James Scott

Scott – Introdução – 2017

Introdução: uma narrativa em pedaços: O que eu não sabia

Scott, J. C. (2017). Against the Grain. The Deep History of the Earliest States”. New Haven, Yale University Press.

(Tradução: Nelson Vaz)

Muito recentemente na história das espécies, o Homo sapiens sapiens passou a viver em comunidades sedentárias, repletas de gente e de gado, e um punhado de grãos de cereais, regido por ancestrais do que agora chamamos agora de Estados. Como ocorreu isto? Este novo complexo ecológico e social tornou-se o modelo para praticamente toda a história registrada de nossa espécie. Vastamente  ampliado pelo crescimento populacional, pelo acesso à água e força de tração, navios à vela e comércio de longa distância, este modelo prevaleceu por  mais de seis milênios até o uso de combustíveis fósseis. O relato que se segue é movido por uma curiosidade sobre a origem, estrutura e consequências deste complexo ecológico fundamentalmente agrário.

A narrativa desse processo geralmente descreve um progresso, na civilização na ordem pública, e de aumento da saúde e do lazer. Dado o que agora sabemos, grande parte  desta narrativa está errada ou é seriamente enganador. O objetivo deste livro é por essa narrativa em questão com base na minha leitura de pesquisas arqueológicas e históricas nas últimas duas décadas.

A fundação das primeiras sociedades e Estados agrários na Mesopotâmia ocorreu nos últimos cinco por cento da nossa história como uma espécie no planeta. E por essa métrica, a era dos combustíveis fósseis, que começano final do século XVIII, representa meramente o último quarto de um por cento da  históriade nossa espécie. Por razões que são alarmantes, estamos cada vez mais preocupados com a nossa intervenção sobre o ambiente terrestre nesta última era. Quão maciço esse impacto se tornou é evidente no debate animado em torno do termo “Antropoceno”, cunhado para dar nome a uma nova época geológica durante a qual as atividades dos seres humanos se tornaram decisivas em afetar os ecossistemas e a atmosfera do mundo.1

Embora não haja dúvidas sobre o impacto contemporâneo decisivo da atividade humana sobre a ecosfera, a questão sobre quando isto se tornou decisivo está ainda em disputa. Alguns propõem colocar esta origem nos primeiros testes nucleares, que depositaram uma camada detectável de radioatividade em todo o mundo. Outros propõem começar o relógio antropocênico com a Revolução Industrial e o uso maciço de combustíveis fósseis. Também se poderia argumentar

que o relógio começou a rodar quando a sociedade industrial adquiriu as ferramentas – por exemplo, dinamite, tratores, concreto armado (especialmente para represas) – para alterar radicalmente a paisagem. Destes três candidatos sobre a origem do Antropoceno, a Revolução Industrial está há meros dois séculos atrás e os outros dois ainda estão vivos em nossa

memória. Medido pelo período aproximado de 200 mil anos nos quais nossa espécie existe, então, o antropoceno começou apenas alguns minutos atrás.

Eu proponho um outro ponto de partida que está mais longe historicamente. Aceitando a premissa do antropoceno como um salto qualitativo e quantitativo de impacto ambiental, sugiro que comecemos com o uso do fogo, a primeira  grande ferramenta de hominídeos para o paisagismo – ou, em vez disso, para a construção de seu nicho. Evidências para o uso do fogo datam de pelo menos 400,000 anos atrás e talvez muito mais cedo ainda, muito antes do aparecimento do Homo sapiens.2 O sedentarismo permanente, a agricultura e o pastoreio, aparecendo há cerca de 12 mil anos atrás, deram um novo salto em nossa transformação da paisagem. Em nossa preocupação em traçar as pegadas históricas dos hominídeos, pode-se identificar um antropoceno “fino” muito anterior, e um antropoceno mais “grosseiro” mais explosivo e recente; “fino” em grande parte porque havia muito poucos hominídeos para exercer essas ferramentas de paisagismo. Cerca de 10.000 aC havia cerca de dois milhões a quatro milhões de hominídeos no mundo, muito menos de um milésimo de nossa população atual. A outra invenção premoderna decisiva foi institucional: o Estado. Os primeiros Estados no aluvão da Mesopotâmia surgem não antes de  6000 anos atrás, vários milênios depois das primeiras evidências de agricultura e sedentarismo na região. Nenhuma instituição fez mais para mobilizar as tecnologias de modificação de paisagem

em seu interesse do que o Estado.

