Andrew Pickering

Roberts – O teatro ontológico não moderno – de Pickering

Cibernética

O teatro ontológico não moderno

John Wolfgang Roberts

Constructivist Foundations 13(3): 398-401

Resenha de: The Cybernetic Brain:Sketches of Another Futureby Andrew Pickering. University of Chicago Press, Chicago, 2010.  ISBN 978-0-226-66790-4. 526 pages.

O livro de Andrew Pickering traça uma antiga história da cibernética britânica. Pickering traça conexões entre o “cérebro” em suas muitas formas – de órgão performático a máquina estranha, a desenvolvimentos sociais maiores — tais como sistemas adaptativos acoplados a seres humanos e a artefatos. Concentrando-se no trabalho dos primeiros ciberneticistas britânicos, Pickering defende um paradigma performático que se coloca com alternativa a abordagens representacionistas rígidas do mundo, e localiza aí uma “ontologia da cibernética” que desafia os modos modernos de produção de conhecimento e que serve como um componente de projetos cibernéticos.

Em The Cybernetic Brain:Sketches of Another Future, Andrew Pickering realiza um feito notável. Na medida em que reconhece a vastidão do material relacionado à cibernética britânica, e admite a dificuldade de manter a coerência do livro em uma estrutura linear, Pickering, no entanto, consegue traçar uma história da cibernética britânica desde ciberneticistas de primeira geração como William Grey Walter (1910-1976), Ross Ashby (1903-1972) e Gregory Bateson (1904–1980), até ciberneticistas de segunda geração como R.D. Laing (1927-1989), Stafford Beer (1926-2002) e Gordon Pask (1928-1996).  Tematicamente, Pickering enfoca a preocupação cibernética com o cérebro, a partir da pesquisa psiquiátrica e dos artefatos de Grey Walter, Ashby, Bateson e Laing, até as construções de “cérebro sintéticos” de Beer e Pask (215).

Com o entendimento de que cérebros e cérebros sintéticos são performáticos e adaptativos em relação a seus ambientes — e as pessoas juntamente com seus ambientes constituem uma dessas formas de “cérebro” — Pickering em seguida prevê um futuro diferente expresso através de um paradigma performático onde existe “um acoplamento recíproco de pessoas e coisas acontecendo no tempo ”(19): o teatro ontológico não-moderno.

Pickering não está apenas traçando uma história, mas também gerando um argumento ontológico e não-moderno sobre a cibernética em geral. Baseando-se na análise da modernidade de Bruno Latour (1993), Pickering emprega o termo “não-moderno” como uma alternativa a sistemas contemporâneos de compreensão e categorização linear do mundo (ou seja, o  mundo Newtoniano, Cartesiano e abordagens do Iluminismo) (18). Pickering escreve que “a cibernética, portanto, nos oferece uma forma ontológica não-moderna em que as pessoas e as coisas não são tão diferente assim” (ibid). Ele argumenta que projetos cibernéticos tornam visível sua localização não moderna e seus  processos no mundo, primeiro recusando a divisão dualista entre pessoas e coisas, e segundo, ao captar um entendimento processual e evolutivo da temporalidade (em oposição às  abordagens modernas que são “causais e calculáveis”(19). Para Pickering, isto levanta questões ontológicas sobre “Como é o mundo, que tipo de entidades o preenchem, [e] como elas se envolvem umas com as outras” (17). Em grande parte, Pickering está preocupado em como atores humanos e não humanos constituem sistemas cibernéticos enredados e emergentes em um ambiente que aqui pode ser frouxamente entendido como significando a moldura da experiência humana e de todos os materiais que a povoam.

Performatividade (desempenho)

