Humberto Maturana

O sistema nervoso como uma rede neuronal fechada: consequências comportamentais e cognitivas

 

O sistema nervoso como uma rede neuronal fechada: consequências comportamentais e cognitivas

Mpodozis J., J. C. & Letelier Maturana H. R. (1995)

Nervous system as a closed neuronal network: Behavioral and cognitive consequences
Mpodozis J., Letelier J. C. & Maturana H. R. (1995). In: Mira J. & Sandoval F. (eds.) From natural to artificial neural computation: International workshop on artificial neural networks, Malaga-Torremolinos, Spain, June 7–9, 1995 (Lecture Notes in Computer Science: 930). Springer Verlag, Berlin: 130–136. Available at http://cepa.info/645 (CEPA eprint 645 (HRM-1995i)

 

Sumário

Apresentamos aqui um arcabouço teórico sobre o funcionamento do sistema nervoso que explica a origem do comportamento coordenado, sem violar o determinismo estrutural inerente à autonomia constitutiva dos sistemas vivos. Ao mesmo tempo que vai mostrar que a cognição não é o resultado de uma tarefa de computacional, como é previsto pelo paradigma tradicional que considera o cérebro um dispositivo para o processamento informações do, mas sim é o resultado do acoplamento estrutural espontâneo que ocorre ontogenicamente e filogeneticamente entre um sistema vivo e suas circunstâncias de vida.

Introdução

O pensamento neurobiológico moderno admite que o sistema nervoso, momento a momento, detecta o mundo exterior, reconhece a configuração de estímulos e finalmente escolhe uma resposta adequada. Sob esse ponto de vista, a resposta do sistema nervoso baseia-se na determinação correta das entidades presentes no mundo exterior, e na ontogenia e filogenia deste sistema nervoso em particular. Este ponto de vista (que vamos chamar o “quadro representacionista” e que poderia ser resumido pelo ditado “o cérebro é uma máquina de processamento de informação”) subjaz a maioria das pesquisas em relação à operação no cérebro realizadas durante a segunda metade deste século. Mas, apesar do desenvolvimento explosivo da pesquisa experimental nas duas últimas décadas, tornou-se claro que muitas das principais dúvidas sobre o funcionamento do cérebro decorrente de tal quadro (tal como reconhecimento de objetos ou coordenação motora) ainda estão praticamente sem solução. O estudo do sistema visual de vertebrados dá um exemplo perfeito de tal situação. Com efeito, se arbitrariamente definirmos experimentos de Kuffler (1953) sobre as propriedades das células ganglionares da retina como o ponto de partida da investigação neste campo, nos encontraremos com a necessidade de explicar que 40 anos depois, ainda imerso em um mar de detalhes anatômicos e fisiológicos, não podemos imaginar a “forma” que a resposta representacionista para a pergunta “o que é para ver?” finalmente terá.

O quadro representacionista também tem sido desafiado a partir de uma perspectiva teórica que considera a autonomia e determinismo estrutural como características centrais dos sistemas vivos (Maturana, 1969, 1970, Maturana e Varela, 1973, 1980. A revisão deste campo crescente poderia ser encontrado na Mingers, 1995). Tal pensamento teórico, consubstanciado na noção de “sistemas autopoiéticos”, considera que a dinâmica interna produzida pela rede circular de processos que constituem a organização viva não pode ser especificada por estímulos externos. A dinâmica interna e os estados observáveis dos sistemas autopoiéticos são o resultado das operações do próprio sistema vivo, enquanto estímulos externos só pode desencadear, mas nunca definir, a magnitude, tipo e direção das mudanças estruturais que o sistema atravessa. Pareceria que este nova maneira de ver cria para si mesma um problema aparentemente intransponível, ou seja, explicar a origem da conduta coerente e adequada (dos seres vivos). Este problema não existe no contexto do quadro representacionista, desde que a congruência observada entre a conduta e o meio é implicitamente explicada admitindo-se que tal coerência é o resultado de uma operação adequada do sistema nervoso na representação que tem do meio.