Um sentido, então, de como chegamos a ser sedentários, plantadores de cereais, criados de

gado governados pela nova instituição que agora chamamos de Estado, exige uma excursão na

história profunda. Em minha opinião, no que ela tem de melhor, a história é a disciplina mais subversiva, na medida em que ela pode nos dizer como as coisas sobre as quais temos certeza, provavelmente, vieram a ser. O fascínio da história profunda é este ao revelar as muitas contingências que vieram juntas para moldar, digamos, a Revolução Industrial, o Último Máximo Glacial, ou a dinastia Qin, algo que responde ao apelo uma geração anterior de historiadores franceses da “escola” dos Annales para uma história voltada a processos de longo prazo (la longe durée) em vez de uma crônica de eventos públicos. Mas o apelo contemporâneo para analisarmos uma “história profunda” faz melhor que a “escola” dos  Annales e pede o que muitas vezes equivale a uma história de nossa espécie. Esto é a motivação (zeitgeist ) em que me encontro, uma motivação que certamente ilustra o ditado de qu “A Coruja de Minerva voa apenas ao entardecer”. 3

Paradoxos em narrativas sobre o Estado e a civilização

Uma questão fundamental subjacente à formação do Estado é a forma como nós (Homo sapiens sapiens) viemos a viver em meio a concentrações sem precedentes de plantas e animais domesticados, e de pessoas que caracterizam Estados. A partir desta visão de grande angular, forma do Estado não é algo natural ou dado. O Homo sapiens apareceu como uma subespécie há cerca de 200 mil anos atrás e é encontrada fora da África e do Levante, no Oriente Médio há apenas 60 mil anos. A primeira evidência de plantas cultivadas e de comunidades sedentárias

aparece aproximadamente há 12 mil anos atrás. Até então — quer dizer, por 95 por cento da experiência humana na  Terra – vivíamos em pequenos, móveis, dispersos, relativamente equalitários, em bandos de caçadores-coletores. Ainda mais notável, para aqueles interessados na forma do Estado, é o fato de que os primeiros Estado murados, pequenos, estratificados, com coleta de impostos, surgem no Vale do Tigris e do Eufrates há apenas cerca de 3.100 aC, maisde quatro milênios após as primeiras domesticações e do sedentarismo. Este enorme atraso é um problema para os teóricos que veriam como natural a forma Estatal e admitiriam que, uma vez surgidas as plantações e o sedentarismo, os requisitos tecnológicos e demográficos, respectivamente, para a formação do Estado estavam estabelecidos, estados / impérios surgirão imediatamente como as unidades mais lógicas e mais eficientes de ordem política.4

Esses fatos brutos enfrentam a versão da pré-história humana que a maioria de nós (eu me incluo nisto) herdou de forma irrefletida. A humanidade histórica foi hipnotizada pela narrativa de progresso e da civilização codificada pelos primeiros  grandes reinos agrários. Como sociedades novas e poderosas, eles estavam determinados a se distinguir tão fortemente quanto possível das populações de onde surgiram e que ainda acenaram e ameaçaram as suas fronteiras. Em sua essência, esta era uma história de “ascensão do homem”. Esta ideia afirma que a agricultura substituiu o mundo silvestre, selvagem, primitivo, sem lei e violento de caçadores-coletores e nômades. Plantaçõss em de campos fixos, por outro lado, foram a origem e a garantia da vida estabelecida, da religião formal, da sociedade e do governo por leis. Aqueles que se recusaram a aceitar a agricultura fizeram isso por ignorância ou uma recusa a se adaptar. Praticamente todas as configurações da superioridade da agricultura foram subscritas por uma elaborada mitologia relatando como um deus ou deusa poderosa confiou o grão sagrado a um povo escolhido.

