Jorge Mpodozis

O conceito de organismo

Lamento haver interrompido esta aula tão fascinante do Prof.Lenzi, sei que vocês estavam, fascinados como eu. E vou interrompê-la com conversas áridas e conversações difíceis que vamos ter que realizar agora. Porque o encargo que Nelson me atribuiu foi o de desenvolver o conceito de organismo, ou uma aproximação a esse conceito. Lógico que não pretendo responder a essa pergunta de uma vez por todas, nem colocar questões definitivas, nem dizer a última palavra. Nada disso. Simplesmente, o que vamos fazer hoje é nos aproximarmos da noção de organismos como sistemas, isto é, como mecanismos, ou sistemas determinados por sua estrutura. Vamos encarar, então, algumas conseqüências que têm o determinismo dos mecanismos como sistemas determinados estruturalmente e o entendimento dos organismos como seres vivos e como sistemas biológicos. Vamos centrar nossa discussão no determinismo estrutural.

 

Sistemas, unidades compostas, mecanismos e explicações

Como devemos entender um sistema, um mecanismo, uma unidade composta através do determinismo estrutural? Vou falar de uma forma precisa sobre o modo de nos aproximarmos a um sistema, a uma unidade, de forma que possamos indicar sua decomposição em componentes, que têm uma outra dimensão que minha mirada quer explicar. Vamos falar, portanto, de unidades compostas, de sua organização, de sua estrutura, da dinâmica que estas unidades compostas têm em suas transformações.

O que é um mecanismo? O que temos diante de nós quando encaramos um mecanismo, ou uma explicação? O que constitui para nós um mecanismo? O que faz para nós uma explicação?

Vamos tomar uma situação simples como a dos gases. Os gases se comportam segundo algumas “leis de estado” que ser expressas de maneira matemática. Nos gases se verificam certas relações entre a pressão, o volume e a temperatura. É nessas equações que posso manipular essas relações. Agora, como explicamos esse gás? Qual é a explicação clássica para o comportamento dos gases? Quando propomos uma explicação, quando propomos um mecanismo, supomos um certo sistema de elementos que, através de suas relações, geram o que queremos explicar. Na explicação dos gases usamos moléculas como os elementos que vão compor o mecanismo. Dizemos “Ah, claro, os gases estão formados por moléculas.” E as moléculas têm uma certa energia cinética e um certo modo de colidir umas com as outras. Notem como é interessante: explicamos tudo o que se passa com os gases atendendo à termodinâmica estatística das moléculas. Mas, uma molécula tem temperatura? Tem pressão? Tem volume? A molécula não tem nem temperatura, nem pressão, nem volume. Mas o gás que a molécula compõe tem pressão, temperatura e volume. Interessante isso, não?

Quando tratamos uma unidade como unidade composta, quando vemos um mecanismo, na constituição dessa unidade composta, desse mecanismo, através dos elementos que dizemos que o compõem, surgem imediatamente dois domínios separados de existência. Surge o domínio de existência dos componentes e o domínio de existência da unidade como uma totalidade, como uma unidade composta. As propriedades da unidade composta são diferentes, são separadas das propriedades de seus componentes.

Usamos essas noções cotidianamente, todo o tempo, e nem sequer notamos que fazemos isso. Notem, porém, que as moléculas nem sequer existem na mesma dimensão física em que os gases existem, que as propriedades dos gases são completamente diferentes das propriedades das moléculas, que os fenômenos que os gases produzem são diferentes dos fenômenos que as moléculas produzem.

Permitam-me um outro exemplo. O que constitui um relógio? Quantos tipos de relógio existem? Há relógios de sol, de água, de areia, mecânicos, eletrônicos, etc. Não obstante, todos são relógios. Com todos eles passa-se algo interessante: desde que tenhamos um relógio temos os fenômenos de sincronia e assincronia. Temos os espaços das sincronizações, podemos levar em conta a duração de algo, etc. Sem relógio, não temos isso. Mas as conversações em torno da sincronia e as coincidências temporais que os relógios permitem estão, por acaso, contidas nos elementos que compõem os relógios?

