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O fantasma na máquina imunológica

O fantasma na máquina imunológica[1]

Nelson Vaz

2010

              Introdução

“O fantasma na máquina” é uma expressão criada pelo filøsofo inglês Gilbert Ryle (1900-1976) em seu livro “The Concept of Mind” (Ryle, 1949), uma forte crítica ao dualismo de Descartes. Mais tarde esta expressão foi adotada como titulo de um livro por Arthur Koestler (1967) e desenvolvida em outro de seus livros – “Janus, a summing up“ (Koestler, 1978).

Neste ensaio, proponho que a imunologia básica adotou um rumo equivocado ao interpretar a formação de anticorpos como uma manifestação cognitiva do organismo, como se o corpo reconhecesse materiais estranhos (antígenos) – em suma, um estranhamento e uma intencionalidade materializada na mobilização de mecanismos de defesa. Ainda no século XIX, crianças com difteria foram salvas da morte por transfusão do soro de animais de grande porte (bois, cavalos) vacinados intensamente contra a toxina diftérica (soroterapia). Essa interpretação definiu a natureza dos anticorpos como reagentes bioquímicos específicos produzidos pelo organismo em resposta à invasão de materiais estranhos (antígenos). No laboratório clínico, e em outros campos da imunologia aplicada, esta noção é perfeitamente legítima e é utilizada em um infinidade de diagnósticos (sorologia). Por outro lado, na imunologia básica esta idéia representa um grave equívoco. É a esta diferença e à denúncia deste equívoco que endereço este ensaio.

 

Organismos e pessoas

Nós, seres humanos, existimos simultaneamente como seres vivos (mamíferos, primatas, Homo sapiens sapiens) no domínio da estrutura molecular/celular de nossos corpos. Existimos também como pessoas em um domínio relacional onde são decisivos o pensamento e a linguagem. Embora simultâna, nossa vida nestes dois domínios não se mistura: o que ocorre no domínio das relações está enlaçado numa trama de idéias, imagens, símbolos, culturas, ideologias, que influenciam, mas não determinam (não especificam, não guiam) o que ocorre no domínio corporal/estrutural. Reciprocamente, os estados de nossos corpos, as emoções que nomeamos como prazer, dor, alegria, angústia, tristeza, influenciam, mas não determinam (não especificam, não guiam) o que se passa em nossas relações. Essas são considerações importantes, porque no discurso médico e biológico há uma pesada carga de metáforas, isto é, palavras que tendem a violar a separação entre estes dois domínios e nos fazem supor que há relações verdadeiras entre fenômenos nestes dois domínios. A idéia de anticorpos como elementos de defesa formados pelo corpo exemplifica esta confusão de domínios de descrição.

Estruturalmente, anticorpos são proteínas conhecidas como imunoglobulinas e surgem como parte da dinâmica de construção e manutenção do tecido linfóide (onde se formam linfócitos) de organismos vertebrados mandibulados. As imunoglobulinas e o tecido linfóide surgem junto com o organismo e, obviamente, não têm uma existência independente. Por sua vez, anticorpos específicos são rótulos funcionais que colamos em imunoglobulinas e, portanto, surgem durante observações imunológicas, são criados nestas observações. Mas, supostamente, existiriam previamente, como tais anticorpos, na dinâmica do corpo. Nesta suposição reside o equívoco que busco explicitar. O equívoco está em imaginar que:

 

é o organismo que especifica as imunoglobulinas como anticorpos, quando, na         realidade, quem especifica (identifica, define) os anticorpos é o imunologista.[2]

 

Neste ponto, corremos o risco de deslizar para discussões sobre a objetividade/subjetividade da prática científica e a natureza das realidades que experienciamos. Quero evitar este desvio, mas reconheço que minha alegação é grave. Se levada a sério, ela denuncia que investigar a formação de anticorpos específicos como parte da fisiologia do organismo é um equívoco. Para estudar a fisiologia do organismo e a organização do sistema imune deveríamos estudar a formação de imunoglobulinas naturais, que surgem espontaneamente no organismo. sem a necessidade de estimulação antigênica. Até o momento, no entanto, anticorpos e imunoglobulinas são considerados sinônimos e, portanto, esta afirmação não faz sentido, porque colide com a visão ditada pela teoria oficial.

 

A teoria oficial

Diferentemente da Genética e da Fisiologia, que nasceram do estudo de plantas e animais, a Imunologia surgiu como uma extensão da Bacteriologia médica, logo após o enunciado da Teoria dos Germes, de Pasteur (1878), que propunha uma causa microbiana para as doenças infecciosas e propunha também a possibilidade de criar vacinas específicas contra as mesmas. A Imunologia é uma ciência “biomédica”, ou seja, apesar de ser uma área de fronteira na pesquisa biológica, a imunologia está históricamente ligada às doenças humanas. As teorias imunológicas buscam esclarecer os mecanismos de resistência a doença e contêm alegações, muitas vezes veladas e admitidas tacitamente sobre sua causa e natureza.       Parafraseando Gilbert Ryle[3] eu diria:

 

“… há uma doutrina sobre a natureza e a causa das doenças que é tão prevalente entre os cientistas, médicos e leigos que merece ser descrita como a teoria oficial. A maioria das pessoas adere, com pequenas restrições, às suas principais afirmações e, embora admita que a teoria tem algumas dificuldades, tende a admitir que estas podem ser resolvidas sem modificar seriamente sua arquitetura. Aqui argumentarei que os princípios centrais dessa teoria são inválidos e entram em conflito com tudo o que sabemos sobre a natureza das doenças quando não estamos especulando sobre suas causas.”

 

Um conto de Isaac Asimov

Descrevo brevemente um conto de ficção científica de Isaac Asimov (1956)[4] como exemplo do uso de entidades abstratas como princípios explicativos. O conto, intitulado “A última pergunta”, tem como frase final a frase latina Fiat lux (Faça-se a luz), que aparece na Gênese bíblica – “E disse Deus, “Faça-se a luz, e a luz se fez”. “A última pergunta” a que o conto se refere indaga se o Segundo Princípio da Termodinâmica pode ser revertido; em outros termos, se é possível criar energia. De acordo com o Segundo Princípio, a energia nunca é criada, mas sim transformada de uma forma em outra. Toda forma de energia pode ser transformada totalmente em calor e toda vez que uma forma de energia é transformada em outra – por exemplo, eletricidade em luz, ou energia química em eletricidade – uma parte “se perde” em calor. Ao produzir luz a partir de eletricidade, a lâmpada se aquece; o prego enfiado a marteladas na madeira, se aquece. O calor é a forma, digamos, mais degradada de energia e a idéia expressa no Segundo Princípio implica em que o Universo caminha inexoravelmente para uma “morte térmica”, na qual mesmo o calor tenderia ao zero absoluto, todas as estrelas se apagarão e todo o movimento molecular terá cessado. Tudo terminará escuro, imóvel e gelado.

