Jorge Mpodozis

Sistemas e Biologia – Jorge Mpodozis

 

SISTEMAS E A BIOLOGIA
Jorge Mpodozis

Bem, vamos sigamos conversando porque me parece melhor do que uma aula formal. Os professores costumam explicar aos estudantes respostas a perguntas que eles nunca fizeram e Isto pode ser desagradável, discutir coisas em que nunca pensamos antes. Há professores egocêntricos que estabelecem estas situações assimétricas, nas quais eles ficam aqui e vocês ficam aí. Isso é interessante isso porque é o contrário do querealmente se passa; o que se passa aqui é uma coordenação de conduta entre todos nós que não ocorre em outras circunstâncias do viver. Vocês saem desta sala e chegam à rua e eu saio desta sala e deixo de ser professor, ou, mesmo se permaneço aqui sozinho e sento em uma destas cadeiras, deixo de ser professor. Minha conduta muda e muda a conduta de vocês, mas enquanto estamos aqui temos este acordo entre nós, esta dança que se passa desta maneira, e que ocorre nas salas de aula e, curiosamente, em raros outros lugares. E as aulas podem se realizar, assim como podem se organizar as equipes de futebol; neste instante estão se realizando aulas com diferentes alunos e diferentes professores em infinitos lugares do planeta. E esta mesma aula poderia ocorrer com outros estudantes e mesmo com outros professores.

É como discutíamos um pouco ontem. É curioso, a aula, vista como um sistema, não depende estritamente de quais são seus componentes, mas sim da dinâmica que se desenrola ali. Então, ela depende mais da relação entre os participantes que dos participante em si mesmos. Decerto, podem se passar outras coisas, mas enquanto estamos de acordo em que vamos realizar uma aula, a aula se desenvolve. Você podem achar que a aula é ruim e pouco produtiva, e ir embora; mas podem também achar o contrário, ficar e participar da aula. O que dizia Gustavo é estimulante, que estas aulas prosseguem neste contexto tão pouco usual do “festival de verão”, onde não têm programas definidos.

Mas isto que se passa não é peculiar das aulas, ocorre em muitas outras situações e por isso vou lhes dizer um par de coisas sobre sistemas.

A noção de sistema é útil quando encontramos seres vivos e perguntamos como vamos lidar com estes seres vivos. Ontem dissemos algumas coisas sobre os seres vivos em sua dimensão de autonomia. Aquilo que sobressai nos seres vivos quando os encontramos – mesmo que estejamos interessados em outras coisas – o que sobressai é esta dimensão de autonomia, com a independência do viver. Então, quando encontramos os seres vivos , nos perguntamos como vamos lidar com sua autonomia em termos conceituais, em termos epistemológicos.

E encontramos que uma maneira adequada de proceder, talvez a única maneira legítima, é trata-los como sistemas, porque os sistemas têm esta propriedade: podem se transformar sem mudar.

Quer dizer, um sistema não fica definido por sua realização estrutural: um sistema é definido pelo tipo de relações que estes componentes realizam. E os componentes podem mudar desde que estas relações sejam conservadas. Esta é uma propriedade geral dos sistemas de todos os tipos

Mas há outra coisa interessante que tem a ver com os sistemas, uma coisa notável. Se tomamos qualquer sistema, mesmo um objeto que não sabemos exatamente o que é, e o desmontarmos, os desconjuntarmos, talvez com o uso de uma ferramenta, veríamos os componentes deste objeto. Se usássemos ferramenta diferentes, provavelmente extrairíamos outros componentes. E aí estão todos os componentes alinhados sobre a mesa; poderíamos arruma-los em um círculo, ou sobrepô-los em um montinho, mas, com isso não recomporíamos o objeto. Somente através de algumas maneiras de recompor poderíamos recuperar o objeto. Mas, por outro lado, poderíamos trocar alguns componentes por outros e ainda assim recuperar o objeto. Porque o relevante é a composição e não os componentes.

