Jorge Mpodozis

O reducionismo genético, o organismo e sua deriva estrutural

O reducionismo genético, o organismo e sua deriva estrutural[1]

Nota dos tradutores: Os 10 minutos iniciais da palestra não foram gravados. Nesses minutos iniciais, o Dr.Mpodozis fez referência à importância da morfologia dos seres vivos, de como os paleontólogos podiam deduzir coisas sobre toda a forma de um organismo baseado na forma de uns poucos fragmentos ósseos e de como toda a sistemática biológica depende da forma. A partir daí, identificou outros problemas que passaram a dominar o cenário biológico contemporâneo, quais sejam: o determinismo genético e a seleção evolutiva de características adaptativas. Ao comentar as desvantagens desses coneceitos, Mpodozis propõe uma mudança geral do pensamento biológico.

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Mudar toda a Biologia

A primeira noção importante da Biologia contemporânea é a de reducionismo genético. Em que consiste o reducionismo genético? Consiste em aceitar que tudo o que compõe um organismo, qualquer característica de sua forma e de seu operar, está determinado em alguma característica de seus genes, do genoma. E que o que se passa entre o zigoto e o organismo plenamente desenvolvido não interessaria pois os genes determinariam todos aspectos intrínsecos do organismo.

A segunda noção básica é também muito conhecida. Ela se refere à dinâmica de relação do organismo com o meio e diz que o organismo, de alguma maneira, acompanha as mudanças do meio. Diz que nas interações do organismo com o meio, o meio fica, de alguma maneira, representado no organismo, de tal modo que o organismo muda seguindo uma direção que é especificada na interação que tem com o meio. Exemplos onde essa noção se aplica são: as noções de “pressão seletiva”, de “captação de informação”, de “resposta imune”.

Que expressam essas noções? Todas elas implicam na idéia de que nas interações do organismo com o meio, o organismo segue, acompanha o meio em suas mudanças. O organismo, de alguma maneira, obtém uma representação do meio e o meio intervém no organismo para determinar o curso de suas mudanças. Nas interações do organismo com o meio, portanto, haveria uma subordinação da dinâmica de mudanças do organismo à dinâmica de mudanças do meio.

Nas neurociências isso é particularmente grave porque essas expressões são usadas não de modo metafórico, mas como o fundamento das neurociências. Os neurocientistas sugerem que estudemos os mecanismos pelos quais o organismo capta e processa as informações necessárias à computação de sua conduta. Que quer dizer captar e processar “informações”? Na teoria evolutiva, que quer dizer “pressão seletiva”? Quer dizer que, de alguma maneira, o que se passa com o organismo em suas interações fica determinado pelo meio; quer dizer que a dinâmica do organismo fica limitada, especificada pelo meio nas interações que o organismo tem com o meio.

Essa é uma história familiar a vocês? Claro que sim! E vocês estão agora pensando: “O que há de mal com isso?” “O que há de mal com o determinismo genético?” “O que há de mal com essa noção de que o organismo segue ao meio?” No entanto, entender os equívocos que essas noções encerram é muito importante. Por isso vou tratar de justificar porque temos que trocar de noções e vou propor outras noções para substituí-las. Mas gostaria que ficasse claro que essas noções são fundamentais para todo o pensamento biológico e que, portanto, se vamos modificá-las, vamos modificar toda a Biologia. Uma mudança radical, de uma só vez.

Se vou propor um novo modo de examinar e explicar o mecanismo evolutivo, necessariamente vou mudar essas noções e, portanto, vou mudar a Biologia em seus termos fundamentais, em seus termos conceituais mais básicos. De modo que estamos vivendo aqui uma situação nada trivial. Se vocês quiserem, parem aqui e deixem o auditório, agora. Ou, se quiserem, fiquem e corram o risco de mudar de opinião – ou, de dizer com veemência que estou redondamente errado. Mas não lhes vou permitir que escutem essa conversa e depois me digam: “Muito interessante” – e me ignorem. Compreendem o que estou dizendo? Não há sentido em ter essa conversa se não for para que nos escutemos e nos entendamos.