No conto de Asimov, muitos trilhões de anos no futuro, um computador ultra-potente, cósmico e imaterial, criado pelo Homem, mas que não mais existe no espaço, e sim em forma imaterial em um hiper-espaço, prossegue sozinho na tarefa de computar uma resposta para “A última pergunta”. Finalmente, encontra a resposta, mas não sabe o que fazer com ela, pois não tem a quem contá-la. Decide, então, fazer uma demonstração e comanda: “Fiat lux ”. E surge o Big Bang. Assim, o conto inverte as crenças religiosas e descreve um universo cíclico, que morre termicamente mas é recriado por um computador cósmico e imaterial. Tal computador, que não mais existe no espaço (é imaterial) passa a ser a origem de tudo, corresponde à imagem de um Criador, assim como é concebido em muitas religiões, ou seja, um poder transcendente que, embora oculto e imaterial, é o Criador da matéria.

Em diversos domínios, princípios invisíveis ou ocultos são adotados como explicação do que se passa. Assim, na Economia, a mão invisível é uma metáfora criada pelo economista Adam Smith (1904) em seu livro The Wealth of Nations (A Riqueza das Nações) e em outros textos. Smith argumentou que, em um mercado livre, um indivíduo em busca de sua própria fortuna tende também a promover o bem de sua comunidade como um todo, através de um princípio que ele chamou de a mão invisível, pois a riqueza da sociedade como um todo representa a soma total das riqueza de seus membros.

 

A tese de Gilbert Ryle

Gilbert Ryle foi um filósofo inglês que insistiu em que também a consciência humana, como concebida por Descartes e outros filósofos do século XVI e XVII :

 

“ …é uma entidade abstrata que existe fora do espaço e não está sujeita a leis mecânicas que se aplicam a todos os outros corpos no espaço. Enquanto, a vida corporal de um homem é um acontecimento público tanto quanto são as vidas dos animais e répteis e mesmo o desempenho de árvores, cristais e planetas, a operação de uma mente não é testemunhável por outros observadores; seu desempenho é privado.” (Ryle, 1949)

 

Essa doutrina defende uma hipótese que Ryle denominou de o “fantasma na máquina”, expressão depois usada por Arthur Koestler para o titulo de um livro. Dizia Ryle que:

 

“… esta doutrina (do “fantasma na máquina”) é inteiramente falsa, e falsa não em detalhe, mas em princípio. Não é meramente uma coleção de erros particulares. Ela é um grande erro e um erro de um tipo especial, um erro de categoria. Ela representa os fatos da vida mental como se eles pertencessem a um tipo ou categoria (ou conjunto de tipos ou categorias), quando realmente eles pertencem a outro.” (Ryle, 1949).

 

Fantasmas na máquina

Tanto na mão invisível de Adams, quanto na ficção científica de Asimov, como na consciência humana descrita como um fantasma na máquina na filosofia de Ryle, há um poder oculto que transcende a matéria, mas a governa e organiza. Um poder análogo pode ser descrito na história da Biologia de alguns séculos atrás, que estudava a “Grande Cadeia do Ser”. Esta cadeia tinha em seu topo Logos, a mente suprema, a inteligência divina; abaixo dela, os santos, os arcanjos e anjos; o humano ocupava algum nível intermediário, acima dos macacos e dos outros animais; então, as plantas, os musgos e liquens, até as pedras. Segundo Gregory Bateson (1980), o responsável pela inversão desta “Grande Cadeia do Ser” foi Lamarck , ao imaginar uma escala ascendente de complexidade para os seres vivos, na qual seres mais simples foram os primeiros a surgir e deram origem a seres mais complexos, uma idéia conhecida como “transformismo”, mais tarde expandida por Darwin em sua “Origem das Espécies” e em grande medida aceita pela Biologia moderna.

Ao abrir mão de um poder que transcende a matéria como explicação dos seres vivos, essa inversão da “Grande Cadeia do Ser” coloca a explicação dos seres vivos em seu próprio viver. Essa é a ruptura fundamental que opõe os adeptos das diversas modalidades de “criacionismo” a Darwin e à Teoria da Evolução, ou, em uma escala mais ampla, coloca religiosos e místicos em confronto com “materialistas”. Assim como o computador cósmico de Asimov, o poder divino presente nas religiões também permanece oculto, imaterial e não pode ser explicado em termos materiais. Aos religiosos, soa como blasfêmia imaginar que o estudo dos seres vivos e da biologia humana, por si só, possa chegar a uma explicação convincente da origem e natureza humanas. Principalmente, a religião rejeita a idéia de que a consciência humana e nosso “livre arbítrio”, nossa intencionalidade, possa ter uma origem material.[5]

 

Um fantasma imunológico

Assim como na biologia evolutiva, a biologia experimental de que se ocupa a Imunologia, tem como finalidade última a proposta de uma explicação material (genética/molecular/celular)para a atividade imunológica, ou seja, um mecanismo que mostre como aquilo que pode parecer imaterial e abstrato, tal como o “estranhamento” ou “reconhecimento” de materiais “estranhos” e a “memória imunológica”, pode surgir não-intencionalmente da dinâmica de células e moléculas Não é por acaso, que os imunologistas se referem a “células de memória” e a “linfócitos T-supressores” ou “T-reguladores”. Mas estes termos ainda podem ocultar o mesmo grande equívoco. O princípio geral que orienta a Imunologia desde suas origens continua sendo a imunidade específica, um princípio de natureza cognitiva, que permanece oculto e transcendente, apesar das tentativas de descrevê-la em termos celulares e moleculares. Explico melhor.

Há situações nas quais um substrato material (celular, molecular) para a imunidade específica pode ser claramente descrito. Um bom exemplo é o teste de Shick, que testa a imunidade humana à difteria. Quando uma pequena dose de toxina diftérica é injetada na pele humana, em algumas horas surge um pequeno ponto hemorrágico. Nas pessoas imunes à difteria, esta lesão não aparece porque anticorpos específicos (antitoxinas) neutralizam a toxina. Portanto, a presença desses anticorpos no sangue pode ser tomada como o correlato molecular da imunidade específica à difteria. Algo semelhante pode ser pensado em relação a algumas viroses nas quais existe uma passagem inicial do vírus pelo sangue (viremia); nestes casos, a presença de anticorpos anti-vírus é um correlato molecular da imunidade antivírus. Mas exemplos como estes são limitados. A busca, por exemplo, de um correlato molecular (ou celular) para imunidade ao HIV (Heeney et al., 1999), à malária ou à tuberculose e um sem número de outras doenças, tem se mostrado frustrante (Panchanathan et al., 2008). Em outras palavras: não sabemos explicar a imunidade para a maioria das doenças e, em parte por isto, não sabemos inventar novas vacinas.

