Andrew Pickering

O Cérebro Adaptativo (2010)

O Cérebro Adaptativo
Andrew Pickering

The Cybernetic Brain: Sketches of Another Future
University of Chicago Press (2010)

Capítulo 1

A construção de um cérebro artificial requer agora pouco mais
que um pouco mais de tempo e trabalho… Tal máquina poderia
ser usada no futuro distante…para explorar regiões de sutileza
e complexidade intelectual que hoje estão além dos poderes
humanos… Como isso terminará? Sugiro que a maneira mais
fácil de saber isto é construir a coisa e ver.
Ross Ashby “Design for a Brain” (1948, 382- 83)

Em 13 de dezembro de 1948, o Daily Herald uma primeira página era intitulada “”O cérebro mecânico é mais esperto que o do homem”, que descrevia uma máquina conhecida como “o homeostato” construída pr W. Ross Ashby. Logo, o resto da imprensa britânica e do resto do mundo seguiu a notícia. Nos Estados Unidos, um artigo no Time Magazine. “A Máquina Pensante”, apareceu em 24 de janeiro de 1949 (p. 66), e em 8 de março de 1949 Ashby encenava um programa de rádio na BBC intitulado “imitando o cérebro”. Mais ou menos na mesma época, W. Grey Walter apareceu na televisão da BBC mostrando um par de pequenos robots que ele construiu, chamados Elmer e Elsie, os primeiros exemplos de “tartarugas” robóticas, ou, mais pretensiosamente, uma nova espécie inorgânica, a Machina speculatrix. Uma dessas tartarugas aparece em uma foto de família no TimeMagazine (Figura 1.1). Em 1952, Gordon Pask começou a trabalhar em sua máquina Musicolour – um dispositivo eletromecânico que colaborava de maneiras obscuras com um músico para gerar um show de luzes. Logo ele estaria experimentando com computadores eletromecânicos quasi-biológicos que podiam desenvolver novos sentidos, e em uma década ele estava desenhando prédios que podiam se reconfigurar através de “conversas” com seus usuários. Em 1959, Stafford Beer publicou um livro que imaginava uma fábrica automática controlada por um computador biológico – talvez uma colônia de insetos, ou talvez um ecossistema complexo como um lago. No início dos anos 1970, ele estava redesenhando o “sistema nervoso” da economia do Chile a convite do governo socialista de Salvador Allende.

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                         Figura 1.1. ; A família cyborg. Fonte: de Latil 1956, face à pag, 34

Exemplos como estes trazem algo do sabor da história explorada nos próximos capítulos. Neste capítulo e no próximo quero discutir de forma mais geral o que é, ou o que era a cibernética, e por que ela me interessa. (O tempo verbal aqui é difícil porque a cibernética como um campo de atividades está viva hoje em dia, mas os principais personagens deste livro estão mortos. Portanto eu tendo a falar da cibernética de um tempo passado, me referindo a um conjunto histórico de trabalhos).

Algumas pessoa pensam que a cibernética é outra palavra
para automação; alguns pensam que ela tem a ver com
experimentos com ratos; alguns pensam que ela é um ramo
da matemática; outros que ela tenta construir um computador
capaz de gerenciar o país. Minha esperança é que…as pessoas
entenderão como estas noções maravilhosamente diferentes
podem ser simultaneamente viáveis, e também porque nenhuma
delas é suficientemente correta.
Stafford Beer Cybernetics And Mangement (1959, VI)

 

Falar de uma história, qualquer história, como se houvese
uma única história canônica…é enganador…qualquer entidade,
cultura ou civilização…carrega consigo inumeráveis histórias
que diferem entre si de alguma maneira.
Gordon Pask “Interaction of Actors” (1992, 11)

 

A palavra “cibernética” foi criada em 1947 pelo eminente matemático americano Norbert Wiener e seus amigos para dar nome a um tipo de ciência que eles estavam discutindo nas famosas Conferências Macy realizadas entre 1946 e 1963 [1]. O nome cibernética é derivado do termo grego kibernetes (equivalente ao termo latino gubernator) significando “governador”. No sentido de “timoneiro” – e ocorre que esta é uma boa definição no que diz respeito a este livro. entanto, o assunto foi tornado mais interessante e complicado, pelo livro de Wiener de 1948 que colocou a palavra cibernética em circulação: “Cibernética, ou Controle e Comunicação no Animal e na Máquina”. Neste livro, Wiener tenta ligar todos os tipos de linhas mais ou menos independentes de investigação científica: computação eletrônica digital (então, ainda uma novidade), a teoria da informação, o trabalho inicial em redes neurais, a teoria de servomecanismos e sistemas de retrocontrole, além de trabalhos em psiquiatria, teoria das decisões e as ciências sociais.