 

Neste trabalho propomos um novo quadro conceptual para entender o funcionamento do sistema nervoso que: a) utiliza a autonomia dos sistemas vivos como um ponto central e de partida e b) evita a metáfora sedutora, mas estéril de “processamento de informações”. Ao desenvolver este ponto de vista, nós também devemos apresentar: a) a relação inesperada (na visão representacionista) entre o problema da natureza da organização viva e a cognição, b) a natureza comportamental, em vez de computacional, a cognição, e, talvez mais fundamentalmente, c) a maneira pela qual o “mundo exterior” deixa de ser um problema dado que o organismo tem que “resolver”, e passa a ser constituído pelas interações entre um organismo e suas circunstâncias de vida. Vamos primeiro apresentar os nossos fundamentos biológicos, depois do que vamos desenvolver nosso modo de ver o sistema nervoso e sua operação como componente dos sistemas vivos, e, finalmente, deveremos refletir sobre a natureza comportamental da cognição.

 

  1. Sistemas Vivos

1) Os sistemas vivos, como todos os sistemas com os quais lidamos em nossa vida diária e em nossos experimentos científicos, são sistemas estruturalmente determinados (SDS). Isto é, eles são sistemas tais que tudo o que acontece com eles e a eles surge determinado por sua estrutura. Nada externo a um SDS pode especificar o que acontece nele. Um agente externo que incide sobre um SDS só pode provocar nele uma mudança estrutural determinada pelo próprio sistema. Além disso, a estrutura de um SDS determina também o que, em um encontro com o meio, o SDS admite como um agente que desencadeia nele uma mudança estrutural (Maturana e Mpodozis, 1987). O determinismo estrutural não é uma verdade a priori, não é um princípio, e não um pressuposto ontológico, é uma abstração que os observadores fazem das regularidades de suas experiências quando eles as usam para explicar essas experiências (Maturana, 1990).

 

2) Os sistemas vivos são sistemas moleculares dinâmicos estruturalmente determinados, organizados em redes fechadas de interações moleculares que produzem os mesmos tipos de moléculas que os produziram e especificam dinamicamente a cada instante a extensão e os limites desta rede. Essa rede é fechada em termos de sua dinâmica de estados e de produções moleculares, mas está aberta para o fluxo de matéria e energia através dela. Maturana (1970) e Maturana e Varela (1973) mostraram que essas afirmações constituem uma caracterização completa dos sistemas vivos como sistemas moleculares, especificando suas condições de existência e autonomia. Maturana e Varela (1973) chamou esta organização de organização autopoiética e afirmam que os sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares. De acordo com esta noção, as células são sistemas autopoiéticos de primeira ordem e sistemas multicelulares são sistemas autopoiéticos de segunda ordem. Um sistema vivo multicelular é realizado através da autopoiese de seus componentes celulares, que através da sua própria realização como uma totalidade multicelular, torna possível a autopoiese destes componentes celulares. Como sistemas autopoiéticos, os sistemas vivos estão em contínua mudança estrutural, tanto como resultado de sua dinâmica interna intrínseca, e, como resultado das mudanças desencadeadas nos mesmos no curso de suas interações recorrentes em um meio. Um sistema vivo vive enquanto suas mudanças estruturais ocorrem com conservação de sua organização autopoiética de primeira ou de segunda ordem.

