários anos temos insistido em que as formas mais comuns e diuturnas de exposição a materiais antigênicos, que provêm da dieta e da microbiota nativa que vive sobre a pele e as mucosas do corpo, não conduzem à “memória” imunológica, ou seja, não resultam em um reatividade progressiva a cada novo encontro antigênico. Diz-se, usualmente, que o organismo se torna imunologicamente “tolerante” a estes materiais, da mesma forma que se torna “tolerante” a seus próprios tecidos — a auto-tolerância ou tolerância natural proposta por Burnet (1959). O problema com este conceito é que, em um esquema estímulo-resposta, onde o estado default do sistema é de inércia, a tolerância é entendida como uma forma de não-reatividade.

Um modo de ver diferente, onde o estado default do sistema é de plena atividade — mas não é expansiva —, o que se chama “tolerância” pode ser visto como a conservação de uma estabilidade (steady state). Ou seja, entre a possibilidade de responder ou não responder a um estímulo, está a possibilidade de conservar uma dinâmica, uma atividade (endógena) que está em andamento como parte da (auto) construção e manutenção do próprio sistema e do próprio organismo. Um modo de ver é centrado-no-antígeno; o outro, é centrado-no-organismo.

No modo de ver centrado-no-organismo, as respostas imunes específicas são distúrbios (perturbações) na conservação da atividade imunológica que, fisiologicamente, é sempre plural e, portanto, multi-específica.(Na verdade, em outros locais discuto que esta “especificidade” se refere à observação imunológica, e não às células e moléculas observadas (Vaz, 2011a,b)). Vista como uma fisiologia conservadora, a atividade imunológica mantém padrões de atividade que se refletem, por exemplo, em perfis de reatividade de imunoglobulinas naturais (Nóbrega et al., 2002; Cohen, 2013) e que também podem ser registrados na reatividade de linfócitos T (Miyama et al., 2017).

Estes perfis de reatividade são robustamente conservados durante o viver sadio (Mouthon et al., 1995) mas podem sofrer mudanças características durante doenças autoimunes (Ferreira et al., 1993) e infecções por parasitas (refs). Em alguns casos, por exemplo, na esquistosomose experimental murina, um único epitopo detectado por uma única linhagem de clulas T, é responsávelel pelas formas graves (granulomatosas) da doença (Finger et al., 2005). Estas mudanças nos perfis “globais” de reatividade, porém, não se referem a um antígeno específico e não são respostas imunes no sentido célico do termo; são mudanças de estado que envolvem o sistema inteiro ou grande parte de sua estrutura.

Neste sentido, as respostas imunes específicos podem ser vistas como o avesso da atividade imunológica entendida como uma fisiologia conservadora, que mantém o organismo em harmonia com seu ambiente antigênico.

Bibliografia

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