Cláudia Cecchi

O delito de Aristóteles

COMENTÁRIO

O delito de Aristóteles?

(Aristotle’s crime?)

MARÍA CLAUDIA CECCHI1, CARLOS GUERRERO-BOSAGNA1 & JORGE MPODOZIS2

Revista Chilena de Historia Natural 74:507-514, 2001

 

1Departamento de Ciencias Ecológicas, Facultad de Ciencias, Universidad de Chile,

Casilla 653, Santiago, Chile

2Departamento de Biología, Facultad de Ciencias, Universidad de Chile,

Casilla 653, Santiago, Chile, e-mail: epistemo@abello.dic.uchile.cl

 

RESUMO

O filósofo grego Aristóteles é reconhecido como um dos primeiros naturalistas do mundo ocidental. Seus conhecimentos abrangentes e precisos sobre zoologia estão contidos em uma variedade de escritos dedicados ao estudo dos animais. Surpreende que, apesar de seu grande acervo de conhecimentos biológicos, o estagirita nunca cogitou da possibilidade de que os organismos pudessem transformar-se ou estar conectados por relações de origem, ideias que apoiam a teoria da evolução orgânica. Nós afirmamos que na biologia aristotélica há três fatores principais que explicam esta falta de visão: (1) a ideia eternizadora da reprodução dos entes que não dá lugar à possibilidade da transformação genérica dos organismos através do nexo reprodutivo; (2) a afirmação de que os fenômenos naturais têm um propósito (causa final) que determina sua existência, questão que leva a subestimar a eventual existência de conexões de origem entre os distintos gêneros (no sentido aristotélico) de organismos vivos; e (3) como conseqüência do anterior, a classificação dos seres vivos segundo critérios analógico-funcionais que obscurece a existência de vínculos estruturais e semelhanças de origem entre os organismos. A análise desta situação própria da biologia aristotélica nos leva a examinar a importância que tem, para a formulação e desenvolvimento das ideias evolucionistas, o advento de uma classificação biológica de tipo hierárquica, includente e ramificada, como a fundada por Linneu e desenvolvida, na base de correspondências estruturais e semelhanças de origem entre os organismos, pelos grandes naturalistas dos séculos XVIII e XIX.

Palavras chave: Aristóteles, evolução orgânica, sistema natural, funcionalismo, homologia.

 

ABSTRACT

The Greek philosopher Aristotle is recognized as one of the earliest naturalists of the Western world. His thorough and precise knowledge of zoology is contained in various writings dedicated to the study of animals. It is surprising that, in spite of his extensive knowledge of biology, it never occurred to him that organisms might be able to transform themselves or be connected through relations of origin, notions which support the theory of organic evolution. We suggest three major factors of Aristotelian biology that would explain this lack of vision: (1) the idea of reproduction as an eternalizing agent, which does not provide for the possibility of transformation of genera through reproduction; (2) the premise that natural phenomena have a purpose (final cause) that determines their existence, which may result in rejection of the notions of connections in origin amongst distinct genera (in the Aristotelian sense); and (3) as a consequence of the former, the classification of living beings according to functional-analogous criteria would obscure the existence of structural relations and similarities of origin among organisms. This analysis brings us to examine the importance of the advent of a hierarchical-type biological classification, similar to that formulated by Linné and developed over the basis of structural correspondences and similarities of origin amongst organisms, by the great naturalists of the XVIII and XIX centuries.

Key words: Aristotle, organic evolution, natural system, functionalism, homology.

 

INTRODUÇÃO

A teoria da evolução orgânica, quer dizer, a ideia de que todos os seres vivos passados e atuais constituem uma comunidade de descendência gerada a partir de ancestrais comuns, é uma concepção moderna na biologia. Apesar da sua origem relativamente recente, a teoria da evolução hoje em dia está presente como um fundamento conceitual importante em todas as áreas do pensamento biológico, desde a biologia naturalista até a biologia celular ou bioquímica. Além disso, contemporaneamente a evolução é considerada um fenômeno mais que uma explicação de observações naturais, e no presente os biólogos não tentam colocá-lo à prova. No entanto, não ocorre o mesmo com as teorias que tentam explicar os mecanismos que subjazem à evolução orgânica, aqueles que explicam como se formam, se conservam e se transformam as linhagens.