Há muitas histórias a contar sobre a evolução, a união e a separação entre estas linhas de pesquisa, somente algumas das quais ainda merecedoras da atenção acadêmica. [2] Pode-se mesmo dizer que todo mundo pode ter sua própria história da cibernética. Neste livro, eu não tento uma pesquisa abrangente do que poderia ser descrito plausivelmente como era a cibernética. Eu focalizo a linha da cibernética que me interessa mais, que ocorre ser o trabalho de um grupo de ciberneticistas britânicos agora praticamente esquecido, que foi ativo do fim da segunda guerra mundial até quase o presente. Mesmo para desenvolver apenas a história da cibernética britânica precisaríamos de vários livros, e então eu focalizo em vez disso algumas luzes na vanguarda deste campo, aquelas já mencionadas: Grey Walter (1910– 1977), Ross Ashby (1903– 1972), Stafford Beer (1926– 2002), and Gordon Pask (1928– 1996), com um desvio substancial através do trabalho de Gregory Bateson e R.D. Laing. E mesmo dentro deste princípio editorial, tenho que reconhecer que cada um de meus quatro personagens é claramente merecedor de sua própria biografia, que eu não tentei escrever. Então, o que se segue é em grande parte minha própria história da cibernética na Inglaterra – não é uma pesquisa abrangente, mas sim a estória de um conjunto de desenvolvimentos científicos, tecnológicos e sociais que me tocam por motivos que eu explicarei e que eu espero irão interessar outras pessoas.

Um outro princípio de seleção também foi usado. A maioria dos relatos da história da cibernética é feita no formato de uma história das ideias; eles se concentram em definir as ideias-chave que separam a cibernética das demais ciências. Eu não estou interessado em ideias, mas estou interessado em ideias como engajamentos na prática, e no coração deste livro está uma série de projetos no mundo real que abrangem todos os tipos de máquinas e dispositivos estranhos, materiais e sociais. Quero documentar como a cibernética se parecia quando as pessoas a realizavam, em vez de apenas pensar sobre ela. Isto justifica porque o parágrafo inicial menciona desde cérebros artificiais até a economia chilena, em vez de oferecer uma discussão abstrata sobre a noção de “retrocontrole” ou outra coisa assim.

A escolha das figuras principais para este estudo faz sentido sociologicamente, e os quatro ciberneticistas que selecionei interagiam fortemente uns com os outros. Walter e Ashby eram ciberneticistas de primeira geração, ativos na área que se tornou conhecida como cibernética durante e mesmo antes da segunda guerra mundial, e foram membros que lideraram a primeira organização pro-cibernética na Inglaterra, o chamado Ratio Club, que manteve encontros entre 1949 e 1958 (Alan Turing era o recruta mais conhecido deste clube). Eles nunca colaboraram entre si na pesquisa, mas se conheciam, levavam em conta e comentavam os trabalhos um do outro, embora algumas relações tivessem sido estremecidas em 1959 quando Ashby se tornou chefe de Walter. Beer e Pask foram ciberneticistas de segunda geração, entrando em cena nos anos 1950 depois que a fundação do campo já estava estabelecida. Eles foram amigos por toda a vida, e Beer se tornou quase o secretário social do ramo britânico da cibernética, com fortes ligações pessoais não apenas com Walter, Ashby e Pask, mas também com Wiener e Warren McCulloch, o espirito que guiava a cibernética nos Estados Unidos. Mas o que dizer sobre o conteúdo técnico da cibernética britânica? Havia unidade ali?

A história padrão desta origem conta que a cibernética evoluiu a partir da interseção da matemática com a engenharia na pesquisa militar americana na segunda guerra mundial, e esta é certamente uma boa descrição da trajetória de Wiener (Galison 1994). Mas a fotografia na Figura 1.2 tirada no iníco dos anos 1950, apareceu com uma legenda que fazia algum sentido: “Os quatro pioneiros da Cibernética”.  E o que acho notável nesta foto é que, exceto por Wiener , três dos quatro – Ashby, Walter e McCulloch – passaram a maior parte ou toda suas carreiras profissionais em pesquisas sobre o cérebro humano, muitas vezes em meios psiquiátricos.[3] Podemos explorar especificamente as origens psiquiátricas da cibernética em detalhe nos capítulos 3 e 4 , mas no momento é suficiente notar que o objetivo distintivo da cibernética britânica era o cérebro, ele próprio compreendido de uma maneira particular. Isto requer alguma explicação agora, desde que constitui um caminho para tudo o que se segue.

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Figura 1.2. Os quarto pioneiros da cibernética (da esquerda para a direita): Ross Asby, Warren McCulloch, Grey Walter e Norbert Wiener. Fonte: de Latil 1956; frente a pag 53.

