Humberto Maturana

O explicar

 

         Doenças autoimunes e distúrbios ecológicos como fenômenos sistêmicos

Enquanto ouvia esta apresentação do Dr.Bandeira sobre as reações autoimunes, pensando que vou falar de um tema que não está tão ligado à temática de vocês – que é a Imunologia – pensava na biosfera. E pensava na história dos seres vivos na Terra, que começa há cerca de três mil e quinhentos milhões de anos, como um processo sistêmico. Surgem os primeiros seres vivos, há reprodução, e surgem configurando um sistema, um conjunto de processos interconectados, que é um presente em continua transformação. E as coisas que se transformam ao longo dessa história são as linhagens de seres vivos.

Mas essas linhagens são estados dessas transformações que vemos ao olhar a biosfera, por exemplo, como propõe a hipótese Gaia, de Jim Lovelock, ou, o que vemos ao olhar as situações ecológicas distinguíveis, nas quais constatamos que os organismos estão interconectados de muitas maneiras. E eu pensava que, na história da Terra, na história da biosfera, se passaram duas classes de fenômenos que poderíamos chamar de catastróficos. Uns ocorrem por agentes externos, por exemplo, pelo impacto de meteoros; outros ocorrem pela dinâmica interna.

Interessante, não? Resulta que essa mesma dinâmica interna que configura a biosfera como uma entidade coerente, sob certas circunstâncias, se transforma em um sistema incoerente. Por exemplo, nós somos agora participantes de um fenômeno que eu poderia chamar de um fenômeno de “autoimunidade” na biosfera. Somos parte da biosfera e nosso operar como parte da biosfera está destruindo a biosfera. Ou não?

Interessante. Somos parte do sistema e com nosso operar como parte do sistema destruímos o sistema. Em circunstâncias nas quais, em outros momentos históricos, a coerência é tal que o sistema vai se transformando de uma maneira, digamos, ordenada. Porque segue se transformando. Porque nós, seres vivos, vivemos dos seres vivos. Estamos continuamente comendo-nos uns aos outros. Mas nos comemos de uma maneira coerente, de modo que a biosfera opera como uma totalidade integrada. Ou, nos comemos de uma maneira, digamos, patogênica. Como um processo de autoimunidade, em que nos comemos unidirecionalmente, incoerentemente e nos destruímos todos.

 

Transparência, pertinência

Por um lado, pensava isso, enquanto escutava ao Dr.Bandeira. Mas pensava em algo mais. Pensava na transparência. A transparência é um fenômeno muito interessante porque é precisamente isso: dois entes não se encontram e são transparentes um ao outro. Se temos uma vidraça transparente, ela não absorve a luz e a luz passa intocada. Nós, organismos, também somos transparentes. Transparentes a que? A muitas coisas. Há moléculas que “entram” e “saem” do organismo e nunca se incorporam à dinâmica celular. Há radiações às quais somos transparentes; por exemplo, somos quase transparentes aos raios-X, não totalmente transparentes, mas quase.

O interessante é que, se somos transparentes a algo, esse algo não nos toca. Mas quando não somos transparentes o externo nos toca. E eu pensava que era interessante a perda da transparência. Como se produz a perda da transparência? Ou, como em situações às quais somos transparentes, deixamos de sê-lo. Substâncias que normalmente cruzam através de nosso corpo por alguma razão deixam de cruzar e desencadeiam coisas. Que coisas? Bem, dinâmicas próprias do organismo, mas distorcidas por um encontro frente ao qual, antes, era transparente. Mas essa substância que entra não faz, por si só, nada novo. Desencadeia algo que é próprio desse sistema.

E isso tem a ver com o determinismo estrutural sobre o qual o Dr.Mpodozis falou algo ontem. O agente externo apenas desencadeia algo que se configura na estrutura do sistema que encontra.

Quero agora, após esses comentários, que são minhas reflexões enquanto escutava o Dr.Bandeira – sem entender plenamente, porque sou quase “transparente:” ao português – quero dizer, de maneira sucinta, alguma coisa sobre os seres vivos; alguma coisa sobre “o explicar”, sobre o determinismo estrutural, para em seguida tratar do fenômeno do conhecer.