 

É interessante notar que a biologia se desenvolveu, durante milhares de anos, na ausência deste grande marco teórico referencial que é a evolução orgânica. Os primeiros estudiosos ocidentais do mundo natural não concebiam a ideia da evolução . Aristóteles (Estagira, 384 A.C. – Calcis, Eubea, 322 A.C.) é um exemplo disso. Este pensador e filósofo grego cuja influência no pensamento ocidental foi de enorme importância, é também considerado como um dos primeiros biólogos naturalistas. Assim o evidenciam seus numerosos escritos sobre história natural, entre os quais cabe mencionar os mais clássicos e conhecidos: “Tratados breves de historia natural”, “Sobre as partes dos animais”, “Sobre a marcha dos animais”, “Sobre o movimento dos animais”, “Sobre a reprodução dos animais” (García 1992). O acervo zoológico teórico e sobretudo observacional que demonstra Aristóteles é amplo e sólido, e sem dúvida superior ao manejo de conhecimentos que tem hoje um biólogo no especializado em zoologia.

Por que Aristóteles, tendo elementos observacionais não tão diferentes dos que hoje em dia se estudam, não pode conceber a evolução dos organismos? Responder esta pergunta nos permite refletir acerca de quais são os elementos e as voltas do pensamento que têm lugar no pensar científico em geral e na biologia em particular, que fazem possível o surgimento da

teoria da evolução.

Em nossa opinião, no pensamento aristotélico existem pelo menos três elementos que se articulam para impedir a concepção da evolução orgânica como una ideia possível e legítima. Dois deles são de natureza filosófica epistemológica; um terceiro é de tipo biológico operacional, e é ele que em nosso modo de ver, merece maior atenção.

 

A ideia eternizadora da reprodução

Encontramos na biologia aristotélica um importante construto argumentativo, derivado de sua metafísica, que nega aos seres vivos a possibilidade de transformar-se transreprodutivamente. Este argumento trata da eternidade dos entes finitos, aqueles que, por sua natureza, se geram e se corrompem. Segundo Aristóteles, a geração e a corrupção são aspectos de um mesmo processo (Aristóteles, Acerca da geração y da corrupção). Este processo é cíclico e contínuo porque é causado pelo movimento circular, que é também cíclico, contínuo e muito importante, eterno. Nas palavras de Aristóteles, “se a geração de uma cosa advém por absoluta necessidade, necessariamente deve ser cíclica e voltar-se sobre si mesma” (Aristóteles, Acerca da geração e a reprodução). Os seres vivos são, em seu conceito, entes naturais finitos cuja geração surge por absoluta necessidade. O viver dos seres vivos, enquanto entes finitos, se constitui em ciclos de geração e corrupção, cujo começo, a partir de matéria informe, é equivalente a seu final, também no estado de matéria informe.

Este ciclo se repete transgeneracionalmente através da reprodução, processo (ou, em seus termos, causa eficiente) mediante o qual os entes finitos de um gênero ou classe particular geram entes de sua mesma natureza. Para Aristóteles, a reprodução cumpre com(tem como causa final) eternizar o finito, e portanto assegura a imutabilidade da forma (propriedades genéricas) dos entes reproduzidos geração após geração. A proposta deste sistema de geração e corrupção como um processo eterno e imutável impede a concepção de que os seres vivos possam transformar-se ou experimentar variações através do vínculo reprodutivo, dado que isto implicaria a existência de mudanças na forma (e portanto no propósito) dos organismos que se geram e se corrompem à medida que se produzem descendências.