Porque estou eu tão negativamente predisposto contra essas noções? Reparem a que explicação conduzem essas duas noções para o mecanismo evolutivo. Conduzem à Teoria Sintética da Evolução, à síntese neodarwinista; conduzem a um conjunto de noções sobre genética de populações, a noções de evolução molecular, de ecologia de comunidades e a muitas outras coisas. Praticamente todas as perguntas sobre o estado de coisas no mundo natural terminam sendo respondidas segundo essa Teoria Sintética da Evolução, ou Teoria neodarwinista.

Essa teoria se apóia em um reducionismo genético estrito, segundo o qual as características dos seres vivos são determinadas geneticamente; se apóia na idéia de que existem forças ou pressões seletivas; de que os organismos respondem a tais forças ou pressões seletivas, ou melhor, respondem às variações do meio com variações de sua estrutura.

Vou fazer uma pergunta geral que se aplica tanto à ontogenia quanto à filogenia. Tomemos uma história de transformações de um ser vivo e seu meio mudando como na Figura 1, que representa dois momentos na vida de um ser vivo em seu meio; podemos observar o ser vivo no momento t1 e no momento t2. No momento t1, o ser vivo está em correspondência com sua circunstância, como seu meio; no momento t2, as circunstâncias mudaram, e o ser vivo também mudou e continua em correspondência com sua circunstância, como seu meio. A pergunta é a seguinte: como é que este ser vivo se transformou desde t1 a t2? Essa é a pergunta que faz a Teoria Sintética e à qual ela responde com as noções de reducionismo genético e de pressões seletivas.

Figura 1: O ser vivo e sua circunstâncias em dois momentos de sua história.

Figura 1: O ser vivo e sua circunstâncias em dois momentos de sua história.

Essa pergunta, esse modo de perguntar esconde uma questão muito curiosa: nela se aceita que o meio pré-existe ao ser vivo. Aceita-se que as circunstâncias, a situação do meio pré-existe ao momento em que ser vivo encontra o meio. Além disso, a pergunta sugere que as mudanças encontradas no ser vivo no momento t2 têm a ver com o que se passou com ele no momento t1. O que vai se passar com o ser vivo nessa trajetória tem a ver com o aproximar-se ao lugar existente no momento t2. Mas, isso é impossível porque no momento t1, esse lugar, essas circunstâncias, o momento t2, ainda não existem.

Essa pergunta está na base do modo de fazer perguntas que fundamenta a Teoria Sintética. A Teoria afirma que:

– os genes determinam as características dos seres vivos;

– o pool gênico de uma população determina suas propriedades evolutivas;

– as mudanças evolutivas são mudanças no pool gênico;

– tais mudanças ocorrem associadas a mudanças no meio, que atuam como “pressões seletivas”.

 

Ou seja, o meio atuaria como uma “força” ou “pressão” que conduziria o ser vivo de uma situação t1 a uma situação t2.

Que essas noções foram um apoio fecundo para a Biologia durantes muitos anos, é indiscutível; que elas nos permitiram fazer um monte de coisas, é verdade; que isso permitiu ampliar muitíssimo a riqueza de manipulações no âmbito da genética e em muitos outros âmbitos da Biologia, também é certo.

Mas, ao mesmo tempo, essas noções nos conduzem a perguntas irrecuperáveis. Qualquer obra recente sobre evolução vai se referir à Teoria Sintética, não para propô-la, defendê-la ou explicá-la: vai se referir à crise da Teoria Sintética. Há um consenso de que a Teoria não serve para mais nada e há um conjunto imenso de perguntas a que ela não responde e que o pensamento evolutivo tem que transformar-se.

Quais são alguns desses obstáculos enfrentados pela Teoria Sintética? Esses problemas surgiram no estudo das chamadas características “não-adaptativas” dos seres vivos. Por exemplo, as isoenzimas. Há uma multiplicidade de formas enzimáticas que têm a mesma atividade. É muito difícil explicar a presença de todas essas variedades enzimáticas em termos seletivos porque teríamos que mostrar fatores seletivos atuantes na seleção de cada uma das isoenzimas.