Notem como isso é interessante. Porque essa unidade composta tem um viver, tem um espaço de existência, um espaço de fenômenos que é separado, é totalmente diferente, dá lugar a fenômenos completamente diferentes dos fenômenos aos quais os componentes dão origem. O relógio permite as sincronias e as assincronias, coisa que não posso alcançar contemplando a areia que cai de uma ampulheta.

Quando uma coisa envelhece, o que é que envelhece? Envelhecem as partes? Como dizia o Prof.Lenzi em sua aula, começamos nossa vida com um peso e a terminamos com um peso milhões de vezes maior. Ainda assim, fomos o mesmo organismo todo o tempo. Nossa estrutura, nessa história, mudou de forma espantosa. Mas continuamos a ser os mesmos. Mas em que medida somos os mesmos? Que é esta “mesmidade”, essa identidade? Os fenômenos que se associam a essa unidade, o organismo, como uma unidade composta na manutenção de sua identidade são completamente diferentes dos fenômenos associados a seus componentes celulares e moleculares, que são os componentes que interagem para realizá-lo como um sistema.

Que têm a ver os neurônios com os fenômenos que se passam conosco em nossos amores e desamores? Por acaso nossa história é a história de nossos neurônios, ou de nosso baço, ou de nosso fígado? Certamente que não. Não obstante, esses componentes, de alguma maneira realizam essa unidade composta e a seguem. Vamos considerar melhor essa conservação da identidade na história e a dinâmica das mudanças que ocorrem em uma unidade composta.

 

Organização e estrutura

Um observador tem que distinguir em uma unidade composta duas coisas: sua organização e sua estrutura. A organização é o conjunto de componentes e relações entre esses componentes que realizam essa unidade como uma unidade de uma certa classe. Um relógio de areia tem uma estrutura diferente da estrutura de um relógio eletrônico; mas os dois são relógios. São relógios porque sua estrutura satifaz uma organização “relógio”, isto é, um conjunto de relações entre os componentes que definem essa unidade como uma unidade da classe “relógios”. Mas qual é a organização “relógios”? Que têm em comum todos os relógios? Que faz de um relógio um relógio?

Há dois elementos presentes em todos os relógios e uma relação que se estabelece entre eles. Todos os relógios têm um gerador de pulso, de freqüência, e tem um contador desses pulsos. Todo relógio é um contador de pulsos, seja lá como for que essa contagem se realize. Essa é a organização “relógio”. Mas, a estrutura dos relógios pode ser muito variada.

E a estrutura de qualquer relógio também muda com o tempo. Há um conjunto de mudanças estruturais que podem ocorrer durante a existência dessa unidade que são permitidas e conservam a organização. Quando ocorre uma mudança estrutural que já não permite a realização da organização, a unidade se desintegra, se transforma em outra coisa. Há muitas mudanças que são permitidas em uma sistema, outras que lhe são destrutivas.

Uma unidade composta complexa como nosso organismo realiza simultaneamente muitos tipos diferentes de organização: somos Homo sapiens sapiens e, ao mesmo tempo, mamíferos, vertebrados, animais, seres vivos. Pode haver maneiras trágicas em que nos desintegramos como Homo sapiens sapiens mas permanecemos sendo primatas e vertebrados. (Interessante: não podemos desintegrar nossa organização de vertebrados sem desintegrar todo o resto!). E não apenas isso. Em sua vida de ser humano qualquer um de nós é muitas coisas ao mesmo tempo: é a noiva de alguém, a filha de alguém, amiga de alguém, é estudante… e todas essas coisas se dão ao mesmo tempo e são satisfeitas pela mesma estrutura. Às vezes uma dessas dimensões muda e as outras permanecem invariantes.

Quando encararamos as coisas assim, começamos a encontrar dinâmicas de transformação muito interessantes que ocorrem quando certas dimensões, certas organizações que uma unidade composta realiza, sofrem interferências, ou mudam por sua dinâmica interna. Há modos de transformar-se que são mais globais que outros, assim como há modos de manter a constância que são mais consistentes que outros.