Grande parte do livro — the Cybernetic Brain — pode não parecer obviamente construtivista. Contudo, Pickering não está argumentando em favor de causas idealistas ou primeiras-causas manifestamente materialistas, nem tenta fazer alegações grandiosas sobre a natureza de uma realidade ontológica. Seus objetivos  ontológicos não-modernos pretendem situar uma dimensão ética de teorias cibernéticas. Ele não está preocupado necessariamente com moralizar (por exemplo, para emoldurar (to enframe) melhor nossas experiências), embora paradoxalmente, faça um apelo para incorporar uma abordagem ontológica não-moderna de segunda ordem nos currículos de escolas e universidades,  que pode ser visto como uma posição moral. O ponto é que essa assim chamada “moralidade” é um tipo recursivo e operacionalmente fechado de moralidade favorável à perpetuação do sistema em curso, contrária às categorias representacionistas do mundo, e que busca conhecimento através do desempenho (performance) junto com a miríade de  entidades do mundo. Pickering não está tentando negar ou “derrubar” abordagens modernistas, mas simplesmente propõe investigar e importunar com uma prática diferente de aprender a lidar preliminarmente com os processos de segunda ordem do mundo ao nosso redor. Nesse caminho, através do contexto da cibernética britânica, Pickering defende o reconhecimento dos elementos de nossos ambientes como co-produtores do arcabouço nossas experiências em curso, em vez de serem meros objetos passivos a serem usados em uma presumida realidade antropocêntrica e “cognoscível”.

O cérebro como um órgão, assim como sistemas o análogos de segunda ordem semelhantes ao cérebro no mundo, são performáticos, e não representacionistas.(6). A mudança paradigmática do representacionismo à performatividade é, acima de tudo, uma mudança na compreensão das representações como fenômenos emergentes, mais que identidades inerentes. Além disso, as bases psiquiáricas da cibernética britânica ajudam a colocar (localizar) uma dimensão cognitiva nestas máquinas similares a cérebros, que em formas mais complexas demonstram comportamentos de aprendizagem através de seu desempenho em vez de representações. A Parte1 do The Cybernetic Brain é dedicada a estabelecer o cérebro e sistemas semelhantes ao cérebro como processos performáticos envolvidos e engrenados em seus ambientes e aprendendo a partir dos mesmos.

Depois de estabelecer a metodologia e o cenário apropriados nos capítulos 1 e 2, Pickering desenvolve ainda mais o argumento através de um exemplo inicial rudimentar de um “cérebro” performático em funcionamento. No  Capítulo 3, encontramos as tartarugas mecânicas de Grey Walter. A principal lição aqui é que as tartarugas representam um acoplamento performático com o ambiente que não é baseado no conhecimento, mas sim em reações a situações cambiantes, neste caso, contornar obstáculos em busca de uma fonte de luz. As tartarugas de Grey Walter consistiam de “dois neurônios”, um incluindo a “fonte de alimentação, motores e rodas” e outro incluindo o “interruptor de contato e da fotocélula” cujas conexões elétricas eram formadas possível pelos nervos (fios) e pelo cérebro (a placa do circuito). Essas tartarugas mecânicas constituíam “cérebros” analógicos, engajados performaticamente com o meio ambiente, demonstrando assim como o cérebro humano pode ele mesmo ser visto como uma “máquina de atuar” em vez de uma “máquina pensante” (49) — uma máquina performática em vez de representacionista. Essas tartarugas não interagiam com seus ambientes de acordo com noções preconcebidas, mas sim reagiam ao seu ambiente de uma forma tornada possível por seus circuitos, e ao fazê-lo. exibiam comportamentos semelhantes a encontros narcisistas consigo mesmos frente a espelhos e rituais de acasalamento quando encontravam uma a outra (43).

O Capítulo 4 nos traz o homeostato de Ashby —um dispositivo eletromagnético composto por quatro homeostatos menores que se comunicavam uns com os outros através de correntes eletrônicas. Seu objetivo simples como homeostatos era manter o equilíbrio, a despeito de quaisquer distúrbios do meio. O que eles demonstravam eram maneiras pelas quais uma máquina performática poderia aprender a lidar com condições desconhecidas que interrompem o equilíbrio do sistema. Ou seja, a homeostato de Ashby aprendia a reagir a perturbações, para manter seu equilíbrio dentro de seus próprios processos sistêmicos.

Como Pickering escreve, o homeostato poderia “percorrer […] as possibilidades de seus circuitos internos até encontrar uma configuração que poderia entrar em equilíbrio dinâmico com o meio ambiente ”(106). O ponto aqui é que os cérebros performáticos não só “navegam” pelo ambiente, como as faziam tartarugas, mas também procuram se adaptar a perturbações circunjacentes, a fim de encontrar um novo equilíbrio.