Assim, no momento em que o organísmico se aproximou do molecular, começaram a surgir tremendas contradições. Isso foi o oposto do que esperavam os geneticistas. Eles esperavam que quando a questão do organismo pudesse ser abordada por um prisma molecular, seria tudo muito mais fácil. Por que? Porque se os organismos estão determinados geneticamente (molecularmente) a evolução do genoma há de ser paralela à evolução do organismo e seguir os mesmos cursos temporais que segue a evolução do organismo. A variabilidade a nível do genoma deve representar uma variabilidade comparável a nível do organismo. Os fatores que influem na estabilização de certos fenotipos, certos tipos de organismo, têm que estar operando no genoma; portanto, teríamos que encontrar no genoma uma representação fiel da história evolutiva dos organismos. Em vez disso, o que se descobriu? Ao nível molecular surgiu uma variabilidade que não podemos explicar.

Há mais. A Teoria Sintética prevê que o grau de variabilidade dos organismos está correlacionado com o grau de variabilidade do ambiente. Se tivermos um ambiente estável, o que esperaríamos para os organismos que o habitam? Uma variabilidade pequena, uma diversidade de organismos muito pobre. A teoria enfatiza que a floresta tropical, que é um ambiente sumamente rico, produz uma grande diversidade de criaturas porque há uma grande diversidade de lugares, de situações diferentes, uma diversidade de “nichos abertos” que abrigam uma grande diversidade de organismos.             Por outro lado, o que se passa nas profundidades abissais do oceano, nas fossas oceânicas profundas? Nesse ambiente, a temperatura é constante, as variações solares são constantes, a quantidade de nutrientes é constante, a tensão de oxigênio é constante – tudo é pobre e constante. Cada vez que metem uma rede nesses abismos e retiram um ser vivo de lá, ele é diferente dos seres conhecidos. Há poucos organismos, mas quase todos são diferentes.

Mas há perguntas mais graves. Como se explica a direcionalidade das mudanças das linhagens? Como se explica que certas linhagens parecem ser direcionadas em sua maneira de mudar? A linhagem das baleias, por exemplo, parece variar porque lhes cresce a mandíbula, e cresce a mandíbula, e cresce mais, e o todo o resto das transformações do animal se associam a esse crescimento da mandíbula. Que se passou com as girafas? Cresce o pescoço e cresce o pescoço e cresce o pescoço. Que se passa com os cavalos? Os cavalos crescem, e crescem, e crescem e o único que fazem é crescer. Como se explica que haja linhagens nas quais a mudança se mantêm constante?

Como se explicam as relações óbvias e profundas e evidentes entre a ontogenia e a filogenia? Se não tivéssemos relações conspícuas entre a ontogenia e a filogenia não poderíamos construir a sistemática que temos atualmente. Essa sistemática biológica que é explicada pela idéia de comunidades de descendência, se apoia, como um pilar básico, na comparação de momentos críticos no desenvolvimento de organismos diferentes. Os parentescos são reconhecidos mediante o grau de semelhança entre os momentos centrais do desenvolvimento. Esse artifício classicamente usado na sistemática biológica permanece totalmente oculto na Teoria Sintética, porque do ponto de vista da Teoria o desenvolvimento do organismo não interessa.

Como se explica que a historicidade do desenvolvimento embrionário e da epigênese sejam a mesma historicidade do desenvolvimento filogenético da linhagem? A partir da Teoria Sintética, não posso sequer perguntar “Como se explica…?” – porque esses fatos nem sequer são visíveis, não aparecem como problemas.

Notem o que ocorre com a temporalidade, o ritmo das mudanças evolutivas. A Teoria Sintética estabelece claramente uma dinâmica temporal para a mudança e há um conjunto de distinções possíveis: sob que circunstâncias se produziriam que tipo de mudanças; ou, como se produz a especiação; ou, qual deveria ser a taxa evolutiva; qual deveria ser a velocidade da mudança? A Teoria afirma que, em geral, as mudanças são graduais e contínuas. Mas quando olhamos o registro fóssil, encontramos tudo menos mudanças graduais e contínuas. Cada vez que nos aproximamos de uma situação de mudança que podemos ter entre as mãos, temos uma mudança súbita e drástica.

