Raymond Tallis

Raymond Tallis – Trechos sobre “o apontar”

Raymond Tallis – Trechos sobre “o apontar

Do livro de Raymond Tallis
Michelangelo’s Finger: An Exploration of Everyday Transcendence
(London, Atlantic Books Ltd. 2010)

Trecho do Prefácio

“O quanto é extraordinário – na verdade extra-natural – é o apontar se tornará evidente quando, no Capítulo 1, examino o que um apontar bem sucedido requer de nós. Isto será elaborado no Capítulo 2 no qual olho um pouco mais de perto o modo de consciência necessário a querer apontar algo para alguém, ou compreender o que significa alguém apontar algo para nós. Este modo de consciência não é atingido pelos animais, o que trás um considerável interesse à afirmação de que alguns animais, sim, apontam. No Capítulo 3, examino e rejeito esta afirmação que reflete uma tendência a atribuir capacidades mentais aos animais, um antropomorfismo ubíquo na pesquisa sobre o comportamento animal, especialmente no comportamento de primatas. Que alguns seres humanos não apontam, em si mesmo, aponta para um profundo problema: a incapacidade de apontar é um sinal precoce de autismo, uma condição que afeta a linguagem, a conduta e todos os aspectos da socialização que parece estar fundamentado em um defeito no sentimento do “eu” (self) e de outros como outros “eus”. O autismo é discutido no Capítulo 4.

O apontar é muitas vezes apontado como uma ponte entre estágios pré-linguísticos e linguísticos da humanidade. Devemos desconfiar em admitir tal coisa, não somente porque, como já argumentei, admitir o apontar como algo “natural” no sentido necessário tem um fundamento inadequado, mas também porque a relação entre palavras e o conteúdo de palavras não é algo que possa ser conseguido pelo apontar. As limitações de ensinar nomes por apontar a objetos a chamada “definição ostensiva” ilumina de forma aguda a natureza extraordinária da linguagem. O Capítulo 5, que lida com isto, inclui excursões preliminares na filosofia da linguagem que alguns podem achar muito difíceis mas, creio eu, merecem o esforço. O Capítulo 6 oferece, digamos, uma pausa, com uma série de observações sobre as coisas em que o dedo indicador se mete que estão direta ou indiretamente ligadas ao apontar, e relembra alguns dos usos nos quais o dedo indicador vai além de um apontar declarativo que informa outra pessoa sobre algo que elas não sabem, mas deveriam saber. O apontar para outras pessoas faz com que elas aumentem seu nível de auto-consciência, e isto nem sempre é neutro ou benigno. As razões pela quais o apontar pode ser rude, e como o apontar pode ser uma maneira de assegurar poder, toca em algo próximo ao coração do que significa ser humano. O Capítulo 7 lida com o apontar auxiliado; com prótese e extensões protéticas do dedo indicador que os seres humanos fabricaram para realizar o indicar de maneira mais eficaz do que com o dedo indicador, mesmo na ausência total de um indicador consciente. Há uma imensa coleção de metamorfoses do “apontador” e a transformação do ato de apontar em um artefato que aponta é profundamente intrigante, e nos lembra de como podemos transformar uma multidão de estranhos em uma comunidade cognitiva.

O Capítulo final entrega a mensagem filosófica de “O Dedo de Michelangelo”. O apontar é uma maneira de indicar um mundo transcendente – geral, oculto e compartilhado – e nos remove decisivamente de nossos corpos solitários, transitórios e sujeitos às leis da natureza. O exame deste aspecto do apontar começa com a transcendência inerente na consciência humana do dia-a-dia, assimila minha própria corporalidade e aquela de Sir Walter Raleigh, e termina com a ideia de Deus – um Deus que vemos apontando para nós e então trazendo à baila nossa natureza de seres diferentes. Em resumo, termino onde comecei, com a visão que Michelangelo nos dá da humanidade, embora eu tenha interpretado isto de um amaneira que a Igreja Católica certamente não aprovaria.”