Outra coisa interessante é que qualquer que seja a função que atribuímos a estes sistemsa ela não nos ajuda a entender a organização do sistema. Suponhamos que tenho aqui uma campainha, desta de balcão dr hotel, que quando aciono produz um ruído: TIMMM. Se a desmonto posso encontrar uma superfície ressonante e um objeto que funciona como percursor – mas onde está o som que a campainha produz (TIMMM); onde está isso? O som não está aí. O ruído que é o resultado da operação do sistema não é um componente do sistema.

O que quero chegar a dizer é que o viver, que é o resultado da operação do ser vivo, não é um componente do ser vivo. Nem tem que sê-lo; o viver é o que resulta. O que resulta da operação de um sistema não é um componente do sistema, não pode ser. Se não nos dermos conta deste engano não entenderemos nada sobre os sistemas e vamos buscar na realização estrutural do sistema propriedades que têm que ver com uma totalidade que não pode estar presente em nenhum componente do sistema. Então, o que chamam de função do sistema é o resultado da operação do sistema em um certo contexto que em caso algum pode ser um componente.

Se tomo a este senhor, que está aqui, o que é, onde está o conhecer deste senhor? Que posso eu fazer para me certificar se este senhor conhece ou não conhece algo? Posso examinar seus neurônios? O que eu descobriria assim? Nada. Se quero saber se alguém é um pianista, se sabe tocar o piano, tenho que pedir a esta pessoa que toque alguma coisa no piano. Tenho que observar um fazer. Ou seja, tenho que observar alguma ação deste sistema em alguma circunstância, em algum contexto.

Portanto, no conhecer, no saber tocar piano, não procuro os componentes: olho a conduta, um modo de realizar-se ou mudar deste sistema em um certo contexto de interações. Se este é meu sistema (desenha ao quadro negro) e este é o âmbito de interações no qual se encontra, e me pergunto se este sistema conhece algo, ou não, o que busco aqui? Os componentes do sistema não participam das relações que definem este sistema em sua totalidade. Então, não busco por componentes. Nem todo elemento pode participar como componente de um sistema, mas uma variedade de componentes pode participar de um dado sistema.

Suponhamos este jovem que é aspirante a ser um pianista, e está executando uma partitura, e o professor o escuta e decide: “Não, não conhece, não sabe tocar!” . E depois de um período de interações com este mesmo professor, chega a este outro estado e o professor diz: “Sabe, agora sabe tocar”. Para o que atentou o professor: para o jovem? Não. Atentou para a conduta. Para o resultado da operação de um sistema que qualifica ou não qualifica um dado conhecimento. Não é algo que esteja dentro do sistema. O professor não atentou para os neurônios do jovem ou para seu fígado ou para os ossos: atentou para a conduta.

O som da campainha não está na campainha; é o resultado de uma operação em um dado contexto. E o professor diz, em um primeiro momento, isto não é o que eu chamo de um pianista; e em um segundo momento diz, sim, este é um pianista. Mudou a estrutura do jovem? Sim. Mas o resultado da operação não está na sua estrutura. Nenhuma das propriedades de um sistema está contida em seus componentes. Posso dizer outra coisa, afirmar outra coisa, mas, neste caso, não estaria lidando com sistemas. Se afirmo que este senhor está vivo porque tem vida, porque se alojam dentro deles certos componentes que lhe conferem suas propriedades vitais, então, não estou lidando com sistemas.

 

Se digo: Tudo o que contém DNA está vivo, está correto isto? E se tomo de uma certa porção de DNA e coloco em um tubo de ensaio, está vivo este DNA? Certamente, não. O DNA é um componente dos seres vivos. É comum ouvirmos que o DNA é um ancestral dos seres vivos. Esta é uma troca de ideal reducionista, que substitui a ideia de alma, ou de força vital, por uma molécula que contém as propriedades dos seres vivos. Mas isto explica alguma coisa? Não. não explica nada porque é como se eu dissesse que o ópio nos põe a dormir porque tem uma propriedade dormitiva. Porque o ópio nos faz dormir?

