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Princípios explicativos

Princípios explicativos
Nelson Vaz
21/09/2012 blog-SBI

Num breve capítulo de livro, Maturana afirmou que não está interessado em “princípios explicativos” porque os “princípios explicativos” não são “explicações”. Eles não contêm “mecanismos geradores”, como fazem as explanações verdadeiras. Na verdade, os “princípios explicativos” tendem a esconder o que eles pretendem explicar (Maturana, 1987). Alguns anos antes, em um comentário sobre um artigo de Fedanzo, ele explica por que ele se abstém de usar a noção de “informação” na discussão de problemas biológicos: porque: “… (esta noção) está propensa a gerar confusão” (Maturana, 1983).

A informação é um “princípio explicativo”, não é uma explicação. Quando digo que esta chave, ou este cartão magnético, contém as informações necessárias para abrir esta porta, eu não explico como isso ocorre. O acoplamento estrutural entre a chave (ou cartão) e a fechadura, por sua vez, é uma explicação. As explicações sempre contêm um mecanismo gerador, isto é, a descrição das relações entre componentes da unidade (do sistema) que, por sua operação, são capazes de gerar no observador o fenômeno (ou a entidade) que ele quer explicar.

Interpretada como “significado”, a informação refere-se a interações nas quais os organismos mudam certos tipos de interações (informativas). Masa conduta de organismos “informados” mostra apenas o resultado ou a conseqüência dessas interações (informativas), e não o mecanismo através do qual essas mudanças podem ocorrer.

Erros semelhantes podem estar presentes em “princípios explicativos” usados para explicar outras problemas. A seleção natural, por exemplo, pode ser vista como um mecanismo importante na evolução biológica, ou como resultado de viver em uma deriva filogenética natural (Maturana & Mpodozis, 2000). A “seleção” é um princípio explicativo. A imunidade anti-infecciosa é outro. Os organismos podem desenvolver imunidade anti-infecciosa, mas a imunidade não é um mecanismo para desenvolver maior resistência no organismo; a imunidade anti-infecciosa não é um mecanismo biológico especial (dedicado) que possa ser separado dos mecanismos básicos do viver.

Subsistemas que compõem sistemas vivos, como o ciclo de Kreb em organismos unicelulares, ou o sistema nervoso em organismos meta-celulares, só existem nos sistemas vivos que integram e são subordinados a esses sistemas aos queis pertencem. Eles não têm existência independente. Assim, de certa forma, os esforços para explicar o funcionamento de um desses sub-sistemas sem que exista uma explicação – embora muito geral – do organismo a que pertencem, são necessariamente incompletes e enganadores.

Por muitos anos, propus argumentos a favor de uma fisiologia conservadora da atividade imunológica, que eu acreditava ser um mecanismo gerador de fenômenos imunológicos, tais como a imunidade anti-infecciosa, ou reações alérgicas e auto-imunes (Vaz et al., 2006; Pordeus et al. 2009) No entanto, isso também pode ser enganoso. A fisiologia conservadora da atividade imunológica, só é capaz de explicar a atividade imunológica como um complemento para compreender fenômenos imunológicos; mas o mecanismo gerador necessário para a compreensão dos fenômenos imunológicos é o viver do próprio organismo, isto é, sua autopoiese ea conservação de sua adaptação às circunstâncias de vida em constante mudança, como propõe Maturana (Maturana, 2002).

Bibliography

Maturana, H. R. (1983). “Comment on Fedanzo Jr., Anthony All Things are full of gods -or information.”.J. Social Biol. Struct. 6: 155-158.

Maturana, H. R. (1987). Everything is said by an Observer. Gaia : a way of knowing. Political Implications of the New Biology. W. I. Thompson. New York, Lindisfarne Press: 11-36.

Maturana, H. and J. Mpodozis (2000). “The origin of species by means of natural drift.” RevistaChilena de Historia Natural 73: 261-310.

Maturana, H. (2002). “Autopoiesis, structural coupling and cognition: a history of these and othernotions in the biology of cognition.” Cybernetics & Human Knowing 9 (3-4): 5-34.

Pordeus, V., G. C. Ramos, Carvalho, C.R. Barbosa De Castro Jr., A Cunha , A, P.& Vaz, N.M.(2009). “Immunopathology and oligoclonal T cell expansions.Observations in immunodeficiency,infections, allergy and autoimmune diseases.” Current Trends in Immunology 10: 21-29.

Vaz, N. M., G. C. Ramos, Pordeus, V. & Carvalho, C.R. (2006). “The conservative physiology of the immune system. A non-metaphoric approach to immunological activity.” Clin Dev Immunol 13(2-4): 133-142.