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Plausível

Plausível
Nelson Vaz
blog- novembro – 2014

O termo plausível tem a mesma raiz latina de aplauso. A algo dito é considerado plausível quando faz algum sentido, quando pode ser aceito por quem assiste, ouve ou lê. A ficção, qualquer ficção, tem que ser plausível, mas a realidade, o suceder, o acontecer não tem essa restrição. Por isso, Gregory Bateson diz que “a ciência nunca prova nada” (1), que ela pode melhorar nosso entendimento, rejeitar um entendimento prévio, mas nunca prova nada. Porque o que se passa é em grande parte imprevisível. A previsibilidade é considerada um atributo importante do pensamento científico. Humberto Maturana não crê que a previsibilidade seja uma característica fundamental da ciência, como são as explicações. Toda a ciência está baseada em explicações aceitas segundo certos critérios de validação, que as distingue de outros tipos de explicações – éticas, estéticas, mágicas ou religiosas. Mas aquilo que vai se passar no momento seguinte pode ser imprevisível e inexplicável.

 

A imunologia é um tema interessante na medicina e na biologia porque busca explicar mecanismos usados pelo organismo para lidar com o imprevisível, para transformar em algo plausível e assimilável aquilo que, em outros termos, era imprevisível e inexplicável. Usualmente pensamos na atividade imunológica como imunidade anti-infecciosa, como uma defesa contra doenças infecciosas, algo que nos protege de vírus, micróbios e parasitas. Mas a situação é bem mais complexa e envolve várias outras considerações.

Primeiro, para se dar conta de que foi invadido por algo que não lhe pertence, o corpo precisaria manter sempre atualizado um “inventário”, uma descrição detalhada de sua própria composição. E como corpo é uma entidade dinâmica, em contínua modificação, que troca continuamente suas partes celulares e moleculares, isto parece uma tarefa impossível. E impossível principalmente quanto a natureza da entidade que faria este reconhecimento minucioso e continuamente cambiante – um fantasma na máquina molecular.

Segundo, o corpo está em contato contínuo com inúmeros materiais que não lhe pertencem mas que não o ameaçam, como aquilo que compõe seus alimentos e inúmeros produtos de sua flora microbiana comensal, hoje conhecida como a microbiota nativa. Absorvemos ainda intactas ou parcialmente digeridas muitas macromoléculas dos alimentos e também coisas que nossa vasta microbiota nativa produz. Há um certo grau de previsibilidade nestas exposições, construídas gradualmente na ontogênese mas, mesmo assim, dar conta do que se passa parece igualmente impossível.

Não nos parece, portanto, que o corpo faça um levantamento contínuo das diferenças entre a sua própria composição e os diversos materiais biológicos com os quais está continuamente em contato; tornar tudo isso plausível e assimilável é indissociável da própria maneira do corpo construir e manter-se a si mesmo. Daí, o título de um pequeno livro que escrevemos sobre tais problemas é : “Onde está o organismo” (3).

  • Bateson, G. (1980) Science never proves anything. In “Mind and Nature. A necessary Unity” London, Fontana, pp.24-36.
  • Maturana, H (1998) Biologia da autoconsciência. In “Ontologia da Realidade” Belo Horizonte, Editora UFMG., pp.211-241
  • Vaz , N.M., J.M. Mpodozis, J.F Botelho and G.C. Ramos. Onde Está O Organismo? – Derivas E Outras Histórias Na Biologia E Na Imunologia. Florianópolis: editora-UFSC, 2011.