 

3) Um sistema vivo, como um sistema celular e molecular composto, existe em dois domínios: a) no domínio em que os seus componentes realizam como uma entidade autopoética de primeira ou segunda ordem, ou seja, em seu metabolismo ou domínio fisiológico, e b) no domínio no qual o ser vivo interage e se relaciona com o meio que o contém como uma totalidade, isto é, no domínio relacional ou comportamental. Os fenômenos do domínio metabólico ou fisiológico se dão na dinâmica estrutural dos componentes do sistema vivo, e são totalmente contidos neste domínio. Ao contrário, os fenômenos do domínio comportamental surgem na relação do sistema vivo com o meio, e não são determinados pelo sistema vivo ou pelo meio isoladamente. Ou seja, o comportamento de um sistema vivo não é algo que o sistema vivo faça, e não é algo que o meio especifique por si mesmo, o comportamento surge e tem lugar na relação viva sistema / meio (Maturana e Mpodozis, 1987, 1992). Há, é claro, tantos tipos diferentes de domínios fisiológicos e comportamentais quanto existem diferentes tipos de sistemas vivos com diferentes estruturas e diferentes maneiras de viver.

4) Os dois domínios fenomênicos em que um sistema vivo existe não podem ser reduzidos a um ao outro, porque eles ocorrem em domínios fenomênicos não se interceptam e, portanto, qualquer tentativa de explicar os fenômenos de um domínio em termos do outro, é inadequada. Há, no entanto, uma relação geradora dinâmica e recursiva entre eles através das mudanças estruturais que o sistema e o meio desencadeiam um no outro no curso de suas interações: A) namedida em que o sistema vivoe o meio interagem, eles provocam um no outro mudanças estruturais; B) as mudanças estruturais desencadeadas no sistema vivo resultam em uma mudança da maneira pela qual o sistema vivo encontra o meio na próxima interação, e o mesmo acontece com o meio em relação ao sistema vivo; C), como resultado do que acontece nos momentos A) e B), muda a relação entre o sistema vivo e o meio, e as mudanças estruturais que o sistema e o meio desencadeiam um no outro mudam também em sua próximo encontro; e D) o processo indicado nos pontos A), B) e C), se repete recursivamente de modo que o que aparece para um observador é como se tanto o comportamento modulasse a fisiologia, e como se a fisiologia modulasse o comportamento, apesar de esses fenômenos terem lugar em domínios fenomênicos que não se interceptam.

 

5) A ontogenia de um sistema vivo desde o seu início até sua morte ocorre como um processo epigenético que resulta de uma dinâmica sistêmica que envolve interações recursivas entre fenômenos fisiológicos e relacionais, da maneira indicada acima. Assim, um sistema vivo é uma entidade sistêmica que: existe como um ser vivo no domínio fisiológico da sua corporalidade e, realiza sua maneira de viver em seu domínio de relações em interações recorrentes com o meio, através de uma interação dinâmica da sua dinâmica corporal e de seu comportamento. Assim, o que se reproduz quando um sistema vivo em particular se reproduz, é uma entidade sistêmica especial cuja realização ocorre na interação dinâmica contínua de uma corporalidade particular e uma configuração particular de circunstâncias dinâmicas que surgiram no meio ao longo da história filogenética da reprodução desse sistema. Ao mesmo tempo, o que é organicamente passado para a próxima geração através da reprodução é uma configuração estrutural inicial, que torna possível a realização epigenética de uma maneira particular de vida que implica a conservação sistémica de uma determinada corporalidade e uma dinâmica de corporalidade se a mesma for colocada em circunstâncias apropriadas do meio. Então, a herança, uma vez que consiste da conservação reprodutiva de uma maneira epigenética de vida, é um processo sistêmico, e como tal não é determinada por qualquer conjunto particular de componentes moleculares ou celulares, embora esses componentes possam ser essenciais para a sua ocorrência (Maturana e Mpodozis, 1992).

6) Quando a realização de uma forma de vida começa a ser sistemicamente conservada geração após geração por meio de reprodução, é constituída e estabelecida uma linhagem de seres vivos. Essa linhagem vai durar enquanto seu modo de vida continuar a ser conservado. Além disso, como uma linhagem é constituída e conservada na conservação sistêmica de seu modo de vida, que define, todas as características do domínio fisiológico, bem como todas as características do domínio relacional dos sistemas vivos que realizam a linhagem, estão livres para mudar em torno daquilo que é conservado, de um modo em que ambos os sistemas vivos e o meio permanecem em congruência operacional recíproca dinâmica (Maturana e Mpodozis 1992). Nestas circunstâncias, uma nova linhagem surge quando alguma variação na realização de uma forma particular de vida se torna parte do modo de vida da geração seguinte e é sistemicamente conservada geração após geração (Maturana e Mpodozis, 1992)