Uma vizinha de minha mãe criava plantas em seu jardim; misturava sementes de duas espécies florais da mesma família e as plantava juntas; conseguia com isso um precioso híbrido que tinha as folhas de uma planta e as flores de outra. Então, essa senhora criava espécies florais – e eu a vi fazer isso – com muita facilidade. E isso se pode fazer em muitas dimensões diferentes. A temporalidade das mudanças evolutivas não condiz com a temporalidade prescrita pela Teoria Sintética.

Mas temos exemplos ainda mais graves, aqueles que conduzem a punhalada profunda. Essa punhalada certeira vem precisamente da genética molecular. Se eu afirmo que o que temos é um pool de genes que vai mudar segundo um processo seletivo, o genoma tem que representar estritamente as mudanças observadas a nível organísmico. Quanto mais perto estou do genoma mais perto eu deveria estar do organismo, quer dizer, ao que se passa ao organismo. Pois se o organismo é determinado geneticamente e não precisamos nos preocupar com a epigênese, com o desenvolvimento; em outras palavras, se não é o desenvolvimento o que importa, tenho apenas o genoma e o organismo; então, o único que interessa são as variações seletivas a nível do genoma.

Quando se abriu a possibilidade de explorar comparativamente seqüências de aminoácidos em proteínas, e depois, seqüências de nucleotídeos no DNA – que se encontrou? Encontrou-se que as taxas de mudança moleculares são contínuas e constantes para cada classe de proteína e não têm nenhuma relação com a taxa de mudança organísmica. Por exemplo, se examinamos o anfíbio ancestral em relação aos anfíbios modernos ou em relação aos mamíferos modernos, constatamos que há uma quantidade imensa de mudanças organísmicas em algumas linhagens e uma quantidade menor de mudanças em outras linhagens. Há linhagens que são mais conservadas, quer dizer, há linhagens nas quais a quantidade de mudanças ocorridas é muito menor. Se compararmos, porém, genes de um conjunto de proteínas estruturais e determinarmos quantas mudanças moleculares ocorreram desde o anfíbio ancestral até o anfíbio presente, encontramos que essas taxas de mudança são as mesmas. Portanto, as coisas que mudam a nível do genoma e a nível das proteínas são neutras. Ou seja, as mutações são conservadoras. As mutações que se fixam conservam a atividade enzimática, conservam a funcionalidade metabólica dos genes codificantes. De modo que as taxas de mudança sobre essas mutações conservadoras é constante e independente da taxa de mudanças que está ocorrendo nas linhagens onde esse genes existem.

Essa é uma punhalada definitiva. A Teoria Sintética não tem como responder a essa crítica. Porque o que isso indica é que a dinâmica histórica de mudança nos genes é completamente independente da mudança organísmica. De forma que eu não posso aceitar mais que o organismo está contido, especificado pelas mudanças do genoma, pelas mudanças nos genes. E, se quero explicar como ocorrem as mudanças do organismo, tenho que aprender coisas que dizem respeito a fatores além do genoma. Compreendem?

De modo que essa é a questão. Ou a levamos a sério, ou não a levamos a sério. Se a levarmos a sério, então temos que fazer o que vou fazer agora. Compreendem? Pode não haver prazer nenhum em fazer nisso. Compreendam que não me causa nenhum regozijo contestar 50 anos de tradição conversando com vocês nessa sala. Mas, se levarem a sério o que acabo de dizer, é isso mesmo o que tenho que fazer.

Há perguntas?

 

Nance – Não sei se estou acompanhando muito bem essa aparente contradição entre a Teoria Sintética e o que é verificado. Mas, mudanças graduais no genoma não vão necessariamente repercutir em mudanças graduais no fenotipo. Pode ser que a mudança a nível organísmico, a nível de fenotipo, só ocorra após um certo limiar de mudanças genômicas. Então encontraríamos mudanças graduais no genoma e, de repente, uma mudança fenotípica. Isso não pode ser acomodado dentro da Teoria tradicional?

 

Não, perdão, não pode. Observe que o que se passa é que os momentos de mudança organísmica são explosivamente rápidos. O que chamamos radiações adaptativas, por exemplo, no aparecimento dos anfíbios. Aparece um ovo com casca e num período de tempo curtíssimo – do ponto de vista geológico – temos a diversificação mais incrível de modos de vida associados ao ovo com casca. E logo uma estabilização que dura centenas de milhões de anos. Podemos reconstruir as mudanças genéticas que essas linhagens experimentaram e constatamos que a taxa de mudança genômica se manteve constante. Nessas linhagens em rápida mudança organísmica, a taxa de mudança nos genes não é diferente da taxa de nenhuma outra linhagem.