 

Finalismo e funcionalismo

Julgamos que a doutrina aristotélica das causas constitui uma importante questão epistemológica que dificulta conceber que os seres vivos guardem entre si relações de origem. Aristóteles reivindica para si a distinção de quatro tipos de causas: a causa formal, a causa eficiente, a causa material e a causa final. Em sua epistemologia, a causa final tem importância máxima, desde que permite al filósofo (ele ou qualquer outro) justificar ontologicamente a existência de um certo ente ou fenômeno: todo o criado pela natureza e o homem tem um fim, uma função particular que explica sua existência e determina sua geração. Em palavras do próprio filósofo,

“… não pelo fato de que cada ser se desenvolva de uma certa maneira, porque isso é dessa maneira, mas porque todas as obras da natureza que são regulares e definidas, se desenvolvem de uma maneira concreta porque são assim: quer dizer, a gênese depende da existência, e não é esta a que está em função da gênesis. Os antigos filósofos da natureza acreditavam o contrário. A razão é que não viam que as causas foram várias, mas sim porque só levavam em conta as causas material e motriz (eficiente), e estas vagamente, mas não consideravam a causa formal e a causa final. Pois bem, cada coisa existe para algo, e por esta causa e as restantes se desenvolvem de fato todas as características que estão incluídas na definição de cada ser, e que existem com uma finalidade ou são uma finalidade…” (Aristóteles, Reprodução dos animais).

Vemos que a biologia de Aristóteles, em coerência com todo seu pensamento, é uma biologia essencialista. Nela, o ser é anterior ao devir, e em conseqüência, o propósito ou causa final do ser tem primazia sobre a gênese ou causa eficiente do mesmo. Se isto é assim, é causalmente desnecessário supor que existam relações de origem (relações de gênese) entre os distintos seres vivos, pois a existência destes, seres necessários, finitos mas eternos, se explica segundo suas causas finais e não segundo suas causas eficientes. E se a conexão de origem é desnecessária, então é injustificado propô-la e muito mais é encontrar argumentos para apoiá-la. O que interessa primariamente é estabelecer as causas finais, e neste exercício, as semelhanças na estrutura e o devir exibidas entre os organismos e/ou as partes deles, ou são apenas acidentes de pouca significação, derivados da ação das causas eficientes, ou são analogias explicáveis pela semelhança das causas finais. A respeito disso, considere-se esta notável frase de Aristóteles que mostra nitidamente o reconhecimento de semelhança analógica:

“existem animais cujas partes não têm a mesma forma nem diferem por excesso ou por defeito, mas sim que apresentam analogias: tal sucede quando se comparam o osso e a espinha do peixe, a unha e a úngula, a mão e a garra, a pena e a escama (pois que a pena é para o pássaro o que a escama é para o peixe)” (Aristóteles, Investigación sobre los animales).

 

A classificação biológica aristotélica

A ideia aristotélica de que a existência precede e determina a gênese, tem além disso outra conseqüência importante: si neste contexto se tenta classificar ou ordenar a diversidade dos seres vivos segundo seus aspectos estruturais ou condutuais, esta classificação será mais de tipo funcional, dirigida à busca do propósito (ou causa final) que cumprem as estruturas consideradas, sem importar o processo de gênese delas. Em outras palavras, esta classificação teria como base a distinção do que modernamente chamamos analogias funcionais. Por exemplo, Aristóteles no duvidará em classificar as aves e as pessoas em uma mesma categoria, bípedes (Tabela 1, ao final do texto), porquanto ambos satisfaçam função de caminhar mediante o uso de duas patas. Ainda que exista um acordo entre os estudiosos do pensador em concluir que no há una intenção taxonômica na biologia aristotélica (Sánchez 1994), a classificação aparece em muitos textos biológicos de Aristóteles. Por exemplo, em “Acerca da longevidade e da brevidade da vida”, o filósofo oferece uma classificação donde o central é a divisão binária entre animais sanguíneos e não sanguíneos; sobre essa base, e utilizando critérios auxiliares mais ou menos heterogêneos,chega a distinguir 11 grupos de animais, que ele chama, neste caso, gêneros (Tabela 1). No livro “Reprodução do animais”, Aristóteles faz uma classificação dos animais atentando para seus diferentes modos de gerar descendência (Tabela 1).Também aparece em “Reprodução dos animais” a distinção de animais em relação a seu modo de locomoção (Tabela 1). Um olhar atento para estas classificações aristotélicas evidencia que o filósofo maneja observações variadas e precisas sobre os modos de vida e aspectos anatômicos y fisiológicos dos animais. Não obstante, também está claro que esta sabedoria biológica profunda e detalhada não é usada por Aristóteles na elaboração de um ordenamento rigoroso, não ambíguo e inclusivo da diversidade de organismos. De fato, se pode apreciar que a classificação biológica aristotélica utiliza critérios funcionais diversos, gerando um ordenamento no qual as categorias se confundem. Como o mesmo Aristóteles aponta:

