O Assimilar

 

­­O Assimilar: um novo modo de ver a imunologia

Que questões devem ser levantadas um curso básico de imunologia? Atualmente, as perguntas seriam sobre vacinas contra os vírus Zika, dengue e chikungunya. Por que não temos ainda vacinas contra estes vírus? A vacina contra o vírus da febre amarela, que é da mesma “família” destes vírus (flavivírus) é muito eficiente e já existe há muitos anos.

Também não há vacinas contra o vírus HIV, contra a malária, a cárie dentária ou a gonorría e uma f grande lista de doenças que gostaríamos de evitar. Não sabemos como inventar novas vacinas.  Bilhões de dólares e euros foram investidos na busca de uma vacina anti-HIV; nestas pesquisas, foram inventadas drogas anti-virais que se tornaram muito úteis na AIDS e também em outras viroses. Mas, quanto à vacina anti-HIV, ainda estamos na estaca zero. Quase o mesmo corre com a malária e a tuberculose. Não há vacinas contra protozoários, ou fungos, ou helmintos; a maioria das vacinas em uso humano é anti-viral e contra uma dúzia de bactérias. Não sabemos ainda inventar vacinas. É preciso aprender mais sobre a atividade imunológica. Como funcionam as vacinas? Provavelmente, por muitos mecanismos diferentes, talvez um mecanismo especial para cada vacina inventada.

Vacinas são “inventadas” e não “descobertas”. Não sabemos se vacinas podem ser inventadas para todas as doenças infecciosas. Talvez as perguntas iniciais de um curso de imunologia devam ser outras.

No século vinte e um, aumentou muito a incidência e severidade de doenças alérgicas e também de doenças ditas autoimunes, nas quais se acredita que sistema imune agrida o próprio corpo. O aumento foi mais pronunciado nos países mais ricos do hemisfério norte, na Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. Foi proposta a “hipótese da higiene”, segundo a qual a vida humana nestes países pode ter se tornado “limpa demais” e na falta dos alvos que foram comuns da história biológica do ser humano, o corpo reagiria exageradamente a coisas inócuas, como a poeira domiciliar, e acabaria reagindo também a si próprio. Aumentou muito, por exemplo, a diabete infantil (diabete tipo-1) que é considerada autoimune, na qual linfócitos T podem destruir o tecido pancreático que secreta a insulina. Agora já se afirma que mesmo a aterosclerose e a obesidade envolvam mecanismos autoimunes. A infecção pelo vírus-Zika, além da microcefalia em embriões humanos, também pode estar envolvida na síndrome de Guilain-Barré, um distúrbio neurológico que talvez tenha componentes autoimunes. Como fazer sentido de tudo isso?

Enfim: Não há cura para doenças alérgicas (asma, dermatite atópica, etc.) Não há sequer métodos adequados de diagnóstico de doenças autoimunes. Não há garantias de que vacinas possam ser inventadas. Talvez haja outro modo de pensar sobre a imunologia.
Como pode o corpo “reconhecer” (formar anticorpos) contra materiais “estranhos”?
Como pode o corpo evitar a formação de anticorpos contra seus próprios componentes?
Como surgiu a ideia de  que o sistema imune ignora o próprio corpo (auto-tolerância)?
A rejeição de transplantes de tecidos de outra pessoa resulta de uma resposta imune?
O que ocorre na “reação transplante-contra-hospedeiro” em transplantes de medula óssea?

 

 “O conhecer”

Quando se fala em “conhecer”, “reconhecer”, “memórias”, de que estamos falando?
Há semelhanças entre neurônios e linfócitos? Neurônios “reconhecem” coisas?
Faz sentido pensar no “sistema imune” como um “segundo cérebro?
O cérebro é um órgão de “pensar”? Precisamos dele para pensar. Mas é o cérebro que “pensa”?
Nós pensamos em palavras? Com entender este “viver humano na linguagem”?
Como seres humanos, observamos – entidades, fenômenos. Que se passa conosco no observar?