Todos os mecanismos têm uma dinâmica de mudanças que pode ser mais ou menos pertinente ao que tencionamos fazer com eles. Certos sistemas, certos objetos, como essas cadeiras que estão aqui, têm uma dinâmica de mudanças possíveis, mudanças que a estrutura pode sofrer sem desintegrar a organização “cadeira”. Outros sistemas, como o nosso organismo, têm uma dinâmica de mudanças muito mais complexa, por exemplo, como a que o Prof.Lenzi nos mostrava durante a ontogênese.

Em que momento o zigoto de Homo sapiens sapiens dá lugar a um organismo? Em que momento esse organismo começa a ser humano? No estágio de 8 células, antes da compactação da blástula, existe um organismo, ou não? Mais adiante, vou usar as noções de organização e estrutura para responder a essas perguntas.

 

Determinismo estrutural e domínios de descrição

Há um outro problema central que tem a ver com o modo pelo qual uma unidade composta interage. Uma unidade composta existe no domínio em que se realiza como tal no encontro com seu meio. Tudo o que se passa com uma unidade composta depende de sua estrutura. O que a unidade admite como uma perturbação depende de sua estrutura nesse momento. E as conseqüências que tem uma perturbação recebida por essa unidade nessa dinâmica de encontro com seu mundo depende de sua estrutura nesse momento.

O que acabo de dizer está longe de ser trivial. Estou dizendo que se tomamos uma pedra e a atiramos contra uma vidraça e a vidraça se quebra, o que se passa com a vidraça depende da estrutura da vidraça, não depende da pedra. Não é o agente perturbante que determina a mudança que a unidade sofre na interação. Olhamos a pedra e dizemos: “A pedra é a causa”. Mas, se aceitamos tratar essa situação de acordo com o determinismo estrutural, temos que aceitar que a transformação da vidraça tem a ver com a estrutura da vidraça. Há muitos exemplos da conveniência de pensar assim, principalmente de pensar assim na sistemática do pensamento biológico.

As interações que uma unidade composta tem se dão através de seus componentes e nessas interações se desencadeiam mudanças que são determinadas pela estrutura da unidade.

 

Pergunta da audiência: Não consigo aceitar que a pedra não cause a quebra da vidraça.

 

A situação da pedra e da vidraça partida, é um exemplo da situação causa-efeito. Segundo o que digo, essa maneira de falar é muito enganadora. Ela implica que a causa tem a propriedade de “causar” o efeito. Toda vez que falamos assim estamos violando o determinismo estrutural. Se nos referimos a “causa” e “efeito” apenas em termos de antecedente e conseqüência, em termos de que isso se passará nessa seqüência, sim, isso se passa assim. Se respeitamos que isso ocorre na coerência do determinismo estrutural desse encontro das duas unidades – vidraça e pedra -, então, podemos dizer “causa”. Freqüentemente, porém, falamos de “causa” como se a causa tivesse a propriedade de especificar o efeito. E isso é confuso, é uma porta de entrada para o que queremos deixar de fora em nossa conversa sobre a biologia. Siga-me por um momento mais. Detenha-me se estou falando coisas inaceitáveis.

Esclarecemos o modo pelo qual as unidades compostas interagem. Atendendo a isso posso definir o domínio das mudanças estruturais, ou perturbações, que são todas as mudanças que a unidade pode sofrer sem que sua organização se desintegre. Agora, lembrem-se que uma mesma estrutura pode satisfazer a muitas organizações. O domínio a que chamamos domínio de perturbações, é o das interações com conservação da organização. Há um outro domínio, de desintegrações, que é um domínio de interações destrutivas que conduzem às desintegrações.

Se os seres vivos são mecanismos, tudo isso que estou dizendo se aplica a eles. Como mudam as unidades compostas em sua história? Dizia que as unidades compostas, de acordo com sua composição, vão ter histórias mais ou menos interessantes. Uma cadeira, como essas, que não implica uma dinâmica de mudanças em sua organização, vai mudar de uma maneira que, para o uso que fazemos dessa cadeira, é relativamente irrelevante. Claro, ela pode sofrer interações destrutivas. Mas, o que se passa com uma unidade composta, como nosso organismo, que está em contínua mudança estrutural? Nos seres vivos, a dinâmica de mudanças é uma característica da organização e, como é uma característica da organização, é incessante; um ser vivo não pode parar de mudar e continuar vivo.