O que se passa com um sistema em uma interação depende de que? Depende do agente que o perturba? Sim, depende? Posso eu determinar, com o meu toque mágico o que vai se passar com o sistema? Não, não posso. Não é o agente que interage com o sistema que determina o que se passa. O agente desencadeia, sim, uma perturbação, mas esta perturbação depende do agente? Não, não depende. A função de um ser vivo é captar o que ocorre em um mundo externo e representar isso no cérebro? Isso pode se passar assim?

peixe neuronal Figura 1 : O peixe neuronal

 

Vejam vocês o que vou representar aqui. Esta é a equação fundamental das neurociências. Vou desenhar aqui o “peixe neuronal”. O peixe tem esta cauda, esta boca com dentes e tem uns receptores sensoriais; uns que têm esta forma triangular, e outros com estas forma retangular. Há nódulos do sistema nervoso conectado a este receptor e também a este outro receptor. Quando este receptor triangular é conectado, ela ativa o movimento da cauda através de outros neurônios e o peixe se aproxima; por sua vez, quando este outro receptor retangular é conectado, este outro nódulo é ativado, a cauda se move de modo diferente e o peixe se afasta. Posso distinguir objetos no mundo do peixe. O se passa quando um objeto capaz de se encaixar no primeiro tipo de receptor receptor aparece? O peixe se aproxima e o come. Quando surgem objetos com a outra configuração, o peixe se afasta. Há objetos atratores e objetos repulsores. E há uma grande variedade de objetos que não existem para o peixe.
Mas de que dependem as propriedades atratoras ou repulsoras dos objetos? Dependem dos objetos? Não, dependem da estrutura do peixe. Se trocássemos as conexões neuronais dos receptores, os objetos que são atratores passariam a ser repulsores e vice-versa. Então, não há objetos com propriedades definidas. Notem que eu desenhei este peixe e fiz esta considerações sem violar nada do que conheço sobre a anatomia e a fisiologia de neurônios e do sistema nervoso. Nada. Atratores e repulsores são definidos pela estrutura do sistema e não por propriedades dos objetos.

Claro, porque em um sistema, o que importa é sua estrutura e também se o sistema vive um momento em que admite ou não admite esta dada perturbação. E a conduta do sistema – o peixe aproximar-se ou afastar-se – não depende de nenhum componente em particular. Se mudarmos as conexões dos neurônios com os músculos da cauda, sem alteramos o sistema nervoso, muda a conduta do peixe. A conduta depende do fluxo de atividades que se passa neste peixe como uma totalidade, não depende de nenhum componente.

 

Isto que parece muito radical é pura e simplesmente neurociência. É inescapável, a não ser que não queiramos o não aceitemos tratar os seres vivos como sistemas. Há outras colocações perfeitamente respeitáveis e interessantes, que tratam de outras operações, que podem ser religiosas ou místicas. Mas, isso que se passa com o peixe neuronal, se passa conosco também.

Aqui estou eu, aqui estamos nós e se trata de aceitar que somos similares a este peixe neuronal. E se me proponho a lhes falar como um biólogo, não tenho outra alternativa, e estas coisas que estão aí, não são, pura e simplesmente, coisas do mundo. O que importa é o que se passa comigo quando interajo com algum agente do mundo. O cheiro, o odor de “laranja” não está em uma molécula, não está nos milhares de moléculas diferentes que desencadeiam em mim o odor de laranja. O odor está no que se passa comigo quando encontro estas moléculas.

Isto é muito simples e ao mesmo tempo é muito difícil de aceitar. Queremos pensar que as coisas estão aí, independentes de nós. Falamos de algo que encontramos em nosso viver, mas o que encontramos é o que se passa conosco neste encontro, não é algo que encontramos. Não temos como saber o que se passa conosco neste encontro. Não sei se isto é bom ou mau, se é terrível, e vai tirar o sono de algumas pessoas. A mim não importa, não me causa desconforto algum. Porque vivemos neste mundo das experiências encontramos muitas coisas diferentes: encontramos objetos, pessoas, telefones, encontramos a nós mesmos. Como será a realidade? Realidade – esta é a palavra mais terrível que existe. Que quer dizer resta palavra? Ela se refere à coerência de nossa experiência. Ou será que a realidade se refere a aquilo externo que gera a experiência? Qual é a realidade deste peixe neuronal?

