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Observando Sistemas Naturais

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Francisco Varela -1976 – Rainbow Lakes – Denver CO

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FRANCISCO VARELA em conversa com DONNA JOHNSON
The CoEvolution Quarterly Summer 1976 (pages 26-31)

Donna Johnson: Quase como uma questão de princípio, uma questão de saber o que fazem, muita gente se esforça para pensar de forma “holística, em termos de sistemas globais (inteiros). Mas muitos de nós esbarram em uma confusão que parte de sabermos que “não podemos ver as árvores sem ver a floresta” . Não sabemos bem como considerar as árvores sem nos metermos na floresta, na ecologia local, no planeta, etc., e logo em Tudo.  Sabemos também que “o todo é mais que a soma de suas partes”, mas, por favor, Francisco, o que é um todo?

Francisco Varela é um matemático e neurobiólogo cujo interesse principal é a lógica da auto- referência. Isto soa estranho mas eu compartilho a opinião de Ludwig Wittgenstein, Gregory Bateson, G. Spencer Brown, Heinz von Foerster e outros de que o fracasso em entender a auto-referência é o veneno no cérebro da maioria da condutas Ocidentais inadequadas, tanto públicas como pessoais. Em seu texto recente e notável, “A Calculus of Self- Reference” e nesta entrevista, Francisco ajuda a construir o que Von Foerster chama “uma cibernética de observar sistemasque é o restante da história depois da cibernética de sistemas observados” — feedback, a busca de objetivos, etc. Após vários anos com Von Foerster’ em seu Biological Computer Laboratory na University of Illinois in Urbana, Varela agora pesquisa e dá aulas na  University of Colorado, Denver. Donna Johnson, 28, uma nômade intelectual vagueia tornando mais claras as idéias das pessoas.

                                                               -Stewart Brand

Francisco Varela: Bem, sim, os todos, ou sistemas globais, estão arranjados como bonecas russas. Um todo contém o outro e todos eles estão contidos em um outro todo. Há um princípio de recursão aqui. Mas isto não significa que você não possa parar em algum ponto e considerar um sistema

E cheguei à convicção de que a chave para entender o holismo de tais sistemas, a globalidade destes sistemas, é entender que eles são organizados, suas partes estão organizadas de forma circular. Isto é, cada parte interage com todas as outras partes. Isto nos dá um sistema global auto-referencial.

Quatro leis da ecologia: “((1) Tudo está ligado a tudo o mais; (2) tudo precisa ir para algum lugar; (3j a natureza sabe o que faz; e (4) não há almoço gratuito.” Barry Commoner in The Closing Circle, A. Knopf, New York, 1971, p . 18,

E, claro, a análise das partes não explica as propriedades emergentes que surgem quando essas partes são reunidas.

Houve muito pensamento claro e disciplinado sobre todos. Temos um montão de idéias e de tecnologia e matemática sobre o controle de sistemas (artificiais), isto é, como projetá-los e como fazê-los realizar aquilo que queremos que realizem. Este é um passo na conversa sobre sistemas em geral, sem considerar suas partes específicas, ou seja, uma teoria adequada sobre sistemas. Mas tem havido muito pouco pensamento sobre as propriedades emergentes de sistemas globais, sistemas naturais.

Johnson: Então, como você identifica o círculo que define o seu sistema?

Varela: Pelas fronteiras que você estabelece para o sistema. Você diz, este é o sistema que vou considerar, este cão, esta sociedade. Claro, há muitas maneiras de dividir o mundo em diferentes todos, mas uma vez que os critérios para separar um sistema do outro estejam dados, você tem uma descrição estável.

Então, se você está interessado em ecologia,uma certa forma de ecologia, você divide o mundo de uma certa forma. Se você está interessado em economia, você divide o mundo de outra maneira. Mas, dado um critério de distinção, você sempre termina com sistemas que têm um tipo de (clausura) fechamento em sua organização.

E, se você é um biólogo isto fica bastante claro, não é mesmo? Nos assuntos dos biólogos, cada uma das interações de qualquer organismo interage com todas as outras interações de uma maneira bastante fechada, uma rede fechada de interações.