 

Anticorpos como antídotos específicos

A idéia de que os anticorpos são dirigidos a alvos muito bem definidos surgiu em 1890 – a especificidade imunológica-, com a caracterização dos primeiros anticorpos, por Behring e Kitasato, que foram anti-toxinas contra as toxinas diftérica e tetânica. Estas toxinas, que haviam sido isoladas poucos anos antes do meio de cultura onde cresciam as bactérias, produzem por si mesmas os sintomas do tétano e da difteria quando injetadas em animais. No soro de animais que sobreviveram a repetidas injeções de pequenas doses dessas toxinas foram colhidas substâncias (“corpos”) que funcionavam como antídotos específicos, mais tarde chamadas de anti-corpos. Em pouco tempo, antitoxinas diftéricas obtidas em grande quantidade em vacas ou cavalos, foram usadas para salvar crianças da morte por difteria. Esse foi um desenvolvimento espetacular da Medicina. Mas foi também uma proposta poderosa sobre o entendimento das doenças infecciosas – a ação de toxinas – e sua cura, ou seja, a produção de antitoxinas específicas pelo organismo. Uma hipótese bioquímica explicava em um só golpe as doenças e sua cura e este sucesso prático teve consequências imediatas. Pelo mundo afora foram criados institutos voltados para a “soro-terapia” e soros de animais injetados com os mais diversos micróbios e produtos microbianos foram testados em muitas doenças humanas.

Os resultados da soroterapia, porém, foram decepcionantes. O tétano e a difteria são doenças causadas por exo-toxinas que os bacilos tetânico e diftérico secretam a partir de lesões superficiais e que se espalham pelo corpo através da circulação, chamadas exotoxinas. Essa é uma situação que pode ser modificada pela injeção de antitoxinas porque elas neutralizam as toxinas no sangue, antes que elas atinjam seus locais de ação nos tecidos do corpo. Mas este mecanismo não se aplica a doenças nas quais exo-toxinas não são o principal mecanismo patogênico, como é o caso da enorme maioria das doenças infecciosas. A soroterapia, portanto, ficou restrita a um pequeno numero de condições médicas. Mas nunca deixou de afetar o pensamento médico. Anticorpos ficaram sendo entendidos como antídotos neutralizadores e benéficos produzidos pelo organismo com esta finalidade.

 

Anticorpos como reagentes de laboratório

A caracterização dos anticorpos teve outras consequências importantes. Uma delas foi a criação do diagnóstico sorológico, isto é, o diagnóstico de doenças pela detecção de anticorpos específicos no soro de pacientes, isto é, pelo uso de anticorpos como se fossem reagentes bioquímicos específicos. A presença de anticorpos específicos no soro de pacientes e de animais experimentalmente infectados, passou a ser usada como evidência dessas doenças, como na reação de Widal, para o diagnóstico da febre tifóide. Rapidamente se organizou toda uma área de trabalho no laboratório clínico, conhecida como sorologia. Testes para o diagnóstico de doenças importantes, como a sífilis, envolveram a chamada “reação de Wasserman” que utilizava a ativação de enzimas do plasma, conhecidas como o “sistema Complemento”, caracterizado por Bordet. Enfim, o uso de anticorpos para o diagnóstico laboratorial se estabeleceu como um ramo importante da medicina. Tornou-se um ponto secundário no diagnóstico das infecções, saber se tais anticorpos participam ou não da patogenia ou do restabelecimento do organismo.

A “reação de Wasserman” para o diagnóstico da sífilis, doença muito importante na era pré-antibiótica, foi extensamente discutida em um livro de Ludwig Fleck – “Gênese e Desenvolvimento de um Fato Científico” (Fleck, 1935). Fleck usou a reação de Wasserman como exemplo de como uma idéia pode ser distorcida sem perder sua grande utilidade. Não havia, nem há ainda evidência de que os anticorpos detectados pela “reação de Wasserman” participam da defesa do organismo contra a sífilis e nem sequer se tais anticorpos reagem com a bactéria responsável pela sífilis, o Treponema palidum. Apesar disto, a reação de Wasserman manteve sua importância medica e social intocada.

Há vários outros exemplos de diagnóstico “sorológico” nos quais a relação entre a natureza dos antígenos e a especificidade dos anticorpos não tem pertinência ao mecanismo do adoecer. Em resumo, os anticorpos passaram a ser usados como reagentes bioquímicos específicos em uma variedade de outras áreas de “imunologia aplicada”, variando da antropologia à hematologia, à sistemática bacteriológica.

 

Anticorpos como armas do fantasma

Mais importante, o entendimento de anticorpos como reagentes bioquímicos específicos formados pelo organismo como uma forma de defesa contra a invasão de materiais estranhos, inadvertidamente ou não, criou o fantasma da máquina imunológica, ou facilitou enormemente sua criação. Na mente popular, os anticorpos são vistos como elementos capazes de destruir os micróbios invasores; isto não é verdade, as molécula de imunogobulinas não são tóxicas e não podem destrui-los diretamente, embora possam ativar enzimas destruidoras e faciltar a ação de células que fagocitam (englobam) os micróbios e os destroem. O mais grave, porém, é que são poucos os exemplos nos quais se conhece como agem efetivamente os anticorpos na resolução de doenças.

 

A despeito disso, primeiro no estudo de doenças infecciosas e mais tarde na pesquisa sobre doenças alérgicas e autoimunes, o fio condutor dos imunologistas básicos passou a ser um princípio cognitivo, como se o organismo possuísse um poder discriminatório de alta sensibilidade, capaz de reconhecer diferenças sutis entre seus milhares de componentes moleculares e moléculas produzidas em outros organismos (antígenos) e fazer respostas imunes específicas contra as mesmas, um estranhamento. Como consequência direta deste entendimento, metade da imunologia básica atual se dedica a entender como o corpo forma anticorpos contra materiais estranhos e a outra metade a entender um problema criado nos anos 1950, que é: como ele evita formar anticorpos contra seus próprios componentes: a tolerância natural.

Na realidade, não é assim o que o corpo opera.

 

Um falso enigma

Os principais desenvolvimentos na história da Imunologia são bem conhecidos (Silverstein, 1988) . Poucos depois de Behring e Kitasato caracterizarem as antitoxinas, Paul Ehrlich mostrou que a formação de anticorpos específicos não está restrita a reações a toxinas ou bactérias. Anticorpos podem ser formados contra uma enorme variedade de substâncias, que variam de proteínas vegetais a hemácias de outros indivíduos da mesma espécie. Pelo uso de hemácias como “antígenos”, Karl Landsteiner logo caracterizou os anticorpos “naturais” quecaracterizam os grupos sanguíneos ABO, que surgem sem imunização prévia. Em seguida, em uma longa série de trabalhos, o mesmo Landsteiner mostrou que anticorpos podem ser formados contra pequenas moléculas ligadas artificialmente a proteínas (haptenos) e que estes anticorpos são capazes de detectar detalhes sutis da estrutura molecular, por exemplo, mudanças na posição de um simples átomo de oxigênio ou de um grupamento nitro (NO2).                Criou-se, então, a idéia de que cada organismo é capaz de produzir um imensa variedade anticorpos distintos, inclusive para moléculas artificiais, que nunca existiram antes na natureza . Cada um desses anticorpos é visto como capaz de se ligar a um dado antígeno e que, portanto, as reações antígeno-anticorpo se dão em uma base unívoca, um-a-um. Para cada detalhe antigênico pode surgir em uma variedade infinita nas entranhas de cada organismo vertebrado, seja ele um elefante, ou um pequeno girino de sapo.