A realidade deste animal é o que se passa com ele. A noção de receptores retangulares ou triangulares não tem sentido para ele. A propriedade de atrator ou repulsor, esta sim, tem sentido; mas a propriedade triangular ou retangular não tem sentido, está completamente fora de seu mundo de distinções. E nós somos também como este peixe, a não ser que não queiramos ser assim. A não ser que não queiramos tratar a nós mesmos como sistemas cujo operar é determinado por sua estrutura. Esta é uma discussão que prefiro não levar adiante. Há pessoas que não sentem isso como angustiante, mas sim como algo muito interessante. Há pessoas que nos dizem “Eu sei como é na realidade; eu sei como as coisas são independentemente de mim ou de você; eu sei como é, e você não sabe; você está equivocado e eu estou certo a respeito do que é a realidade; a realidade depende das coisas externas.” Mas, pessoalmente, não sei como podemos ter acesso a algo externo exceto da forma como descrevemos com o peixe neuronal. Se a verdade tivesse a ver com algo externo e houvesse outra maneira de descrever a realidade, esta conversa que estamos tendo não faria sentido. O que há é uma interação de natureza estrutural e o resultado depende da estrutura dos sistemas que interagem um com o outro. Se eu estivesse determinando o que se passa com vocês nesta conversa, então não teríamos sequer que conversar. Mas os objetos não determinam o que se passa com o receptor.

 

A informação

Ou seja, esta noção de “informação”, o que quer dizer? Informação quer dizer dar-forma, atribuir forma – pressupõe que podemos mudar a forma de um certo sistema interagindo com ele; portanto, um agente externo chega e confere uma nova forma ao sistema, lhe dá esta forma. o organiza, o determina, o informa. Mas, de acordo com o que dissemos, pode haver informação neste sentido?

Há 2500 anos antes de Cristo, Epicuro, dizia que os átomos mudam a forma interna do nariz porque possuem ganchos, ganchinhos maiores ou menores, que se engancham em receptáculos que temos no nariz e, de acordo com onde engancham, sentimos diferentes odores.

Mas o agente que perturba a um sistema não pode determinar qual será a mudança estrutural que ocorrerá no sistema. Isso depende da estrutura do sistema no momento da interação. Ao mesmo tempo, estes sistemas estão em contínua mudança estrutural porque estão em um âmbito de interações com o mundo. De modo que, se esta correlação estrutural entre o sistema não se realiza, o sistema se desintegra.

Gustavo esteve nas montanhas da Bolívia e passou mal com a baixa pressão de oxigênio. A fisiologia respiratória é complicada e as pessoas se sentem mal nos primeiros dias quando estão em uma altitude elevada. Acima de 5 mil metros, a situação pode ser bem desconfortável. As pessoas só têm energia para movimentos lentos e, se se movem rapidamente, podem desmaiar.

 

O viver de cada animal tem que realizar-se enquanto se realiza também uma relação de correspondência estrutural entre o animal e o lugar onde este animal está, no encontro com seu viver. Porque se este intercâmbio, esta interação com o meio não se realiza, ou se interrompe, se acabou o viver. Mas, ao mesmo tempo, o que se passa nas interações não depende dos agentes perturbadores, mas sim da estrutura do sistema.

Então, como pode se passar isso? Como podem ocorrer as mudanças históricas? Como flui, como se determina este curso que segue a ontogênese dos seres vivos?

Sou este bicho aqui (desenha ao quadro negro) que observa esta situação. A estrutura que ele observa muda, mas a situação de correspondência estrutural com o mundo se conserva, apesar de que o modo pelo qual esta correspondência se realiza está também mudando. Como se determina o curso que isto segue?