O fato de que os todos (os sistemas naturais) têm esta organização fechada implica em que no sentido de descrevê-los precisamos lidar com descrições auto-referenciais. Você se mete com funções que são funções delas mesmas, propriedades que computam a si próprias e assim por diante. Para a maioria das pessoas, isto soa muito esquisito  porque a tradição do discurso científico tem sido de que isto não é algo que possamos considerar. A linha principal tem sido colocar isto completamente de lado; qualquer coisa auto-referencial é um “círculo vicioso” e foi inclusive rotulada assim por São Tomaz de Aquino.

Johnson: Somos todos “círculos viciosos”.

Varela: Somos, mas estamos proibidos de lidar com isso em toda sua precisão formal pela Teoria dos Tipos, de Russel-Whitehead, que exige a quebra completa de qualquer circularidade pelo estabelecimento de uma forma hierárquica, Esta é a convenção que predomina na ciência clássica e, portanto, na teoria dos sistemas. Ela é hierárquica; você tem “entrada-sistema-saída”. (estímulo-sistema-resposta). Tem um começo e um fim e o começo é o começo, e o fim é o fim; não há confusão alguma entre os dois. Mas se você olhar realmente para os todos, você não pode fazer isto. Você tem que olhar para o começo e para o fim como um círculo. Então, você não pode lidar com eles hierarquicamente, você tem que vê-los como situações auto-referenciais.

Johnson: Então, estudar a organização de um sistema global é estudar a natureza desta auto-referência?

Varela: Sim. Este é o tipo de organização auto-referencial que confere as propriedades estáveis dos todos. E é também o que confere ao sistema sua natureza. Quando você tem uma interação fechada de produções químicas, você pode ter uma célula, não antes disso. Quando você tem uma interação fechada de descrições você pode ter uma auto-conscência, não antes disso. Quer dizer, a clausura (o fechamento), a auto-referência, parece  ser a dobradiça sobre as quais se movem as propriedades emergentes do sistema.

Johnson: Isto se aplica exclusivamente a sistemas naturais, ou também a entidades projetadas?

Sistemas taciturnos são aqueles para os quais o observador afirma ou descobre que há um propósito (um objetivo), que é depois tornado equivalente ao sistema em questão. Por outro lado, sistemas orientados pela linguagem podem ser solicitados ou instruídos a adotar objetivos por quem quer que seja que conheça a linguagem do objeto e estas pessoas podem afirmar e descrever seus próprios objetivos, usando o mesmo meio; estes são literalmente sistemas para uso geral”  Gordon Pask in “The leaning of Cybernetics in the Behavioral Sciences, (Progress in Cybernetics, vol. 1, Gordon Breach, New York, 1969, p. 25)

Varela: Sistemas projetados podem ser vistos como sistemas fechados, mas a maioria dos sistema projetados pode ser compreendida por uma análise hierárquica, porque são projetados com um propósito (uma função) em vista. Mas como fazer isto com um cão? O cão tem uma organização que se manifesta em uma certa conduta que surge de sua organização – mas não é projetado para ter um propósito. Devemos lembrar que, quando falamos de sistema naturais, não estamos de modo algum afirmando que os sistemas projetados feitos pelo homem não são “naturais”. A palavra “natural” aqui funciona de modo ambíguo. É claro, todo sistema projetado também é natural no sentido de que, o que quer que façamos, pertence à mesma ordem natural  que aquilo que os pássaros fazem. A conotação “natural” aqui, como em “sistemas naturais” se refere apenas a que eles não são projetados, em contraposição aos sistemas projetados por humanos.

fig-2-varela-e-sua-filha Francisco Varela & sua filha.

Johnson: Então, qualquer sistema pode ser analisado em termos de sua clasura (seu fechamento)…

Varela: Na verdade, um sistema é estável em virtude de seu fechamento organizacional, pois esta é a fonte de sua estabilidade. Isto já era identificado por Wiener, em seu conceito central de retro-alimentação (feedback). A noção de feedback é auto-referencial, mas foi capturada pelos engenheiros que a fizeram parecer hierárquica. Eles aplicam um sinal de referência, identificam uma entrada e uma saída com uma pequena demora. Então, a auto-referência fica oculta pelo truque de lidar com ela no tempo.

Mas, o tempo, o truque de lidar com a auto-referência no tempo, somente funciona em uma descrição a nível numérico muito concreto. Assim que você abstrai as propriedades do sistema um pouco mais, por exemplo, em uma situação na qual você não tem acesso a um intervalo temporal, você cai em uma linguagem de auto-referência. E a estrutura, em si mesma,  é claramente atemporal, e tem, portanto, uma organização auto-referencial.