 

7) Como conclusão, é possível afirmar que a modulação mútua ontogênica e filogênica recursiva do comportamento e da estrutura que ocorrem através das interações entre os sistemas vivos e o meio tem dois resultados fundamentais. A primeira é que a estrutura do sistema vivo e a estrutura do meio mudam juntas, e em congruência, tanto na ontogenia e filogenia. A segunda é que todos os sistemas vivos em cada momento de suas histórias ontogênicas e filogenênicas necessariamente têm estruturas dinâmicas que são adequadas para a geração de um comportamento adequado para o meio dinâmico em que eles estão vivos, caso contrário, morrem.

 

  1. O Sistema nervoso e o Comportamento

1) Os organismos multicelulares geralmente possuem um sistema nervoso, ou seja, uma rede fechada de componentes celulares ativos que interagem sinapticamente (células nervosas, musculares e secretoras), que chamaremos de elementos neurais. O sistema nervoso opera como uma rede fechada de relações cambiantes de atividade entre seus componentes neuronais: qualquer mudança nas relações de atividade mantida entre alguns componentes da rede leva a mais mudanças nas relações de atividade que se ligam a muitos outros componentes, e assim prossegue de forma recursiva, numa dinâmica potencialmente interminável (Maturana 1969; Maturana e Varela, 1980; Maturana e Mpodozis 1987). O curso que segue essas mudanças de relações de atividade é determinado a cada momento pelo estado da atividade dos elementos neuronais da rede naquele momento. Ao mesmo tempo, o estado de atividade das células que compõem a rede neuronal é, a qualquer momento, o resultado do estado da sua estrutura dinâmica naquele momento, e a muda namedida em que esta mudança se dá através das suas operações sinápticos dentro da rede e, por sua intersecção estrutural (por meio sinápticaos, tróficos, hormonais e efeitos transdutores semelhantes; ver abaixo) com outros componentes da rede e o organismo.

2) O sistema nervoso intersecta estruturalmente o organismo em várias áreas do corpo que constituem superfícies sensoriais e efetoras internas e externas do organismo. As superfícies exteriores constituem as interfaces pelos quais o organismo encontra a meio. As superfícies internas constituem as interfaces através dos quais o sistema nervoso, como um componente do organismo, encontra a dinâmica fisiológica do organismo. Assim, os componentes neurais das áreas sensoriais e efetoras têm uma duola identidade e uma dupla forma de operar. Em primeiro lugar, eles operam como elementos do sistema nervoso que operam na dinâmica fechada de relações cambiantes de atividades do sistema nervoso. Em segundo lugar, les operam como partes do organismo que funcionam como componentes das suas superfícies de interações internas e externas.

 

3) Em consequência desta intersecção estrutural, o sistema nervoso através das suas operações como uma rede fechada de relações cambiantes de atividade entre seus componentes neuronais, gera continuamente no organismo correlações senso / efetoras que modulam tanto o fluxo de suas interações no meio, quanto o fluxo de suas dinâmicas fisiológicas. O comportamento do organismo surge no encontro dinâmico organismo / meio e através das correlações senso / efetoras do organismo e a dinâmica estrutural do meio. Portanto, o sistema nervoso participa na geração do comportamento do organismo através das correlações senso / efetoras a que ele dá origem a qualquer momento, de acordo com a sua estrutura naquele momento.