Primeiro, temos que entender o lugar que este bicho ocupa – vamos chamar este lugar de nicho. Não podemos ver diretamente este lugar, Só o próprio bicho pode ver o nicho, e nós só podemos vê-lo através da conduta do bicho. O que se passa durante o desenvolvimento embrionário, embora o meio em que isso se passa seja estável e nos pareça contínuo, é que o bicho vai se transformando. Porque as mudanças que surgem em um primeiro momento tem como consequência uma transformação da estrutura de modo que o modo pelo qual este bicho se encontra com este meio que é estável e contínuo, segundo o observo, para o bicho é diferente. Porque as transformações não são determinadas pelas propriedades do mundo, as propriedades do mundo apenas permitem que isso se passe; permitem mas não o definem. O nicho é aquilo que o bicho realiza em seu encontro com o mundo. E, na medida em que a estrutura muda, o nicho também vai mudando de um modo que depende das mudanças estruturais que o bicho vai atravessando em sua história. Neste mundo que vejo como homogêneo, o bicho vai mudando de acordo com seu modo de encontro com este mundo de acordo com a dinâmica de mudança estrutural que vem vivendo.

 

O aluno aprende a usar o computador. O computador é sempre o mesmo. Tomamos o computador hoje e observamos sua estrutura; fazemos o mesmo dentro de vinte dias e sua estrutura é igual. O modo pelo qual o aluno usa o computador mudou, mas o computador continua o mesmo. E como mudou o modo de usar o computador? Mudou de uma forma histórica, de acordo com aquilo que o aluno realizou. O que fazemos de momento a momento muda o modo de tratarmos com esta questão, apesar de que esta questão vista pelo lado de fora continua sendo a mesma. Mas o modo com que nos encontramos com ela, vai mudando.

 

Aí está seu pai, morto. E você, em algum momento de sua vida vai até a sepultura de seu pai e se queixa: “Tudo aquilo que você me fez durante a vida, você foi uma figura destrutiva, tudo o que se passa na minha vida é por sua culpa.” Depois de um par de anos, você conversou com alguém, fez psicoterapia, e volta à sepultura de seu pai e lhe pede perdão. Se pai está morto, não pode supor que as mudanças estruturais que estão se passando tenham alguma influência em seu modo de julgar uma pessoa ou outra.

 

O meio é o mesmo. O que muda é seu modo de estar aí. E como muda seu modo de estar aí também mudam todos os modos que têm a ver com suas mudanças neste lugar. E este é o segredo. Isto é o que determina o curso desta transformação, a direção que segue se determina momento a momento, não está determinada em algum componente. Não é que exista algum componente que diga que o que vai se passar é uma mero trânsito. Em geral, na biologia do desenvolvimento, se vê todo o processo de desenvolvimento como um transito, uma passagem entre o estado inicial e o final. E se deixa de ver que isso não é apenas uma passagem, mas sim é o processo de desenvolvimento em si mesmo, que cursa historicamente.

 

Porque se admite, equivocadamente, que toda as propriedades de um organismo adulto estão contidas em alguma molécula já no início. Mas pode isto se passar em um sistema? Vimos que não, não pode. Falar ou pensar desta maneira é desconhecer a natureza sistêmica dos seres vivos. O curso que segue o sistema também não é determinado pelos agentes perturbadores; não é que estes agentes em empurrem o sistema em alguma direção, porque as mudanças estruturais não dependem da natureza do agente: dependem da estrutura do sistema naquele instante. Isto é sumamente claro em qualquer situação de aprendizagem em que estejamos envolvidos. Por que o que se passa com você em um primeiro momento frente a uma certa perturbação, é completamente diferente do que se passa depois frente à mesma perturbação. A perturbação é a mesma e a mudança na conduta é completamente diferente porque o que se transformou foi a estrutura e não a perturbação.

De modo que o curso que esta história segue se determina momento a momento. Não existia antes nem é determinado pelas circunstancias: surge do encontro entre o organismo e o ambiente. É a realização do fluir do viver do organismo, e a realização deste nicho também. De modo que o que é interessante é a relação organismo/nicho.