Johnson: Você acha que é um ponto óbvio ver todos os sistemas como auto-referenciais?

Varela: Penso que se torna óbvio depois que o vemos. Em geral, não é óbvio porque a história do pensamento moderno Ocidental nos pressionou a colocar a história da auto-referência em um ponto cego conceitual.

Mas todo mundo compreende intuitivamente  as interações mútuas em um sistema global. Se tento compreender como meu cérebro interage com meu fígado, penso de saída que não é que meu cérebro atue sobre meu fígado de forma hierárquica, mas que meu fígado também atua sobre meu cérebro, de maneira simultânea.

A menos que você encare a mutualidade, a clausura de um sistema, você perde o sistema de vista. É a simultaneidade das interações que confere ao sistema global o sabor de ser o que é.

Então, concordo com você em que não é óbvio, não é algo que possa ser demonstrado. É como as pessoas dizerem: “Hei! Descobrimos que temos um meio ambiente!”  É claro, todo mundo sempre teve um “meio ambiente”. Mas isto foi descoberto há quinze anos atrás.

E alguns dos exemplos mais interessantes são aqueles que não eram nada óbvios. Por exemplo, o entendimento de que o sistema nervoso, não age como um aparato com entradas e saídas para o processamento de informações como é usual entender na neurofisiologia , mas sim como uma unidade fechada de percepção e ação que mantém níveis de referência que são gerados internamente.

Um sistema cognitivo é um sistema cuja organização define um domínio de interações no qual ele pode agir com relevância para a manutenção do próprio sistema, e o processo de cognição é a ação efetiva (indutora ou comportamental) neste domínio. Sistemas vivos são sistemas cognitivos, e viver, como um processo, é um processo cognitivo. Esta afirmação é válida para todos os organismos, com e sem um sistema nervoso. Humberto Maturana in “Neurophysiology of Cognition,” Cognition: a multiple view. Spartan Books, New York, 1969, pp. 7-8

Em outras palavras, a idéía é de que a estabilidade do organismo produz alguns níveis a serem mantidos e que tudo o que o sistema nervoso faz é manter estes níveis gerados internamente  em face de perturbações. Então, a conduta se torna a compensação dessas perturbações. Isto foi proposto inicialmente por Maturana (1) e  em seguida por W. Powers (2) em seu livro Behavior: The Control of Perception. “Percepção” neste contexto representa a visão pelo organismo do que quer que incida sobre ele. E este modo de ver é precisamente dependente  dos níveis de referência que ele é articulado para manter, mais do que responder a “estímulos” definidos externamente que devem ser  “processados,” de maneira definida como um agente externo ao corpo. E é claro, as “perturbações” podem ser externas ou surgir  internamente do próprio organismo.

Agora, “compensação” e “perturbação” são coisas muito diferentes de entradas e saídas (estímulos e respostas), embora possam funcionar de forma similar. “Inputs” e “outputs” conotam algo que surge no projeto de um sistema . Quando coloco uma moeda na máquina de vender refrigerantes, sei que ela foi projetada para receber aquele input e nenhum outro input. Mas se chamo meu cão “Fido” e ele vem até mim, não é porque ele foi projetado para ser chamado de “Fido” ou de qualquer outro nome. Ele não foi projetado; ele simplesmente faz o que faz. A diferença básica entre input-output (estímulo-resposta) e perturbação-compensação  é que um modo de ver enfatiza o projeto de uma coisa, e o outro enfatiza a estabilidade que surge da clausura de sua organização.

O outro exemplo da expansão de nosso entendimento de sistemas globais, é um diálogo, ou, mais concretamente, o encontro de um professor e um aluno. Ambos devem aprender simultaneamente: um a ensinar, e o outro a aprender. Isto foi descrito em grande detalhe por  Gordon Pask’s em sua teoria do p-indivíduo (3).  Poderíamos seguir dando exemplos que são interessantes: relações interpessoais (Laing)(4); modelos do mundo (5); gerenciamento (Beer)(6); comunicação (Bateson)(7); economia (Boulding(8); e por aí afora.