O trabalho de Grey Walter e Ashby influenciou a psiquiatria da época, não apenas em suas próprias práticas, mas também no trabalho de Bateson e Laing. Em Bateson, o conceito do “duplo vínculo” (double bind) —, ou seja, quando duas partes se comunicam continuamente e se esforçam em manter um equilíbrio, mas elas também constituem um tipo de alça de feedback (retrocontrole) que pode gerar propriedades bizarras (isto é, a esquizofrenia; 175)—, é tornado possível e se torna disponível para a psiquiatria através de avanços na cibernética. Bateson considerava a esquizofrenia como o “lado negro da modernidade ”, isto é, uma luta para manter entendimentos modernos do mundo enquanto também “se perde” este entendimento (176). A esquizofrenia também pode ser considerada como um sistema complexo de descoberta no eu não moderno movido por “processos endógenos” (179).

Para Bateson, a terapia deveria ser conduzida por terapeutas em pé de igualdade com o paciente, isto é, dentro da mesma moldura “narrativa” que o esquizofrênico, para comunicar e “desvendar duplos vínculos” (180). Este processo terapêutico não é diferente do koans oferecidos aos estudantes do Zen Budismo, que trabalham para dissolver o “eu moderno” (176). Na verdade, koans, abordagens não modernas à esquizofrenia, e os outros projetos cibernéticos dos principais trabalhos discutidos, assim como as “tecnologias não-modernas do self ”(176) — são artefatos que destacam e interrompem a veracidade assumida pelo sentido moderno do self.

Essa relação entre terapeuta e esquizofrênico está clara no trabalho de Laing, também no capítulo 5. Laing também se beneficiou de tais avanços e abriu uma comunidade terapêutica experimental, chamada Kingsley Hall, onde a pessoa mentalmente perturbada e psicoterapeutas se uniam sem noções preconcebidas de relações de poder (192). Este era um lugar onde a loucura poderia ser encenada, e de fato foi encenada, por pacientes junto com seus terapeutas.

Engajamentos performáticos com o mundo geram  material representacionista, mas é errado supor que esse material tem um significado fixo que é aplicável para todas as situações semelhantes. O que Pickering resume é que cada “circuito” performático exige seu próprio surgimento de processos (performáticos) e produtos (representacionais) como seu próprio sistema operacionalmente fechado. Quando passamos para Parte 2 (Capítulos 6 e 7), essa “dança de agências” ontológica ”(20; Pickering 1995) se torna mais evidente à medida em que continuamos a ver estes “cérebros” colocados em uso em contextos não psiquiátricos como uma formas de circuitos de co-participação entre humanos e artefatos.

Ontologia

Há uma sensação de que muito do  pensamento no construtivismo radical já é performático. Por exemplo, Ernst von Glasersfeld(1995: 18; ver também Riegler 2005) resume o construtivismo radical em dois princípios: (1) o conhecimento sendo ativamente construído pelo sujeito cognitivo, e (2) a cognição servindo para organizar o mundo experiencial, não necessariamente “descobrir” uma realidade ontológica. Para von Glasersfeld, o conhecimento não é uma entidade platônica que já existe a espera de ser descoberta, mas um evento  emergente de tomada de sentido. E são esses eventos recursivos de tomada de sentido em curso que estruturam uma realidade e se prestam a qualquer número de possibilidades de enquadramento e a mais eventos  emergente de tomada de sentido. Embora não se refira explicitamente a isto, a postura de Pickering mantém essa abordagem construtivista radical para enfatizar a organização das experiências do sujeito observado, em vez de admitir que o sujeito meramente entende seu lugar em uma realidade separada e fixa.

Mas o que Pickering nos obriga a perguntar é: O que é então cognição? e se apenas os humanos são capazes disso. Pickering apenas implica uma resposta a esta questão complicada através de suas premissas. Ele não está necessariamente tentando contradizer a capacidade de compreensão do sujeito cogniscente, mas sim argumentando que, assim como as tartarugas e o homeostato, o observador humano está desempenhando no/e aprendendo com o mundo (ao passo que ele está sendo construído), e se essas máquinas podem conhecer

seu ambiente à sua própria simples maneira, como fazem as tartarugas e homeostatos, então que tipo de relacionamento recíproco está ocorrendo no mundo entre nós e os outros objetos (por exemplo, outros “sujeitos cogniscentes”) de nossas experiências? Para Pickering, é esta similaridade (commonnality) performática e observacional que cria as  perguntas ontológicas .