 

Isto é muito estranho? Vejamos. No mundo em que vivemos, e nos interessa determinar o que vai acontecer, temos propósitos… isso se vive na vida cotidiana, da maneira mais imediata. Pensemos em cada um de vocês, estão aí sentados nestas cadeiras. Vamos ao momento do nascimento de um de vocês, faz uns tantos anos. E neste momento, você sabia que vinha para cá? No primeiro momento de lucidez que teve pensou que no dia 7 de março de 2011 vou estar na sala número 37, ouvindo um aula complicada do Professor Mpodozis? Não, não pensou. Não obstante, se qualquer coisa ocorrida em seu viver tivesse ocorrido de um modo diferente, você não estaria aqui. Você não vinha para cá, mas este é o único lugar onde poderia estar porque o caminho de suas transformações estruturais se construiu no mesmo processo. O curso se determina momento a momento, sem alternativas, se estou neste momento não posso estar em outro, e a trajetória vai se construindo momento a momento. Isso se passa com cada um de nós em nossa vida cotidiana.

Embora você diga que tem o propósito de ir á Lua…Se tenho o firme propósito de ir à Lua, este propósito atua como interação agora, não no futuro. Por isso temos que nos esforçar para manter um propósito, e mudamos de propósito a toda hora.

Um processo histórico cujo curso se determina por transformação estrutural, um processo cujo curso se determina momento a momento, se chama uma deriva. Porque em uma deriva, o curso surge no processo, não está determinado previamente e não é determinado por nenhuma interação. E a deriva se realiza enquanto se conservar a organização do sistema e as condições que tornam possível seu viver – apesar que as condições que tornam possível seu viver podem ir mudando da mesma maneira que muda a estrutura durante o processo.

 

Construo uma balsa, uma jangada e a coloco, vazia, no oceano no litoral do Perú e ela vai derivar até a Polinésia. Dez vezes coloco uma balsa aí e dez vezes ela vai chegar até a mesma região da Polinésia. Como se determina esta rota, este curso? Bem, se determina momento a momento, enquanto a balsa permanece flutuando e se mantém sua relação de flutuação com o oceano. Também posso ir a Polinésia em um barco que tem um timão e um timoneiro. O que se passa em um barco que tem um timoneiro? O timoneiro vai mudando a estrutura do barco de modo a sempre acomodar a deriva a uma rota predeterminada. Os políticos às vezes falam de tomar o governo (o timão) Estado como se faz nas coisas náuticas, que farão o país atravessar as tempestades em segurança. Um presidente pode ver a si mesmo como um heróico capitão de uma nave.

 

Pergunta: O senhor não usa a ideia de adaptação?

 

(Mpodozis vai a um desenho no quadro negro)

O ser vivo está adaptado aqui, neste ponto? (Sim) E aqui,neste outro momento? (Sim) E aqui Também? (Sim). Está sempre adaptado. É como o flutuar da balsa. Está sempre adaptado. Adaptação significa: coerência estrutural com o meio. Um ser vivo está sempre adaptado, e quando deixa de estar adaptado, morre. A adaptação é uma condição de existência. Embora a maneira de preservar a a adaptação vá mudando ao longo da deriva, o estado de adaptação (o estar adaptado) não muda. Se a adaptação não significa a correspondência estrutural com as circunstâncias do viver, então, o que ela significa? Que outro significado pode ter este termo operacional – adaptação?

Diz-se que o ser vivo mais adaptado se reproduz mais, deixa mais descendente. Esta afirmação reflete um viés ocidental de preocupação com aquantidade, com o muito, com o grande; ter mais filhos é melhor que ter menos filhos; ser maior seria melhor do que ser menor. Todo ser tem que ser mais e mais. Mas, porque tem que ser assim? Tenho um colega que quer sempre ser mais, crescer. Eu lhe digo que quem precisa crescer são as crianças; os adultos já não precisam crescer.