Assim entendida como a essência da atividade imunológica, a formação de anticorpos, de forma explícita ou camuflada, sugere a conciliação entre duas propriedades incompatíveis: uma especificidade sofisticada, capaz de detectar diferenças sutis; e, uma versatilidade ilimitada, que permitiria a todo e qualquer organismo reagir de forma particular (específica) a todo e qualquer material estranho à sua composição.

 

Este é um falso enigma. A idéia de que o organismo forma um anticorpo para cada antígeno, não corresponde às evidências experimentais. Apenas alguns dos múltiplos detalhes estruturais de macromoléculas funcionam como detalhes antigênicos (epitopos), isto é, reagem com anticorpos. Mas, para cada um desses detalhes (epitopos), cada organismo possui centenas de imunoglobulinas diferentes, todas capazes de ligar “específicamente” o antígeno, com diferentes afinidades de ligação; isto é, algumas se ligam fortemente, outras muito fracamente. A variedade de anticorpos formados varia durante as respostas imunes e aqueles que surgem em respostas repetidas ao mesmo antígeno (secundárias), são diferentes dos formados em respostas primárias.

 

As respostas imunes e a reatividade progressiva

As idéias sobre a reatividade imune “secundária” e a “memória” imunológica surgiram com as vacinas e a observação de que, em geral, os animais “respondem” de forma mais rápida, intensa e duradoura a um segundo contato com o mesmo antígeno. Isto sugere a criação e manutenção de uma “memória” do primeiro contato. A “memória” explicaria como agem as vacinas anti-infecciosas.

Em sua aparente simplicidade, este conceito orienta toda a pesquisa imunológica e o ensino da Imunologia, e, a nosso ver, o faz de maneira equivocada. As proteínas que ingerimos como alimentos, por exemplo, e os produtos da flora intestinal, também ativam mecanismos imunológicos, mas não desencadeiam respostas mais intensas a cada novo contato com o alimento. Pelo contrário, o organismo estabiliza essa reatividade em patamares e esta parece ser uma característica geral da atividade imunológica (Verdolin et al., 2001).

 

Um resumo da história dos anos 1950

Todas a teorias imunológicas são tentativas de traduzir em termos materiais (genéticos, moleculares, celulares) a capacidade de “reconhecer materiais estranhos” e de manter uma “memória” desses contatos. Estas teorias pretendem, na realidade, criar os músculos capazes de mover o esqueleto conceitual criado pelo fantasma na máquina imunológica.

Durante a primeira metade do século XX, a Imunologia se preocupou basicamente com a natureza de antígenos e anticorpos, enquanto que a Patologia estudava em detalhe os fenômenos inflamatórios. Os macrófagos eram supostamente as células responsáveis pela produção de anticorpos, pois era nos macrófagos que os antígenos se acumulavam ao invadir o corpo e parecia óbvio que os antígenos eram necessários para a produção dos anticorpos. Os linfócitos, onde está a verdadeira origem dos anticorpos[6] estavam certamente envolvidos nas reações inflamatórias, mas seu papel na atividade imunológica permaneceu desconhecido até os anos 1950.

Nos anos 1950, a importância de linfócitos na atividade imunológica surgiu do estudo da rejeição de transplantes de tecidos (Billingham, Brent and Medawar, 1953) e de tumores transplantáveis (Mitchison, 1954). Gowans mostrou que a drenagem crônica de linfa diminuíamuito a taxa de linfócitos circulantes (linfopenia) e tornava os animais imunodeficientes, mas a reposição de linfócitos restauravna a competência imunológica (ver Gowans, 1996).

No estudo da rejeição de transplantes de pele entre camundongos de linhagens geneticamente homogêneas de camundongos, Medawar e colaboradores mostraram que a exposição de animais neonatos a células de outra linhagem, podia tornar os animais tolerantes a transplantes da linhagem doadora que, de outra forma seriam inevitavelmente rejeitados; e que essa tolerância podia ser quebrada por uma transfusão de linfócitos de parceiros não-tolerantes (Billingham, Brent and Medawar, 1953).

Dois anos mais tarde, Niels Jerne sugeriu aquela que talvez seja a idéia mais importante da Imunologia moderna: a produção de imunoglobulinas (vistas como anticorpos naturais) ocorre antes do contato com antígenos; os antígenos apenas modificam (em geral, ampliam) sua produção. Nesta teoria, conhecida como a Seleção Natural da Produção de Anticorpos (Jerne, 1955) a produção de anticorpos é um processo espontâneo, parte da construção/manutenção do organsimo. Em 1959, Talmage dizia que a especificidade imunológica decorre da seleção de combinações especiais de imunoglobulinas naturais, ou seja, que epitopos e anticorpos estabelecem relações multívocas, muitos-a-muitos. Há sempre muito epitopos distintos em cada macromolécula e muitas imunoglobulinas reativas com cada um deles. Infelizmente, essa não é a idéia dominante e, em geral, os imunologistas trabalham como se devessem explicar uma dinâmica de relações unívocas, um-a-um, entre antígenos (epitopos) e anticorpos.[7]

Jerne (1955) não explicou a origem celular dos anticorpos, nem se preocupou em detalhar um mecanismo para a tolerância imunológica. Logo depois, Burnet (1957-1959) propôs uma modificação da teoria de Jerne que continha uma explicação para estes dois pontos. Propôs que estava nos linfócitos a origem dos anticorpos e que cada linfócito surgia no organismo capaz de formar um único anticorpo e que, se estimulado, se expandiria formando um clone de células idênticas; isto explicava a memória imunológica e as respostas secundárias. Imaginou-se um processo aleatório (mutações) capaz de gerar uma variedade imensa de linfócitos, que, no entanto, geraria linfócitos auto-reativos que precisavam ser eliminados (clones proibidos) do organismo, restando apenas os linfócitos reativos a materiais estranhos (Burnet, 1959).

A Teoria de Seleção Clonal

Embora criada há meio século, a Teoria de Seleção Clonal (Burnet, 1959) ainda domina a Imunologia. Como analogia à Seleção Natural sugerida por Darwin como mecanismo importante na origem das espécies, a Seleção Clonal propôs uma geração ao acaso de uma imensa variedade de linfócitos, cada qual com seu receptor específico, capaz de se expandir e formar um clone celular quando ativado pelo antígeno correspondente. As respostas imunes e a memória imunológica seriam explicadas por estas expansões clonais. Mas a geração dos receptores ao acaso criaria inevitavelmente muitos linfócitos auto-reativos e, assim sendo, a teoria precisa resolver esse problema adicional, que ela própria criou: deve haver uma “tolerância” aos auto-componentes, pois eles não podem funcionar como antígenos e desencadear expansões clonais progressivas. Há meio século a imunologia se debate com estes problemas.[8]

              A Teoria Clonal enfrentou graves problemas desde sua criação. Logo após a proposta da teoria (Burnet, 1959), Miller (1961) caracterizou a importância do timo e dos linfócitos T na atividade imunológica, algo que a Teoria Clonal não previra. Linfócitos T são produzidos no timo e não formam anticorpos, mas são importantes em “auxiliar” a produção de anticorpos. Em outras situações, os linfócitos T também “suprimem”ou “regulam” a atividade imunológica. Qualquer teoria imunológica deve conter uma explicação sobre a atividade de linfócitos T. Os linfócitos T e o timo foram rapidamente incorporados à Teoria Clonal, mesmo sem que se entendesse claramente sua natureza e mecanismos de ação.