A organização anatômica e funcional fundamental do sistema nervoso é basicamente uniforme: as mesmas funções e operações (excitação, inibição, interação lateral, inibição recursiva, etc.) são realizadas em suas várias partes, embora em contexto diferentes e integradas de maneiras diferentes. A destruição parcial do sistema nervso não altera sua uniformidade básica, embora as partes que permanecem ilesas, não possam mais fazer as mesmas coisas que o todo fazia, em seu modo de operação elas parecem idênticas ao todo ileso. A um observador, uma vez ultrapassada a zona dos sensores, o sistema nervoso, como um modo de organização, parece começar em qualquer ponto arbitrário que o observador possa considerar: a resposta à pergunta: O que constitui um input para o sistema nervoso? depende inteiramente do ponto de observação escolhido. Humberto Maturana in “Neuropiiysiology of Cognition,” Cognition: a multiple view. Spartan Books, New York, 1969, p.13.

 

Uma palavra de cautela aqui. Não estamos dizendo que tais sistemas são fechados para interações. Este é um ponto onde há muita confusão semântica. Quando digo que um sistema natural tem fechamento organizacional, as pessoas pensam que digo que está fechado para interações. Não é assim, embora esta seja uma interpretação comum.  Isto se liga à questão original; nenhum sistema está fechado para interações, para trocas de matéria e energia. Mas ele pode ser fechado em sua organização, como disse Ashby há muitos anos.

Nesta discussão, questões de energia não desempenham papel algum. Na verdade a cibernética poderia ser chamada como o estudo de sistemas abertos para a energia, mas fechados para informação e controle – sistemas que são vedados à informação. Ross Ashby in Introduction to Cybernetics, Chapman and Hall, London, 1955, p. 5.

Johnson:  fechados para computação.

Varela: Sim, fechados para computação ou informação. E se você leva isto a sério você vê que a estrutura tem que ser feita de interações auto-referenciais. Interações circulares nas quais  não há linearidade, nas quais, como nas alças de feedback, não há sentido em falar de causa e efeito, porque a causa e o efeito estão misturados.

Johnson: Estou tentando entender o que o observador tem a ver com o fechamento. E me pergunto: é uma propriedade minha, ou uma propriedade do sistema?

Varela: Bem, é de ambos. É uma propriedade de seu pareamento. E que você faz com o fechamento de um sistema, na realidade, é o que fazemos o tempo todo, i.e., interagimos com um sistema catucando o sistema, atirando coisas nele, gritando com ele, fazendo coisas deste tipo, em vários graus de sofisticação. Isto é, uma perturbação da estabilidade do sistema, que o sistema compensará, ou não, e se desintegrará. Se o sistema compensa a perturbação, então o vemos estável frente àquela interação. Então, toda vez que digo “Fido” e meu cão se aproxima, porque “Fido” é uma perturbação que produz uma compensação, i.e., ele se move e vem até onde estou. Isto é assim com todos os sistemas. Agora, isto depende do sistema porque a conduta depende da organização do sistema, e, depende do observador porque depende do tipo de perturbação que é dirigida ao sistema. Então, minha capacidade de entender quais são as propriedades do sistema é limitada pelos tipos de interação que posso ter com o sistema. Então, depende do sistema e depende também do observador.

Johnson: Então deveríamos saber o que fizemos com o sistema … tão bem quanto possível for.

Varela: Sim, tanto quanto for possível. E quanto maior o domínio de interações que você pode ter com um sistema, mais você o conhecerá. O exemplo máximo disto é uma pessoa muito íntima, ou uma sociedade muito bem conhecida, onde você sabe quais os tipos de compensação surgirão de certas interações.

Mais formalmente, uma vez conhecidas as regras do fechamento, em vez de fazer uma análise estímulo-resposta, você poderá prever qual a compensação desencadeada por qualquer perturbação.

Johnson: Então, voltamos ao início, a um sistema auto-referencial que preserva a si próprio.

Varela: Sim, e penso que aqui posso sumarizar os três pontos-chave que discutimos, parar por um momento e pensar sobre o significado desta “globalidade” (esta inteireza). Isto se relaciona a dois processos-chave. Um, é, nas interações com o sistema, reconhecer as propriedades estáveis dos todos Outro, é o entendimento de que a estabilidade que vemos surge de interações auto-referenciais mútuas e recíprocas entre os componentes que constituem o sistema. Então, as três noções que mencionei e que são: distinção, estabilidade e fechamento, na realidade, são uma só.