 

Ontogênese

Os seres vivos não são as únicas unidades compostas que existem em contínua mudança estrutural. Maturana falava pela manhã nos seres vivos como redemoinhos de produções moleculares. São interessantes os redemoinhos, não são? Em um redemoinho de vento, como um tornado, uma molécula dos gases que compõem o ar está em movimento browniano até que é capturada pelo movimento do redemoinho, começa a girar de um certo movimento de translação espiralada, e logo se vai, recupera seu movimento browniano em um outro local. Onde está o redemoinho? Suas moléculas estão em continuo movimento, segundo um determinado padrão espiralado. Se detenho esse fluxo molecular, se acaba o redemoinho. O redemoinho não está no espaço de existência das moléculas. O redemoinho se constitui em uma relação cinética entre as moléculas e dura enquanto essa relação se mantém. Essa unidade, o redemoinho, está em contínua mudança estrutural. A mudança estrutural, nesse caso, é a mudança de posição das moléculas, é uma mudança constitutiva, é uma característica da organização do redemoinho. Se detenho o redemoinho o movimento se acaba. E o redemoinho não está no movimento das moléculas. Está numa relação de movimentos que se estabelece entre elas. Agora, os redemoinhos se deslocam de um lugar a outro. Os americanos seguem o movimento dos tornados e dos furacões durante longo tempo, fazendo previsões sobre sua trajetória. Eles obedecem diferenças de pressão e de temperatura local e mudam de direção.

Essas unidades que estão em contínua mudança estrutural, como os seres vivos, têm uma ontogênese. E se queremos entendê-las no presente, temos que olhar sua história. Estas unidades estão em contínua mudança estrutural e têm duas dimensões: uma que tem a ver com suas mudanças internas; outra que tem a ver com as interações no meio no qual se realiza como unidade. Estas duas dimensões de mudanças se conjugam ao determinar, de um momento ao momento seguinte, qual vai ser a mudança estrutural que essa unidade sofre.

 

Epigênese e deriva estrutural

De modo que a história dessas unidades transcorre como uma epigênese, como uma deriva, como uma história de transformações que se dá de momento a momento. E há sempre essas duas dimensões de mudanças : as internas, que são a dinâmica constitutiva da unidade, e a dinâmica de interações que é contigente ao encontro dessa unidade com o meio.

Que pertinência tem o que estou falando com a biologia? Estou falando, por exemplo, do desenvolvimento embrionário. Imaginem um ovo com casca que foi posto por um réptil ou uma ave. Esses ovos são postos em lugares que têm características mais ou menos estáveis, ou mudam de um modo regular. A galinha se preocupa em girar periodicamente os ovos; se preocupa com que o ovo tenha uma certa temperatura. Ou seja, assegura uma certa temperatura regular, constante e um certo movimento que se dê de modo regular. Se isso se passa, temos o desenvolvimento embrionário. Há, portanto, uma história de transformações que tem a ver a dinâmica própria dessa unidade em sua constituição como o que é.

Durante esse período, as interações com o meio parecem que não são importantes, ou não têm a intensidade suficiente para transformar ou modificar esse processo de desenvolvimento. Mas é diferente o que se passa quando esse organismo deixa o ovo. Notem como é importante, nesse momento, sua história de interações com o meio, tão importante que vocês estão sentados aqui nesse auditório e não em outra parte. Vocês podem imaginar milhões de momentos nos quais a história de cada um de vocês poderia havê-los conduzido a outro lugar.

De modo que o que temos quando encaramos um mecanismo, uma unidade composta que está em contínua mudança estrutural, o que temos é que sua história de transformações é, necessariamente, uma deriva ontogênica – uma deriva que se dá com conservação da organização dessa unidade. Porque se nestas interações ocorrem mudanças estruturais destrutivas, quer seja determinadas na dinâmica interna, quer seja desencadeadas por interações com o meio, a unidade se transforma em outra coisa, desaparece. O que temos, portanto, é uma dinâmica histórica de mudanças com conservação de uma certa relação com o meio e com conservação de uma organização. Qualquer dessas duas coisas que se rompa, tem como conseqüência a desintegração da unidade.

