Contos

O caramujo

O caramujo

Senti a ausência de meu pai bem aqui ao meu lado, porque não sei o que fazer sobre o caramujo que está morrendo. Saiu do aquário à noite e despencou no abismo de metro e meio até o chão, onde espatifou metade da casca (casa, corpo). Entendo, um bicho lento desses não tem nem como sentir uma queda rápida, nem tem tempo de recolher suas longas antenas brancas e molhadas, não sofreu nada, não entendeu. Mas agora, espatifado, desconcertado e devolvido à água morna do aquário de onde não deveria ter saido, movendo muito devagar as antenas, o que fazer com ele? Atirá-lo num gesto rápido a um canteiro do jardim, longe da varanda para que não fique cheirando depois? Não há veterinários para caramujos e a lesão deste aqui é certamente mortal. Uma vez li naquela grande hipocrisia que é a imprensa norteamericana que, nos restaurantes onde se escolhe viva a lagosta que se vai comer dentro de instantes, antes de atirá-la à água fervente, ela é imersa em água gelada e perde os sentidos. Talvez eu deva colocar esse caramujo moribundo na geladeira, ou logo no congelador e omitir a água fervente. Deixo ele lá no escuro gélido e, pronto, acabou-se. Vai para onde todos nós iremos. É isso.

Mas resolvo telefonar ao Maurício. Ele pergunta se é grande. Digo que é pequeno, como um limão. Ele diz: pisa nele.

Conto ao Guto* e ele responde:

No lusco-fusco, tombou o molusco/ Meia casca, meia vida, ou metade,

Quanto menor a casa, maior a perda/Quanto mais ancho o abismo,

Mais distribuído o gelo…Numa avalanche.

(*)Osvaldo Auguto Sant’Anna