 

4) O sistema nervoso não interage com o meio: é o organismo que interage com o meio através da operação do suas superfícies efetoras e sensoriais. É a estrutura do organismo como um todo, que determina quais correlações senso / efetoras são possíveis para isto, e não apenas a dinâmica do sistema nervoso operando sozinho. Tudo o que o sistema nervoso pode fazer quando intersecta as superfícies sensoriais e efetoras externas e internas do organismo, é desencadear alterações estruturais nas mesmas que resultam em uma ou outra das correlações senso / efetoras que são possíveis para o organismo de acordo com a sua dinâmica estrutural naquele momento (Maturana e Mpodozis, 1987). Além disso, as alterações estruturais provocadas nos sensores externos, tanto como componentes das superfícies sensoriais do organismo, quanto como elementos neuronais, são determinadas por sua estrutura e não pelas circunstâncias da interação que as provocam. Nestas circunstâncias, como o organismo interage com o seu meio, o seu sistema nervoso sofre alterações no fluxo das suas operações sinápticas que são contingentes às interações organismo e meio, mas que são determinadas pela estrutura do sistema nervoso, nem pela características do meio. Como resultado, o sistema nervoso não pode operar e não opera com representações do meio, e o que ele faz, o faz de acordo com a sua estrutura a qualquer momento.

 

5) A estrutura das células neuronais está em mudança contínua, tanto como consequência da sua própria dinâmica autopoéticas e, como consequência da sua participação como componentes do sistema nervoso e do organismo. Algumas dessas mudanças estruturais são especialmente relevantes, porque elas envolvem alterações a longo prazo na dinâmica sináptica das células neurais. Tanto quanto sabemos, essas mudanças estruturais acontecem de quatro formas: A) através dos chamados “efeitos de transdutor”, que são mudanças estruturais desencadeadas no componente neural dos sensores através dos encontros do organismo com o meio. Essas mudanças estruturais têm sido tradicionalmente chamados “efeitos de transdutor”, quando se pensa que o que é significativo b neste processo é uma transferência de energia. De acordo com o que pensamos, o que é significativo é que essas alterações estruturais são aquelas que acoplam a atividade do sistema nervosocom o fluxo de interações do organismo ou com a sua dinâmica fisiológica interna. B) Através de efeitos sinápticos, que são mudanças estruturais com diferentes constantes temporais acionadas nas células neurais pelo fluxo atual de interações sinápticas. C) através de efeitos tróficos, que são as alterações estruturais que surgem nas células neurais desencadeadas por substâncias de origem neural que são produzidos por processos ortogonais ao fluxo sináptico (porque envolvem moléculas e interações celulares que não são próprios da operação sináptica do sistema nervoso), mas são contingentes a ele. D) através de efeitos hormonais, que são alterações estruturais desencadeadas nas células neurais por substâncias produzidas no organismo através de um processo fisiológico que não envolve diretamente o funcionamento do sistema nervoso.

 

6) Se considerarmos em conjunto aponta II-3, II-4 e II-5, torna-se claro que, embora o meio não especifique o que acontece no sistema nervoso, durante a ontogenia de um organismo a estrutura do seu sistema nervoso (a conectividade neural, a dinâmica celular de produção de neurohumores, receptores de membrana, canais moleculares, etc.), alteram de maneira contingente o modo de fluir das interações do organismo no meio, para a história fisiológicos e de desenvolvimento interno do organismo, e para o fluxo da operação do sistema nervoso, como um componente do organismo.

 

7) A estrutura de um organismo e a estrutura do seu sistema nervoso são estruturas que têm surgido em uma história evolutiva de conservação transgeracional de uma maneira de viver (ver I-5). Essa história é de fato uma dinâmica relacional epigenética organismo / meio, que consiste na realização da vida do organismo. Por estas razões, a estrutura do sistema nervoso, que surge através do seu desenvolvimento em qualquer organismo particular, e a dinâmica fechada de mudanças de relação de acividades que se gera durante o seu desenvolvimento, não pode deixar de ser adequada para a geração da conduta dinâmica de interação que o modo de vida do organismo acarreta.

