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Os imunologistas pensam como em 1968?

blog da SBI-DEZEMBRO de 2010

Os imunologistas pensam como em 1968?

Nelson Vaz

 

“Mostre-me uma área da ciência onde alguém que escreveu algo

em 1968 acredita exatamente na mesma coisa 40 anos depois,

e eu lhe mostrarei uma área da ciência que está morta.”

Paul Ehrlich, The Scientist 24(12)26, 2010.

 

Eu não diria que há imunologistas que pensam o mesmo que pensavam em 1968; a maioria dos imunologistas, principalmente os brasileiros, não era sequer nascida em 1968. Mas creio que há velhos imunologistas que, exceto por uma riqueza maior de detalhes (genéticos/moleculares/celulares)  ainda pensam a mesma coisa que pensavam há 40-50 anos atrás. Afinal, a teoria de Seleção Clonal é de 1957, expandida em 1959 (Burnet, 1957; 1959) e ainda recebe aplausos efusivos (Hodgkin, Heath and Baxter, 2007; Hodgkins, 2008), e não apenas de australianos. A Imunologia está longe de ser uma área morta da ciência, mas me parece evidente que ela está se dividindo em outras coisas. Exatamente há um ano, comentei com Cristina Caldas que o progresso atual sobre a “imunidade inata” está novamente transformando a imunologia em imunoquímica, como na primeira metade do século XX – exatamente a tendência que foi rompida pelos experimentos de Medawar e colaboradores sobre linfócitos e alo-enxertos (Billinghma, Brent & Medawar, 1953), e pela emergência das teorias ditas “seletivas” (Jerne, 1955; Burnet, 1957; Talmage, 1957). Continua difícil inserir a imunologia no organismo e mostrar sua relevância no crescimento, na morfogênese, na alimentação, no envelhecimento, enfim, a imunologia continua sem fisiologia, sem descrever estabilidades dinâmicas; sobrevive como um ramo da patologia. Vou fazer um comentário e uma pergunta.

Um comentário: O que a atividade imunológica (a ativação/diferenciação linfocitárias) faz no organismo deve ser algo delicado e sutil, caso contrário notaríamos irregularidaes graves na vida e  na reprodução de camudongos Rag-/-, que nunca chegam a formar linfócitos. Eu pensava que estes animais precisariam ser mantidos em ambientes germ-free; mas não, eles crescem e se reproduzem em ambientes SPF, que estão repletos de microorganismos – aqueles  que apelidamos de “comensais”, isto é, que não nos agridem. Pode-se pensar que, sem linfócitos, qualquer infecção se tornaria patogênica: ledo engano. Isto trás considerações interessantes sobre a natureza das doenças infecciosas. Alguém já pensou que a chamada imunidade anti-infecciosa, não é realmente anti-infecciosa (não evita infeccões), mas sim protege contra doenças infecciosas? Que eu saiba, não há indicações de que a imunidade interefere na microbiota comensal.

Uma pergunta: Por que a teoria de Seleção Clonal, que omitiu tantos desenvolvimentos importantes na imunologia, e pode ser refutada de muitas maneiras, permanece viva, como eixo central do pensamento imunológico? Em outras palavras: por que o pensamento em imunolgia ainda é clonal,  em vez de sistêmico; episódico, em vez de processual? Por que há tanta dificuldade em definir uma organização para o sistema imune? Sugiro que  Thomas Kuhn estava certo ao dizer que teorias não são destruídas por experimentos que ela seja incapaz de explicar: estes experimentos são tratados como exceções a serem resolvidas mais tarde. As teorias científicas só são deslocadas quando surge uma teoria rival já articulada, com suas novas perguntas e seus novos paradoxos. E a teoria que substituirá a simplicidade da Seleção Clonal é muito mais complicada: não poderá deixar de fora temas complexos da teoria evolutiva, da biologia do desenvolvimento e seu entrelaçamento com a ecologia. E, acima de tudo, deixará de tratar a atividade imunologica como “cognitiva” (como um reconhecimento, que implica uma memória). Quando vemos a imunidade como “cognitiva”, fazemos perguntas derivadas daquilo que entendemos como “cognição” e isto complica, em vez de simplificar o problema. Assim sendo, a tarefa de sugerir uma nova teoria imunológica é amedrontadora. E no entanto ela se move…

 

Bibliografia

Billingham RE, Brent L, Medawar PB. Actively acquired tolerance of foreign cells.Nature. 1953;172:603-6.

Burnet, F.M. (1957) A modification of Jerne’s theory of antibody production using the concept of clonal selection. Austr.J.Sci. 20, 67-69.

Burnet, F.M. (1959) The Clonal selection theory of acquired immunity. University Press, Cambridge.

Hodgkin, P. (2008) The golden anniversary of Burnet’s clonal selection theory.  Immunol Cell Biol 86, 15.

Hodgkin, P.D., Heath, W.R. and Baxter, I.G. (2007) The clonal selection theory: 50 years since the  revolution. Nature Immunology 8, 1019-1027.

Jerne, N.K. (1955) The natural selection theory of antibody formation. Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 41, 849-857.

Talmage, D.W. (1957) Allergy and immunology. An.Rev.Med. 8, 239-256.