Ao final dos anos 1970, Tonegawa e associados culminaram uma série de investigações em genética molecular com a demonstração de que mecanismos somáticos de rearranjo de segmentos gênicos operam na produção de imunoglobulinas. Entendeu-se finalmente como são criadas as regiões variáveis das imunoglobulinas, isto é, como é gerada a diversidade dos anticorpos. Em seguida, mostrou-se que algo análogo se passa na geração da diversidade dos receptores usados por linfócitos T, os TCR. Tais experimentos pareciam confirmar as previsões de Burnet na Teoria Clonal, cerca de vinte anos antes, de que o organismo gera uma imensa diversidade de linfócitos ao acaso, que interagem de forma unívoca com antígenos externos; e, além disso, evitam reagir aos auto-componentes (a “tolerância natural”).

 

Fenômenos imprevistos

Nesta mesma época, a situação se complicou em duas direções inesperadas. Primeiro, em experimentos sobre o controle genético das respostas imunes, vários laboratórios mostraram a participação essencial de proteínas conhecidas como “produtos do MHC”[9] na ativação de linfócitos T e na produção de anticorpos – um fenômeno que ficou conhecido como “restrição” pelo MHC e permaneceu sem explicação por 15 anos. Até então, os produtos do MHC eram estudados como “antígenos de transplantação”, ou seja, importavam apenas como obstáculos à aceitação de transplantes alogênicos, ou seja, entre indivíduos da mesma espécie. Subitamente, esses produtos do MHC passaram a ser elementos importantes da reatividade imunológica do próprio organismo.

Vinte anos de intensa investigação se passaram até que os produtos do MHC fossem caracterizados como moléculas “apresentadoras” de peptídeos aos TCR de linfócitos T durante sua ativação (Ada, 1994) . A produção de imunoglobulinas, que depende de linfócitos T, depende também do “processamento” e “apresentação” de peptídeos produzidos no fracionamento dos antígenos. Um detalhe perturbador, que raramente é levado a sério, é que quando esses peptídeos são analisados, encontra-se que a maioria deles tem origem em proteínas do próprio organismo. Assim, os linfócitos T estão quase sempre em contato com produtos do próprio organismo.

 

A teoria da rede: virtudes e fraquezas

Criando uma segunda direção inesperada, Niels Jerne publicou sua Teoria da Rede Idiotípica (Jerne, 1974), segundo a qual as próprias imunoglobulinas funcionam como “antígenos” para o mesmo organismo que as produziu e isto resulta no surgimento de anti-anticorpos – anticorpos “anti-idiotípicos” na terminologia proposta por Jerne. Mas, se existem anti-anticorpos, existiria também uma seqüência ilimitada de reações, uma regressão infinita, ou seja: anti-anti-anti…anticorpos: uma regressão infinita.

Jerne propunha algo mais sofisticado. Dizia que se forma uma “rede” de interações (a rede idiotípica) que, de alguma forma estabiliza a expansão de seus componente, se estabiliza, enfim através de condutas próprias (auto-condutas, Eigen-behaviors). Essa entidade global, essa rede de relações e não mais linfócitos ou anticorpos isolados, constituiria a fonte da atividade imunológica, uma primeira materialização do tão comentado “sistema imune”. Mas esta era uma idéia “adiante de seu tempo”.

Jerne foi, certamente, um pensador “adiante de seu tempo”. Nem mesmo hoje em dia ele é entendido pela maioria dos imunologistas! Desempenhou um papel único na história da imunologia e teve a seu dispor uma seleção de dezenas de imunologistas e recuros ilimitados, durante cerca de dez anos, enquanto funcionou como diretor do Basel Institute of Immunology. Suas idéias, apesar de conterem uma inovação brilhante, eram muito diferentes das tradicionais, foram fortemente antagonizadas principalmente por imunologistas norte-americanos e logo abandonadas, exceto por alguns grupos europeus.

Em seu texto de 1974, Jerne fala de uma idéia importante, inovadora, que teria um impacto semelhante à idéia de “seleção” que le introduzira na imunologia 20 anos antes e tornou insustentáveis as teorias “instrutivas” então vigentes. Mas, no restante do texto e em seus outros textos, ele não define qual seria esta idéia inovadora. Ela não poderia ser apenas a conectividade idiotípica, porque a idéia de anti-anticorpos, em vez de simplificar a compreensão, inicialmente a dificulta.

A nosso ver, esta idéia era a idéia de organização, que se confunde com a idéia de sistemas, ou seja, entidades compostas que mantêm invariantes certas relações entre alguns de seus componentes, relações que definem sua identidade de classe. Todas as árvores são diferentes, mas todas são árvores, enquanto mantêm uma dada organização, sua “arvoridade”. Da mesma forma, uma rede composta por linfócitos e anticorpos precisa manter uma organização, um fechamento certo sobre si mesma, para constituir um sistema imune. Fizemos ver isto a Jerne e publicamos um texto neste sentido (Vaz and Varela, 1978), mas permanecemos ignorados.

De qualquer forma, a Imunologia que emergiu dos anos 1970-80 era incompatível com os modelos simplificadores que a sustentavam até então. Dois conjuntos de experimentos desenvolvidos desde então tornaram estes modelos insustentáveis: a) a existência insofismável de uma “auto-reatividade fisiológica”; e, b) a “degeneração da especificidade” de linfócitos T e B. Estes são problemas que a Teoria Clonal é incapaz de resolver, mas precisamos muito mais que isto: precisamos de uma nova teoria na qual estas perguntas não façam mais o sentido que fazem hoje. Uma teoria que redefina a atividade imunológica e a descreva não mais em termos da expansão/contração de clones isolados de linfócitos.

Enfim, as teorias sobre redes de interação entre linfócitos foram tentativas de explicar a atividade de linfócitos de uma maneira sistêmica; falam de redes que se montam por si mesmas e conservam uma dada organização. Os fenômenos imunológicos podem ser vistos como perturbações da operação dessas redes, perturbações que podem ser desencadeadas por materiais externos ou pela própria dinâmica interna da rede linfocitária e suas interações com o organismo do qual essa fisiologia participa.