Para colocar a situação bem grosseiramente, há duas maneiras de pensar sobre o cérebro e o que ele faz. A maneira que me ocorre naturalmente é pensar no cérebro como o órgão do conhecimento. Meu cérebro contém representações, histórias, memórias, retratos do mundo, pessoas e coisas, eu mesmo nesses quadros, e assim por diante. Se eu sei de alguma coisa, devo agradecer a meu cérebro por isso (e não a meus rins, por exemplo). E, claro, esta imagem do cérebro não surgiu do nada. Ela é certamente agradável para nós, acadêmicos, conhecedores profissionais, e esta imagem (ou uma imagem equivalente da mente) tem sido padrão na filosofia durante séculos e para a filosofia da ciência durante o século vinte. Da metade dos anos 1950 em diante, esta imagem foi consubstanciada e altamente elaborada pelo ramo da ciência da computação ligado à inteligência artificial (Artificial Inteligence, AI) – ou, pelo menos, pela abordagem da AI que se tornou conhecida como GOFAI: Good Old Fashioned AI, que é a filosofia da ciência tradicional implementada como um conjunto de algorítmos de computação. O ponto que precisa ser entendido é que a imagem do cérebro dos ciberneticistas britânicos não era esta imagem representacionista.

O que mais poderia um cérebro ser, além de nosso órgão de representação? Esta pergunta já me confundiu, mas os ciberneticistas (vou tomar daqui em diante o termo ciberneticista como representando os ciberneticistas britânicos) tinham uma resposta diferente. Como Ashby colocou em 1948, “Para alguns, o teste crítico sobre se uma máquina é, ou não, um cérebro seria se ela pode, ou não pode, “pensar”. Mas para o biólogo o cérebro não é uma máquina de pensar, é uma máquina de atuar; ela obtém informação e depois faz alguma coisa com esta informação (Ashby 1948, 379).Os ciberneticistas então concebiam o cérebro como um órgão imediatamente incorporado (embodied), intrinsicamente ligado ao desempenho do corpo. Além disso, eles compreendiam o papel especial do cérebro com o papel de adaptação. O cérebro é o que nos ajuda a ir levando e a entrar em acordos e sobreviver em situações e ambientes que nunca encontramos antes. Sem dúvida, o conhecimento nos ajuda a ir levando e a nos adaptarmos ao desconhecido, e teremos que voltar a isto, mas este simples contraste (ainda evidente em abordagens competitivas da robótica atual) é o que precisamos notar por agora: o cérebro cibernético não era representacionista, mas sim performático, e seu papel no desempenho (na performance) era a adaptação.

Como uma definição preliminar, então, podemos considerar a cibernética com a ciência pos-guerra do cérebro adaptativo, e a questão então se torna: Como a cibernética aparecia na prática? Exatamente como os ciberneticistas abordavam o cérebro adaptativo?  Em um primeiro momento, a resposta é: pela construção de dispositivos eletromecânicos que eram em si mesmos adaptativos e que poderiam então ser considerados modelos claros e sugestivos para a compreensão do próprio cérebro. O mais simples desses modelos era o servomecanismo – um dispositivo da engenharia que reage a flutuações do ambiente de maneira a cancela-las. Um termostato doméstico é um servomecanismo; da mesma forma que era o “governador” das máquinas a vapor do século dezenove que levou Wiener até a palavra “cibernética”. O trabalho com servomecanismos durante a guerra, de fato, foi o que levou Wiener até o campo a que ele subsequentemente deu o nome cibernética. As tartarugas robóticas de Walter e o homeostato de Ashby eram os exemplos mais marcantes e originais de mecanismos adaptativos, e eles estavam na fronteira da “ciência do cérebro” no final dos anos 1940 e através dos 1950. Uma frase de Warren Mccullouch me vem à mente. Falando sobre outro proto-ciberneticista britânico, o psicólogo experimental Kenneth Craik, McCullouch disse que Craik sempre queria compreender “o jeito da coisa” (“the go for it”) – significando, entender as conexões mecânicas ou quase mecânicas específicas que ligavam inputs a outputs (entradas a saídas, estímulos a respostas) em sistemas complexos como o cérebro.[4]  Dispositivos cibernéticos como tartarugas e homeostatos objetivavam precisamente entender “o jeito” do cérebro adaptativo.

Há algo estranho e marcante sobre mecanismos adaptativos. A maioria dos exemplos da engenharia que me vêm à mente não são adaptativos. Pontes e prédios, fechaduras e prensas, automóveis televisores, computadores, são todos projetados para serem indiferentes a seus ambientes, a resistir a flutuações, não a se adaptarem a tais flutuações. A melhor ponte é simplesmente aquela que permanence lá, qualquer que seja o clima. Em contraste, os dispositivos cibernéticos são explicitamente projetados para serem sensíveis e reativos ao mundo ao seu redor, e isso lhes confere uma qualidade desconcertante, quase mágica, perturbadoramente semelhante à vida. O próprio Wiener estava ciente disso, e seus escritos aqui e ali mencionam O Aprendiz de Feiticeiro (que joga um feitiço mágico que coloca a matéria em ação e não pode desfazê-lo) e também o Golem de Praga (um gigante animado de argila). Walter também falava dos “totens dos homens primitivos” e invocava a figura monstruosa de Frankenstein (1953, 113, 115). O sentido de mistério e transgressão tem sempre estado ligado à cibernética, e é responsável, creio eu, por muito de seu encanto – um feitiço lançado sobre as pessoas, incluindo eu mesmo.