“Muitas vezes se degradam os gêneros: pois nem os bípedes são todos vivíparos (já que as aves são ovíparas) nem todos ovíparos (pois o homem é vivíparo); nem quadrúpedes são todos ovíparos (o boi, o cavalo, a vaca e muitíssimos outros são vivíparos) nem todos vivíparos (pois os lagartos, os crocodilos e muitos outros são vivíparos)…” (Aristóteles, Reprodução dos animais).

Considerando esta ambigüidade de suas classificações, o filósofo conclui que um estudo genérico dos organismos é de pouco valor, que portanto “é necessário tomar em separado cada espécie e examinar sua natureza própria” (Aristóteles, Investigaciones sobre los animales). Vemos que a taxonomia aristotélica, a ser sustentada em comparações análogo-funcionais , passa por alto sobre a existência de vínculos estruturais e de origem entre os organismos, ao ponto de tornar impossível um estudo genérico dos mesmos. Esses vínculos que não apenas existem, mas sim constituem os fenômenos biológicos que mais fortemente sugerem a existência de una comunhão de origem e descendência entre os seres vivos (ver seção seguinte), poderiam muito bem ter sido apontados Aristóteles por causa da profundidade de sua zoologia. Por isso concluímos que o procedimento taxonômico de Aristóteles expressa, e ao mesmo tempo contribui para impossibilitar o filósofo e seus seguidores de afirmar a necessidade de uma concepção evolutiva para a origem dos seres vivos.

 

O sistema natural ou a inversão do aristotelismo

A não inclusão da ordenação é uma primeira diferença que diferencia a taxonomia aristotélica da classificação biológica moderna. A ordenação da diversidade biológica em uma estrutura ramificada de grupos inclusivos aparece aproximadamente 20 séculos depois de Aristóteles, quando Carl Linné (1758) propõe seu “Systema Naturae” (Sistema Natural). Este tipo de classificação foi adaptado rapidamente pelos naturalistas do fim do século XVIII, que advertiram que seu desenvolvimento requer a aplicação de um novo critério de comparação, o qual tem como base as semelhança já não funcionais, mas sim estruturais, que apresentam os organismos. Este critério estabelece que: primeiro, a classificação se apóia na comparação das próprias estruturas e não da função destas estruturas; segundo, a comparação deve ser feita entre estruturas que sejam as mesmas (o que hoje em dia chamamos estruturas homólogas), e portanto os grupos se distinguem por possuir estruturas

comuns; e terceiro, o critério para estabelecer que duas estruturas são a mesma (homólogas)

também é de caráter estrutural. É exemplar a este respeito o critério anatômico de homologia desenvolvido por Geofroy Saint Hillaire, que se baseia na constância das “conexões” entre os órgãos, isto é, a constância do modo pelo qual as estruturas anatômicas nos diferentes organismos se dispõem e relacionam entre si. Segundo este critério , dos órgãos são homólogos quando são encontrados em diferentes organismos ocupando uma mesma posição relativa no conjunto orgânico. A importância taxonômica da localização relativa de um órgão se justifica porque, segundo Saint Hilaire, “é mais fácil um órgão estar alterado, atrofiado ou desaparecido, que posto em outro lugar” (Saint Hilaire 1806, traduzido do francês pelos autores). Georges Cuvier, outro dos fundadores da anatomia comparada, ao explicar em que consiste seu método, que para ele é o procedimento que permite descobrir as condições de existência (i.e., causa final) do entes naturais, escreve que