Precisamos de uma teoria que busque a fonte da atividade imunológica na fisiologia do organismo e não em materiais externos ao corpo, como estímulos antigênicos. Na realidade, há evidências bastante sólidas de que animais que são apenas minimamente expostos a antígenos desde o nascimento, chamados “antigen-free” desenvolvem uma parte de sua atividade imunológica em patamares idênticos aos de animais mantidos em condições convencionais. esta parcela da atividade imunológica, que vai até a síntese de IgM, pode se dar sem o contato com materiais externos ao organismo.

 

É proibido conhecer o conhecer

              Voltemos à necessidade de abandonar princípios explicativos como o “fantasma na máquina” e busquemos explicações na própria máquina e em suas interações com o meio em que ela opera. Para tanto, farei uma breve excursão às idéias de Humberto Maturana e sua Biologia do Conhecer e da Linguagem.

Nos capítulos iniciais de seu livro “A Árvore do Conhecimento. Bases Biológicas do Entendimento Humano” (1984), Maturana e Varela dizem que, em algum lugar, deve haver uma placa na qual está escrito “É proibido conhecer o conhecer”. É difícil aceitar a pergunta: “Como somos capazes de conhecer as coisas?” Usualmente, nos sentimos inseridos em uma realidade objetiva, em um mundo no qual nascemos e habitamos, e que conhecê-lo é um processo natural. Claro, na Filosofia, a pergunta pela natureza do conhecimento humano é central, assim como o é na Lingüística, na Psicologia e em muitas outras áreas de pesquisa, assim como é também um tema importante também nas artes, na sociologia, na política, etc. Mas, para a maioria das pessoas, a “consciência” é uma propriedade natural dos seres humanos e o apercebimento da realidade seria tão natural para nós quanto o vôo é para os pássaros e o nado para os peixes. Por isso, Maturana e Varela se queixam de que “É proibido conhecer o conhecer”, da dificuldade em voltar nosso poder de conhecer as coisas para o nosso próprio conhecer. Parece desnecessário conhecer o conhecer. Parece que isto simplesmente acontece conosco.

É difícil aceitar a pergunta pelo conhecedor em seu conhecer (o observador em seu observar) porque isto nos leva ao dilema que mencionamos na introdução: nos leva a localizar em nós mesmos, em nossa estrutura de seres vivos e em nossa conduta de seres humanos, a fonte de nosso conhecer – e não mais atribuí-la a uma consciência (uma alma, um espírito), algo abstrato que nos habita como um fantasma. O desconforto que esta idéia nos trás, tem uma profunda raiz cultural que envolve uma decisão similar a ruptura feita por Darwin, na “Origem das Espécies”, ao abrir mão de um poder transcendente como explicação para a origem da variedades dos seres vivos. Esta decisão nos leva a aceitar que há uma unidade entre “o conhecer” (aquilo que é mental) e a nossa natureza de seres vivos, algo que Gregory Bateson expressou no titulo de seu livro “Mente e Natureza: uma Unidade Necessária” (1980). Em outras palavras, a origem de nosso “conhecer” é indissociável de nossa origem como seres vivos. Para “conhecer o conhecer”, é indispensável conhecer o viver. São os seres vivos que “conhecem”.

Maturana pergunta quando, em nossas observações, somos levados a dizer que um dado ser vivo “conhece” algo. Ele conclui que afirmamos isso quando vemos o ser vivo agir no meio em que vive de uma maneira que consideramos eficaz, segundo critérios de eficácia que nós mesmos estabelecemos. Vemos aranhas tecer suas teias, encontrar presas e parceiros sexuais e evitar predadores; e afirmamos, cândida e irrecusavelmente, que as aranhas “sabem” viver como aranhas, que realizam seu viver com sua conduta especial. Essa é uma transição importante: do ser ao fazer – e é esse exatamente o titulo de um livro recente de Maturana, que descreve as origens da “Biologia do Conhecer e da Linguagem” (Maturana and Poerksen, 2004), o corpo de conhecimentos que ele criou através dos anos.

Vinte anos antes, na “Árvore do Conhecimento” (1984) Maturana e Varela criaram dois aforismas. O primeiro diz: “Tudo é dito por um observador[10]; o segundo diz: “Todo conhecer é fazer, e todo fazer é conhecer.” Que só fazemos aquilo que sabemos fazer, é fácil de aceitar. Mas, como afirmar que tudo o que fazemos é uma forma de “conhecer”? Usualmente o “conhecer” é atribuído aos seres humanos e a animais mais próximos dos humanos, sendo a similaridade a seres humanos um índice da sofisticação desse “conhecer”. Geralmente não atribuímos um “conhecer” a plantas, por exemplo. Mas não “saberiam” as plantas viver a seu modo? Não o “saberiam” os micróbios também? Para Maturana, a presença de um cérebro ou de sistema nervoso deixa de ser um pré-requisito para o “conhecer” e ele diz: “Viver, como um processo, é um processo cognitivo.” Todos os seres vivos sabem viver e quando desaprendem como se vive, morrem.

Maturana vê a linguagem humana – ou melhor, o linguagear humano – como um modo de viver, tipicamente humano, nossa maneira de “conhecer” é nossa maneira de viver. A linguagem humana deixa de ser a transmissão de informações simbólicas, como usualmente concebida na Lingüística, para se transformar em um modo de viver. Fora desse modo de viver não somos humanos, e uma criança penetra no mundo humano quando participa desse linguagear (Vaz, 2008). Nosso “conhecer”, o “mental” em nós, está em nossa conduta, em nossas ações, no que fazemos. Maturana afirma que: “A mente não está na cabeça: a mente está na conduta.”(Maturana, 1985).

Este é um argumento difícil e importante que coloca a atenção na conduta humana – um fazer de um tipo especial – e a desloca de algo que nos parece imaterial e oculto como é a nossa consciência, nosso fantasma na máquina. Maturana e seus colaboradores não se esquivam de abordar diretamente o tema da consciência humana (ver, Maturana, Mpodozis and Letelier, 1995; Maturana, 2008) mas sua maneira de abordar esse tema é inovadora e tem poucos paralelos na Biologia, na Psicologia ou na Lingüística. Piaget é outro pensador que coloca a conduta como motor da evolução (Piaget, 1976), mas sua abordagem é bem diferente da de Maturana.

 

O imunologista na observação imunológica

Em um primeiro movimento, vamos opor, de um lado, uma consciência humana que não está na cabeça, mas sim na conduta (Maturana, 1985); que não é material, embora dependa do corpo, que é seu substrato material. Pelo outro lado, consideremos a mão invisível de Adams; e o super-computador imaterial que cria o Big-Bang no conto de Asimov; e todos esses fantasmas que existem fora do espaço e são ocultos, enquanto que os seres vivos são visíveis e existem no espaço como objetos materiais, como insistia Ryle (1946). Em um segundo movimento, vou esclarecer como essa noção de uma mente intencional contaminou e se ligou aos princípios que sempre governaram a imunologia e porque, a meu ver, estes princípios estão equivocados.