 

Trecho do primeiro capítulo:

Como Apontar: Um Manual para Marcianos

“O verbo “apontar” tem no mínimo dezesseis significados, muitos dos quais com significados que se ramificam. No dicionário da Oxford, o que mais nos interessa é o 9a: “Verbo intransitivo; Indicar a posição ou direção ao estender o dedo; dirigir a atenção a ou para algo desta maneira.” O que o apontar faz? Como ele realiza isso? O que diríamos ao um Marciano sobre as regras básicas do apontar? Para indicar alguma coisa segundo as regras canônicas do apontar, você deve esticar o seu braço e seu dedo indicador na direção do que está sendo apontado. A precisão no apontar requer que o dedo indicador seja afastado dos outros dedos e, portanto, é relevante que nos seres humanos o dedo indicador se projete acima dos demais, enquanto que no chimpanzé, que não aponta, isso não ocorre. Além da capacidade de isolar o dedo indicador, o apontar é uma realização maior do que aparenta. Nos muitos anos em que cuidei de pacientes com problemas neurológicos

me fazem lembrar continuamente de como é importante o apontar com precisão.

Como apontar: Fisiologia e Biomecânica

Aponte para um objeto. Observe você estendendo seu braço e seu dedo indicador na direção do alvo. Provavelmente, você separou o sinal dado por seu indicador do “ruído” do resto de sua mão, para assegurar a precisão, enrolando os outros dedos na palma da mão. Seu polegar ajuda neste gesto ao apertar o dedo médio, como se o contivesse. Seu braço estará firme de maneira que o longo eixo do dedo indicador e a linha imaginária que conecta você ao objeto sejam congruentes. Esticar seu braço envolve músculos ao redor das articulações do ombro e do cotovelo em coordenação, de maneira que há um desenrolar harmônico. Manter esta posição requer uma calibração cuidadosa das forças que atuam ao redor do cotovelo, de maneira que a posição estendida é mantida. A posição do cotovelo como um todo tem que ser sustentada pela operação de uma galáxia de músculos na parte superior do braço, dentro e em volta da articulação do ombro, e mesmo do tronco para manter a estabilidade do ombro e para mantê-lo na posição. A estabilidade requerida para manter a direção no alvo requer, em resumo, o controle sofisticado de muitos músculos agindo em conjunto. Este controle – do movimento que separa o dedo indicador dos demais, à manutenção do braço esticado – se torna comovente em sua ausência em pacientes com acidentes vasculares cerebrais, que não conseguem separar seus dedos curvados, nem mover o braço na direção desejada, ou mantê-lo lá, se o conseguissem.

Facilmente menosprezamos a realização inerente no julgamento de que se alcançou a posição apropriada da mão estendida. O objeto está lá e o braço é simplesmente convidado, por assim dizer, a realizar este “alcance virtual”. Mas assumir a posição adequada no lugar adequado não é fácil como aparenta ser. Em primeiro lugar, cada uma das articulações – ombro, cotovelo, punho – tem vários graus de liberdade: há um repertório de posições possíveis em diferentes planos. A escolha das posições tem que corresponder à relação entre três coisas: em esmo, meu braço e o objeto que eu aponto. O apontar, em outras palavras, deve se realizar dentro de referências que definem as coordenadas de meu corpo e do objeto que, por sua vez, definem a localização e características da linha que ligará um ao outro. Eu me localizo em um ponto que chamarei de 0,0,0, dentro do espaço egocêntrico que inclui tanto a mim quanto ao objeto. O desafio, portanto, é traduzir a relação que vejo e sinto entre mim e o objeto em uma linha que os une; e usar meu próprio braço para materializar esta linha ara que ela se torne visível para a pessoa em benefício da qual estou apontando. Para fazer isso, tenho que traduzir em padrões de movimento muscular a diferença entre a posição atual de meu braço e a posição necessária para apontar o objeto(…)

              Como apontar: as regras do jogo
              Quais são as regras especiais do jogo de apontar? Isto é bem especial e envolve quatro componentes. Há um produtor (a pessoa que aponta); o apontador, aqui usado pelo produtor (geralmente a mão estendida com o dedo indicador); o apontado (aquilo ao qual o apontar se dirige); e finalmente, o consumidor (a pessoa em benefício da qual o apontar é realizado). O produtor usa parte de seu corpo para estabelecer um eixo que o liga com o item sendo apontado – e o faz com o apontador. O consumidor é convidado a seguir a linha virtual com sua atenção visual até alcançar o apontado.

