Contos

PARANOIA

Paranóia

Dizem que esta é minha psicose, que gosto de falar no fim do mundo. Mas eu detesto falar disso: me dá essa tristeza danada. Quando o assunto vem à tona, não fui eu quem mencionou e o desconforto que aparece não sou eu quem causa: é o desespero de todos, de tudo o que esta aí. Eu fico triste porque sou velho e me lembro de um tempo em que não era assim, ou eu não sabia que era assim. As coisas não vão mais melhorar. Não sei o que está acontecendo e, em minha opinião, ninguém sabe. Ninguém nunca soube mesmo. Mas antes não importava, estava tudo bem e a gente podia ignorar tudo. Agora não se pode mais. Porque as crianças estão sempre tossindo e há fumaça no ar. É muito pior sobre a cidade que a gente vê quando desce a serra, mas aqui também já está ruim. Quem vá lá embaixo se contaminar com todas as doenças que as pessoas agora têem, traz essas doenças das ruas para cá. Herpes, todo mundo agora tem herpes, bolhas nas bocas, no sexo, nos olhos. Meu pai foi médico no meio do século passado, antes dos antibióticos; isso não existia. E o Rogério, outrodia, aqui mesmo, nesse portão, me disse, sério, que isso de eu reclamar que não se vêem mais as estrelas é ser muito exigente. Uma moça daqui, que esteve numa excursão dessas de procurar peixes em mar aberto me perguntou o que era uma faixa de estrelas agrupadas no centro do céu. Eu disse que era a casa dela, a galaxia mãe. Ela nunca havia visto a Via Láctea.

Vou terminar meus dias aqui, não voltomais para cidade alguma. A última vez que estive lá era véspera de Natal, anos atraz, andava depressa entre o tráfego quase parado dos carros buzinando, carregava embrulhos, um calor medonho. Vi um homem dar um encontrão tão forte em uma caixa registradora que arrancou o bolso de sua camisa – e ele nem olhou para traz. De vez em quando um carro cantava os pneus dando uma arrancada em um pequenino trecho que se abria, gente pulava fora para não ser atingida. Os velhos e velhas com caras de medo, de mãos dadas, querendo atravessar sem poder, apertando as bolsas contra o corpo, com medo dos meninos de rua. Parei em um açougue. entrou um preta com muitos filhos maltrapilhos que foram se sentando pelo chão, se enconstando às paredes de ladrilhos brancos, os joelhos grandes e ruços, olhar lento de quem não estranha mais nada e vai para qualquer lugar. Naquele dia, decidi que não voltaria mais lá.

Devia ter saído antes. O mar, um dia, ficou de um verde esquisito que tingia as areias e formava uma espuma com jeito de suja na arrebentação. Era o fitoplancton morrendo, as algas microscópicas, base das cadeias alimentares dos oceanos e a fonte de grande parte do oxigênio do planeta. Quase ninguém notou, foram apenas alguns dias. Mas, semanas depois, você esfregava o pé na areia e via por baixo aquela areia podre, verde. A praia toda exalando aquele fedor. Eu não gosto de falar nisso. Me passa o café?