 

8) O curso das mudanças estruturais a que o sistema nervoso se submete através da história de vida do organismo que ele integra, é de fato limitado por duas condições: A) pela estrutura que o sistema nervoso tem como um componente de um organismo que pertence a uma linhagem particular, como se segue de I-7, e B) pelas contingências reais que ocorrem na vida do organismo, através dos processos descritos em I-5, II-5 e II-6. Como consequência disto, cada organismo tem a cada momento um sistema nervoso adequado para a geração das correlações senso / efetoras adequadas à sua história particular de realização do seu modo de vida, precisamente porque a estrutura do seu sistema nervoso é o presente de uma história de mudanças estruturais contingentes para o curso da história filogenética e ontogenética deste organismo. Em outras palavras, todos os animais sempre possuem um sistema nervoso adequado para a sua identidade biológica, tal como esta é composta e é realizada no espaço relacional do seu modo de vida.

 

9) Segue-se a partir dos pontos anteriores, que um sistema nervoso opera com dimensões diferentes daquelas que o observador vê o organismo a operar no espaço relacional e interpessoal em que existe como uma totalidade. O observador vê o organismo em seu espaço relacional e interacional interagindo e se relacionando com entidades de diferentes tipos ou (no caso de animais sociais) com relações e símbolos como se estes também fossem entidades. O sistema nervoso em sua dinâmica interna, no entanto, funciona como uma rede fechada de relações cambiantes de atividade entre seus elementos componentes, e não com os tipos de entidades que possam surgir no domínio das relações e interações do organismo.

 

10) Em resumo, o sistema nervoso, como um componente de um sistema vivo, constitui-se como uma rede fechada de elementos neuronais que funciona como uma rede recursiva fechada que altera as relações de atividades (entre os componentes neuronais) no qual cada mudança de relação de atividade de forma recursiva leva a outras mudanças de relações de atividades na mesma rede. O sistema nervoso como tal sistema neuronal se entrecruza com o organismo em suas superfícies sensoriais e efetoras, e sua operação fechada dá lugar a correlações senso / efetoras no organismo que nas interações do organismo em seu meio, constituem o seu comportamento. O sistema nervoso não opera fazendo representações do meio em que o sistema vivo que ele integra existe. No entanto, ele tem uma estrutura plástica que muda de acordo com as contingências do sistema vivo, enquanto este sistema mantém a sua organização autopoiética em seu meio. Como resultado dessas mudanças estruturais, a operação fechada do sistema nervoso continuamente dá origem a configurações de correlações senso / efetoras no organismo que realiza a sua vida em seu meio cambiante, até que essa congruência é perdida e o organismo morre.

 

III. Reflexões finais. Cognição ou comportamento?

Em termos gerais, um observador afirma que a cognição ocorre em um sistema quando ele ou ela vê que o sistema se comporta de forma adequada, uma vez que opera em um determinado domínio de interações, no entendimento de que um comportamento é adequado porque o sistema conserva certas características através dela ou dá origem a alguns resultados que o observador define como de importância. Quando os sistema é um sistema vivo, e o observador é um biólogo, um comportamento adequado geralmente significa um comportamento adequado à sobrevivência do organismo e à realização do seu modo de vida particular. No quadro representacionista, a cognição não pode deixar de ser o resultado de um processo através do qual um sistema gera uma representação interna do seu meio, e computa um comportamento de acordo com os seus objetivos ou propósitos. Neste contexto, a cognição é uma característica atribuída a um sistema, tanto para descrever a congruência operacional de um sistema vivo em seu meio, como para explicar tal congruência operacional como resultado da operação de alguns processos “cognitivos” especiais. A existência destes processos cognitivos especiais de fato viola a autonomia constitutiva de sistemas como sistemas vivos determinados por estrutura, uma vez que exigiria que as perturbações que incidem sobre um sistema poderiam especificar a característica das transições estruturais internas que o sistema irá sofrer. Isto seria equivalente a afirmar que o dedo que disca um número de telefone tem a propriedade de especificar o comportamento posterior da rede telefónica. Ainda mais, este exemplo torna fácil notar que, do ponto de vista do mecanismo interno do telefone, é absolutamente impossível apurar qual dedo o acionou, ou mesmo se o mecanismo foi acionado por um dedo, um lápis ou qualquer outro objeto ou circunstância.