Vou caminhar na direção do fenômeno do conhecer porque, afinal, estamos envolvidos na temática do conhecer. Todas essas apresentações, essas discussões, são tentativas de fazer algo no domínio do conhecimento. Ao fazer essas coisas, “Que estamos fazendo?” – esta é, por assim dizer, a pergunta epistemológica que está em jogo na problemática reflexiva sobre o conhecer. Mas vou começar dizendo algo sobre os seres vivos.

 

A dupla mirada sobre os seres vivos

Nós, seres vivos, somos sistemas. Que é um sistema? Um sistema é uma unidade configurada por um conjunto de elementos interconectados de alguma maneira dinâmica. Se represento ao ser vivo por um círculo com uma seta, indicando a natureza dinâmica de seu fechamento (Figura 1) digo que é um sistema autopoiético, um sistema autopoiético molecular. Digo que o ser vivo como uma unidade resulta de uma dinâmica de interações moleculares que configura um sistema de produção de moléculas tal que, as moléculas produzidas, por suas interações, geram o mesmo sistema de produções que as produziu, e especificam sua extensão. De modo que estou fazendo referência a algo que se caracteriza desde si mesmas.

Figura 1: Dois domínios de descrição distintos dos seres vivos: o domínio estrutural e o domínio das interações.

Figura 1: Dois domínios de descrição distintos dos seres vivos: o domínio estrutural e o domínio das interações.

É certo que eu caracterizo esse sistema ao falar, na linguagem, mas estou falando de algo que caracteriza a si mesmo, que em seu próprio operar é um exemplo daquilo do que eu digo. A dificuldade que há aqui é que quero dizer algo sobre esse sistema, mas se alguém diz algo, o diz a partir de fora. E o que caracteriza o sistema não é o que dizemos a partir de fora mas sim a dinâmica que constitui o sistema.

Essa é uma dificuldade que requer, para nos livramos dela, uma dupla mirada. Essa dupla mirada consiste em levar em conta que, como observadores, podemos examinar o sistema de dois modos. Por um lado, podemos examinar o sistema em sua dinâmica interna, em seus componentes – muitas vezes temos que quebrar o sistema, abri-lo, mas podemos fazer uma mirada interna. Por outro lado, podemos examiná-lo como uma totalidade em seu espaço de interações. Por favor, não pretendo dizer que as coisas que vou dizer sejam novas para vocês, não se sintam ofendidos, vocês já entendem isso perfeitamente bem. Quero apenas trazer à baila certas reflexões.

Se examino o sistema, o organismo, em suas interações com o meio, o vejo como uma totalidade. O sistema pode ser uma célula, pode ser um conjunto de células, pode ser um sistema complexo de linhagens celulares como nosso organismo. Mas o vejo como uma totalidade em um certo espaço. Por outro lado, se examino a dinâmica interna vejo os componentes, vejo as relações entre eles. Se examino por fora, vejo as interações do sistema como uma totalidade.

Essa dupla mirada, o examinar por dentro e o examinar por fora, nos permite levar em conta que essa totalidade que vejo por fora, resulta de uma dinâmica interna que não tem nada que ver com o lado de fora; nem a dinâmica interna tem a ver com a totalidade na qual a descrevo. Quer dizer, a totalidade resulta da dinâmica interna, mas existe em um domínio diferente daquele no qual se dão as interações de seus componentes.

Todo biólogo precisa entender o organismo nessa dupla mirada. E é uma dupla mirada porque a relação desses dois domínios é uma relação entre domínios separados: não podemos deduzir um domínio a partir do outro. Temos que examinar por fora, e examinar por dentro, para fazer essa correlação. Se já fizemos bastante isso, basta que examinemos por fora para pensar o que deve estar se passando por dentro; ou examinar por dentro para pensar o que deve se passar por fora. Assim procede um bom clínico, assim procede um bom mecânico de automóveis.

Se levam seu automóvel ao mecânico, esperam que ele faça algo com o automóvel. O mecânico pergunta “Que houve?”, vocês dizem “Ah, quando chego a certa velocidade começa a falhar o motor.”.O mecânico diz “Ah, devo examinar tal parte”; levanta o capot e vai examinar um certo componente do motor. Como aprendeu o mecânico a fazer isso? Suponhamos que esse mecânico tem em sua oficina um aprendiz. Quando vocês trazem o automóvel para consertar, deixariam o automóvel com o aprendiz? Não, decerto que não. Porque? Porque ele não tem uma história suficientemente longa de examinar os motores e examinar a conduta dos automóveis.