 

“Este consiste em observar sucessivamente o mesmo corpo nas diferentes posições onde a natureza o localiza, o em comparar entre si os diferentes corpos, até reconhecer conexões constantes entre as estruturas (Cuvier 1836, traduzido do francês pelos autores).

 

Até o primeiro terço do século XIX, os estudiosos da embriologia comparada estabelecem um

novo e poderoso critério estrutural para a distinção das homologias, com a adoção do qual o

Sistema Natural alcança toda seu poder como sistema ordenador da diversidade biológica.Quer dizer, chega a constituir o que é hoje em dia: um marco insubstituível de referência operacional para estabelecer o domínio de validade de uma afirmação biológica particular. Segundo este critério, se consideram homólogas aquelas estruturas que tenham uma origem embrionária comum, ainda que elas satisfaçam diferentes propósitos ou funções. O conceito embriológico de homologia é comumente atribuído a Richard Owen que o introduziu em 1843 para distinguir o que a seu ver são as semelhanças mais fundamentais entre os organismos.

 

Não obstante, a prática de comparar o desenvolvimento do organismos para estabelecer distinções homológicas é anterior a este autor, e tem sua origem nas observações de Karl Ernst von Baer que, em 1828, estabeleceu que

 

“os caracteres comuns que definem um táxon maior (quer dizer, as homologias que constituem esse táxon) aparecem mais precocemente no desenvolvimento embrionário de seus membros que aqueles caracteres que definem as categorias taxonômicas menores que constam dentro desse táxon (De Beer 1971).

 

Na “Origem das espécies”, Darwin parafraseia Von Baer para dizer:

 

“Os embriões de mamíferos, aves, lagartos e serpentes, provavelmente também de quelônios, são em seus estágios precoces extremamente similares uns aos outros, tanto em sua totalidade como no modo em que se desenvolvem suas partes; tanto é assim, que de fato podemos só podemos geralmente distinguir estes embriões por seu tamanho” (Darwin 1872, traduzido do inglês pelos autores).

 

Notemos que desenvolver uma classificação dos seres vivos baseada em homologias estruturais anatômicas e (sobretudo) embriológicas supõem uma inversão subversiva da doutrina aristotélica: equivale a considerar que, pelo menos para os efeitos de construir um ordenamento sistemático dos seres vivos, a gênese é mais importante que a existência, e o propósito, se existe, não é o central. Interessantemente, esta inversão da epistemologia aristotélica que se estabelece de fato com o desenvolvimento do Sistema Natural, passa a ser, em nossos dias, um pilar central do pensamento biológico. De fato, na biologia moderna (postdarwiniana) as correspondências estruturais e de origem entre os organismos se tornam significativas precisamente porque se considera que é o modo de origem (na ontogênese e sobretudo na filogênese), e não o propósito (se é que ele existe) o central em determinar o modo de existência de um organismo e suas características. Assim o estabelece claramente Darwin, ao assinalar com respeito ao finalismo na biologia que:

 

“…Nada pode ser mais inútil que tentar explicar os padrões de semelhança nos membros de uma mesma classe aludindo à utilidade ou à doutrina das causas finais” (Darwin 1872, traduzido do inglês pelos autores).