Reconhecemos os todos poque eles têm certas propriedades estáveis, e estas propriedades surgem do fechamento da organização, e este fechamento é a chave para o aparecimento de novas propriedades, que é a característica de um todo que tem propriedades novas, emergentes.  Em suma, “o todo é mais que a soma das partes: é a clasura organizacional das partes”.

Johnson: Sim. O que tudo isto tem a ver com G. Spencer Brown e suas Leis da Forma (9) e seu próprio trabalho, Francisco, sobre a lógica da auto-referência?

Varela: Bem, no pensamento Ocidental, a auto-referência foi posta completamente de lado. Então, no tipo de aparatos descritivos a que estamos acostumados para descrições precisas, que são a lógica e a matemática que estiveram disponíveis para descrevermos o mundo, a auto-referência estava completamente excluída, exceto de uma forma muito crua envolvendo intervalos temporais e expressões recursivas. estas descrições são adequadas para coisas como computadores e sistemas de controle, mas não nos dão o sabor pleno da estrutura organizacional fechada, que parece estar oculta por debaixo.

Um começo inteiramente novo para isto foi dado por G. Spencer Brown em seu livro Laws of Form. Brown é uma chave importante para o que estivemos discutindo, porque ele mostra que o ato de indicar, de distinguir alguma coisa, é realmente o que está acontecendo na base de qualquer descrição de qualquer universo. Distinguir ou não distinguir como ele demonstra, é mais geral, mais fundamental, que (a distinção entre) verdadeiro ou falso. Verdadeiro/falso é apenas um caso particular do ato geral de distinguir.

Traçando o caminho fazemos um corte, uma ruptura e podemos recomeçar a reconstruir com uma precisão e uma abrangência que parecem quase misteriosas, as formas básicas que subjazem a linguística, as ciências matemáticas, físicas e biológicas, e podemos começar a ver como as leis familiares à nossa própria experiência seguem inexoravelmente o ato original de cortar. O ato é em si mesmo já lembrado, mesmo inconscientemente  em nossas primeiras tentativas de distingiuir diferentes tipos de coisas em um mundo onde, em primeiro lugar, as fronteiras podem ser traçadas onde quer que queiramos. Neste estágio, o universo não pode ser distinguido de como agimos sobre ele , e o mundo parece areia movediça sob nossos pés.

Embora todas as formas, e portanto todos os universos sejam possíveis e todas as formas sejam mutáveis, torna-se evidente que as leis que relacionam tais formas são as mesmas em qualquer universo. É essa identidade (this sameness), a idéia de que podemos encontrar uma realidade que é independente de como o universo realmente aparece, que confere tal fascinação ao estudo da matemática.

  Que a matemática, em comum com outras formas de arte, possa nos levar além da existência ordinária, e possa nos mostrar alguma coisa da estrutura na qual toda a criação se conecta, não é uma idéia nova. Mas os textos matemáticos geralmente começam a história mais ou menos pelo meio, deixando ao leitor a tarefa de recolher os fios da meada tão bem quanto consiga. Aqui, a história é traçada de seu começo. G. Spencer Brown in Laws of Form, George Allen & Unwin, London, 1969, p. v.

Então, a noção de indicação é o domínio que ele explora, os contornos mais despidos de qualquer coisa que podemos descrever. Brown descasca os sistemas até seus esqueletos, que são, justamente, formas indicativas puras. A leitura de seu livro não pode ser substituída por nenhum sumário que possamos traçar aqui.

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Johnson: Entra o observador, ao som de clarins.

Varela:  Sim, isto trás à tona a importância plena do observador em sua observação. Isto é, o que quer que deliberadamente distingamos revelará não apenas as propriedades que procuramos  mas o fato de que fazemos estas interações  às custas de nossas próprias propriedades; ou seja, as propriedades que descobrimos em sistemas dependem de nossas próprias propriedades.

Em sua forma mais pura, isto significa que qualquer descrição que façamos do mundo estará baseada no ato de cindir este mundo de diferentes maneiras. E a maneira com que vemos o mundo, portanto, revela qual é nossa escolha nesta cisão, e que há muitas formas de cindir exatamente porque existem muitos observadores.

Spencer Brown mostra que, no sentido matemático mais preciso, toda descrição pode ser baseada no ato de distinguir, inclusive a lógica. O cálculo dessas distinções é o que seu livro contém. Ele desenvolve um cálculo relacionado a estas formas de indicação. Então, nossas idéias sobre sistemas e sua estabilidade encontra uma fundamentação muito natural nas visões profundas de Brown, e em seu formalismo.