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Preciso dizer mais sobe a cibernética, o cérebro e a psiquiatria. A cibernética inicial de Walter e Ashby estava diretamente ligada ao cérebro como um órgão anatômico. As tartarugas e o homeostato pretendiam ser modelos eletromecânicos do cérebro fisiológico, normal e patológico, com este ultimo fornecendo uma ligação direta aos métodos brutais da psiquiatria que foram dominantes dos anos 1930 aos 1950, choques químicos e elétricos e a lobotomia. Nos anos 1950 e 1960, no entanto, apareceu um tipo diferente de psiquiatria cibernética , muitas vezes, embora equivocadamente, chamada de anti-psiquiatria por sua oposição a intervenções violentas nas doenças mentais (e, na verdade, por sua oposição ao conceito de doença mental). Eu associo esta última forma de psiquiatria cibernética com o trabalho do inglês emigrado Gregory Bateson (1904-80) e, nos anos 1960, com os experimentos terapêuticos radicais do psiquiatra escocês R.D, Laing (1927-89).

Em contraste com meus quatro principais ciberneticistas, Bateson e Laing eram relativamente bem conhecidos por acadêmicos, foram tema de livros e longos estudos, e então não discutirei o trabalho deles com a mesma profundidade com que discuto os demais. Mas incluo um capítulo sobre eles por três razões. Primeiro, porque a abordagem de Bateson à psiquiatria exemplifica um movimento da cibernética que vai além da preocupação com o cérebro fisiológico e na direção a algo menos especificado biologicamente. Se Walter e Ashby focalizaram o cérebro adaptativo, Bateson estava preocupado com algo menos preciso e menos estruturado, que era  o sujeito adaptativo ou o self, e sobre como isto poderia ser desarranjado por algo que ele chamava de duplo vinculo (double bind). A partir de sua perspectiva, Laing praticava aquilo que uma psiquiatria Batesoniana seria na prática. Segundo, para enfatizar que a cibernética não era sempre irrevogavelmente fechada no mundo dos eletrochoques. E terceiro, continuando esta linha de pensamento, porque existe um sentido importante no qual Bateson e Laing eram mais cibernéticos que Walter e Ashby, A psiquiatria de Laing levava em conta seriamente o que Walter e Ashby não levavam: a ideia de que somos todos sistemas adaptativos, psiquiatras e esquizofrienicos também. Aqui, eu estou interessado em seguir as ramificações práticas e institucionais deste movimento.

Estes aspectos do trabalho de Bateson e Laing – que olham além do cérebro biológico e fazem uma extensão da cibernética no campo do self e das relações sociais – nos movem para outro tema deste livro, ou seja, a multiplicidade da cibernética, seu carácter proteico (protean). Comecei definindo a cibernética como a ciência do cérebro adaptativo, mas mesmo as manifestações iniciais da cibernética se projetavam em várias direções. Tartarugas e homeostatos podiam ser entendidos como parte da “ciência do cérebro” no sentido de que eram tentativas de explicar o funcionamento do cérebro normal como um sistema adaptativo complexo – um contraponto holístico à neurofisiologia reducionista, digamos. Ao mesmo tempo, como mencionei, tartarugas e homostatos também podiam simular o cérebro anormal, patológico – e, portanto, fazer uma contribuição à psiquiatria. Ainda mais, estes dispositivos cibernéticos não tinham que ser vistos sempre em relação ao cérebro, poderiam ser vistos como coisas em si mesmas. As tartarugas de Walter, por exemplo, eram abordagens básica à robótica que são muito influentes hoje em dia – a “robótica situada” que associo com o trabalho de Rodney Brooks, e trabalhos relacionados extremamente interessantes na robótica biologicamente inspirada. Por mais um ângulo ainda, embora o trabalho de Ashby dos anos 1930 em diante devam ser entendidos como tentativas de iluminar o cérebro, nos anos 1950 ele tinha começado a ver sua cibernética como uma teoria geral, aplicável a todos os tipos de sistemas complexos além do cérebro: pilotos automáticos adaptativos, a economia da Inglaterra e a evolução das espécies.

O cérebro, podemos dizer, não contém a cibernética; a cibernética transbordou sobre o mapa das profissões e das disciplinas. Era um campo fortemente interdisciplinar, ou melhor, um campo anti-disciplinar: ela não agregava perspectivas disciplinares; caminhava com sapatos cheios de travas sobre os limites entre a disciplinas – o que também contribuía para seu encanto. Bateson e Laing, como eu disse foram além do foco mais estreito da cibernética sobre o cérebro biológico e ampliaram este foco para o self intrinsicamente social, e se nós adcionarmos Beer e Pask, o quadro fica ainda mais rico. Por um lado, estes ciberneticistas de segunda geração seguiam Ashby e Walter na busca de modelos materiais do cérebro adaptativo, mas, de maneiras extremamente originais. Os experimentos de Beer com Daphnia (micro-pulgas aquáticas) e lagos, bem como os experimentos de Pask com “fios” metálicos (de limalha de ferro) eram precisamente tentativas de fazer “crescer” (criar) cérebros adaptativos – computadores biológicos ou quasi-biológicos não-digitais e não-representacionistas. Este é um dos trabalhos mais marcantes e visionários que encontrei na história da ciência e da engenharia. Por outro lado, muito do trabalho de Beer e Pask pode ser visto como extensões das realizações da primeira geração, especialmente o de Ashby, para ocupar novos espaços, ao mesmo tempo ecoando as preocupações de Bateson e Laing além dos limites da psiquiatria. Beer apontava para fortes conexões entre o trabalho de Ashby no homeostato (e também para a neurofisiologia contemporânea) ao desenvolver sua “gerência cibernética” ao final dos anos 1950, que mais tarde evoluiu para tornar-se seu “sistema modelo viável” de organizações sociais e sua abordagem à “sintegridade de equipe” (team syntegrity), à tomada de decisões coletivas. Beer também estendeu sua cibernética além das organizações e atingiu a política, até o nível da política internacional, e foi mesmo até o domínio espiritual, completamente fora da esfera mundana.

