Contos

O Príncipe

O príncipe

Quando surgiu, o príncipe não parecia quem era, embora nunca tenha mudado, sempre de calção e sem camisa, despenteado e risonho. Mesmo machucado e arranhado das porradas e quedas que levara, ele sorria quando Claudinho o achou caído no escuro do portão. Acho que foi por isso que foi logo trazido pra dentro e não juntou mais gente. Falava arrevezado, uma mistura de italiano, espanhol e baiano, que ajudava com muitos gestos, sempre sorrindo. Naquela primeira noite, dormiu ali mesmo, no banco da sala, meio dobrado, prendendo com o corpo a revista que eu tinha começado a ler.

Ainda dormia pesado quando acordamos e tomamos o café, mesmo a gente falando alto e Claudinho indo lá bem perto olhar ele direito na luz do dia. Parecia uma criança envelhecida, pertencia ao sono, não se mexia. Continuou dormindo na casa vazia quando saímos para a praia, deixando a casa aberta.

Paramos um pouco na Praça, conversamos com um e outro antes de descer para o mar pelo caminho da cerca e lá começamos a correr devagar, esquentando um primeiro mergulho. Quando percebi, o príncipe corria ao meu lado, sorrindo como sempre, completamente nu, uma gaiola velha de passarinho na mão, dentro dela duas rosas vermelhas. Claudinho levou o maior susto. No Arraial nunca houve problema com estrangeiro correndo nu pela praia, lá no Pitinga, mas pelo caminho da cerca era embaraçoso. Mais tarde, ele se explicava, sentado na roda, eu olhei a gaiola na areia branquinha, as rosas lindas dentro e achei que era mesmo uma idéia muito boa. Imaginei todas as gaiolas com flores em vez de pássaros.

Nunca me acostumei com o príncipe. No começo, desconfiei muito dele comer lá em casa e pedir dinheiro emprestado pra cerveja, ele com aquela conversa de que ia a Porto buscar dinheiro no banco – como é que ele ia, assim de calção, buscar dinheiro? Mas na terceira vez em que ele foi, entregaram a ele uma quantidade enorme de dinheiro, um saco cheio, nem sei quanto. Muito. Ele foi no supermercado e em outras lojas de Porto e comprou quase tudo o que tinha de bom por lá. Veio mais de uma dúzia de homens e mulheres carregando. De volta ao Arraial, foi em três pousadas, mandou assar não sei quantos frangos, bifes, pernil de porco, cabrito e mais um monte de apetrechos. Estendeu toalhas de linho na calçada estreita, pedindo desculpas aos moradores que tiravam as cadeiras já assentadas para o por do sol. Pôs sobre elas muitas velas dentro de copos e uma fartura de talheres e guardanapos, também de linho. Quando escureceu, acendeu as velas uma a uma, com aquele sorriso dele, abriu muitas garrafas de vinho tinto e branco. Foi juntando gente, juntando gente, a meninada contida a custo pelos pais, os cachorros inquietos, brigando, esperando as sobras. Quando o povo entendeu que o banquete era livre, foi aquela algazarra feliz, mas sem avanço nem briga. O príncipe estava bêbado, cantava alto em italiano.

Sumia dias seguidos. Dormia cada noite com uma mulher, ou duas ao mesmo tempo, turistas, nativas, coroas e raparigas, na praia, na grama, na casa de umas e outras. Nas conversas, sempre arrevezado, contava que era dono de um principado na Itália, que era muito, muito rico, e que não ia mais embora e ia distribuir o dinheiro dele conosco. Todo mundo achava que o príncipe era maluco, que havia torrado uma herança qualquer naquela festa.

Um dia, chegou um helicóptero com dois estrangeiros grandões em Porto. No dia seguinte, uma mulher loura, de óculos, saltou de um jato pequeno e preto, brilhando no sol. A mulher e os dois homens vieram no helicóptero para o Arraial, pousaram no campo velho. Os homens foram pegar o Príncipe lá na praia, a mulher ficou ali perto da cerca, olhando o mar lá embaixo, fumando, o vento levando a fumaça, sacudindo seus cabelos, sua saia. O príncipe veio todo mole, quase arrastado, dizem que aplicaram uma injeção nele. Ela afastou seu cabelo da testa e o beijou no rosto, apoiou sua cabeça do corpo dela. Entraram todos no helicóptero e partiram, sem ligar pra gente. Dez minutos depois, o jatinho fez uma curva larga no céu e seguiu para o norte. Nunca mais vi o Príncipe. Nem retrato dele nós temos.