É a partir deste terreno que uma visão diferente  sobre a auto-referência pode ser desenvolvida. Porque em sua forma indicacional mais pura, a auto-referência aparece como formas que indicam a si mesmas.

Isto pode parecer apenas poético, mas não é. Também pode ser representado como expressões matemáticas muito bem definidas. E quando começamos a lidar com estas re-entradas, expressões que se auto-informam, acharemos que toda uma nova extensão das posturas iniciais de Brown é necessária.

É algo como uma analogia ao domínio numérico: suponha que começamos em um terreno incial composto apenas dos algarismos (i.e.,1, 2, 3, …) . Então você lida com estes algarismos, fazendo expressões cada vez mais complexas. Em um dado ponto, novos tipos de números emergirão, números reais (algo como π or √2 ). Então se torna necesseario estender o terreno inicial no qual começamos.

É claro que no domínio das indicações, números não existem ainda. Este domínio precede sua aparição. Mas surge uma situação similar: assim que a auto-referência é introduzida, o terreno tem que ser consideravelmente expandido. E, para mim, isso diz que em nas formas mais básicas, a auto-referência é um domínio muito especial, que não pode ser capturado em termos não-auto-referenciais (nonself-referential grounds). Algo que sabíamos todo o tempo, mas não queríamos reconhecer. Então, é a isto que meu trabalho (10) se refere, a exploração deste fundamento browninano para uma teoria geral de sistemas na qual a clausura e a auto-referência tomam o lugar que merecem. É um tema muito lindo e há muito o que fazer.

Agora, para mim, os aspectos mais atraentes desta abordagem, desta visão browniana, é que ela combina em um único golpe conceitual o ato de ver sistemas (i.e., algum universo) e quem faz a visão (o observador), de forma que o terreno formal se encaixa como uma mão se encaixa na luva com nossos argumentos anteriores sobre o observador,  o encaixe entre o que é visto e quem o vê.

Então, não podemos escapar do fato de que o mundo que conhecemos é construído no sentido ( e então de tal forma que que se torne capaz) de ver a si mesmo. Isto, na verdade, é notável. Não tanto pelo que ele vê – embora isto possa ser bastante fantástico – mas em relação ao fato de que ele pode efetivamente ver (qualquer coisa). Mas, para fazer isto, ele precisa primeiro cindir a si mesmo pelo menos em um estado que vê, e um outro estado que é visto. Nesta condição mutilada e cindida, o que quer que ele veja é apenas uma parte de si mesmo. Podemos ter certeza de que o mundo é ele próprio (é indistinto de si mesmo) mas, em qualquer tentativa de ver a si mesmo como um objeto, ele precisa, de forma igualmente indubitável, agir para fazer-se separado e, portanto, falso para si mesmo. Nesta condição ele estará sempre iludindo a si mesmo… Vemos agora que a primeira distinção, a marca, e o observador, não são só intercambiáveis, mas sim que, em suas formas, são idênticos.

76 . Spencer Brown in Laws of Form, George Allen & Unwin, London, 1969, p. 105, p. 76.

Johnson: É intressante como isto também se encaixa em muitas tradições espirituais que dizem que o único modo de saber o que você está fazendo é conhecer a si próprio, tanto quanto for possível, para conhecer o conhecedor. Isto trás uma responsabilidade amedrontadora, se você tem esta sensibilidade.Penso na questão das pessoas se tornarem “mais objetivas”, como muitos dizem, por se livrarem, ou pelo menos reconhecerem seus “ego-trips”, suas falsas crenças, seus preconceitos, etc. Haveria um maneira de falar sobre estas coisas na linguagem de G Spencer Brown, talvez mais claramente que em linguagens anteriores?

Varela: Tenho dois pontos a ressaltar em relação a isto, aos quais dou muita importância. Primeiro, eu reformularia o que você disse sobre a questão de sermos “objetivos”. Quando você compreende que o que quer que você veja reflete suas (próprias) propriedades, em vez de alocar tanta intenção, tanta energia, investir tanto em um dado conteúdo, você se volta e focaliza sua capacidade de fazer coisas tais como uma distinção. Então, a capacidade de computar um realidade se torna muito mais interessante que o conteúdo da realidade. Não colocar, portanto, tanta intenção em algo, mas sim no processo de fazer aquilo que fazemos para chegar a este algo.