O mesmo fazemos nós ao examinar os seres vivos. Porque esses dois domínios são separados. O ser vivo resulta, como uma unidade, de uma dinâmica fechada em si mesma que, enquanto dinâmica molecular, não tem nada a ver com o externo. Mas resulta em uma totalidade, em uma unidade, em um espaço externo no qual essa unidade interage.

E como interage? Interage porque não é transparente. Se fosse transparente às interações com o meio, não interagiria. O que se passa nos encontros com o meio? Os encontros desencadeiam mudanças estruturais determinados na estrutura do ser vivo e/ou mudanças estruturais na estrutura do meio.

Esta é a condição fundamental, fundadora, dos seres vivos. E eu quero chamar a atenção para esta dupla mirada sem a qual não entenderemos os seres vivos. Porque o entendimento sai do que nós fazemos, é um pensar sobre nosso fazer e implica em estabelecer essa correlação entre seus dois domínios de existência.

Agora quero dizer algo sobre o explicar.

 

O explicar

            Todos damos explicações. De modo que não vou dizer a vocês coisas que vocês já não saibam. Mas quero chamar a atenção sobre o que está envolvido no explicar. Na primeira conferência, o Prof.Bandeira falava de mecanismos, da busca de mecanismos que constituam uma explicação. Efetivamente, isso é central. A explicação é um mecanismo, é a proposição de um mecanismo. Quando eu me proponho a explicar algo, vocês imediatamente se dispõem a escutar um mecanismo. E o que é um mecanismo?

Um mecanismo é um sistema configurado com certas coerências operacionais, em um certo domínio de determinismo estrutural e tem a ver com os elementos que o constituem. Claro que, como resultado de operar do mecanismo, se passam certas coisas. No caso do ser vivo, o resultado de seu operar é que interage de uma certa maneira. Na explicação, a proposição do mecanismo é a proposição de um processo tal que, como resultado de seu operar, surge o que se quer explicar.

Por exemplo, como se explicam os raios? Que é esta luz rápida, azul, que vemos às vezes no céu durante as tempestades? Como se explicam? Benjamin Franklin propôs o seguinte: “O raio é um faísca elétrica que salta entre as nuvens e a terra quando as nuvens se carregam eletrostaticamente em uma magnitude suficiente para que entre as nuvens e a terra se dê uma diferença de potencial suficiente para que se produza tal faísca. E quando salta a faísca, vemos uma explosão de luz.” O mecanismo é: a carga eletrostática se estabelece nas nuvens ao serem deslocadas pelo vento, depende da umidade do ar, se estabelece uma diferença de potencial, etc. E o que isto explica: explica a explosão de luz a que chamamos “raio”. Ou seja, a explicação é a proposição de um mecanismo tal que, como resultado de seu operar, gera para o observador a experiência que ele quer explicar.

Toda explicação deve satisfazer esse aspecto formal. O aspecto formal é a proposição de um mecanismo gerativo, ou de um processo. Digo que o mecanismo é gerativo porque seu operar gera o que se quer explicar. Se quero explicar a autoimunidade, tenho que propor um mecanismo tal que, se operar, tem como resultado o que eu distinguo como autoimunidade.

 

Aspectos informais das explicações

Mas há também aspectos informais nas explicações. Se vocês escutam a proposição de um mecanismo para explicar a autoimunidade, no momento em que escutam estão atendendo a aspectos formais e informais. Querem ouvir um mecanismo. Mas dizem “Não, não, isso não é um mecanismo; você está equivocado, está usando conceitos que não têm nada a ver com o processo de determinismo estrutural”. Ou dizem: “Sim, sim, isso é um mecanismo. Mas não me agrada!”.