 

O que dissemos neste artigo pode ser usados para explicar a cognição sem ter de supor a existência de qualquer processo computacional ou informativo especial. A partir dos pontos anteriores é fácil compreender que a cognição não é algo que um sistema tenha, nem nada que um sistema adquira através das suas interações. A cognição é o comportamento adequado de um sistema em um meio, que resulta da congruência dinâmica estrutural entre esse sistema e um meio. Como tal, a cognição somente conduz à congruência estrutural dinâmica que surge espontaneamente entre sistemas que entram em interações recursivas, como sistemas dinâmicos e seu necessariamente fazem. Como tal, a cognição se dará no espaço relacional ou domínio de interações de qualquer sistema dinâmico ao mesmo tempo que opera em acoplamento estrutural com as suas especificidades, e portanto não pode ser considerada como uma característica ou propriedade do próprio sistema. Portanto, a cognição não exige nem envolve qualquer operação que um observador poderia tratar como se fosse a geração de uma representação do meio a ser utilizada para se obter um comportamento eficaz.

Embora os sistemas vivos sejam sistemas autopoiéticos, não é a sua autopoiese que os torna sistemas cognitivos. Pelo contrário, é a sua maneira de funcionar como entidades autônomas dinâmicas com uma estrutura plástica. Em sistemas vivos, a cognição surge como resultado de sua história filogenética e ontogenética de acoplamento estrutural com as suas circunstâncias de vida. Todos os sistemas vivos em todos os momentos da história da biosfera nascem com uma estrutura inicial que, se depositados no lugar apropriado, lhes permite viver uma epigênese na qual se transformam em congruência com o meio, enquanto realizam a maneira particular de viver de sua linhagem. Num sentido estrito, ao passo que um sistema vivo vive, ele não encontra um meio de pré-existente: este meio surge com o seu funcionamento, mesmo que para o observador o meio pareça já existir. Além disso, as características que o meio adquire como o espaço de vida (nicho) de cada sistema vivo, surgem na realização do modo de vida do sistema vivo (Maturana e Mpodozis, 1992). É aqui onde o sistema nervoso central, tem uma participação na geração de um domínio de plasticidade estrutural que vai além do que o organismo faz por si mesmo, e permite uma grande expansão do domínio de estados possíveis dos organismos em sua autopoiese.

 

Referências

Kuffler S W (1953) Discharge patterns and functional organization of the mammalian retina. J Neurophysiol 16: 37–68

Maturana H (1969) Neurophysiology of Cognition. P Garvin (ed) Cognition, a multiple view. New York, Spartan Books, pp 3–24.

Maturana H (1970) Biology of cognition. Bcl Report 9. Biological Computer Laboratory, Department of Electrical Engineering, University of Illinois.

Maturana H, Varela F (1973) de Máquinas y Seres Vivos. Santiago, Editorial Universitaria.

Maturana H, Varela F (1980) Autopoiesis and Cognition: The Realization of the Living. Boston, D. Reidel Publishing.

Maturana H, Mpodozis J (1987) Percepción: configuración conductual del objeto. Arch Biol Med Exp 20: 319 – 324.

Maturana H (1990) Science and daily life: the ontology of scientific explanations. W. Krohn, G. Kuppers (eds.). Self-organization: Portrait of a Scientific Revolution. Dordrecht, Kluwer Academic Publisher, pp. 12–35.

Maturana H, Mpodozis J (1992) El origen de las especies por medio de la deriva natural o la diversificación de los linajes a través de Is conservación y el cambio de los fenotipos ontogénicos. Museo Nacional de Historia Natural de Chile, Publicación Ocasional 46.

Mingers J (1995) Self-producing Systems. Implications and Applications of Autopoiesis. New York, Plenum Press.

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