A elaboração da cibernética de Pask começou no mundo do entretenimento, com a máquina Musiclour e máquinas de ensinar, e, também, na arte robótica, no teatro interativo e na arquitetura adaptativa. O mundo da cibernética, portanto, era muito rico. As práticas e os artefatos cibernéticos emergiram na ciência do cérebro e na psiquiatria, mas rápida e distintivamente se espalharam por todos os campos que mencionei (e mais ainda): robótica, engenharia, uma ciência de sistemas gerais com aplicações em muitas áreas, computação biológica, gerência (gerenciamento), política, espiritualidade (se este for realmente um “campo”), o entretenimento, as artes, o teatro e a arquitetura (a música também), a educação.

Diferentemente de ciências familiares como a Física, que permaneceu ligada à departamentos acadêmicos bem definidos e a modelos escolares de transmissão, a cibernética é vista mais apropriadamente como uma forma de vida, uma maneira de estar no mundo, ou mesmo, uma atitude, que pode ser, e foi, exemplificada tanto em departamentos acadêmicos, quanto em instituições, firmas comerciais, organizações políticas, igrejas, salas de concerto, teatros e museus de arte. Isso se colocarmos o caso positivamente. Mas, por outro ângulo, devemos notar a contínua marginalidade da cibernética em relação a instituições estabelecidas.

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Fico impressionado, primeiro, pelo amadorismo da cibernética britânica. Contribuições muito importantes tinham quase o carácter de um hobby, uma diversão. Walter construiu suas primeiras tartarugas em casa nos fins de semana; o mesmo se deu com o homeostato de Ashby (pelo menos na versão apócrifa da história); da mesma forma, isto ocorreu com os computadores biológicos e químicos de Beer e Pask; Bateson nunca teve uma posição acadêmica estável em toda sua vida; os experimentos de Laing na psiquiatria se deram fora de instituições psiquiátricas estabelecidas. A cibernética transbordou para fora dos canais usuais, e encontrou pouco apoio nestes canais. Seria de se esperar que as Universidades fossem o lar natural para este campo, e, na verdade, Beer e Pask ocuparam posições acadêmicas em tempo parcial, mas somente um punhado de unidades acadêmicas se dedicou à produção e à transmissão de conhecimento cibernéetico no Ocidente, e mesmo assim, por curtos períodos. Penso principalmente no grupod e Warrem McCulloch no MIT’s Research Laboratory of Electronics (1952– 69),n o Biological Computer Laboratory de Heinz von Foerster’s na University of Illinois (1958– 75) (onde Ashby foi professor por 10 anos antes de se aposentar), e, na Ingaterra, e no Cybernetics Department em Brunel (1969– 1985). [5] . (É interessante que várias versões da cibernética foram institucionalizadas na União Soviética pos-Stalinista; seguir isto nos levaria muito longe, mas veja Gerovitch 2002).

Em vez disso, conferências e reuniões menos formais constituíram centros de gravidade universitários para o campo da cibernética: as conferências Macy, nos Estados Unidos; o Ratio Club (1949-1958), na Inglaterra, um clube de jantares (dining club) auto-selecionado; e, na Europa, uma série de conferências internacionais realizadas em Namur, na Bélgica, de 1958 em diante. Nossos ciberneticistas foram levados, portanto, a improvisar oportunisticamente uma base social para seu trabalho. E depois de se graduar em Cambridge em 1952, Pask, por exemplo, montou sua própria companhia de pesquisas e consultoria, chamada System Research, e buscou contratos onde quer que os pudesse encontrar. Em 1970, Beer abandonou um acarreira bem sucedida em gerência para se tornar um consultor independente. E ao longo desta instabilidade da base social da cibernética houve um modo muito episódico e probabilístico de transmissão e elaboração de conhecimentos. Então, livros quasi-populares foram muito importantes na propagação da cibernética de uma maneira que não é encontrada em campos acadêmicos bem estabelecidos. O livro “Cybernetics” (1948) de Norbert Wiener foi enormemente importante em cristalizar a existência da cibernética como um campo e para dar uma definição à ambição de seus leitores. “The Living Brain” (1953) de GreyWalter achou leitores ativos em campos tão diversos quanto proto-robiticistas, escritores da onda Beat e artistas. Um ponto de virada na carreira musical de Bian Eno ocorreu quando sua sogra lhe emprestou uma cópia do livro “Brain of the Firm” (1974), de Stafford Beer.