Seu ponto é que a ontologia não deve ser vista como um esforço para se enquadrar ou revelar um mundo objetivo, mas sim para revelar os padrões complexos de interligação e desempenho contínuos entre pessoas e outros objetos (envolvidos em sua própria evolução em curso), que é, por sua vez, acoplado à nossa própria evolução em curso). Qualquer conhecimento que surja através de nossas observações está situado, não nos dogmas populares atualmente sobre significados e coisas, mas como desempenhos (performances) entre esses significados e as coisas. Estar situado em uma ecologia ou um ambiente, para Pickering, não significa ser informado pelas condições materiais, mas sim co-participar no desempenho destas condições  materiais emergentes (381).

O objetivo de Pickering é buscar um “redirecionamento da cibernética ”(27) elevando a riqueza material do mundo lado a lado com o domínio epistemológico do observador humano. Ele escreve:

“Ver a cibernética como sendo primariamente epistemologia é convidar uma agonia sem fim sobre a responsabilidade pessoal do observador por sua suas alegações sobre o  conhecimento. Bem. Mas o outro lado disto é o desaparecimento da materialidade performática  do campo. Todas essas máquinas, instrumentos e artefatos maravilhosos são marginalizados se alguém toma a cibernética como sendo principalmente sobre o conhecimento e a localização do observador ”. (26)

O problema implícito da cibernética, como Pickering a percebe, é que, em todas as reconfigurações auto-reflexivas e (de/re)construtivas recursivas do nosso mundo experiencial,

corremos o risco de cair na mesma armadilha moderna e iluminista — pessoas fazendo afirmações de conhecimento sobre o mundo municiadas por um sentido egoísta de capacidades humanas para moldar o mundo de acordo com as mesmas — Pickering afirma no Capítulo 2:

“O que eu quero sugerir é que a ontologia da cibernética é estranha e não-familar, e é muito diferente da ontologia das ciências modernas. Eu também quero sugerir que a ontologia faz a diferença — que a estranheza de projetos cibernéticos específicos é coerente com a estranheza de sua ontologia. ”(18)

A segunda parte do livro esclarece ainda mais a estranheza do teatro ontológico não moderno.

A ilusão da separação

Na Parte 2 do The Cybernetic Brain, o foco se desloca para Satfford Beer e Gordon Pask, duas gerações de ciberneticistas que tinham pouco interesse sobre os entendimentos psiquiátricos do cérebro, mas que, no entanto, levaram adiante as lições de Grey Walter e Ashby, e criaram “cérebros sintéticos”, procurando colocar” estas “máquinas bravias” (mavericks) para trabalhar no mundo” (215). Beer, por exemplo, estava interessado principalmente na gestão organizacional, que poderia ser usada como práticas alternativas eficientes em empresas e governos. Ele desenvolveu o Modelo de Sistema Viável (Viable System Model), “transplantando o orgânico para o social” (244). Seus computadores biológicos se tornaram modelos para desenvolvimentos posteriores em sua empresa de métodos organizacionais. Além disso, a cibernética de Beer tomou uma forma abertamente espiritual, quando suas perspectivas hilozoistas mostraram aspectos da filosofia oriental. Objetos não são necessariamente conscientes, mas exibem algum tipo de “consciência” em relação a um outro objeto. Pickering escreve: “Na dinâmica de interação entre a mente e o mundo assim instanciados, “objetos” e “mente” condicionam  reciprocamente uns aos outros” (289). Pickering prossegue explicando o que é dito acima na nota de rodapé 54, ao citar sua simultaneidade:

“Esse é o meu verniz performático. Na  cibernética de segunda ordem, as leis da forma de Spencer Brown são frequentemente invocadas neste contexto, a ideia de que fazer uma distinção (isto é, entre ‘objeto’ e “Mente”) cria dois termos e uma relação entre eles onde o que era originalmente uma única unidade.”(456)

Isto equivale a sugerir, como em algumas religiões orientais, que  a separação entre humanos, não-humanos, seres vivos e coisas não-vivas é ilusória. Na verdade, Beer, um Yogi tântrico, não era diferente de Bateson, que praticava o Zen Budismo, ou Laing, que experimentou com LSD; todos eles usaram estas “tecnologias não-modernas” (75) para explorar regiões do eu como conectadas performaticamente com seus ambientes. Isso não é sugerir que o LSD e as religiões orientais são sinônimos. Pelo contrário, eles são muito diferentes, mas a semelhança das tartarugas de Grey Walter, homeostatos de Ashby, práticas de Laing no Kingsley Hall ou os computadores biológicos de Stafford Beer, eles são “tecnologias” para localizar processos ontológicos não-modernos em funcionamento nos sistemas “bio-lógicos” de nossas experiências, e estamos trabalhando para descentralizar o sentido egocêntrico do self, colocando em primeiro plano estas ontologias estranhas.