 

Sistema natural y evolução

Vimos como Aristóteles, usando critérios analógico-funcionais, não consegue realizar um ordenamento inequívoco, sistemático e inclusivo dos organismos, que, por outro lado, pode ser alcançado coma adoção de critérios homológico-estructurais. A taxonomia postlinneana não apenas tem o mérito de ser biologicamente consistente, poderosa e eficiente em ordenar a diversidade biológica (ela permite classificar inequivocamente tanto espécies atuais como extintas, estabelecer chaves de classificação ou características diagnósticas inequívocas, revelar “correlações estruturais específicas” características de cada táxon, etc.), mas também possui uma organização muito sugestiva da noção de origem comum e da transformação das espécies. Isto porque a classificação biológica expressa no Sistema Natural tem dois aspectos que se unem conceitualmente com a ideia da evolução orgânica , a saber: (1) O critério homológico, pelo qual a busca de homologias estruturais e embriológicas revela, pelo menos ao nível das hierarquias taxonômicas superiores, a existência de grupos de organismos caracterizados por possuir uma mesma disposição estrutural fundamental (plano estrutural ou “bauplan”) e um mesmo modo de desenvolvimento ontogenético, questão que sugere fortemente uma origem comum entre os membros desse grupo; e (2) a inclusividade e forma ramificada; a classificação que se faz distinguindo homologias torna possível um ordenamento inclusivo-hierárquico de grupos de organismos, o qual, como se fosse uma genealogia de traços compartilhados transgeneracionalmente em uma linhagem familiar, toma a forma de uma árvore ou dendrograma. Esta característica dendromórfica do Sistema Natural sugere (modernamente, evidencia) a existência de linhagens, isto é, de grupos de comunidades de descendência entre os organismos.

 

Não obstante, o desenvolvimento histórico do Sistema Natural no gerou instantaneamente o surgimento das ideias transformistas, contrárias ao fixismo preponderante. Carl Linné não via no Sistema Natural sugestões de uma origem comum de organismos ou de uma transformação de ancestrais em descendentes. Pelo contrario, ele afirmava que as espécies são inalteráveis como reflete sua frase “todas as espécies existem tal como ao início foram criadas” (citada em Dey 1907, traduzido do latim pelos autores). Por sua vez, Georges Cuvier, tal como se aprecia na citação da seção anterior, opera com critérios estruturais quando se trata de comparar e classificar. No entanto, seu pensamento está a serviço das ideias funcionalistas e finalistas. É isto o que o leva a negar rotundamente a evolução orgânica argumentando que, dado que cada parte de um organismo tem uma função e um propósito particular imprescindível para a sobrevivência do organismo completo, é impossível que uma

estrutura se transforme. É somente em meados do século XIX, com a publicação de “The origin of species” por Charles Darwin, que a concepção evolutiva do seres vivos toma força e se legitima completamente na comunidade científica.

 

Darwin, assim como muitos outros naturalistas evolucionistas contemporâneos e posteriores a ele, contam com o Sistema Natural como um apoio importante na formulação da teoria da evolução . Assim o evidenciam as palavras de Darwin sobre el Sistema Natural:

 

“Os naturalistas, como vimos, procuram ordenar as espécies, gêneros e famílias em cada classe, no que se chama Sistema Natural. Mas, que significa este sistema? Alguns autores vêm nele meramente um esquema que ordena reunindo os objetos vivos que são mais   semelhantes e separando aqueles que são mais diferentes; ou, como um método artificial para enunciar, o mais   resumidamente possível, proposições gerais, isto é, mediante uma frase que se refere a caracteres comuns, por exemplo, uma frase para todos os mamíferos, logo uma comum para todos os carnívoros, e logo uma comum a todos os do gênero do cão, e logo, agregando apenas uma frase, se dará una completa a descrição de todos os tipos de cão. A engenhosidade e utilidade deste sistema é indiscutível. Mas muitos naturalistas pensam que o Sistema Natural significa algo mais; eles crêm que ele revela o plano do Criador; mas, a menos que seja especificado se acaso se trata de uma ordem espacial ou temporal, ou ambos, ou o que mais quer dizer o plano do Criador, parece-me que isto não acrescenta nada a nosso conhecimento. Expressões tão famosas como a de Linné, o qual geralmente encontramos em uma forma mais o menos encoberta, a saber, que os caracteres não fazem o gênero mas sim é o gênero que faz os caracteres, parece implicar que algum vínculo profundo está incluído em nossa classificação, mais que a mera semelhança. Eu creio que é este o caso, e que a comunidade de descendência -única causa conhecida da semelhança nos seres vivos – é o vínculo, o qual, em que pese vários graus de modificação observada,é parcialmente revelada por nossa classificação” (Darwin 1872, traduzido do inglês pelos autores).