Os últimos 30 anos de meu trabalho como imunologista foram muito influenciados por meu contato pessoal, iniciado em 1978, em Denver, com Francisco Varela e, pouco mais tarde, em 1981, com seu mentor Humberto Maturana, em Santiago do Chile. Varela (já falecido) e Maturana, neurobiólogos/pensadores chilenos, são muito conhecidos por neurobiólogos e por todos aqueles interessados no que hoje se chama de “ciências cognitivas”. Já de volta ao Brasil, organizei em 1982 um simpósio durante a reunião anual da SBPC, na Unicamp, para o qual convidei Varela e Maturana. Convidei também o imunologista português Antonio Coutinho, já então internacionalmente famoso, e ainda o Prof. O. Frota-Pessoa, como uma espécie de advogado do diabo a nos manter os pés no chão. Nesse simpósio e mais ainda no decorrer dos anos 1980, dei-me conta de que as abordagens de Varela e Maturana ao problema do “conhecer” eram fundamentalmente diferentes entre si e que minha inclinação era nitidamente de aceitar o que Maturana propunha. Assim sendo, embora o meu único trabalho publicado com uma inclinação “cognitiva” tenha sido escrito em colaboração com Varela (Vaz and Varela, 1978), minha postura se alinha melhor com as idéias de Maturana – e as de seu colaborador Jorge Mpodozis. Devo também muito de meu entendimento a uma longa associação, na UFMG, com a linguista Cristina Magro (Maturana, 1997; Magro, 1998), a quem devo muito de minha formação.

A associação de meu interesse, como imunologista, a problemas discutidos nas “ciências cognitivas”, é fácil de entender. Inadvertidamente ou não, os imunologistas se apóiam em termos nitidamente “cognitivos” em tudo o que fazem. A imunologia trata do “reconhecimento” de materiais “estranhos” ao corpo e de como o corpo constrói e guarda uma “memória” desses acontecimentos. Esta não é apenas uma forma “figurada”, ou didática de falar: é a única linguagem disponível na imunologia. Se termos como “anti-corpos” e “células de memória” ou “linfócitos reguladores” são metáforas, eles são metáforas de algo indefinido até o momento. A imunologia foi criada, cresceu e ainda sobrevive dentro de um contexto estímulo-resposta e, teoricamente, está hoje onde a Psicologia behaviorista estava nos anos 1950 – um atraso teórico de meio século.

 

Esta abordagem tradicional aos problemas imunológicos é nada mais, nada menos, que uma versão do “fantasma na máquina”, mais uma versão do problema mente-corpo. Aqui também se trata de identificar e correlacionar aquilo que os seres vivos fazem – seu viver, sua conduta, sua aparente intencionalidade – com sua materialidade – seus organismos. Geralmente, o problema do “conhecer” é discutido em relação a animais dotados de um sistema nervoso, ou mais, de um cérebro, e mais particularmente, em relação aos seres humanos e sua intencionalidade. Mas isto deixaria de fora a imensa maioria dos seres vivos, que não possuem um sistema nervoso e, no entanto, vivem e agem perfeitamente em seu viver. Aí se incluem todas as plantas e todos os microorganismos. Na realidade, em uma perspectiva mais ampla, os animais dotados de um sistema nervoso neuronal constituem uma minoria quase insignificante que, só se torna importante em nossa visão antropocêntrica. A “Biologia do Conhecer” (Maturana and Poerksen, 2004), como Maturana intitula seu trabalho, se propõe a explicar como vivem os seres vivos, em geral. Mas também trata em detalhe particular dos seres humanos e do que eles fazem em sua maneira de viver, que inclui um incessante “linguagear”.

Claro está que estes problemas – como conhecemos, como falamos, como pensamos, etc. – são de interesse geral e extrapolam em muito o interesse sobre a imunologia. Mas podemos coletar algo do que já aprendemos de biologia e de imunologia para nos ajudar neste entendimento. Temos que resolver esta dualidade mente/corpo, ser/fazer. Frequentemente menciono versos de Ferreira Gullar, o poeta maranhense, que mostram, poeticamente, onde está o problema. O poema a que me refiro se chama “Teu corpo”[11], mas poderia ser chamado “Tua mente/corpo”. A dualidade mente/corpo delineada por Gullar, está também presente na biologia, na imunologia e na medicina, mas é mantida atrás de cortinas ou embaixo de tapetes. Quero trazer à baila essa discussão na imunologia. O que queremos dizer quando dizemos que “as vacinas nos protegem” ou que somos “alérgicos a amendoim”? Compreender melhor esses significados tem importância no que falamos e fazemos, nas perguntas que elaboramos e nos critérios pelos quais validamos, ou não, as respostas que ouvimos[12].

 

Domínios de descrição separados

Devemos separar tão nitidamente quanto for possível aquilo que Maturana chama de “domínios de descrição”; colocar o corpo em um “domínio estrutural” e aquilo que o corpo faz ao operar no meio em que vive, em um outro domínio, um “domínio relacional”. Colocar em um domínio a dinâmica estrutural que possibilita a dinâmica relacional que, no entanto, se dá em um outro domínio, separado. O que acontece em um destes domínios não determina, não estabelece, não orienta, não guia, não esclarece, o que se passa no outro domínio. Pode influenciar, perturbar, modificar – mas não determina.

Este é um passo bastante difícil em nosso caminho. Um passo necessário para evitar o que Maturana e Varela chamaram de “a falácia das interações instrutivas”; poderíamos dizer também das “a falácia das interações adaptativas”, ou das interações que determinam as acomodações, ou do ensino que determina a aprendizagem, como se o aprendiz aprendesse o que o professor ensina. Mas o ensino é biologicamente impossível; por outro lado, a aprendizagem é inevitável, incessante. Aprender é um aspecto trivial do viver de todos os seres vivos – porque, como diria Brecht “o que acontece fica acontecido/e a água que pões no vinho/não podes mais separar”.

O termo “adaptação”, tão importante na Biologia, sugere que ocorrem “interações instrutivas”, ou seja, que em suas mudanças, o ser vivo segue as mudanças do meio, se adapta, se acomoda, aprende o que o meio lhe ensina. Mas não é isso o que se passa. O ser vivo não obedece ao meio; segue vivendo de acordo com suas próprias diretrizes, faz o que pode, sempre faz o que sabe fazer. Quando o meio exige algo impossível, o ser vivo morre. Mesmo que o meio não exija isto dele, quando o ser vivo, desaprende como se vive, não consegue manter sua auto-produção nem sua congruência com o meio, ele se desintegra. Mas o que o ser vivo faz, em todos os momentos de seu viver, é determinado, estabelecido, orientado, guiado por sua própria estrutura; não pelo meio em que vive. O ser vivo não obedece ao meio: mantém sua adaptação, sua congruência com o meio; dentro de suas possibilidades, muda de acordo com as mudanças do meio; mas não obedece ao meio. O meio desencadeia mudanças das quais o organismo já era capaz.