Isso, novamente, pode não parecer construtivista para muitos, desde que parece atribuir agência a objetos fora de nossas próprias capacidades de observação. Da mesma forma, procura conversar com seus leitores em uma linguagem proverbial perdida, até agora estranha a muitos que vêm de/e estão operando em contextos modernos carregados de conhecimento, tais como a universidade moderna e instituições governamentais. Na verdade, Pickering menciona a ausência de uma interdisciplinaridade adequada do sistema universitário como uma razão para a cibernética nunca haver totalmente se firmado como uma disciplina em si  mesma nas instituições, portanto, manter um amadorismo e um carácter de hobbie durante toda sua história (10). O ponto aqui é que a estranha ontologia da cibernética possibilita uma compreensão da ilusão de separação entre as pessoas e as coisas.

Estética

Em Gordon Pask (Capítulo 7), vemos o transplante do legado de Grey Walter e Ashby para o reino da estética. É em Pask que chegamos a ver o lado “teatral” desta ontologia não moderna performática. Em “Organic Control and the Cybernetic Method”, Pask (1958) escreve:

“um ciberneticista é um observador participante que decide com um movimento que modificará o conjunto e, em geral, favorece sua interação com ele ”(173).

O circuito cibernético consiste no desempenho do observador e o objeto de investigação (343). Uma máquina assim foi construída por Pask em seu dispositivo MusiColour, que acoplava um show de luzes com um artista humano. Nem o performer nem a máquina controlavam o desempenho (319), isto é, a música e o show de luzes eram contingentes uns aos outros. O artista tocava a música, e a máquina convertia  a música em um show de luzes resultante. Contudo, a máquina foi projetada para ficar entediada:

“Se o mesmo tema musical fosse repetido com muita frequência, os limiares para o padrão de luzes correspondente eventualmente se intensificaria e a máquina deixaria de responder, encorajando a artista para tentar algo novo. ”(316)

Como Pickering conclui,

“Os ciberneticistas aprendem, em geral, sobre seus objetos da mesma maneira: eles interferem com eles, tanto quanto possível, de forma exploratória para ver o que eles farão, em cada observação provocando novas interferências situadas.” (344)

É aqui, em Pask, que o hilozoísmo dde Stafford Beer aparece como uma “dança de agências” mais igualitária entre o humano e a máquina. A  máquina influencia o artista tanto quanto o artista influencia a máquina. O resultado é um evento, de trajetória imprevisível, sendo realizado como um desempenho entre entidades ontológicas não modernas (ser humano e máquina), e não um desempenho de estados pré-determinados a priori.

Conclusão

Os tópicos aparentemente disparatados de discussão nos capítulos 3 a 8 compartilham uma natureza ontológica não moderna como coisas ou derivadas de entendimentos performáticos do cérebro, ou como coisas que vêm de outros contextos e que exibem um sentido evidente de suas qualidades não modernas. No que diz respeito aos aspectos cibernéticos principais dos projetos/invenções discutidos no livro, eles foram possíveis graças ao pensamento performático de seus inventores, envolvendo diferentes atores – humanos e não-humanos, vivos e não-vivos — em suas performances como tartarugas, homeostatos, trabalhos psiquiátricos, estruturas de organizações institucionais, ou apresentações musicais, entre outros descritos no livro.

A interconectividade entre coisas, como sistemas (“cérebros”), gera significados no desempenho de suas contínuas interações. Essa dinâmica é ontológica porque a partir de um paradigma performático, entidades de um ambiente-sistema tornam-se inteligíveis como objetos significativos através seu acoplamento relacional — eles não se mantêm sozinhos como coisas ou conhecimentos pré-existentes, mas tornam-se sua própria coisa (thing-ness) e seu significado nos seus próprios processos de devir (becoming).