Uma vez que a suposição básica da superioridade e atração do campo fixo sobre todas as formas anteriores de subsistência é questionada, torna-se claro que, em si mesma, essa suposição se baseia numa suposição mais profunda e mais integrada que praticamente nunca foi questionada. E esse pressuposto é aquele de que a vida sedentária em si mesma é superior e mais atraente do que as formas móveis de subsistência. O lugar da domus (domicílio) e da residência fixa na narrativa civilizacional é tão profunda que é invisível; os peixes não falam sobre a água! É simplesmente admitido que, cansado de andar, o Homo sapiens  não via a hora de finalmente se estabelecer definitivamente, não via a hora de acabar com centenas de milênios de mobilidade

e movimento de acordo com as estações. No entanto, há uma enorme evidência de uma resistência determinada por parte de pessoas móveis a se estabelecer em um dado lugar, permanentemente, mesmo em circunstâncias relativamente favoráveis. Pastores e populações de caçadores-coletores  lutaram contra um estabelecimento permanente, associando-o, muitas vezes corretamente, com a doença e o controle estatal. Muitos povos americanos nativos foram confinados a reservas apenas como resultado da derrota militar. Outros aproveitaram oportunidades históricas apresentadas pelo contato com os europeus para aumentar sua mobilidade, os  Sioux e Comanches tornando-se caçadores a cavalo, comerciantes, e incursores, e os pastores Navajo tornando-se pastores de ovelhas. A maioria dos povos que praticam formas móveis de subsistência, coletando, caçando, catando coisas marinhas e até mesmo com plantações móveis — ao mesmo tempo que se adaptam ao comércio moderno com alacridade, lutaram amargamente contra o estabelecimento permanente. No mínimo, nós não temos nenhuma garantia para supor que os “benefícios” sedentários da vida moderna podem ser interpretados na história humana como uma aspiração universal.5

A narrativa básica do sedentarismo e da agricultura há muito tempo sobreviveram à mitologia que originalmente forneceu sua carta patente. De Thomas Hobbes a John Locke, a Giambattista Vico a Lewis Henry Morgan a Friedrich Engels a Herbert Spencer a Oswald Spengler para relatos darwinistas da  evolução social, em geral, a sequência de progresso dos  caçadores-coletores e do nomadismo para a agricultura (e do  bando para a aldeia para a vila e para a cidade) foi uma doutrina assentada. Este modo de ver quase imitavam o esquema evolutivo de Júlio César de famílias para grupos para tribos e povos para o Estado (pessoas vivendo sob leis), no qual Roma era o ápice, do qual os celtas e depois os alemães se distanciaram. Embora variem em detalhes, estas históriasregistram a marcha da civilização transmitida pela maioria das rotinas pedagógicas e é impressa no cérebro de meninos e meninas na escola através do  mundo. O movimento de um modo de subsistência para o seguinte  é visto como nítido e definitivo. Ninguém, uma vez conhecidas as técnicas da agricultura, sonharia em permanecer um nômade ou um caçador-coletor. Presume-se que cada passo representa um salto adiante que marca um época uma época no bem-estar da humanidade: mais lazer, melhor nutrição, maior expectativa de vida e, finalmente, uma vida restrita que promoveu as artes domésticas e o desenvolvimento da civilização. Desalojar esta narrativa da imaginação do mundo é quase impossível; o programa de recuperação de doze passos exigido para conseguir isso, afronta a imaginação. Eu no entanto faço um pequeno começo aqui.

