René Dubos

Pasteur segundo Dubos

Pasteur e a ecologia segundo Dubos
comentário sobre René Dubos – 
 “Pasteur’s Dilemma-The Road Not Taken””
AMS-News 40(9): 703-709 (1974).
Nelson Vaz

                  Pasteur afirmava que a capacidade dos organismos resistirem a agentes de destruição no meio em que vivem, é uma condição de existência, e que o contato com agentes de doença encontrados com frequência, aumenta a resistência a estes tipos particulares de agentes. Ele acreditava que o corpo saudável resiste “fisiologicamente” ao contato com uma grande variedade de micróbios. Em seus estudos sobre doenças do bicho-da-seda, ele havia caracterizado dois tipos de doença: em uma delas (chamada pebrine) a presença de um número elevado de um dado protozoário era suficiente para desencadear a doença, mas a incidência da outra doença (flacherie) era profundamente influenciada pelas condições do meio, tais como calor, umidade, aeração e alimentação. Dizia que a multiplicação de germes no intestino dos bichos-da-seda era mais um sintoma que a causa da flacherie. Este raciocínio o levava a buscar condições que favorecessem a manutenção de condições fisiológicas e dizia que estas aumentariam a resistência a infecções. E ele realizou pelo menos um experimento favorável a esta hipótese, ao mostrar que galinhas, que não são suscetíveis ao antraz, se tornam suscetíveis quando têm sua temperatura reduzida por imersão em água fria.

A teoria de Pasteur sobre a origem da imunidade adquirida era relacionada à nutrição e sugeria que, em uma primeira infecção, o germe poderia consumir até o esgotamento certos microelementos – por exemplo, césio ou rubídio – e isto tornaria o organismo um meio impróprio à uma segunda infecção pelo mesmo germe. O próprio Pasteur abandonou esta hipótese, que hoje sabemos incorreta, embora existam também evidências para a importância de fatores nutricionais em várias infecções, como um aumento da resistência a viroses na deficiência em certas vitaminas; por exemplo, camundongos em uma dieta sem ácido fólico são mais resistentes ao vírus da coriomeningite linfocítica. E é bem conhecido o fato de que o uso de corticosteróides diminui a resistência a muitas infecções, o que ressalta a importância da fisiologia nesta resistência. Muitas infecções por vírus, bactérias, fungos e protozoários se mantêm em estado latente enquanto o organismo se mantém em condições fisiológicas, e afloram quando ele é afetado de alguma maneira, que rompe o equilíbrio preexistente; inclusive fenômenos emocionais. Estes fenômenos não são explicáveis pelos dogmas usuais da imunologia.

Pasteur optou por estudar as causas específicas primeiro das fermentações e depois das doenças infecciosas. Em seguida, dedicou-se ao estudo das vacinas. É difícil pensar de que formas a microbiologia e a imunologia poderiam ter progredido sem adotar o conceito de especificidade e deixando de lado a complexidade das interações do organismo com o meio e a importância destas relações na suscetibilidade a infecções. Na microbiologia do solo, esta visão ecológica, mais complexa, se tornou dominante, mas na imunologia e na medicinao conceito de especificidade cresceu em importância .

Pasteur acreditava que a vida sem micróbios seria impossível. A tecnologia de criação de animais isentos de micróbios (germ-free) mostrou que ele estava equivocado também nisso, mas mostrou que tais animais desenvolvem anomalias no tubo gastrintestinal e no tecido linfóide. Em muitos insetos, o desenvolvimento não prossegue na ausência de certas ricketsias. Há indicações mais recentes de em peixes (zebrafish, o “paulistinha”), o intestino simplesmente não se desenvolve em condições germfree. Ou seja, certas espécies de bactérias estabelecem relações simbióticas com animais, assim como já era reconhecido em relação a vegetais. Há um exemplo notável de formação de um órgão de lulas do Pacífico que funciona como uma “lanterna”, usando bactérias fluorescentes; sem estas bactérias, o órgão não se forma. Estas relações simbióticas podem ser perturbadas e convertidas em patológicas por vários fatores ambientais, como se reconhece no uso de antibióticos. (091211)