Que acontece, porém, com os componentes dessa unidade? Percebam que a história dessa unidade no meio em que ela se realiza como uma unidade é completamente diferente da história dos componentes dessa unidade. É outra história. Porque essa unidade existe em um certo espaço e seus componentes existem em um espaço diferente. No espaço em que existimos, as moléculas de oxigênio não existem, não têm presença física, porque essas moléculas não trocam energia cinética conosco de maneira apreciável. Mas na dimensão celular, uma molécula de oxigênio é notavel, tem uma dimensão importante.

A história da unidade e a história dos componentes são diferentes. Mas se os componentes não seguem uma história de manutenção da organização da unidade, esta se desintegra. No caso dos organismos, há interações que desencadeiam mudanças que determinam outras relações na dinâmica interna que têm como consequência que outras relações do organismo em seu meio constituam interações destrutivas depois, no futuro da unidade. O hábito de fumar, é um exemplo onde o prazer no presente destrói o organismo no futuro. As transformações desencadeadas pelo hábito de fumar no organismo são totalmente diferentes do prazer usufruído no presente.

 

Lenzi – Mpodozis, queria que você comentasse algo sobre o problema da forma, isto é: porque o fígado tem tal forma, o rim tem outra forma, porque a planta tem a forma da planta. Isso depende de que, essa forma?

 

Sim. Essa pergunta me alegra muito porque há nela duas questões centrais e que vou mencionar, em um momento. Há uma dimensão de mudança estrutural que se associa às interações que o ser vivo tem com o mundo. Portanto, a forma do ser vivo vai depender, em alguma medida, de sua estrutura neste espaço de interações; e há outra dimensão que se associa à dinâmica interna que constitui a estrutura desse sistema como um sistema que está mudando a todos os momentos, e que tem uma certa legalidade, segue certas leis em sua mudança. De modo que certas dimensões do que vemos como a forma no presente de um certo ser vivo vão estar associadas à sua história epigenética – à história de seu desenvolvimento, à sua dinâmica de desenvolvimento como a unidade que é e certas outras dimensões; vão estar muito associadas à história de interações que o ser vivo tem. Por exemplo, a forma dos neurônios em certas regiões do sistema nervoso depende da história do indivíduo.

Eu poderia mudar um pouco de forma muscular – com técnicas de ginástica (“body building”), mas há outras coisas que não posso mudar. Há um espaço de plasticidade que é diferente nos diferentes sistemas de órgãos e que se modificam diferentemente nas interações com o ambiente. Mas está presente. Porque, ao final, a estrutura presente de um ser vivo tem a ver com sua história. Notem que um sistema vivo não está onde está, nem tem a estrutura que tem se não tivesse a história que teve. Em que dimensões isso ocorre? Em que dimensões estruturais isso ocorre? Esta é uma pergunta muito interessante mas, antes de respondê-la, temos que compreender claramente, em termos gerais, que essas coisas podem se passar e estão se passando.

 

Organismos

Para tratar da questão do organismo, vou discutir mais um ponto. Vou complicar isto um pouco mais. Sabemos que os seres vivos são sistemas autopoiéticos, sistemas determinados em sua estrutura que estão em contínua mudança estrutural. Quando falamos de um organismo? Quando dizemos que estamos frente a um organismo? Que tem que se passar para dizermos isso? Que faz de um organismo um organismo, além de ser um ser vivo? Porque há muitos tipos de seres vivos, e nem todos os tipos de seres vivos diríamos que são organismos. Temos seres vivos unicelulares de diferentes tipos, unicelulares com núcleo, sem núcleo, unicelulares que formam colônias, diferentes tipos de agregados celulares. Uma colônia é um organismo? O que distingue uma colônia de um organismo? De novo: quando dizemos que estamos frente a um organismo? Qual terá sido o primeiro organismo? Que queremos distinguir em nossas observações quando distinguimos um organismo?

É um organismo um mero agregado celular? Em nosso desenvolvimento embrionário, como mamíferos, em que momento deixamos de ter um agregado celular e passamos a ter um organismo? Porque a pergunta interessante aqui é: se pudermos caracterizar o que é um organismo poderemos entender, em termos conceituais, tudo o que se pode passar a esse organismo. E o modo pelo qual se passa o que se passa com ele. Isto é o que está em jogo nesta pergunta: nada mais, nada menos.