Interessante isso, não é? “Não me agrada, não me satisfaz, não creio nele.” Esse é o aspecto informal das explicações. é uma condição adicional que colocamos em nosso escutar, uma condição que pode ser explícita, ou não. mas está sempre presente. Cada vez que vocês escutam alguém propondo uma explicação, seja lá para o que for, vocês estão escutando dando atenção a estes dois aspectos: um aspecto formal, que sempre tem que estar presente para não desdenharmos a proposição e um aspecto informal que colocamos no escutar.

Esse aspecto informal pode ser qualquer um. “Sim, isso me agrada porque usa a noção de linfócitos T; explicar a autoimunidade sem usar os linfócitos T não é possível…” Portanto, no momento em que escutam um mecanismo que implica linfócitos T, pensam “Sim, claro, isso está bom.” Ou, dizem “Não, não está bom porque não usa a noção de sistemas; a explicação da autoimunidade sem a noção de sistemas, sem usar a noção da dinâmica sistêmica   não é possível…De modo que se você usa apenas a noção de linfócitos T, não estou de acordo porque deve haver uma referência à dinâmica sistêmica.”

Interessante, porque vocês estão escutando e vão aceitando ou rejeitando os mecanismos propostos segundo esse aspecto informal. E todos nós fazemos isso. Porque isso é o que aprendemos a fazer quando estudamos qualquer disciplina. Aprendemos não somente aspectos formais, mas também aspectos informais. Atendemos ao aspecto informal que colocamos em nosso escutar ao estudar qualquer disciplina. Aprendemos isso com um professor, uma professora, nas relações de trabalho, ou, o inventamos. O sujeito que nos parece criativo é aquele que inventa um aspecto informal em nosso escutar. Essa é a dimensão da criatividade: uma mudança no escutar. Mudança de que? Do aspecto informal. Porque o aspecto formal é sempre um mecanismo gerativo.

“Ah, é porque quando mudo o aspecto informal, mudo o domínio desde o qual proponho mecanismo gerativo?” Sim, certamente. Mas é o aspecto informal que determina o que escuto, o que estou disposto a aceitar, o que quero aceitar quando estou escutando, quando estou esperando uma explicação. E isso fazemos todos nós. Escutem seja lá o que for: estão atendendo ao aspecto informal. E cada vez que vocês mudam o aspecto informal passam a ser revolucionários, criadores, inovadores.

Nas explicações científicas o aspecto informal é explícito. Vou enumerar as condições que constituem esse critério informal que colocamos em nosso escutar como cientistas – não porque vocês não os conheçam mas porque quero destacar algo neles. Chamo a isto de critérios de validação das explicações científicas.

Quando escutamos uma explicação científica, logo esperamos escutar um mecanismo gerativo. Mas esse mecanismo gerativo deve ser apresentado no contexto da satisfação de três outras condições; isto é, o mecanismo gerativo é apenas uma de quatro condições que devem ser satisfeitas e que constituem o aspecto informal e fazem da Ciência um sistema explicativo. Porque, fora da Ciência, poderíamos ter outras condições, diferentes dessas.

 

            Os critérios de validação das explicações científicas

A primeira condição é a descrição da experiência a explicar. Quero explicar um raio. “Que é um raio?” “É isso que você vê.” “Quando?” “Quando há uma tempestade..”Quero explicar a autoimunidade “Que é a autoimunidade?” “Aquilo que se passa quando…blá, blá, blá.”; por exemplo “Aquilo que se passa a um camundongo Balb/c quando lhe removemos o timo aos três dias de idade e aparecem lesões dos tecidos.”

Notem que a descrição da experiência que se quer explicar descreve o que o observador tem que fazer para ter a experiência. A descrição do que se quer explicar, feita de forma aceitável por quem nos ouve, é o primeiro critério de validaçnao das explicações científicas.

 

Tabela 1

Critérios de validação das explicações científicas

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  1. Descrição da experiência a explicar.
  2. Proposta de um mecanismo gerativo da experiência.
  3. Dedução, a partir de 2, de outras experiências.
  4. Realização do que foi proposto em 3.

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O segundo ponto é a proposição de um mecanismo gerativo. Capaz de gerar o que? Aquilo que se quer explicar. Produz-se uma carga eletrostática nas nuvens, uma diferença de potencial se estabelece com a terra, salta uma faísca elétrica. Esse é o mecanismo gerativo. De que? Da faísca de luz que eu vejo. Não vou tratar de imitar o que disse o Dr.Bandeira com respeito a autoimunidade no camundongo de três dias ao qual se remove o timo. O mecanismo gerativo é constitutivamente proposto ad hoc para que, como resultado de seu operar dê origem à situação que se quer explicar.