Parece-me que o que é propriamente humano, nossa responsabilidade (e John Lilly diria: o próximo passo na evolução), é alcançar estas leis da cognição e da realidade, mais que qualquer realidade específica, em particular.

O Ocidente sempre esteve inclinado a um modo particular de fazer as coisas. O que um entendimento do que falamos hoje pode trazer à baila é o reconhecimento de que quanto mais falarmos destas coisas, mais nós saberemos sobre como computar um universo, qualquer universo. Então, nos tornaríamos mais “objetivos” no sentido de compreender o que o conteúdo de qualquer universo realmente significa.

 

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Isto é o que von Foerster chamou de “cibernética de segunda ordem” (11), i.e., não a cibernética  de sistemas observados, mas a cibernética  de observar sistemas. Penso que isto é bem central. É realmente o mesmo tema cognitivo endereçado por Bateson (7), Lil!y (12) , von Foerster (13) , Spencer Brown (9) Joseph Chilton Pearce (14), John Brockman (15) e Ornstein (16). Eles se encaixam bem com as técnicas espirituais, mas me parecm maneiras mais Ocidentais de personificá-las, mais que os modos mais desencarnados da espiritualidade.

O segundo ponto em relação à sua pergunta, é que, uma vez que você se dê conta do impacto pleno destas idéias, o qual não penso que já tenhamos, você começa a compreender que sua participação nesta realidade tem um limite , i.e., que você é parte dela e não pode de forma alguma englobá-la inteira. O estabelecimento de limites para nossas ações como resultado de nossa compreensão epistemológica, parece ser muito fecundo à luz de modelos do mundo, do crescimento urbano, populacional, e todos estes problemas humanos atuais que encontram solução no estabelecimento de limites.

Mas não podem ser limites impostos de fora para dentro, como Ivan Illich (17) disse tão claramente em relação à medicina, à lei e ao transporte.  Nenhum destes limites pode ser alcançado por uma decisão arbitrária, nem por mito, como costumava ser, mas sim deve surgir de um entendimento de que estas limitações podem ser vistas com a maior precisão. Podemos compreender que temos uma capacidade limitada de entendimento o que está ocorrendo em um dado momento e, portanto, limitar nossas ações   em relação à realidade que confrontamos. Isto correesponde ao inverso da idéia atual de precisão, segundo a uma ação equivocada pode ser corrigida por métodos tecnológicos ou científicos mais complexos na mesma linha em que o equívoco foi descoberto.

Então, as duas coisas caminham lado a lado,  a limitação intrínseca, que é um tipo auto-referencial de limitação, e a compreensão da importância de focalizar a natureza de nossa capacidade de inventar realidades, mais que focalizar seus conteúdos específicos.

Johnson: Somos então colocados face a face com a auto-consciência de vermos a nós mesmos vendo o mundo, e a “consciência do outro” (other-consciousness) que vê seus limites no conhecimento que cada um de nós está construindo uma realidade para si mesmo.

Varela: Sim, e isto nos leva longe porque nos leva a uma meta-compreensão da humanidade. Se todo mundo concordasse que sua realidade atual é uma  realidade, e o que nós essencialmente compartilhamos é nossa capacidade de construir realidades, talvez então pudéssemos concordar com um meta-acordo para computar uma realidade que significasse sobrevivência e dignidade para todo mundo no planeta, em vez de cada grupo acreditar em um modo particular de fazer as coisas.

Então, para mim, a auto-referência é o nervo desta lógica do paraíso. i.e., a possibilidade de uma sobrevivência comum com dignidade para o ser humano.

Este paraíso é algo muito concreto, alicerçado na lógica da auto-referência, em ver que o que fazemos é um reflexo do que somos. Este é o outro aspecto de meu interesse em ter um conhecimento seguro do significado de descrições auto-referenciais, e de como torná-las acessíveis, manipuláveis, significantes.

Johnson: Mesmo os níveis mais simples do que ainda não foi feito, em lugares como, por exemplo, a medicina, onde isto geralmente parece não ocorrer às pessoas de perguntar: “O que se passa quando aberto este botão?”, ou “O que ocorre quando aplico este antibiótico?” “O que se passa além da morte de certas bactérias? “Como o organismo compensa isto? Nem mesmo isto é feito, que dizer da mudanca de paradigma que será necessária se este seu paraíso vier a ocorrer.