Notem que há seres vivos simbiontes. Um líquen é um organismo, ou não? No outro extremo, temos os seres vivos que formam uma colônia. Uma colônia é meramente um agregado de células de alguma classe. Quando temos uma cultura de tecidos…em que momento podemos dizer que temos um tecido e não meramente um agregado das células que compõem esse tecido?

Se somos organismos, quais são nossos componentes como organismos? São os órgãos? Os sistemas de órgãos? Os tecidos? Qual é a distinção que vamos fazer de um organismo em termos de seus componentes? Agora é o momento em que podemos conversar todos sobre tudo isso, porque não tenho as respostas a todas essas perguntas.

Tendemos a dizer que temos um organismo quando temos uma certa comunidade celular na qual ocorre que as propriedades que esses componentes celulares têm dependem das interações que se estabelecem entre eles, e são diferentes das interações que estes componentes teriam se não estivessem nessas relações uns com os outros. De modo que, toda vez que tenho uma comunidade celular na qual aparecem propriedades que dependem das interações que se realizam entre os membros dessa comunidade, eu creio, vamos preferir dizer que estamos frente a um organismo, em vez de dizer que temos um colônia de células.

Porque? Porque no momento em que fazemos isso mostramos que se passa algo muito interessante: mostramos que aparecem duas coisas. Primeiro, aparece um limite; essas células que pertencem a esse organismo, na medida em que todas elas colaboram na mútua determinação de suas propriedades; se eu retiro algumas células algo se passa ao organismo. A segunda coisa que aparece é que essas células que formam esse organismo não podem ser entendidas em suas propriedades com independência das interações que têm umas com as outras.

 

         O organismo e o espaço extracelular

Considerem o desenvolvimento embrionário. Eu perguntava a uma colega embriologista: “Em que momento você acha que se forma o organismo?” Ela me respondeu: “No momento em que a blástula se compacta.” Porque no momento em que aparece a compactação da blástula aparece um limite, e aparece um espaço extracelular, um espaço que está determinado pelas interações das células que compõem o organismo e é diferente da borda entre esse agregado compactado e o mundo no qual esse embrião existe. Aparece um domínio para a existência dessas células que é diferente do domínio de existência desse agregado celular como um agregado celular, que existia antes da compactação da blástula. E que se passa depois da compactação? Os tecidos se diferenciam rapidamente. Antes da compactação as células são pluripotentes ou totipotentes, podem se diferenciar em qualquer coisa e mesmo, formar um outro embrião. Mas depois da compactação, antes mesmo que haja divisões celulares, as células adquirem propriedades diferenciadas. As interações que se estabelecem durante a compactação, ou a partir da compactação são suficientes para mudar o curso das mudanças epigenéticas que essas células vão seguir.

E o que se passa depois? Como vocês diziam, resulta que aparecem essas linhagens celulares que proliferam. E proliferam de maneira abundante. Mas, ao mesmo tempo, surgem linhagens celulares diferentes, com novas propriedades de expressão metabólica. As propriedades diferentes que essas linhagens têm, surgem de integrações epigenéticas que se dão entre essas mesmas linhagens.

De modo que, por um lado, temos um sistema no qual as propriedades dos componentes são determinadas pelas relações que têm com outros componentes do mesmo sistema. Por outro lado, temos um sistema que tem um claro limite entre si e seu ambiente.

Nós, como metacelulares, somos o presente de uma “filogênese celular” na qual estas linhagens que se estabelecem colaboram na mútua determinação de suas propriedades diferenciais, até o momento em que esse processo se estabiliza e as células não mudam mais. É muito bonita essa história na qual temos os primórdios, os ancestrais de um certo tecido que são muito diferentes das células desse tecido quando está maduro, diferenciado. Ou seja, em sua história evolutiva, suas propriedades bioquímicas vão mudando; mas no momento em que o tecido amadurece, sua bioquímica não muda mais. Daí em diante, essas células podem se reproduzir conservando certas características bioquímicas que adquiriram nessa linhagem, ao longo dessa história de desenvolvimento dessa linhagem celular.