Sociologicamente, portanto, a cibernética frequentou muitos campos e devo enfatizar que um character vago dos temas abordados era um corolário disso. Se programas de doutoramento mantinham as disciplinas acadêmicas em seus trilhos, encontros ao acaso mantinham o caráter aberto da cibernética. “Brain of the Firm” é um livro denso na cibernética do gerenciamento, e a música não aparece em nenhuma de suas páginas, mas ninguém tinha o poder de deter Eno em desenvolver a cibernétca de Beer conforme lhe agradasse. “Design for a Brain”, o primeiro livro de Ashby, era todo sobre a construção de cérebros artificiais, mas Alexander Christopher o transformou na base para seu primeiro livro sobre a arquitetura “Notes on de Synthesis of Form” (1964). Uma rápida olhada no livro de “William Borroughs Naked Lunch” (1959), revela que ele foi um leitor atento de “The Living Brain”, mas Borroughs levou a cibernética em direções que não poderiam ocorrer a ninguém exceto a ele. Então, sociologicamente, assim como substantivamente, a cibernética era um campo estranho. Podemos pensar nos ciberneticistas como cientista nômades, e na cibernética como uma ciência nômade, vagando perpetuamente e nunca encontrando um lar estável. Para leitores de Gilles Deleuze e Felix Guattari “A thousand Plateaus” (1987), a expressão “ciência nômade” tem uma ressonância especial em seu contraste com a “ciência real” (no sentido de realeza). As ciências reais (do rei) são as ciências modernas, que funcionam como parte de uma ordem social e política estável – que apóiam o Estado. As ciências nômades na leitura de Deleuze e Guattari, são um tipo diferente de ciência, uma que desce das estepes para ameaçar a estabilidade. Voltaremos a este pensamento de tempos em tempos.

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O estudo de máquinas pensantes nos ensina mais sobre o cérebro
do que podemos aprender por métodos introspectivos. O homem
ocidental está se externalizando na forma de aparelhos. Já injetou
cocaína na veia? Ela acerta direto no cérebro e ativa conexões de
puro prazer…. Prazer-C poderia ser sentido por uma máquina
pensante, os primeiros estertores de uma horrível vida de inseto.
William Borroughs, Naked Lunch (2001 [o1959]22)

Como John Geiger descobriu, se você olhar os textos de Aldous Huxley ou Timothy Leary ou William Borroughs e os Beats, você achará menção a Grey Walter. Você também estará em uma das origens dos anos psicodélicos dos 1960. Por um ângulo diferente, se você está interessado em uma crítica radical da psiquiatria que foi tão importante ao final dos anos 1960, você poderia começar com seu alto sacerdote na Inglaterra, R. D. Laing e por trás dele você achará Gregory Bateson e, novamente, Grey Walter. Se você está interessados em interseções entre os anos 1960 e a espiritualidade Oriental, você provavelmente encontrará Stafford Beer, assim como experimentos em tanques de privação sensorial, e, novamente,Bateson. Em 1960, Ross Ashby deu uma palestra no Institute for Contemporary Arts  em Londres, o fulcro das artes cênicas em Londres, sobre “Arte e a teoria da comunicação” e, na exibição ICA de 1968, chamada,  Cybernetic Serendipity, Gordon Pask mostrou seu Colloquy of Mobiles – um conjunto de robots que interagiam e se encaixavam em intercursos incertos uns com os outros – lado a lado com a Statistical Analogue Machine, SAM, de Stafford Beer. A metáfora para “conversação” de Pask para a cibernética, por sua vez, é muito próxima do movimento “anti-universidade” dos anos 1960.

