Contos

O polvo

O polvo

Comprara o polvo arpoado de um mergulhador recém saído do mar de Itaipú Niteroi, para cozinha-lo com arroz e brócolis. Levou-o imóvel, em uma sacola branca de super-mercado para a casa onde estava, algumas quadras adiante. Chegou, reuniu uma táboa ampla e cheirando a tempero, uma faca afiada e encarou a tarefa de desmembrar o polvo – literalmente, cortar seus oito membros em rodelas.

Estava morto, decerto. Não se movia.

Mas ao simples encostar a faca afiada em sua pele, um relâmpago de cor o fez parar espantado. Então reparou que, mesmo sem toque algum, enquanto o polvo agonizava, já privada de seu cérebro, em sua pele as células executavam um último bailado sem sentido. Tudo aquilo que servira para camuflar o polvo em inúmeros ambientes, agora se passava loucamente antes seus olhos e sua mão armada de faca em uma despedida para ninguém. Nunca esqueceria aquilo.