O terceiro ponto é a dedução de outras experiências a partir de tudo o que está implícito no ponto 2 e do que é necessário fazer para ter essas outras experiências. No ponto 2, Franklin propôs que o raio é uma faísca elétrica que salta entre as nuvens e a terra quando se estabelece uma diferença de potencial porque as nuvens se deslocam e roçam na atmosfera gerando uma carga eletrostática. Isso implica todo um conjunto de coerências experienciais; implica a noção de carga elétrica, a noção de corrente, etc. Quer dizer, se são produzidas cargas eletrostáticas e diferenças de potencial, posso deduzir que: se eu puser um fio condutor entre as nuvens que estão carregadas eletrostáticamente e têm uma certa diferença de potencial com a terra, deveria se produzir uma corrente elétrica capaz de carregar um condensador.

O quarto ponto consiste em fazer o que foi deduzido em 3. Se o que foi deduzido efetivamente ocorre, então, o que foi proposto em 2 torna-se uma explicação científica. Então Franklin eleva um fio condutor conectado a um condensador até as nuvens, usando um papagaio em um dia de tempestade, o condensador se carrega e Franklin diz: ” Expliquei cientificamente o raio”.

Surge uma explicação cientifica no momento em que essas quatro condições se satisfazem. Vocês sabem muito bem disso porque isso se parece muito ao método experimental. Mas, por favor, notem que eu não estou falando de fenômenos, não falei de previsões. Falei de experiências que vivemos, falei de deduções, falei do que o observador faz. As explicações científicas têm a ver com aquilo que o observador, ou a observadora fazem. Não têm a ver com um mundo independente do observador ou da observadora.

 

Dispensando a referência a um mundo objetivo independente

Prestem atenção, em nenhuma parte do que eu disse aparece a suposição de que estamos fazendo referência a uma realidade independente do observador. Tudo isso são coerências no viver do observador. Coerências do que se passa com o observador. As explicações científicas explicam o viver do observador.

Usei, intencionalmente, a Benjamin Franklin em meu exemplo porque ele é o criador de um montão de coisas na Física da eletricidade. De modo que não estou falando de nenhuma coisa “oculta”. Isto é válido para a Física, para a Astronomia, para a Biologia, para a Imunologia, para o que for. Porque isto é o que fazemos ao explicar cientificamente. O que explicamos cientificamente é a experiência do observador. E que é a experiência do observador? O que o observador distingue que se passa com ele.

Quando vem um aluno e diz ao professor: “Doutor, eu quero estudar tal coisa da Física, quero ser seu aluno.” O Professor diz “Venha estudar comigo esse fenômeno” e esse estudante não consegue ter as experiências que quer estudar, o Professor diz “Infelizmente, você não tem inclinação para isso”. Porque? Porque não consegue ter as experiências. Porque o que manipulamos no explicar científico são experiências que se passam com o observador.

Notem que aqui há dois aspectos interessantes para destacar. De onde surgem os itens 1 e 2 na Tabela 1? De onde surge a experiência a explicar? Nós cientistas falamos como se os fenômenos existissem com independência de nós. O cientista diz: “nos encontramos com tal coisa…” falam como se ali estivesse algo que foi encontrado. Mas não nos movemos assim pelo mundo e não achamos essas coisas a menos que nós as encaremos de uma certa forma, a menos que tenhamos uma certa atitude. Por que? Porque aquilo que “encontramos” não encontramos, mas sim retiramos (sacamos) de nossa experiência.. A experiência a explicar nós a retiramos de nosso viver.

 

O explicar

Humberto Maturana

Facultad de Ciências, Universidad de Chile, Santiago

[1] Trecho de palestra durante o Curso de Imunologia básica, XVIII Congresso da Sociedade Brasileira de Imunologia, Aguas de Lindóia, SP, 21/09/93. Transcrição e tradução: Nelson Vaz e Cláudia Carvalho, ICB-UFMG. Apenas a parte inicial da palestra foi gravada.