De modo que tudo isso se amarra de um modo muito dramático porque cada uma dessas células é o resultado da história do organismo, como organismo; depende dessa história. E, ao mesmo tempo, cada uma delas colabora na determinação da dinâmica que organiza o organismo como tal no espaço em que existe.

 

O sistema nervoso não determina a conduta

Quero fazer uma última observação. Que coisas pertencem ao organismo, como uma totalidade? E, que coisas pertencem aos componentes do organismo, ou seja, pertencem a esses tecidos e órgãos? Não gosto de falar de “sistemas”, de falar sobre o “sistema” nervoso, o “sistema” imune. Pelo menos no caso do “sistema” nervoso, prefiro falar de um aparato neuromuscular, ou aparato neuromuscular secretório. Porque prefiro falar assim? Porque a noção de “sistema” é uma noção funcional. O sistema nervoso existe para isso assim assim; o “sistema” digestivo para isso assim assado; o sistema imune, para a defesa; etc. Os sistemas se definem em uma relação funcional – mas, por favor notem -, em condições nas quais essa função não pode pré-existir à presença desse sistema nesse organismo. De modo que pareceria que a razão de ser do sistema imune fosse a defesa. Ou, que a razão de ser do sistema nervoso fosse a geração da conduta, ou da memória. Então não poderíamos falar de conduta ou de memória se não tivéssemos um sistema nervoso. E pareceria que não poderíamos falar de defesa se não tivéssemos um sistema imune. Porque o que chamamos de “memória”… essas propriedades que dizemos que esses sistemas têm são o resultado do operar desses tecidos componentes do organismo, mas não são “características” do organismo.

A memória não é uma característica operacional que defina a operação do sistema nervoso. A defesa não é uma característica operacional que defina a operação do sistema imune. Memória ou defesa são coisas que um observador vê que se passam ao organismo no espaço em que esse organismo existe como uma totalidade, mas não são coisas que pertençam ao organismo, à dinâmica de constituição desse organismo. Quando falamos do “sistema” nervoso ouvimos sempre dizer que sua função é reagir aos estímulos, é gerar uma conduta; o sistema existe para gerar uma conduta adequada às circunstâncias do organismo. E isso é o que define ao “sistema” nervoso como um sistema.

Mas se encaramos o que estamos chamando de sistema nervoso não encontramos nada disso: encontramos um certo tecido, que tem certa origem, que se relaciona com outros tecidos e tem uma dinâmica de relações entre as células que o compõem através dos espaços sinápticos. A memória, a conduta, a resposta aos estímulos nem sequer está no espaço de existência do sistema nervoso, porque o meio em que o sistema nervoso está, e o meio do organismo que o sistema nervoso integra, são meios radicalmente diferentes.

A conduta do organismo não tem um correlato no sistema nervoso, não está no sistema nervoso, o sistema nervoso não opera computando a conduta adequada ao organismo. O que se passa, sim, é que a um organismo dotado de um sistema nervoso de uma certa classe, se passam certas coisas em uma certa história de interações, que o observador chama de conduta adequada.

 

Coda

Para terminar quero dizer que destaco essas coisas com precisão porque acho que são importantes e estão em muitos lugares. Quero dizer também que as conversações sobre “o organismo”, sobre o modo pelo qual decompomos ao organismo para resgatar sua dimensão “organísmica” é um problema em aberto e que necessita ainda, mais discussões. Temos que nos ajudar nessa tarefa. Coloquei esses pontos globais. A conversação necessária tem que estar cheia de biologia. E isso nos custa muito. Custa muito aos biólogos conversar sobre biologia, me parece.

Essa era minha contribuição. Grato pela paciência.

 

O conceito de organismo

Jorge Mpodozis

Facultad de Ciências, Universidad de Chile, Santiago

[1] Palestra durante o Curso de Imunologia básica, XVIII Congresso da Sociedade Brasileira de Imunologia, Aguas de Lindóia, SP, 21/09/93. Transcrição e tradução: Nelson Vaz e Cláudia Carvalho, UFMG.