O que podemos entender de tudo isso? Podemos seguir a linha de pensamento de Deleuze e Guattari e dizer que os anos 1960 foram a década na qual a cultura popular foi suplantada por não apenas um, mas dois bandos de nômades. Por um lado, os 1960 foram o auge da cibernética, o período em que este campo marginal e anti-disciplinar esteva mais visível para o público. Por outro lado, os anos 1960 podem ser definidos como o período no qual estilos de vida contraculturais entraram em erupção, vindos das margens para ameaçar o Estado – “o estebelecimento” . Tivesse eu mais espaço e tempo e este livro poderia ser um lugar para um exame estendido da contracultura, mas para me manter dentro de limites vou me contentar em explorar brotamentos específicos vindos da cibernética conforme eles apareçam nos capítulos que se seguem. Quero demonstrar que algumas linhas específicas dos anos 1960 estavam no mesmo espaço que a cibernética – que eles podem ser vistos como continuações da cibernética para o interior do tecido social. Isto amplia a discussão do carácter proteico da cibernética no sentido em que ela pode ser vista como uma forma de vida interessante e diferente. Duas linhas adicionais na história da cibernética, talvez supreendentes, podem ser notadas. Primeiro, enquanto progredimos, surgirão repetidamente afinidades entre a filosofia e a espiritualidade oriental. Stafford Beer é o exemplo extremo: ele tanto praticava quanto ensinava Yoga tântrica quando mais idoso. Não há, penso eu, necessariamente uma conexão entre a cibernética e o Oriente; muitos ciberneticistas não mostravam interesse algum na espriritualidade oriental. Ainda assim, vale a pena explorar esta conexão onde ela surge (não apenas como um local de trocas entre a cibernética e a contracultura dos anos 1960). No capítulo seguinte, vou descrever uma ontologia particular que eu associo com a cibernética – uma ontologia não-moderna, como eu a denomino, que vai junto com um entendimento performático do cérebro, da mente e do self, e que desfaz o dualismo Ocidental que nos é familiar entre a mente e a matéria, em vez disso, entra em ressonância com muitas tradições Orientais. Em segundo lugar, os ciberneticistas mostraram um interesse persistente no que chamo de desempenhos (performances) estranhos e estados alterados de consciência. Isto também surge de um entendimento do cérebro, da mente e do self como entidades performáticas. Podemos imaginar que o cérebro representacionista está imediatamente disponível para inspeção. Em grande parte, a educação formal consiste em adquirir, manipular e ser avaliado sobre o conhecimento representacionista. Estas atividades nos são muito familiars. Mas o cérebro performático permanence opaco e misterioso – quem sabe o que um cérebro performático pode fazer? Aqui, há alguma coisa para excitar nossa curiosidade, e esta curiosidade é um sub-tema do que se segue. Como disse, a cibernética nasceu inicialmente da psiquiatria e os tópicos da psiquiatria não são mais que estados alterados de consciência – maneiras estranhas, enigmáticas e desagradáveis de conduta em relação a alguma norma. Veremos, entretanto que a cibernética rapidamente ultrapassou qualquer preocupação com a doença mental.

Grey Walter, por exemplo, fez pesquisas com luzes estroboscópicas (o “flicker”): ocorre que a exposição a estas luzes, por um lado, pode desencadear crises epiléticas, mas, por outro lado, visões surpreendentes e alucinações. Penso no “flicker” como um tipo especial de tecnologia do self – uma técnica para gerar estados alterados de consciência que divergem do estado usual – e podemos explorar várias destas tecnologias, materiais e sociais, e seus estados associados ao passo que progredimos. Grey Walter também fez análises cibernéticas de feitos de yogis e sobre alcançar o nirvana. Todas estas pesquisas fazem sentido se virmos o cérebro como performático, e ele se conecta, de maneiras que podemos explorar ainda mais, tanto com a dimensão espiritual da cibernética quanto com os anos 1960. Tenho tentado indicar por que podemos achar interessante histórica e antropologicamente explorar a história e a substância da cibernética, mas meu interesse pessoal também tem uma dimensão política. O subtítulo deste livro – Esboços de Outro Futuro – pretende sugerir que podemos aprender alguma coisa através  da história da cinernética sobre como nos conduzirmos no presente, e que os projetos que examinaremos dos capítulos adiante podem server de modelos para a prática futura e formas de vida. Eu adio o desenvolvimento deste pensamento para o próximo capítulo, no qual o quadro geral deve se tornar mais claro, mas agora quero chegara isto por um ângulo oposto. Quero confrontar o fato de que a cibernética tem uma má reputação em alguns lugares. Algumas pessoas pensam que ela é a mais desprezivel das ciências. Por que isso? Eu não tenho uma visão global das razões para esta antipatia e é difícil encontrar exemplos canônicos desta crítica, mas posso falar de algumas preocupações.[6] Uma crítica se refere particularmente ao trabalho de Grey Walter e Ashby. A ideia é de que as tartarugas e o homeostato, na verdade, não são modelos adequados do cérebro humano em aspectos impoirtantes, e que, na medida em que os aceitamos como modelos adequados do cérebro, nós aviltamos aspectos importantes de nossa humanidade. (ver, por exemplo, Suchman 2005) . A resposta mais simples a isso é que nem Grey Walter nem Ashby afirmavam ter modelado algo próximo ao cérebro humano real. Em 1969, o livro de Rodney Brooks sobre robótica neo-Walteriana tinha o título modesto Cambrian Intelligence, para se referir a ideia de que devemos começar nos primeiros degraus da escala evolutiva (não no topo desta escala, como se considera na Inteligência Artificial simbólica, onde a crítica tem mais força). Por outro lado, Ashby, em particular, não era tímido em suas especulaçnoes sobre a inteligência humana e mesmo sobre a genialidade, e aqui a crítica adquire alguma validade. Sua concepção combinatorial da inteligência, creio eu, é inadequada e podemos explorar isto em mais detalhe no capítulo 4. Uma segunda linha de crítica tem a ver com a origem da cibernética no trabalho de Wiener com os militares; a cibernética é muitas vezes associada a uma ciência military. Este modo de ver não é totalmente equivocado. Os descendentes das armas anti-aéreas autônomas sobre as quais Wiener trabalhou (sem sucesso) na segunda Guerra mundial (Galison 1994) são hoje em dia os mísseis intercontinentais. Mas, primeiro, penso que a doutrina do pecado original é um erro – as ciências não são maculadas para sempre pelas circunstâncias morais de seu nascimento e, segundo, já assinalei que a cibernética de Walter e Ashby brotou em grande parte de uma matriz diferente, da psiquiatria. Podemos reprovar isto também, mas a discussão da “anti-psiquiatria” de Bateson e Laing desafia a doutrina do pecado original aqui também. Outra linha de crítica tem a ver com o local de traballho e a desigualdade social. Como Wiener afirmou ele mesmo, a cibernética pode ser associada com automação da produção via alças de retrocontrole e servomecanismos que são cruciais para o funcionamento de robots industriais. O sentido de “cibernética” é muitas vezes expandido para incluir qualquer coisa ligada ao uso de computadores e à “racionalização” do pátio de trabalho da fábrica. Nos anos 1960, o feio termo “cibernização” se tornou popular como parte da crítica sobre o controle de trabalhadores pela gerência. Novamente, há algo de verdade nesta crítica (ver Noble 1986), mas não creio que esta culpa por associação deva nos levar a condenar a cibernética.[7] Teremos, de fato, oportunidade de examinar a cibernética da gerência de Stafford Beer em detalhe . A crítica se torna pouco clara, no mínimo, e veremos como nas mãos de Beer, a cibernética do gerenciamento levou a uma forma de política que os críticos considerariam aceitável. E devo enfatizar de novo que minha preocupação aqui é com o leque total de projetos cibernéticos. Em nosso mundo, qualquer forma de conhecimento e de prática que pareça remotamente útil pode ser utilizada pelos militares e pelo capital para seus próprios fins, mas ao final deste livro deverá estar bastante claro que as aplicações militares e industriais estão longe de esgotar o leque de aplicações da cibernética. Finalmente, há uma crítica em um nível mais geral dirigida à ligação da cibernética como o “controle”. Por um ângulo político, este é o aspecto sobre o qual precisamos pensar, e também o aspecto menos compreendido do ramo da cibernética ao qual este livro é dedicado. Lidar com isto propriamente requer uma discussão da visão ontológica peculiar sobre o mundo que eu associo com a cibernética. Este é o tópico do capítulo seguinte, ao final do qual podemos voltar à questão da validade política da cibernética e por que este livro tem o subtítulo que tem – Esboços de um Outro Futuro.