Acontece que a maior parte do que podemos chamar de narrativa padrão teve que ser abandonada quando confrontada com a acumulação de evidências arqueológicas. Contráriamente

a premissas anteriores, caçadores-oletores – até hoje, nos refúgios marginais que habitam — não se parecem nada com o nativo esfomeado, a um dia de ausência da fome desesperada do folclore.Os caçadores-coletores, na verdade, nunca pareceram tão bons — em termos de sua dieta, sua saúde e seu lazer. Agricultores, pelo contrário, nunca pareceram tão ruins – em termos de sua dieta, sua saúde e seu lazer.6 A moda atual de dietas “paleolíticas” refletem a infiltração deste conhecimento arqueológico sobre a cultura popular. A mudança da caça e da coleta para a agricultura — uma mudança que foi lenta, sujeirata a interrupções, reversível, e às vezes incompletas — acarretavam pelo menos tantos custos quanto benefícios. Assim, enquanto a criação de plantases parecia, na narrativa padrão, um passo crucial para um presente utópico,

isto não pode ser visto dessa maneira para quem antes experimentou a vida nômade: um fato que alguns estudiosos vêem refletido na história bíblica da expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden.

As feridas que a narrativa padrão sofreu nas mãos de pesquisas recentes são, eu acredito, bastante graves. Por exemplo, foi admitido que a residência fixa-sedentarismo era uma consequência da agricultura em campos fixos. As plantações permitiram que as populações se concentrassem e se estabelecessem, fornecendo uma condição para a formação do Estado. Inconvenientemente para esta narrativa, sedentarismo é realmente bastante comum em variadas configurações ecologicamente ricas e pré-agrícolas – especialmente em zonas húmidas que fazem fronteira com as rotas sazonais de migração de peixes, pássaros e animais de caça de maior porte. Lá, na antiga Mesopotâmia do Sul (termo grego para”entre os rios”), encontram-se populações sedentárias, e mesmo cidades de até cinco mil habitantes com pouca ou nenhuma agricultura. A anomalia oposta também é encontrada: havia plantações associadas à mobilidade e dispersão que só se interrompia em um breve período de colheita. Este último paradoxo nos alerta de novo para o fato de que a suposição implícita da narrativa padrão – isto é, que as pessoas não viam o momento para abandonar de vez a mobilidade e “estabelecer-se” – também pode ser estar errada.

Talvez o mais preocupante de tudo isso seja colocar o ato civilizatório no  centro de toda a narrativa: a domesticação acaba por se mostrar como teimosamente evasiva. Os hominídeos, afinal, estavam moldando o mundo vegetal – em grande parte com fogo – desde antes do Homo sapiens. O que consta como o Rubicão da domesticação? Seria cuidar de plantas silvestres, desmantelá-las, movê-las para um novo local, atirar  um punhado de sementes em limo rico, depositar uma semente ou duas em uma depressão feita com uma ferramenta, ou arar? Parece não haver um momento “aha!” ou da “lâmpada de Edison”. Há, até hoje, grandes extensões de trigo selvagem em Anatólia a partir da qual, como Jack Harlan notoriamente mostrou, se poderia reunir grãos suficientes com uma foice de pederneira em três semanas para alimentar uma família por um ano. Muito antes da plantação deliberada de sementes em campos arados, os coletores desenvolveram todas as  ferramentas de colheita, cestas de vinhos, pedras de moer e argamassas e pilões para processar grãos selvagens e lentilhas e feijões.7 Para o leigo, colocar sementes em um canteiro preparada ou em um buraco parece decisivo. Deve-se levar em conta

atirar os restos e sementes de uma fruta comestível em uma pilha de compost vegetal perto do acampamento, sabendo que muitas  vão brotar e prosperar?

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NOTAS

1. O termo foi primeiro cunhado pelo cientista holandês Paul Crutzen em 2001.

2. Para a datação, comunicação pessoal, David Wengrow.

3. É difícil evitar a pergunta: “Onde nós estávamos para vir acabar aqui? “Essa questão é muito ambiciosa para que eu a enfrente. Uma coisa que se destaca, no entanto, é que o nosso problema é em grande parte criado por nós mesmos. Isso, por sua vez, sugere uma analogia médica. Alega-se que mais de dois terços das hospitalizações em países industrializados, são devidas a doenças iatrogênicas: condições médicas que resultaram de intervenções e tratamento de doenças anteriores. Pode-se dizer que os males de nosso ambiente atual são em grande parte iatrogênicos. Se assim, o primeiro passo é talvez seja evocar  uma longa e profunda história médica que pode nos ajudar a traçar as origens de nossas queixas atuais.