Ou, perguntem qual a diferença genômica entre um Homo sapiens sapiens e um símio antropóide. A semelhança é de mais de 95%. Sabem qual é a semelhança genômica entre uma célula eucariótica e uma bactéria? Mais de 70%; em termos metabólicos, somos semelhantes às bactérias em 70%.

Interessante, não é? Passaram-se três mil e quinhentos milhões de anos de evolução e quanto mais abaixo eu vou, quanto mais eu focalizo as moléculas à procura de diferenças, mais semelhanças, mais conservação encontro.

Se comparo a fisiologia de todos os mamíferos vou encontrar a mesma coisa. Se, por exemplo, examino a retina dos vertebrados, vou encontrar a mesma coisa em todos eles. Eu não poderia, ao microscópio, dizer se estou vendo neurônios de uma rã ou de uma pessoa. Onde está a diferença?

 

Henrique Lenzi – Jorge, a aparente semelhança entre a ontogenia e a filogenia me intriga. Como se explica a epigênese de uma ontogenia diferente da epigênese complexa da filogenia.

 

Alegro-me que me faça essa pergunta porque essas são as perguntas que podemos fazer agora. Quando estávamos preocupados com os dogmas tradicionais, não tínhamos perguntas sobre a epigênese. Agora as temos. Vou tratar de explicar isso em um momento. Mas antes de fazer isso, vou tratar de mudar de paradigma.

Para mudar de paradigma, vou partir da Figura 1. Vou questionar o que esta Figura representa. Há dois modos de encarar essa Figura. O modo de perguntar que conduz à Teoria Sintética é: “Como muda o organismo da forma que tem em t1 de maneira a se adaptar à esta situação em t2 ” – que pré-existe a ele? Notem o truque que existe nessa pergunta; vejam como é uma pergunta enganosa. Ela supõe que o que ocorrerá no instante t2 pode, de alguma maneira, determinar o curso que tem essa transformação a partir de t1. Compreendem?. Mas no instante t1, o instante t2 ainda não existe, porque se estou em t1 e isso é um processo, o que ocorrerá em t2 ainda não ocorreu.

Vou, portanto, rejeitar isso e examinar essa situação de outra maneira, fazer outras perguntas. Vou examinar essa situação como se organismo e meio mudassem juntos, uma situação na qual nem o meio em t2, nem o organismo em t2, estão determinados a partir de t1. Vou examinar essa situação como uma mudança que se dá com correspondência de uma relação.

 

Ana Faria – Na verdade, você argumenta que o meio em t2 já pré-existe, tão distante assim e é muito distante para determinar a situação em t1. Mas existem entre t1 e t2 muitos pequenos momentos, fragmentados, que vão mudando um e determinando o outro. Quer dizer, você colocou situações muito extremas, polares…

 

Perdão, sim, eu pús essas situações polares porque esse é o modo pelo qual usualmente se explica na Teoria Sintética. Quando terminamos tendo coisas em t2, dizemos: “Ah essa é uma característica adaptativa, porque existe para adaptar-se a tal coisa.”

 

Ana Faria – Eu entendo isso. O que estou dizendo é que você mostra essa situação de forma caricatural. Talvez exista um argumento mais sofisticado que diz que existem pequenas mudanças que levam a pequenas adaptações até que você chega a ter uma adaptação maior.

 

Sim, compreendo o que você diz. Mas estou afirmando outra coisa. Afirmo que não se resolve esse problema encurtando os intervalos entre t1 e t2. Afirmo que isso só se resolve mudando a maneira pela qual examina essa transformação. E isso é o que quero fazer em um momento mais. Quero fazer algumas afirmações.

 

Primeira: “Os seres vivos são sistemas determinados em sua estrutura.

Que quer dizer isso? Quer dizer que tudo o que se passa com um ser vivo, como ser vivo, está determinado por como ele está feito, não é independente disso e nem pode escapar disso.