A natureza do apontado (aquilo que se aponta) pode variar enormemente. Pode ser um objeto material ou a localização aproximada de um objeto (quando apontamos a alguma coisa “por ali”, ou a nuvens no céu ou montanha no horizonte); ou a direção de um objeto cuja localização precisa é ou não conhecida; ou, uma simples direção, quando alguém aponta para onde alguém foi, ou onde algo estava há pouco tempo atrás (por exemplo, quando aponto para uma cadeira vazia), ou ao indicar a direção de uma cidade, ou para que lado fica o norte. No caso mais direto, o apontado é um determinado objeto material, claramente localizado e definido – um copo, um gato, o tipo de coisa que o filósofo J.L.Austin, mais ou menos jocosamente, chamaria de “medium-sized dry goods”.

A apontado é apontado por estar em uma linha projetada a partir da ponta do dedo do apontador. A dedos esticado traça aos primeiros centímetros da linha, a incorpora. O braço, claramente, não é apenas o transportador , aquilo que apoia, mas muitas vezes também faz parte da linha. Com o auxílio do braço, a língua do apontar é o grito do braço inteiro apontando, mais do que o sussurro do dedo apontando. Isto é importante quando o produtor e o consumidor estão muito distantes e as dimensões de seus corpos estão reduzidas – quando, por exemplo, estão no Grande Lá Fora.

Isto basta para o produtor, o apontado e o apontador. O que dizer do consumidor, sem o qual o apontar não faria sentido? Para se beneficiar da ação do produtor, o consumidor tem que entender a intenção por trás da ação, compreender porque o produtor está assumindo aquela postura corporal. E então ele tem que descobrir o que está sendo apontado. Identificar o ato como um ato de apontar não deve ser muito difícil, porque temos relativamente poucas razões para estender o braço e mantê-lo com ode do indicador se destacando naquilo que pode parecer um modo “indicador”.

As posturas do apontar são assumidas apenas no apontar, raramente ocorrem acidentalmente ou como parte de outras ações. Mesmo assim, não fica completamente evidente que a mão-e-o dedo estão realmente apontando, em vez de estar meramente alcançando alguma coisa ou sinalizando de alguma outra forma. Enquanto o nome do dedo “indicador “anuncia seu papel especial de apontar coisas, ele não tem um rótulo escrito nele. Apertar ou segurar (to grasp) – uma palavra que não precisa de maiores definições- algo que o produtor está apontando, é uma exigência maior ainda.

O que é tão difícil sobre tudo isso? Simplesmente isso: para localizar o apontado, o consumidor tem que adotar a posição do produtor. Claro, fazemos isto mentalmente, não fisicamente, embora quando temos dificuldade de entender o que está sendo apontado podemos nos aproximar da pessoa e olhar ao longo de seu braço, como se olhássemos por um telescópio. (Um certo grau de irritação se torna evidente em tais circunstâncias: o produtor irritado com a opacidade do consumidor, e este irritado com o jeito vago, ou displicente do produtor). Normalmente, porém, o consumidor, em sua imaginação, tem que sair de seu corpo e mentalmente olhar ao longo da linha traçada no espaço pelo braço e pelo dedo indicador que se destacam do corpo do produtor. O consumidor, por assim dizer, tem que se colocar no lugar do produtor. Fazer isto é algo extraordinário: embora de forma menor e temporária, mas ainda assim real, equivale a abdicar do sentido de estar no centro das coisas que surgem no campo sensorial; abdicar de que estamos no centro do universo observado.

Isto é uma realização formidável, e nos diz muito sobre o que nó somos como seres humanos. No próximo capítulo, vou argumentar que este deslocamento voluntário do sujeito humano do centro de seu mundo é o primeiro passo no crescimento de uma intuição importante: que somos parte de algo maior que nosso eu (self) e maior que aquilo que nossa experiência pessoal abarca; que somos parte de uma comunidade explícita de sujeitos; e, em última análise, que somos átomos ou unidades de uma sociedade. Adquirir a capacidade de apontar ou de compreender para o que alguém está apontando é um passo na coletivização da consciência individual através do compartilhar da atenção. O apontar, em resumo, aponta para uma maneira caracteristicamente humana de atenção; uma ruptura unicamente humana na solidão das criaturas sensíveis.