 

Nós afirmamos que, a despeito do ideário fixista de seus criadores, a formulação do

Sistema Natural, sistema taxonômico apoiado na distinção de homologias que podem ou não correlato funcional, é um marco fundador da biologia moderna devido a que ele libera o afazer biológico do finalismo causal, e com este fundamento constrói um ordenamento da diversidade dos seres vivos que, ao acentuar as relações de origem entre eles, prefigura

as noções evolutivas. Tal como menciona Darwin, os grupos de organismos que um taxonomista distingue seguindo os critérios do Sistema Natural não podem senão haver se constituído como comunidades de descendência. Por isto, Darwin vê, na classificação contida no Sistema Natural, um corpo de observações biológicas sugestivas de e consistentes com a teoria da evolução orgânica .

 

Taxonomia, sistemática e o conceito de homologia no discurso moderno

Os biólogos evolucionistas contemporâneos estabelecem uma distinção entre taxonomia e sistemática, para diferenciar um ordenamento de organismos que voltado meramente a identificar suas características específicas, de outro que tenta agrupá-los segundo critérios filogenéticos ou evolutivos. Por certo, esta distinção só se pode estabelecer depois que a evolução orgânica passou a ser considerada um fenômeno da biologia. A esse respeito, Mayr & Ashlock (1991) afirmam que a classificação biológica predarwiniana é meramente uma taxonomia, um sistema de identificação sem valor informativo ou relevância biológica, porque não se apóia explicitamente em critérios de ancestralidade-descendência. Previamente, Henning (1965), fundador da escola cladística de classificação y reconstrução filogenética, estabeleceu que a classificação dos seres vivos, para ser biologicamente significativa, deve fazer-se sobre a base da distinção de grupos estritamente monofiléticos, ou “naturais”. Resulta claro que para estabelecer estes grupos é preciso definir primeiro um critério comparativo que distinga relações de proximidade (homologia) evolutiva entre os traços estruturais que se comparam. Segundo a escola cladista, um caráter é evolutivamente homólogo em dos ou mais taxa, quando é derivado do mesmo ou do caráter correspondente de seu ancestral comum mais próximo (Wiley et al. 1991). Definida assim, a homologia evolutiva dos caracteres é uma hipótese que requer evidências que a apóiem (Simpson 1961). Interessantemente, tal evidência se obtém aplicando fundamentalmente os mesmos critérios de homologia que desenvolveram os naturalistas predarwinianos: correspondência estrutural e/o correspondência de origem embrionária, como De Beer (1971) e Mayr & Ashlock (1991) reconhecem. Por isto, não é estranho que muito da classificação precladística, especialmente ao nível dos taxa superiores, tenha sido em grande parte confirmada pela análise cladística posterior, indicando que os critérios comparativos empregados pelos “taxônomicos” precladistas e os utilizados pelos modernos “sistemáticos” sã e têm sido operacionalmente equivalentes.

 

Neste contexto, é interessante notar que na citação da seção anterior, Darwin estabelece claramente que, a seu ver, o ordenamento biológico é possível como resultado de que os organismos compartilhem um ancestral comum. É claro também que esse ordenamento biológico a que Darwin faz referência não é trivial; é ele que aparece expresso no “Sistema Natural” e que, como dissemos, se constrói estabelecendo homologias estruturais e embriológicas. Segue-se disto que o Sistema Natural não é meramente um sistema qualquer dos muitos artifícios classificatórios o identificadores possíveis dos seres vivos. É um que, ainda que não haja sido formulado com a intenção de reconhecer relações de ancestralidade-descendência, em virtude de seu método comparativo, fundamenta a possibilidade de reconhecer esse tipo de relações.