O restante do livro é assim: o Capítulo 2 é um segundo capítulo introdutório, que explora a estranha ontologia que a cibernética britânica desenvolveu, que se encerra com uma discussão, como mencionei, de como podemos ver esta ontologia como política em um sentido bem geral. Os capítulos 3-7 são o núcleo empírico do livro. Os capítulos que compõem a parte-1 –  sobre Walter, Ashby, Bateson e Laing – são principalmente ligados ao cérebro, o self e a psiquiatria, embora eles se projetem também em várias outras direções, A parte-2, contém os capítulos sobre Beer e Pask e as direções nas quais o trabalho deles conduziu para temas além do cérebro. A preocupação central de cada um destes capítulos é o trabalho dos indivíduos mencionados, mas cada capítulo também inclui uma discussão de projetos relacionados que servem para ampliar o campo de exploração. Uma racional para isso é que o livro pretende ser mais uma exploração da cibernética em ação do que uma biografia coletiva, e estou interessado nos exemplos mais claros onde quer que eu os encontre. Alguns destes exemplos servem para reforçar as conexões entre a cibernética e os anos 1960 como me referi acima. Outro conecta o trabalho histórico sobre a cibernética a desenvolvimentos atuais importantes em uma variedade de campos. Um objetivo aqui é responder à pergunta: O que aconteceu com a cibernética? O campo não é muito discutido hoje em dia e a tentação é admitir que ele morreu de alguma falha fatal. Mas, de fato ele está vivo e bem vivo sob vários outro rótulos. Isto é importante para mim. Meu interesse na cibernética não é puramente histórico. Como disse, estou inclinado a ver os projetos discutidos aqui como modelos de práticas futuras e, embora elas sejam estranhas, é bom reafirmar que elas não são ridículas a priori. Também, diferentemente de seus precursores cibernéticos, os projetos contemporâneos que estaremos contemplando são fragmentados: as interrelações entre eles não são óbvias, mesmo para seus praticantes. Alinhar estes projetos com uma linhagem cibernética é uma maneira de evidenciar estas relações no presente – para produzir um mundo. O último capítulo – capítulo 9 – procura sumarizar o que ocorreu antes de uma maneira diferente, colocando juntos vários temas que emergem de maneiras diferentes em alguns dos capítulos anteriores. Mais importante ainda, ele reforça o pensamento de que a história da cibernética pode nos ajudar a imaginar um futuro diferente da visão sombria que temos hoje.