Varela: Bem, ou isto ocorre, ou vamos nos destruir. A transição aqui é de um paradigma clássico – o observador não entra na observação – para um paradigma (como chamá-lo? – o “comunal” – a descrição revelará as propriedades do observador (13). No paradigma clássico,  o sabor essencial é hierárquico; e nos lembra que pertencemos a uma sociedade corporativa organizada hierarquicamente. No paradigma que esperamos que ainda chegue, um aspecto central de qualquer descrição  é o reconhecimento de que tudo afeta tudo e reflete sobre tudo mais; é mais como uma estrutura comunal.

Bem, estamos sendo extremamente frouxos e gerais, mas todas estas coisas se relacionam. É notável que a teoria de sistemas, no sentido usado aqui; matemática no sentido browniano; um enetendimento adequado do sistema nervoso e da cognição; e de problemas humanos tais como explorar as bases da consciência e do crescimento institucional excessivo – todas estas coisas se juntam em um entendimento comum. É um bocado de chão a cobrir, mas está aqui agora.

Johnson: E a moral da estória …

Varela: A moral da estória é que precisamos  ter este entendimento. Mas quer esta sobrevivência com dignidade ocorra ou não, não é apenas uma questão de idéias: também implica viver um montão de outras coisa. Precisamos ter o ser adequado para a compreensão e não se chega a isto apenas por meios intelectuais. Aqui também se aplica a auto-referência: para entendermos todos nós e o mundo, temos que participar do todo em nós. Especialmente, é necessário unir formas verbais e não-verbais de conhecimento, racionais e intuitivas. Sem a compreensão,isto não seria possível. Mas precisamos nos precaver contra contar apenas com o intelecto


 

REFERENCES

  1. H. Maturana, The Neurophysiology of Cognition, in: P. Garvin (Ed.), Cognition, Spartan Books, New York, 1969. See also his Cognitive Strategies, in: L’Unite de L’Homme, Paris, Plon, 1975.
  2. W. T. Powers, Behauior; the Control of Perception, Aldine, Chicago, 1973. Also his Feedback: Beyond Behaviorism, Science 179: 351, 1973.
  3. G. Pask, Conversation, Cognition and Learning, Elsevier, New York, 1975. See also his Cybernetics of Human Learning and Performance, Hutchinson, London, 1975.
  4. R. Laing, Kraofs, Random House,

New York 1971.

  1. Cf. (or example E. Laszlo, A strategy for the future, George Brazillier, New York, 1974; E. Jantsoh, Design for Evolution, George Brazillier, New York, 1975.
  2. G. Bateson, Steps to an Ecology of Mind, Ballantine Books, 1972, specially Part III.
  3. K. Boulding, Beyond Economics, V. Mich. Press, Michigan, 1968; see also E. Schumacher, Small is Beautiful, Harper and Row, 1974.
  4. G. Spencer Brown, Laws of Form, George Allen & Unwin, London, 1969; paperback American edition: Ballantine Books, New York, 1973.
  5. F. Varela, A calculus for self-reference. Int. J. Gen. Systems 2: 6, 1975; cf. also The Arithmetic of Closure, Proceedings of the III European Meeting Cybernetics and Systems Research, 1976.
  6. Cybernetics of Cybernetics, Biological Computer Laboratory, University of Illinois, Urbana, 1974.
  7. J. Lilly, Programming and Metaprogramming in the Human Biocomputer, Ballantine Books, New York, 1973.
  8. H. von Foerster, On Constructing a Reality. Environmental Design Res., Vol. 2, W. F. Streisor (Ed.), Dowden,Hutchinson & Rose, Strousburg, 1973. Sec also his Notes for an Epistemology of Living Things, in L’Unite de L’Homme, Paris, Plon, 1975. Other valuable papers by von Foerster are reproduced In Cybernetics of Cybernetics.
  9. J. Pearce, The Crack in the Cosmic Egg, Julian Press, 1971.
  10. J. Brockman, Afterwords, Anchor Rooks, New York, 1972.
  11. R. Ornstein, The Psychology of Consciousness, Freeman, San Francisco, 1971.
  12. Ivan lllich, Medical Nemesis, Calder and Boyars, London, 1974, Cf. also his Tools for Conviviality, Harper and Row, New York, 1973fig-3-ourobouro