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O fim da imunologia

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(com uma advertência (disclaimer) de que esta não é a opinião da SBI)

A hidra falante

Imaginem um monstro similar à Hidra da mitologia, com nove cabeças na ponta de longos pescoços, mas que, ao contrário do monstro ancestral, em vez de morder e cuspir fogo pelas muitas bocas, falasse. Falasse coisas diferentes e simultâneas pelas nove bocas. Impossível entende-la. Mas, hoje em dia, quando cada um professor entra em uma sala de aula, ele encontra uma plateia na qual cada aprendiz tem no bolso uma versão eletrônica de uma hidra falante de muitas cabeças, que pode lhe falar coisas interessantes, e eles não têm tempo para entender mais nada direito. Não sou nenhum Hércules e não nutro esperanças de lutar contra essas hidras, mas entendo um pouco da angústia dessa juventude porque ainda converso com cerca de meia dúzia de estudantes de Biologia a cada semestre. Já há alguns anos, aposentado, em vez de ficar em meus aposentos com o facebook, organizei um curso chamado “Imunologia e Autopoiese” no ICB da UFMG. Pelos critérios usuais, o curso é um fracasso. Ofereço vinte vagas e aparece no máximo uma dúzia de alunos; alguns deles pensam que se trata de um curso sobre “hemopoiese”; outros querem aprender mais sobre imunologia; mas já ouvi de outros ainda que eu não deveria e usar o termo “imunologia”, porque os alunos detestam esta disciplina por ser confusa demais. Neste curso eu admito a existência da hidra falante; na verdade, no decorrer das conversas no curso, espero que cada um de nós se transforme em uma das cabeças de uma hidra falante, e que as cabeças se entendam umas com as outras, porque, mesmo esta coisa múltipla está unida por seus pescoços a um só corpo, o corpo da hidra. Na verdade, é um curso sobre o fim da imunologia.

O fim da imunologia.

Em uma nota recente do London Review (of Books), Alan Bennet escreve: “No escaninho, estou no lugar marcado “não perigoso” e (mesmo) se eu cravasse um garfo de churrasco em uma artista famosa, eu ainda seria (visto como) um ursinho de pelúcia” ( “I am in the pigeon-hole marked “no threat” and were I to stab Judi Dench with a pitchfork I should still be a teddy bear.”) Esta carapuça me serve perfeitamente. Posso dizer qualquer coisa aqui e continuarei inofensivo. Por isso, vou falar do fim da imunologia.

Em 1969, Jerne escreveu sobre a solução completa da imunologia (Jerne, 1969), no qual diz diz que a geografia se tornou uma ciência completa quando se constatou que a Terra é redonda. Não que todos os detalhes de todas a praias e pântanos estivessem já descritos, mas que a tarefa da geografia estava compreendida, algo que não seria possível em uma Terra plana e potencialmente infinita. Meio século depois de Jerne, podemos perguntar se a imunologia já tem uma boa ideia de qual seja sua tarefa. Particularmente, creio que não tem não.

A imunologia não pode ser uma ciência completa por várias razões (que falta me faz agora uma hidra falante!). Entre muitas razões, uma razão importante é sua origem na medicina; ela não nasceu do estudo de plantas e animais, nasceu na patologia humana, com a missão de inventar vacinas. Nestes cerca de 130 anos de pesquisa a solução deste problema ainda nos escapa. Apenas ministros e dirigentes brasileiros conseguem, compenetrados, prometer vacinas ao público, mesmo sabedores de que o sucesso é improvável. As vacinas que conseguimos são produtos de experiência-e-erro; não conhecemos ainda os princípios gerais de proteção imunológica, se é que existe algum. Então, para inventar uma nova vacina, demora.

A defesa do corpo

Desde o início, a imunologia se nutriu de um animismo velado, da ideia de que o corpo “estranha” materiais que não lhe pertencem e providencia sua eliminação. Claro, isto é impossível, é apenas uma metáfora didática. Mas é mesmo? Uma metáfora de quê? Não é realmente uma metáfora porque é a única maneira de pensar na imunologia, aceita pelo público, por não-especialistas e (ainda) pela maioria dos imunologistas. É isso o que todos os livros-texto descrevem para geração após geração de aprendizes. Que o corpo se defende. Mas a “defesa” é um resultado do que acontece. Não existe um “mecanismo dedicado” à defesa. A crença na defesa é insustentável por muitas razões mas vou citar, rapidamente, apenas três.(Quieta, hidra minha!)

(1) A univocidade, a ideia de que a cada detalhe antigênico (epitopo) corresponde um anticorpo – um receptor (paratopo) linfocitário (BCR, TCR), uma imunoglobulina. Já sabemos que há centenas de milhares de paratopos para cada epitopo; e que esta gigantesca “degeneração da especificidade” imunológica é a fonte s de sua plasticidade. E que os receptores já estão lá quando o antígeno eventualmente aparece; são parte da construção do corpo.

(2) A mereologia, o equívoco de confundir a parte com o todo. Tratar o sistema imune (os linfócitos, os paratopos) como se agissem por si mesmos, quando não há verdadeiramente ação alguma, a não ser a incessante (auto-)construção/manutenção do organismo. Não é um “mecanismo dedicado”, uma re-atividade. A atividade imunológica envolve o organismo todo. O grande interesse na chamada imunidade “inata”, um exercício na farmacologia da inflamação, é um progresso porque inclui os “invertebrados”, que também “inflamam”. Infelizmente, o termo “inato” está obsoleto na Biologia contemporânea.

(3) As interações instrutivas, a ideia de que os antígenos “ensinam” o corpo a reagir. Como se a vacina contra a poliomielite ensinasse a mesma lição a todas as crianças: como ficar imune à poliomielite. Uma história de Pinóquio ao contrario: as crianças, todas maravilhosamente diferentes umas das outras, se transformando em uma coisa só, como um boneco de madeira.

A univocidade, a mereologia e a falácia das interações instrutivas são três vozes de minha hidra falante. As outras cabeças ficam se olhando ansiosas enquanto resmungam suas mensagens.

Jerne, N. K. (1969). “The complete solution of immunology.” Austr. Ann. Med. 4: 345-348.