Blog da SBI

Relações biológicas e extrabiológicas

Relações biológicas e extrabiológicas
Nelson Vaz
131122 – blog da SBI – novembro – 2013

Sem que ela me autorize, vou utilizar uma mensagem precisa e preciosa que recebi ontem de minha grande amiga Patrícia Ayer, psicóloga Deleuziana, como resposta a uma queixa que sempre repito: a de que não adianta produzir resultados experimentais em apoio a um “novo paradigma”, porque, ou eles são ignorados, ou há contorções teóricas que permitem interpreta-los pelo paradigma vigente. Na UFMG, Cláudia Carvalho e seu grupo têm mostrado a quase abolição de granulomas pulmonares (Carvalho et al., 2002; Azevedo et al., 2012), a melhoria do fechamento de feridas cutâneas (Costa et al., 2013) e outros resultados espetaculares, pela simples exposição de camundongos a antígenos tolerados – e isto não promove espanto algum. O imunologistas atuais passaram do estudo de respostas a estímulos para a “regulação” destas respostas sem a consideração sobre aquilo que regula o regulador. O termo homeostase é usado de forma frouxa, como um princípio explicativo; não existem sistemas “não-homeostáticos” e então o termo parece voltado em uma direção promissora, mas nunca há um preocupação em definir (descrever), afinal, que sistema é este, qual a sua organização; afinal, o que é mantido invariante? Como pergunta o Mpodozis na epígrafe de nosso livro (Vaz et al., 2011a): “Como se conserva aquilo que se conserva naquilo que muda?”.

Quando vemos o sistema imune como um sistema cognitivo, como fazem não só o público, mas também a maioria dos imunologistas, nossas perguntas e os critérios que usamos para validar as respostas que encontramos, inevitavelmente dependem daquilo que entendemos como “cognição”. Uma alternativa é descrever esta cognição como aquilo que os imunologistas fazem quando operam como observadores humanos e geram descrições da atividade imunológica. Neste modo de ver alternativo, nós, os imunologistas, somos as verdadeiras entidades cognitivas na imunologia – não as células e moléculas, tais como linfócitos e imunoglobulinas, que operam como componentes do sistema imune (Vaz, 2011a,b,c).

Primeiro, Patrícia sugere que, em minha prática docente: “ (não) ter como princípio (político) de trabalho contornar obstáculos; ao contrário, trata-se de abraçar uma tarefa pedagógica positiva: desconstruir obstáculos, afirmando o novo”. Ela sabe que faço isto todo dia, há 30 anos. E sugere que esta desconstrução passa “pela análise dos dos fundamentos filosóficos dos diferentes paradigmas”.

Depois explicita o paradigma vigente:

“A pesquisa tradicional fundamentada no pensamento clássico segue um modelo arborescente          que:

  • • busca representar o mundo, o que pressupõe objetos preexistentes e um sujeito cognoscente capaz de apreender as essências últimas e verdadeiras dos fenômenos (herança   socrático/platônica presente na “vontade de verdade” presente na ciência moderna);
  • • essa maneira de pensar é orientada por uma questão: o que É tal coisa? É uma pergunta pelo SER.”

Aqui, cabe a sugestão de consulta ao último livro de Maturana, intitulado exatamente “Do SER ao fazer” (Maturana & Poerksen, 2004) – versão em espanhol acessível através de <https://docs.google.com/folderview?id=0B-YLV8egGwSuWE8tc3N1R1BjUW8>. Trata-se de uma longa entrevista com Maturana sobre as origens da Biologia do Conhecer e da Linguagem.

Patrícia prossegue dizendo que as respostas dadas no paradigma vigente:

  • • “..“evoluem” de uma causa (o Uno como fator explicativo) a várias causas (o Múltiplo como fator explicativo); contemplam abstrações como homeostase, regulações; a multiplicidade de     vetores que habita um fenômeno é simplificada na busca de respostas à pergunta s/ o SER.    (ênfase adicionada por mim).

Reconhece-se uma “complexidade” maior no SER, mas a pergunta não mudou:

  • • “trata-se de um pensamento que privilegia as relações biunívocas (uma causa/ muiticausas>>efeito/s); o pesquisador arborescente esforça-se por produzir fotos de uma   realidade verdadeira.”

