Contos

O clarinetista

O clarinetista

Quando o conheci, o clarinetista tinha 96 anos. Nunca tinha visto ou sentado perto de um homem tão velho e sua presença era densa e silenciosa. Quando falou – surpresa – sua voz era um fio, quase um sussuro agudo, algo de pássaro. Olhou-me assim sentado tão próximo e perguntou com aquela voz fininha e suave: “Quem é você? É da família?” – não que isso fosse de estranhar, nem eu conhecia todos da família tão grande, coisas de Minas. Alguém falou alto para que ele ouvisse que eu era o Alberto, noivo da Lena, ele abanou de leve a cabeça, mas não parecia saber quem era a Lena. Seus olhos tinham uma cor clara e indefinida quando me perguntou se eu tinha ido à fazenda. Eu não sabia o que responder e a Lena chegou – Não, Vovô, ele não foi ainda. Lena sentou no chão à nossa frente e começou a contar a ele quem era eu e, para mim, quem era o avôzinho. De repente, ele olhou para mim e disse: “Eu vou fazer 100 anos” e entendi que ele colaborava com a neta, completando sua descrição. Disse que era o clarinetista da banda que tocava no coreto da pracinha aos domingos. Perguntei pela clarineta, Lena disse que ela havia sido vendida há muitos anos atrás. Ele olhou para mim de novo e não disse nada.

Na minha próxima visita, atrevi-me. Trouxe comigo um pequeno gravador com uma fita de Paulo Moura e sua clarineta. Com licença da família, um tanto embaraçado com aquilo, coloquei em seus ouvidos um fones grandes e macios que eu comprara no estrangeiro, ele sem entender direito o que se passava, mas curioso e atento, os olhos fixados em mim e em minhas mãos próximas ao seu rosto. Liguei o gravador na faixa que tocava “Naquele Tempo”, de Pixinguinha e Benedito Lacerda. O som começou inaudível para nós e ele se empertigou na cadeira, levou ambas as mãos em direção aos ouvidos mas parou o gesto a meio caminho; seu olhar procurou o meu, eu sorri. Ele fixou um ponto no chão à sua frente, baixou lentamente as mãos e não falou nada. Fiquei ali, meio em prece. Ele quieto. Depois de uns dez minutos, nós dois sozinhos na sala, ele levou as mãos aos ouvidos, desta vez completou o gesto, removeu os fones devagar. Quando falou de novo – grande surpresa – deu de falar grosso como antes devia falar, olhou para mim com um jeito maroto e disse: “As meninas gostavam tanto quando eu tocava…”

Ao sair, pedi à Lena que me esclarecesse, pois seu avô dizia que faria 100 anos, mas na realidade tinha 96, não 99. Contamos isso a ele porque vivia ansioso para completar os 100 anos, disse-me ela. Achei aquela uma má idéia. Dias depois o clarinetista faleceu, talvez realizado, crendo ter completado os seus 100 anos