Então, Gullar, o poeta, acerta ou erra quando diz: “O teu corpo muda/independente de ti”/Não te pergunta/ se deve engordar”? Ele erra, quando afirma que nosso corpo é independente do que fazemos, pois, dentro de limites, podemos adotar uma dieta e conseguir que o corpo emagreça, ou engorde. Por outro lado ele acerta porque o que o corpo faz, sua dinâmica estrutural se passa em um domínio muito diferente daquilo que fazemos como pessoas. O ser vivo que somos e a pessoa que também somos, vivem em mundos, em domínios distintos. O ser vivo opera e se constitui em um domínio molecular/celular. Maturana insiste em que as redes de processos de auto-produção (autopoiese) que nos constituem como seres vivos, são redes de processos moleculares. No domínio estrutural somos máquinas moleculares que produzem a si mesmas. Estas são as máquinas que operam e mudam “independentes de ti”. É esta máquina que diz ao teu corpo: morre, envelhece, mesmo que não o desejes e se queres continuar vivo e jovem por infinitas manhãs.

Mas quem se olha no espelho, toca o joelho, se senta de bruços na mesa, leva o cigarro a boca, traga e bate a cinza, és tu, pessoa. Uma pessoa que vive em um domínio diferente, onde existem mesas, cadeiras e cigarros, mas não existem moléculas. Eu, pessoa, não tenho moléculas, não tenho fígado ou próstata – exceto quando vou ao cirurgião e digo: “Doutor, altere a minha estrutura, porque me dói.”

Evidentemente, esta é uma peça do debate “mente/corpo” sobre o qual inumeráveis pensadores, cientistas, poetas e artistas têm se debruçado. Maturana não está sozinho quando insiste em que “mente” e corpo devem ser tratados em “domínios” diferentes. Em um de seus textos, ele afirma: “A mente não está na cabeça; a mente está na conduta.” (Maturana, 1985) O titulo de um de seus livros recentes é: “Do ser ao fazer” (Maturana and Poerksen, 2004).

Gilbert Ryle (1900-1976), o filósofo inglês,, assim como Maturana e muitos outros antes e depois deles, privilegiam a análise da conduta e negam que esses eventos tenham origem em uma entidade abstrata, não material, que “habita” o corpo, chame-se a mesma “consciência”, “alma” ou “espírito”. Ryle ataca, em especial, o dualismo mente/corpo defendido por Descartes e outros filósofos do século 17 e 18, segundo os quais “… a natureza é uma máquina complexa e que a natureza humana é uma máquina menor que contem um “fantasma” que explica a inteligência, a espontaneidade e outras qualidades hunanas.” Ryle afirmava que:

 

“…as operações da mente não são dissociáveis das ações do corpo. Elas são uma e a              mesma coisa. O vocabulário “mental” é meramente uma maneira diferente de descrever     ações.” (Wikipedia).

 

Finalmente, um exorcismo?

Inadvertidamente ou não, imunologistas do passado e do presente admitem um “corpo inteligente” capaz de “se defender” de materiais “estranhos”, tais como a agentes infecciosos; e de formar “anti-corpos” contra estes agentes além de guardar a “memória” de encontros com os mesmos (a “imunidade específica”). Admitem ainda que esta “imunidade específica” pode ser artificialmente aumentada por “vacinas”; que as reações alérgicas e as doenças alérgicas derivam de desvios inadequados desta “imunidade específica” que pode ser dirigida para agentes inócuos, tais como os presentes na poeira domiciliar, em alimentos ou medicamentos. E, finalmente, que ocorrem doenças “autoimunes”, que seriam derivadas de outros desvios desta “imunidade específica”, que passaria a “agredir” tecidos e órgãos do próprio corpo. Enfim, a explicação e o controle da “imunidade específica” e seus desvios (alergia e autoimunidade) constitui hoje e sempre constituiu o objetivo central e principal da imunologia.

Uma crítica da “imunidade específica” e tudo o que ela envolve, se levada a sério, teria enormes conseqüências para a imunologia e secundariamente para a medicina, que se apóia em conceitos imunológicos. Nossa responsabilidade seria esboçar uma outra maneira de encarar a atividade imunológica, que não esteja baseada em respostas a estímulos e na noção de imunidade específica. Esta é uma tarefa já iniciada. Resta completá-la.

 

 

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Anexo:

Teu corpo

 

O teu corpo muda

independente de ti.

Não te pergunta

se deve engordar.

 

É um ser estranho

que tem o teu rosto

ri o teu riso

e goza com teu sexo.

Lhe dás de comer

e ele fica quieto.

Penteias-lhe os cabelos

como se fossem teus.

 

Num relance, achas

que apenas estás

nesse corpo.

Mas como, se nele

nasceste e sem ele

não és?

Ao que tudo indica

tu és este corpo

– que a cada dia

mais difere de ti.

 

E até já tens medo

de olhar no espelho:

lento como nuvem

o rosto que eras

vai virando outro.

 

E a erupção que surge no queixo?

Vai sumir? alastrar-se

feito impingem, câncer?

Poderás detê-la

com Dermobenzol?

ou terás que chamar

o corpo de bombeiros?

 

Tocas o joelho:

tu és esse osso.

Olhas a mão:

tu és essa mão.

A forma sentada

de bruços na mesa

és tu.

Quem senta és tu,

que se move (leva

o cigarro à boca,

traga, bate a cinza)

és tu.

 

Mas quem morre?

Quem diz ao teu corpo – morre –

quem diz a ele – envelhece –

se não o desejas,

se queres continuar vivo e jovem

por infinitas manhãs?

 

Ferreira Gullar, In Barulhos,

José Olympio Editora, Rio, 1987

[1] Uma primeira versão (não divulgada) deste texto foi escrita em 19/10/2008.

[2] Este é um exemplo notável do que Erwin Chargaff apontava ao dizer que “reificamos o homem e colocamos a mente onde ela não existe” (Chargaff, 1978).

[3] Gilbert Ryle (1949) The Concept of Mind. Capítulo I: “O mito de Descartes”, frases iniciais.

[4] /www.multivax.com/last_question.html

[5] Na realidade, a afirmação de Maturana (1985) de que “a mente não está na cabeça”, mas sim na conduta, propõe uma explicação que não é material, e sim dependente de ações que, por sua vez, dependem de organismos perfeitamente materiais.

[6] linfócitos iniciam a produção de imunoglobulinas na ausência total de antígenos externos ao corpo.

[7] Mais recentemente, essa noção foi complicada pelo conceito de “degeneração” da especificidade (Wucherpfennig et al., 2007).

[8] A tendência atual é explicar que a auto-reatividade é contida por linfócitos T chamados “reguladores”; células apresentadoras de peptídeos a linfócitos T também participariam desta “regulação”.

[9] MHC, Major Histocompatilibity Complex, um “pacote” de genes responsável pela codificação das substâncias importantes na compatibilidade de transplantes entre indivíduos da mesma espécie.

[10] Mais tarde “Tudo é dito por um observador a outro observador, que pode ser ele mesmo”

[11] ver anexo, ao final

[12] Vaz, N. 2006 A demitificação do corpo imunológico In “Emoção art.ficial-3. Interface cibernética”. São Paulo, Itaú Cultural pp. 62-79. (Instituto Itaú Cultural, São Paulo,