Tenho insistido em atentar para o “sujeito cognoscente” da imunologia, que é o imunologista em suas observações. Esta minha insistência não é original. Kazatchkine e Coutinho (2000) falavam de uma “taxonomia clonal”, nos alertando para que linfócitos não atentam para as (nossas) definições das especificidades que atribuímos a eles. As observações imunológicas são “específicas” mas tudo se complica quando imaginamos que específicos são os próprios linfócitos (Vaz, 2011a,b,c).

                  A ideia de relações biunívocas é uma falácia que persiste no entendimento básico da atividade imunológica, na ilusão de que a cada antígeno (epitopo) corresponde um anticorpo (paratopo), quando todos “sabemos” que a especificidade é “degenerada” e cada receptor linfocitário admite milhões de ligantes (Wucherpfennig et al., 2007; Wooldridge et al., 2011).

Patrícia passa então às novas perguntas (a que ela se refere como o “pensamento rizomático”):

  • • “a pergunta não (mais) gira em torno do ser, mas em torno do devir; novas perguntas aparecem>>>como, qdo, qto, onde constituem perguntas que inspiram a produção de mapas,      sempre abertos, sobre a multiplicidade das forças que habitam um fenômeno. Cada mapa    envolve consensos da comunidade científica, mas não dizem respeito a enunciação de verdades       essenciais à natureza.”

Esta última frase sintetiza aquilo que tenho gasto milhares de palavras para dizer.

  • • o pesquisador sempre entra em um território que se modifica em função de suas intervenções.
  • • há uma multiplicidade de conexões do objeto pesquisado; o eixo uno/mútiplo é substituído pelo eixo da multiplicidade (tomada como substantivo) em que as explicações não funcionam     por relações de causa/s efeito/s, mas focalizam uma rede complexa de relações biológicas e                   extrabiológicas.

O que Patrícia Ayer afirma aqui, pode ser lido, por exemplo, no dsicurso de Niels Bohr sobre a Física quântica. Infelizmente, a advertência de Lord Snow sobre o abismo entre as ciências “naturais” e as ciências “humanas” permanece mais válido do que nunca e imunologistas como nós não escutam com frequência um discurso como de Patrícia Ayer.

Um discurso também lúcido e claro pode ser lido na “Apresentação” feita por Cristina Magro e Victor Paredes (2001) ao livro “Cognição e Ciência Cotidiana” que reúne rextos de Humberto Maturana, também acessível através de

<https://docs.google.com/folderview?id=0B YLV8egGwSuWE8tc3N1R1BjUW8>

 

Bibliografia

Azevedo, G. M., Jr., R. A. Costa, et al. (2012). “Indirect Effects of Oral Tolerance Inhibit Pulmonary                   Granulomas to Schistosoma mansoni Eggs.” Clin Dev Immunol 2012: 2012:293625.

Carvalho, C. R., H. L. Lenzi, et al. (2002). “Indirect effects of oral tolerance to ovalbumin interfere with the    immune responses triggered by Schistosoma mansoni eggs.” Braz J Med Biol Res, 35(10):         1195-1199.

Costa, R. A., V. Ruiz-de-Souza, et al. (2011). “Indirect effects of oral tolerance improve wound healing in     skin.” Wound Rep Reg 19(4): 487-497.

Kazatchkine, M. D. and A. Coutinho (2000). “Clonal taxonomy versus Network physiology. Are        lymphocytes concerned with our definition of idiotypes? Our views of auto-immunity are               determined by the definition of idiotypy.” Immunology Today 14(10): 513-515.

Magro, C. e Paredes, V. (2001) ”Apresentação” , em Maturana, H. (2000) Cognição, Ciência e Vida                 Cotidiana. Belo Horizonte, Editora UFMG. pp.11-18

Vaz , N. M., J. M. Mpodozis, et al. (2011a). Onde está o organismo? – Derivas e outras histórias na   Biologia e na Imunologia. Florianópolis, editora-UFSC.

Vaz, N. M. (2011c). “Observing Immunologists.”   Neurociências 7(3): 140-146.

Vaz, N. M. (2011b). “The specificity of immunological observations.”  Constructivist Foundations 6(3): 334-351.

Wooldridge, L., J. Ekeruche-Makinde, et al. (2011). ” A single autoimmune T-cell receptor recognizes over  a million different peptides. .” Journal of Biological Chemistry 287(2): 1168-1177.

Wucherpfennig, K. W., P. M. Allen, et al. (2007). “Polyspecificity of T cell and B cell receptor recognition.” Semin Immunol 19(4): 216-224.