Contos

O bem-te-vi

O bem-te-vi

“Temos que tirar ele de lá! Ele vai morrer”, dizia meu pai aflito. O filhote de bem-te-vi caíra do ninho e balançava suspenso pela perna por um fio de linha branca. Ambos os pais voavam e piavam aflitos em volta; um drama de asas e bicos. O ninho ficava alto em um galho quase vertical, grosso como um braço, no Ficcus benjamin na calçada. Como tirar o passarinho de lá?, meu pai olhava e olhava para cima com a mão no pescoço.

Depois de várias tentativas, acabamos por prender um gancho de vergalhão a meia altura do galho e com a corda que arranjamos começamos a vergar o galho para baixo, devagar, eu e Arivaldo puxando o galho na direção de meu pai, trepado no muro alto, estendia os braços e se esticava para o alto. O filhote cada vez mais agitado, os pais voando ao redor, volta e meia faziam vôos rasantes em direção à cabeça de meu pai, que se encolhia e agitava os braços.

Puxa daqui, estica dali, meu pai segurou as folhas e os ramos mais finos do galho e alcançou o galho em um ponto próximo ao ninho. Os bem-te-vís agora voavam direto para sua cabeça e ele se equilibrava no muro alto. Pensei que se aquela corda arrebentasse nesse momento, ele seria catapultado na parede do edifício no outro lado da rua, talvez levando o ninho com ele.

Felizmente isso não ocorreu, meu pai alcançou o filhote, que logo aconchegava no ôco de uma das mãos, enquanto descia do muro para o nosso quintal. “A perna está quebrada”, nos olhava desconsolado. Fez uma tala pequena com palitos e esparadrapo e acomodou o filhote e seu ninho no quartinho embaixo da escada. Agora, aflito, nos comandava a procurar insetos, necessários à alimentação do novo habitante.

Minutos depois, muito agitado, o filhote pulou no chão e voou rasteiro por uns três metros antes que o gato o pegasse e saísse correndo para o jardim com ele na boca.