Se aceitarmos isso… Entendam que ademais não posso aceitar outra alternativa. Eu poderia argumentar epistemologicamente que, dada à natureza das argumentações em Ciência, ao inventarmos explicações sobre os seres vivos, não podemos senão aceitá-los como sistemas determinados em sua estrutura. Que um sistema seja determinado em sua estrutura não é mágico, nem é peculiar, transcendente ou curioso em nenhum aspecto. É o mais trivial e comum de tudo e o que usamos cotidianamente em nossas explicações. Isso quer dizer, meramente, que tudo o que se passa a um sistema determinado por sua estrutura depende de como esse sistema está feito.

De modo que não podemos determinar externamente como o agente atua sobre o ser vivo. Não nego que existem agentes externos que desencadeiam perturbações no ser vivo. Digo que um agente perturbador não pode especificar a mudança que o ser vivo vai sofrer como conseqüência dessa interação.

Mais ainda, não podemos saber se um certo agente que distinguimos no meio, independentemente desse ser vivo, constitui, ou constituirá uma perturbação efetiva para esse ser vivo. Para saber isso, temos tomar o ser vivo e colocá-lo frente a uma dada situação para que o ser vivo me revele onde ele está! Porque o lugar onde o ser vivo está é determinado na estrutura desse ser vivo e não é independente disso. Eu, como observador, posso somente conjecturar que o ser vivo está nesse ou naquele lugar e não tenho nenhuma maneira de saber em que lugar o ser vivo está, senão atentando ao que se passa com o ser vivo. Só então posso saber que características tem o lugar com o qual o ser vivo se encontra. Porque o lugar em que nos encontramos, como observadores e o lugar onde o ser vivo observado se encontra, são diferentes. Porque nós somos sistemas determinados estruturalmente.

“Ah, mas nós, seres humanos, somos muito parecidos uns aos outros”. Certo. Portanto, o mundo que temos em comum entre nós é mais parecido que o mundo que temos em comum com os cães. Certo. Mas isso não enfraquece essa afirmação. Tudo o que se passa ao ser vivo depende de sua estrutura e não pode se passar nada com ele que sua estrutura não especifique ou permita.

Segunda: “A dinâmica de mudanças do organismo e a dinâmica de mudanças do ser vivo (sua conduta), são irremediavelmente independentes.” – uma afirmação derivada da primeira.

Terceira: “Os seres vivos são sistemas em contínua mudança estrutural.” Por serem o que são, estão mudando, intrinsecamente. E sua dinâmica de mudanças está acoplada à dinâmica de mudanças do meio em que estão de uma maneira muito interessante, que nos conduz à afirmação seguinte

Quarta: “A natureza dos seres vivos é histórica.”

 

Os seres vivos são históricos. Observem, novamente, minha situação: Como devo ler essa situação mostrada na Figura 1 estando nesse novo paradigma? Este lugar (t2) não pré-existe a este lugar (t1). Este organismo não é determinado em suas interações com estes agentes, aqui representados por seu meio. De modo que este personagem muda historicamente, continuamente, em uma história que se dá momento a momento, seguindo as interações que tem com o meio até o momento em que morre e se desintegra.

Qual é a “condição de existência” desse personagem? Há duas condições que precisam ser satisfeitas enquanto um ser vivo está onde está: o ser vivo precisa conservar sua organização, seu modo de ser; isso pode ser descrito de uma forma muito mais precisa do que faço agora, porque não tenho mais tempo. O ser vivo pertence à classe a que pertence enquanto conserva sua organização nessa dinâmica de transformações. A segunda condição é que o ser vivo tem que conservar uma relação de correspondência com o meio, com sua circunstância – uma relação de correspondência estrutural. No momento em que essa relação de correspondência estrutural se interrompe o ser vivo se desintegra e desaparece.

De modo que um ser vivo em sua história está em contínua mudança estrutural sob condições de conservação de sua organização e de sua correspondência estrutural com o meio em que se encontra. E essa história é uma história epigenética. Isso significa que a história não está determinada, programada; o estado final não está determinado no estado inicial de nenhuma maneira. É uma história que se constitui momento a momento.

