Inéditos

Sem estranhar

160930 – Sem estranhar

O estranhamento não é o mecanismo do que se passa: é um resultado do viver

 

“Se não adoto a formação de anticorpos como a explicação da atividade imunológica,

tenho que resolver o problema de outra maneira”

 

Se não aceito o reconhecimento de materiais estranhos ao corpo – o estranhamento – como o mecanismo de ativação dos linfócitos, minha preocupação central deixa de ser a maneira pela qual materiais estranhos participam desta ativação e da formação de anticorpos. Não se trata de negar ou desprezar a imensa variedade de fenômenos descritos na imunologia experimental que se baseiam no estranhamento; a ativação de linfócitos e os anticorpos continuam a ser problemas centrais. Mas deixam de ser uma questão de estranhamento

Defendo a ideia de que o sistema imune não separa (não discrimina) entre o que pertence ao corpo (self) e o que não pertence (nonself); células e moléculas não podem julgar esta diferença. Ao mesmo tempo, não vou negar que o contato com materiais que não pertencem ao corpo (antígenos) pode resultar em mudanças que podem ser vistas como “respostas imunes específicas”, e que o contato contínuo com componentes do próprio corpo não faz isso[1]. Mas não vou tratar o encontro com antígenos como “estímulos”, nem a ativação de linfócitos com formação de anticorpos como “respostas” imunes. Vou adotar outra maneira de ver as mudanças e a conservação da atividade imunológica. Sem o estranhamento, vou falar de um processo incessante de perturbações e compensações de uma organização invariante, mas não vejo perturbações como estímulos, nem compensações como respostas imunes.

Quando deixo de me preocupar com o estranhamento, deixo também de me preocupar com o problema recíproco, que é entender a ausência de respostas imunes a componentes do próprio corpo, aquilo que os imunologistas chamam de tolerância natural. Pois quando me recuso a aceitar o reconhecimento da estranheza como o mecanismo da atividade imunológica, não preciso mais inventar mecanismos de não ativação, de mecanismos de não-reconhecimento de materiais não estranhos, mecanismos pelos quais os linfócitos toleram o próprio corpo. Abandono também esta maneira de ver negativa. Tolerância é um termo inapropriado, que significa uma negação adiada e é um alívio não ter que emprega-lo.

Em resumo, ao negar que o corpo faz a separação entre o que lhe pertence e o que não lhe pertence, evito uma enorme massa de perguntas e preocupações, que são as mais frequentes e importantes na imunologia moderna. Esta é uma mudança radical que me obriga a caracterizar uma outra pergunta dirigida à natureza da atividade imunológica. Não se trata mais da defesa do organismo – a defesa é uma consequência, um resultado de uma atividade celular e molecular que continua a ser o alvo de nosso interesse, mas não tem a defesa como sua origem e seu motivo; esta atividade é parte da construção e manutenção do corpo.

Mas há uma segunda consequência apontada por Maturana no prefácio de um pequeno livro que escrevemos há muitos anos (Maturana, 1993). Este outro modo de ver a atividade imunológica: “…amplia a visão do organismo como uma totalidade sistêmica: o espaço interno se transforma em uma dinâmica relacional molecular e celular fechada, que define a unidade do organismo em vez de ser definida por ele.” (minha ênfase) Quer dizer, não é o organismo que cria o sistema imune; ao contrário, o sistema imune é uma parte da criação (do surgimento, da ontogênese e da filogênese) e manutenção do organismo. Isto é muito diferente de imaginar um sistema dedicado à defesa do corpo de doenças.

Esta “dinâmica celular e molecular fechada do corpo”, é outra maneira de nos referirmos à organização auto-criadora e auto-mantenedora (autopoiética) do organismo e à sua fisiologia conservadora. O corpo está aberto para trocas materiais e trocas de energia, e este “fechamento” se refere apenas às relações entre as moléculas do corpo que, em si mesmas, criam e mantêm a dinâmica invariante de mudanças que constitui o próprio corpo. Estas mudanças têm uma constância, uma invariância, que é uma das condições de existência do organismo, algo que não pode ser perdido em nenhum momento, sem que o corpo se desintegre.

Falar em uma “dinâmica invariante de mudanças”, fala em mudança e, ao mesmo tempo, fala em falta de variação. Isto parece contraditório; mas significa mudança quando se refere a componentes de um conjunto, mas variação pode também significar flexibilidade, plasticidade quando se refere a um “todo” como um organismo vivo. Os seres vivos são entidades flexíveis. Na verdade, os seres vivos não são “coisas”; é melhor vê-los como processos que seguem um rumo de transformações em direções definidas que, no caso de seres vivos multicelulares vai do zigoto ao embrião, ao ser em vida livre e ao adulto que (se reproduz, eventualmente) envelhece e morre.

Parece presunçoso propor a substituição do conceito de estranhamento por considerações tão mais gerais quanto estas sobre a natureza do próprio organismo. Mas não há como descrever claramente a atividade imunológica sem uma visão mais clara do cenário onde ela é criada, e este cenário é o próprio organismo vertebrado. Nas últimas duas ou três décadas, o organismo retornou ao debate sobre questões e textos gerados por um grupo de Filosofia da Biologia, na Universidade de Exeter (Inglaterra), como os de John Dupré (2014), Daniel Nicholson (2014a,b) e Andrew Pickering (vários) são contribuições importantes a respeito disto.

Em resumo, meu esforço é encaminhar discussões no sentido de uma fisiologia conservadora da atividade imunológica, que precede (e é o fundamento de) seu envolvimento em fenômenos patológicos e me parece necessária para entende-los. Meu envolvimento com estas ideias não deriva de um interesse (puramente) teórico. Ele surgiu de minha dificuldade de explicar fenômenos que caracterizei em meu trabalho na imunologia experimental durante mais de 40 anos e que descrevo amplamente em outros locais.

Um segundo item em minha exposição é o que chamo de assimilação imunológica. Em suas interações com componentes moleculares e celulares do meio em que opera, o organismo não estranha ou tolera as substâncias que encontra: elas são ou não são assimiladas aos processos moleculares que constituem o organismo. Isso acarreta perturbações de magnitude variável que são, em si mesmas, as mudanças que compõem a dinâmica estrutural do corpo,

O organismo não “faz” nada imunologicamente:, não tem mecanismos nem elemtnos “efetores”, ou “reguladores”: ele muda, e estas mudanças são inerentes à sua constituição, à sua invariância diniamica. Na imunologia, estas mudanças são vistas como defensivas e são mudanças específicas demonstráveis por métodos imunológicos. Neste modo de ver, o organismo muda porque fica mais resistente a uma dada doença infecciosa – fica imunizado.

Aponto como problema central a estabilidade dinâmica do organismo e do sistema imune; em vez de descrever mudanças (respostas imunes ou sua inibição) descrevo a conservação de níveis de atividade imunológica.

[1] Isto equivale a dizer que a língua não sente seu próprio sabor; que o olho é cego ao próprio olho; e que um cão, que vice dentro de uma esfera de seu próprio odor, não sent este odor, Há ouras maneiras de pensar.