 

Assimilar em vez de interceptar

Entramos em contato com a imensa maioria dos “antígenos” através de nossa dieta e de nossa microbiota nativa. Porque não, formamos anticorpos e fazemos respostas progressivas (ditas “secundárias”) a estes materiais? Isto ocorre apenas muito raramente, em pessoas que se tornam “alérgicas”, ou que desenvolvem doenças inflamatórias do intestino, como a doença de Crohn. Usualmente, interagimos de maneira harmônica com estes antígenos e não desenvolvemos reações progressivas às proteínas que comemos ou a produtos da microbiota intestinal. Nosso corpo assimila estes materiais, os incorpora a seu operar.

Existem muitos linfócitos nas interfaces entre o corpo e o meio em que vivemos: na pele e as mucosas. A maior parte dos linfócitos ativados do corpo são linfócitos intraepiteliais, estão metidos na mucosa do intestino delgado (duodenos, jejuno proximal), onde são absorvidos os peptídeos e aminoácidos derivados da digestão, e não na mucosa do intestino grosso, onde está a maior parte das bactérias. Linfócitos estão também concentrados em órgãos linfoides (timo, baço, linfonodos) e também na medula óssea, onde se formam as células do sangue (hemopoiese)

A pele e as mucosas não são inteiramente impermeáveis a macromoléculas antigênicas. Uma pequena parcela de alimentos e de produtos da microbiota penetra o intestino, chega intacta na circulação e é capaz de ativar mecanismos imunológicos. Algo similar ocorre através da pele. Não estamos isentos de reações a estes antígenos, mas a forma destas reações não é a mesma que o corpo desenvolve nas doenças infecciosas, nem é aquela que surge quando antígenos são injetados, como nas vacinações, quando se desenvolve uma reatividade secundária (progressiva).

Conservação da adaptação

O corpo não ignora estes contatos imunogênicos que nos atingem pela pele e pelas mucosas: pequenas quantidade de anticorpos são formadas e há muitos linfócitos ativados reativos a antígenos da dieta e da microbiota. Mas eles não estão engajados em “respostas imunes”, não estão aumentando de número, e se tornando mais ativos a cadarepetição do contato com materiais da dieta e da microbiota. Estão ativos, mas de uma forma conservadora, estabelecem patamares de atividade. Não estão envolvidos em expansões clonais. Ou seja, nem reagem (progressivamente), nem deixam de reagir.

A mesma coisa acontece com anticorpos e linfócitos que reagem com componentes do próprio corpo: eles nem reagem (progressivamente), nem deixam de reagir. Todos os anticorpos podem funcionar como anti-anticorpos, reagir com outros anticorpos. A ideia básica de que o corpo não reage ao próprio corpo está equivocada. O corpo não reage da mesma maneira que reage a materiais invasores, como nas doenças infecciosas e nas repostas a vacinas, mas está muito longe de ignorar o próprio corpo. Seria mesmo absurdo pensar que o sistema imune apenas  “habita” o corpo, sem o “reconhecer”. Os anti-anticorpos e os anticorpos que reagem com tecidos do próprio corpo (auto-anticorpos), assim como aqueles ativados pela dieta e pela microbiota, estão ativos, mas de uma forma conservadora, harmônica e estabelecem patamares de atividade.

Pensar em anti-anticorpos é perturbador, porque logo pensamos que deve haver anti-anti-anti… corpos, Uma regressão infinita não seria estável, cresceria até explodir. A solução deste dilema  é contraintuitiva: a “rede” de reações que se estabelece entre anticorpos, linfócitos e o corpo é dinamicamente estável; é um processo ativo, mas conservador, estabelece patamares de atividade. Chamamos esta dinâmica de fisiologia conservadora do atividade imunológica. A Figura abaixo, publicada em 1981, representa graficamente estas ideias, ao contrastar um “auto-desconhecimento” (a maneira  usual de ver) com a “autodeterminação” (termo que usava na época para a autonomia do sistema imune).

auto-desconhecimento vs auto-determinação