A palavra que descreve essa classe de história é deriva. Que significa estar à deriva? Uma deriva é uma situação em que um certo sistema muda, segue um curso nas circunstâncias em que se realiza, um curso que é contingente à sua dinâmica interna e às interações que tem com o meio no qual está. E essa deriva leva o sistema a algum lugar? Claro. Chega a qualquer lugar? Não, chega a um único lugar, ao único lugar a que pode chegar. Mas o interessante aqui é que o ser vivo (como ocorre com um barco à deriva) não está “se aproximando” ao lugar ao qual chega; o lugar ao qual ele chega não opera como uma referência em determinar o curso das mudanças. Em um barco que tem um timão e um timoneiro, o lugar para onde se quer ir opera como uma referência para o curso pelo qual o barco se move. Mas em um bote à deriva, que pode chegar ao mesmo lugar que o barco, não há nenhuma especificação do lugar final a que o bote chegará. O bote se move simplesmente seguindo uma história que é uma deriva, um curso de mudanças que é contingente às interações que o bote vai tendo com seu meio.

Que mais se passa? Passa-se que o meio em que o organismo está muda junto com o organismo. Porque não podemos saber que lugar um organismo vai ocupar em seu movimento e tampouco o organismo sabe disso. O lugar que o organismo vai ocupar no futuro não pré-existe de nenhuma maneira ao momento do encontro. E como se especifica o que vai ocorrer? Nessa história de deriva.

Quero dizer mais um par de coisas. Notem que não pude ainda tratar da filogênese – que era meu objetivo inicial. Mas precisava dar uma ênfase central a esse conceito. Porque temos que entender que a historicidade dos seres vivos se dá dessa maneira, como uma deriva com conservação da organização e da correspondência estrutural com o meio. E, portanto, o estado inicial, o genoma, não pode pré-especificar o estado final porque entre o momento t1 e o momento t2 (Figura 1) há uma história epigenética que cursa como uma deriva. Que a história seja regular, que o desenvolvimento dos mamíferos, particularmente, seja muito regular e conservador, conduz ao fato de que se fizermos intervenções sobre o embrião em um dado momento, teremos um certo tipo de alterações no desenvolvimento e certas modificações no estado final. Isso está correto. Não estou dizendo que essas regularidades não se dão. Mas isso não me permite supor que essa característica final esteja representada no estado inicial. Porque para que essa característica final se estabeleça tem que se dar toda uma história epigenética. Se essa história não se dá, a característica não aparece. E se a história muda, a característica que aparece é outra.

A historicidade dos seres vivos está representada nessa noção de deriva. Os seres vivos estão em uma deriva ontogenética. E o que se passa na filogênese? Quando aparece a filogênese? Quando aparece uma história evolutiva? Uma deriva evolutiva aparece quando temos reprodução. E que tipo de reprodução deve ocorrer para que haja uma filogênese? Qualquer tipo de reprodução com herança. As unidades que resultam de uma fratura reprodutiva têm que ser unidades da mesma classe que o progenitor. Se isso se dá, existe um espaço de variabilidades possíveis. Vamos ter linhagens na medida em que as reproduções conservem a classe dos organismos que se reproduzem. E em cada momento reprodutivo haverá espaço para a variabilidade.

Organismos como o nosso têm uma dinâmica no genoma que, em suas variações, é completamente independente da dinâmica do organismo. Mas o genoma está presente no estado inicial, no zigoto, e, por isso, o que se passa com o genoma é importante na determinação do tipo de história à qual o organismo pertence. O genoma não especifica mas limita um conjunto de possibilidades para o desenvolvimento do organismo.

 

O reducionismo genético, o organismo e sua deriva estrutural

Jorge Mpodozis

Facultad de Ciências, Universidad de Chile, Santiago

[1] Trecho de palestra do Dr.Jorge Mpodozis no Curso de Imunologia básica durante o XVIII Congresso da Sociedade Brasileira de Imunologia, Aguas de Lindóia, 21/09/93. Transcrição e tradução de Nelson Vaz e Cláudia Carvalho, UFMG. Infelizmente, os 10 minutos iniciais da palestra não foram gravados, por defeitos técnicos. Um pequeno trecho final foi também omitido.