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Regulatrix

Regulatrix
Nelson Vaz
blog – Out – 2014

                  Como um tema dominante na imunologia atual o significado do verbo “regular” tem sido pouco discutido e, usualmente, o termo imuno-regulação é utilizado sem nenhuma compreensão profunda do que ele significa.

Nos anos 1950, em palestras de divulgação pelo rádio na BBC, o famoso neurobiólogo britânico J.Z. Young, sumarizou o pensamento medieval sobre os “humores” que determinavam o “temperamento” do indivíduo: a bile negra, a bile amarela, o sangue e o fleugma, ou pituita. O conceito de “regulação” – o equilíbrio entre os humores – era dominante nesta concepção. Assim como o a “regulação” na imunologia moderna; a doença era um desequilíbrio entre as qualidades determinadas pelos humores. Eis aqui um trecho do texto de J.Z.Young:

                  “Para nós, hoje em dia, é natural falarmos do corpo como algo que tem uma estrutura e funções, como usualmente nos referimos a ele. Para o homem do século XVI, não habituado às máquinas, o corpo era composto dos 4 elementos: terra, ar, fogo e água. Cada um destes elementos colaborava para o temperamento do indivíduo, dando as qualidadesde umidade, secura, calor e frio. A doença era um desequilíbrio destas qualidades naturais. No corpo, 4 humores representavam as qualidades. A bile negra, ou melancolia era armazenada no baço e equivalia à terra. O sangue era equivalente ao ar, e a bile amarela, ou cólera, ao fígado. O fleugma, ou pituita do nariz, supostamente secretada pelo cérebro, equivalia à água.

                  O corpo era fabricado por um mecanismo similar ao usado na cozinha. Uma primeira fase, no estômago, transformava o alimento em quilo. Em seguida, o fígado convertia o quilo em sangue. Numa terceira etapa, o sangue era convertido em carne. A alma estava muito mais dispersa neste sistema de humores do que hoje a imaginamos. Cada parte do corpo tinha uma parte da alma e devia a ela suas propriedades e sentimentos capazes, por exemplo, de atrair para ela certos componentes do sangue. Cada uma das mudanças ocorridas no corpo era obra de uma pessoinha como nós – um homúnculo. A vesícula, dizia Jean Fernel – o criador do termo Fisiologia – tem afinidade pela bile amarela, se satisfaz e tem prazer em atraí-la.

                  Mais de um século se passou antes que comparações do corpo com máquinas fossem levadas mais a sério. René Descartes, por exemplo, comparava o sistema nervoso a um relógio, mas fez poucas observações pessoais de Biologia. William Harvey é um exemplo mais adequado do emprego de métodos quantitativos (matemáticos) ao estudo do corpo. Seu relato sobre a circulação, comparando o coração a uma bomba, foi publicado em 1628. Para unir as artérias às veias, Harvey teve que inventar o invisível e propor a existência de vasos tão finos que escapavam à visão desarmada – os capilares. Cerca de 30 anos mais tarde, com o aperfeiçoamento do microscópio, Malpighi, na Itália, viu pela primeira vez os capilares.

                  Hoje em dia estamos assistindo ao colapso da comparação do corpo a uma máquina – pelo menos a uma máquina como usualmente definida, como algo construído por nós, que existe como algo sólido e está ali, pronta para ser usada. Até aqui temos nos aproximado dos seres vivos com a pergunta O que é isso?” e, com a invasão das idéias dos químicos, quase sempre isto significa De que isso é feito?. Agora precisamos perguntar: Como isso chegou a ser o que é?” e “Como se mantém sendo o que é, quando é tão improvável que isto ocorra?”. (Young, 1960)

A noção de “harmonia”, que o equilíbrio entre os quatro humores nos aponta, é uma noção central no pensamento humano, importante desde a cosmologia até a música e à matemática. Não espanta, portanto, o fascínio que a noção de “regulação” exerce sobre os imunologistas modernos, mesmo sem atentar para suas raízes históricas. No entanto, entender a regulação como a instauração e manutenção da normalidade, é entendê-la como um princípio explicativo que oculta aquilo que supostamente explica. Porque a normalidade é a ausência do estranho, daquilo que desperta nossa atenção, daquilo que efetivamente enxergamos, que enquadramos. Usualmente não atentamos para o que é “normal”; o noticiário ressalta o anormal, o estranho. Nossos mecanismos básicos de distinguir fenômenos e objetos dependem da detecção de diferenças, não no fluir inalterado da normalidade.

Na melhor das hipóteses, entender a regulação como a recuperação e a manutenção da normalidade é um adiamento do problema de entender a estabilidade dinâmica da atividade imunológica, sua organização, aquilo que ela tem de invariante; entender como se conserva aquilo que se conserva em meio a tudo aquilo que varia na atividade imunológica (Vaz et al., 2011). Na pior das hipóteses, isto nos leva a supor que já entendemos o que se passa e a desviar nossa atenção para ouros problemas.

Bibliografia

Vaz , N. M., et al. (2011). Onde está o organismo? – Derivas e outras histórias na Biologia e na  Imunologia. Florianópolis, editora-UFSC. 

Young, J.Z.(1960) In “Doubt and Certainty in Science”  Oxford, Oxford Univ Press Pag 145-146.