 

O delito de Aristóteles

Nossa afirmação final, ao que se deve o título deste comentário, é que, julgado por um supremo tribunal biológico postdarwiniano, Aristóteles cometeu um crime imperdoável de

negligência:não conseguiu encadear sua enorme sabedoria biológica e naturalista na formulação de una classificação que distinguiria semelhanças estruturais homológicas, provavelmente como conseqüência do finalismo próprio de seu pensamento. Esta característica da biologia aristotélica fundou uma tradição de duração muito longa que restringiu os naturalistas a um pensamento funcionalista e finalista, e que é incompatível com as bases epistemológicas e conceituais que sustentam a teoria da evolução orgânica , e mais   em geral, com a biologia moderna. Herdeiros notáveis do pensamento aristotélico foram muitos naturalistas do século XVIII e princípios do século XIX, como Linné, Saint Hillaire e Cuvier. Eles, sem dúvida, utilizaram seu conhecimento biológico na geração de um ordenamento da diversidade biológica que sim, distingue semelhanças de estrutura e de origem entre os organismos. Visto deste modo, o “Sistema Naturae” constitui um verdadeiro presente dos pensadores fixistas do século XVIII para os pensadores transformistas do século XIX. Um presente sedutor que convida a refletir sobre a importância que tem na ciência a fidelidade aos fenômenos acima do apreço às teorias.

 

AGRADECIMIENTOS

Agradecemos ao Professor Juan de Dios Vial Correa, que nos outorgou uma longa e interessante conversação sobre a história da biologia, além de valiosa literatura relativa ao tema deste trabalho. Também agradecemos ao Professor Pablo Oyarzún por sua assistência e generosa ajuda nos temas de filosofia antiga e aristotélica. Agradecemos também a assistência econômica do FONDECYT (projeto 1990045 a J. Mpodozis).

 

LITERATURA CITADA

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ARISTÓTELES. Investigación sobre los animales, Libro I: 39-81. (1992) Palli J (traductor),                   Editorial Gredos, Madrid, España.

ARISTÓTELES. Aristóteles, tratados breves de historia natural: acerca da longevidad y da                  brevedad da vida: 305-316. (1987) La Croce E & AB Pajares (traductores), Editorial     Gredos, Madrid, España.

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(Recibido el 7 de julio de 2000; aceptado el 2 de noviembre de 2000 CECCHI ET AL.)

 

 

TABELA 1

Algumas das classificações zoológicas de Aristóteles

Some of the zoological classifications of Aristotle

____________________________________________________________________Según presencia o ausencia de sangre

Animales con sangre                                                       Hombre, cuadrúpedos con pelo, cetáceos, aves, cuadrúpedos                                                                                               escamosos y ápodos, peces, ciertos insectos

(saltamontes, arañas, avispas y hormigas)

 

Animales sem sangre                                                     El resto do insectos, malacia, crustáceos, testáceos, zoófitos

 

Según modo de locomoción

Bípedos                                                                             Hombre, aves

Cuadrúpedos                                                                    Escamosos (reptiles, excepto serpientes), con pelo

(mamíferos, excepto hombre y cetáceos)

Ápodos                                                                              Serpientes, cetáceos, peces, seláceos, testáceos

 

Según modo de reprodução

Vivíparos                                                        Hombre, aves

Ovovivíparos                                                                    Seláceos, algunas víboras

Ovíparos                                                                           Los que producen un huevo acabado (aves, reptiles,

insectos sanguíneos), los que producen un huevo

inacabado (peces, crustáceos, cefalópodos)

Geração de larvas y/o geração

espontánea                                                               Los que copulan y engendran larvas (algunos insectos no

sanguíneos), los que no copulan ni engendran, apareciendo por

geração espontánea (la mayoría do insectos no sanguíneos,                                                                                                  testáceos)

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