Isto é, esta ontologia não moderna não é sobre “descobrir” propriedades inerentes de uma coisa, mas sobre o desempenho sempre cambiante de relações de uma coisa com o ambiente e no ambiente a partir do qual esta coisa está emergindo.

Uma abordagem ontológica não moderna do mundo pode ter consequências para a vida diária. Os sistemas do mundo — os muitos “cérebros” do (no) mundo — possuem algum tipo de “bio-lógica” na maneira como suas entidades estão constantemente em re-acoplamento e reconfiguração em novos ambientes adaptativos/adaptados. Interações representacionistas modernas com o mundo muitas vezes “ecoam de volta” para nós, como diz Pickering, de maneiras que parecem sugerir, “que nós temos outras opções, que podem fluir melhor”(394). Ou seja, as abordagens lineares modernas (isto é, o cartesiano acima mencionado, métodos newtonianos e iluministas de produção de conhecimento) frequentemente geram circunstâncias imprevistas. Na verdade, como Pickering faz no fechamento o livro, ele defende um mundo onde uma ontologia não moderna é introduzida às escolas mais cedo, bem como a oferece como uma parte dos currículos universitários (402). Sinto que sua proposta de estimular os alunos não-modernos a uma compreensão ontológica  é nobre, parece ser uma questão ética alternativa ao atual ao ethos moderno predominante de enquadrar o mundo que vivemos em pacotes fixos de conhecimento. “E se feito adequadamente”, Pickering conclui:

“Poderia facilmente produzir uma geração que diga automaticamente “espere um instante” quando for apresentado ao próximo projeto altamente modernista de enquadramento, […] E que, além disso, estaria exatamente na posição certa para chegar a novos projetos centrados no desempenho em vez no emolduramento (framing). ”(402)

A mudança performática do representacionismo implica uma abordagem não moderna para repensar a ontologia, não como o estudo dos seres como coisas-em-si, mas como seres emergentes/em emergência em observações de segunda ordem. Há muito em comum aqui com os novos materialistas como Karen Barad (2007), que vê toda a matéria como “agências observadoras” (observing agents)— isto é, relações sujeito-objeto são problematizadas a tal ponto que o ato cognitivo deixa de ser uma característica inerente a qualquer entidade em particular, e passa a ser uma dinâmica que também emerge na co-participação de várias formas de matéria (incluindo pessoas e coisas (ver, por exemplo, 340). Pickering não faz disso

um caso particular para todos os objetos, mas independentemente disso, observa que essa “estranha ontologia” entre pessoas e coisas tem existido muitas vezes em projetos cibernéticos (17f) e é digno de uma análise mais aprofundada. Falando sobre cibernética como um assunto acadêmico, mas ainda assim aplicável neste contexto, Pickering afirma que “a cibernética é melhor vista como uma forma de viver, uma maneira de continuar no mundo, ou mesmo uma atitude ”(9). The Cybernetic Brain, de muitas maneiras, não está tão preocupado em mudar a direção da conversa — embora esteja certamente fazendo isso, mas mais importante em como as conversas deveriam ser mantidas. Aqui reside a moralidade de The Cybernetic Brain: informar uma prática de desempenho com o mundo, em vez de gastar nossas  vidas diárias como pessoas privilegiadas neste mundo.

References

Barad K. (2007) Meeting the universe halfway: Quantum physics and the entanglement of

matter and meaning. Duke University Press, Durham.

Glasersfeld E. von (1995) Radical constructivism: A way of knowing and learning.

The Falmer Press, London.▶︎ http://cepa.info/1462

Latour B. (1993) We have never been modern.

Cambridge University Press, Cambridge.

Pask G. (1958) Organic control and the cybernetic method.

Cybernetica 1: 155–173.

Pickering A. (1995) The mangle of practice:Time, agency and science.

The University of Chicago Press, Chicago.

Riegler A. (2005) Editorial: The constructivist challenge.

Constructivist Foundations 1(1):1–8. ▶︎ http://constructivist.info/1/1/001

John Wolfgang Roberts é “Foreign Teacher” na Mie University, ensinado língua e literatura inglesa no Department of English; Faculty of Education. Ele é também PhD estudante no programa de PhD da University of Birmingham, onde sua pesquisa atual lida com o “enredamento” (entanglement) emergência em (meta) ficções através de abordagens autopoiéticas, neocibernéticas, neo-materialistas e performáticas.

Received: 31 May 2016- Accepted: 11 June 2018