O ser vivo mais adaptado se reproduz mais, deixa mais filhos. E como caracterizei este viver mais adaptado? No fundo, o que estou dizendo é que aquele que se reproduz mais, se reproduz mais. Que consequências tem isso na filogênese? Pode ter consequências e pode não ter consequências. Depende das circunstâncias. Mas se a adaptação não significa coerência com as circunstancias, o que quer dizer então? Ter mais filhos? Isso não é muito relevante.

O argumento afirma que estar em uma situação de correspondência estrutural adequada confere ao ser vivo a capacidade de se reproduzir mais. Mas isso não é assim necessariamente. Um ser vivo pode estar em um situação que nem sequer deseja se reproduzir. Às vezes isso se passa, às vezes não.

Para termos a continuidade de uma linhagem tem que haver uma sequência reprodutiva que não se interrompa. Certo. E se não se mantém a continuidade? Bem, a linhagem se extingue. Muitas linhagens se extinguiram na história do viver. A ideia por trás disso é que há uma força que dirige os seres vivos a querer continuar no viver. Como se houvesse dentro dos seres vivos algo “vital”. O viver não seria o resultado desta dinâmica que descrevemos, seria um instinto.

 

O que é um instinto? É uma noção explicativa, um princípio explicativo. É certo que vejo um passarinho do qual conheço a história e sei que não ele teve nenhuma experiência previa com outros pássaros, e chega um momento em seu desenvolvimento em que, maturado sexualmente, passa a construir um ninho muito elaborado. Como se passa isso? Ah, o passarinho tem um instinto. O que é um instinto? É algo dentro dele que se expressa nele e o empurra a fazer isto.

Tudo que observo na conduta de um animal e que não posso associar a uma história de relações, que não posso entender como uma consequência de uma mudança estrutural que surgiu através de um fluir de interações, digo que é “instintivo”. Porque não entendo como pode surgir esta estrutura que realiza o que realiza, não vejo a história na qual isto surgiu. Então o que uma criança faz me perece instintivo porque não posso ver uma história de transformações estruturais. Mas, certamente, ocorre uma história de transformações estruturais momento a momento, em cada instante.

 

Pergunta: a ideia de instinto é que se trata de algo inato, determinado pela genética.

 

Claro. E quando dizemos que algo é “inato”? Dizemos que algo é aprendido quando vemos uma certa história de transformações estruturais que deu origem a esta coisa; e digo que é inato quando não vejo esta história. Então, no desenvolvimento se identifica um ponto adiante do qual tudo é aprendido, e antes do qual tudo é inato. O que esta criança realiza em sua conduta? O que depende de seu cérebro? Como isto surgiu aí? Como não enxergo a história estrutural da linhagem a que esta criança pertence, me pergunto como surgiu isto.

 

O estudo de embriões de galinha, dos pintos ainda dentro dos ovos, tem sido um objeto de interesse há muitos milhares de anos. O coração deste embrião é um dos primeiros órgãos a se formar, surge com suas pulsações antes de que o sistema circulatório esteja formado. O coração é um “marca-passo” muscular e as contrações da musculatura do coração nesta fase, que não está ainda bombeando sangue, têm consequências sobre a estrutura do embrião. Se o coração bate, no término de cada batimento o embrião inteiro se curva ligeiramente para a frente e a curvatura dorsal tem como consequência a expansão dos hemisférios telencéfalicos e das vesículas telencefálicas que dão origem ao cérebro. Se, neste pequeno embrião, no qual bate este coração que ainda não é um coração, e no qual o sistema nervoso ainda não terminou de se formar, coloco uma pequena haste rígida no canal neural que impede as curvaturas que surgem a cada batimento, o coração se deforma.

 

Em nosso laboratório no Chile há um estudante brasileiro que está demonstrando que quando se paralisam os movimentos das extremidades de um embrião de pinto (com curare), mudam os padrões de expressão gênica nestas extremidades. A sequência de genes expressos nas extremidades durante o desenvolvimento é conhecida, e este estudante mostrou que, quando se paralisam os movimentos das extremidades, estes padrões mudam. Mudam como consequência de interferências com a atividade muscular, com os movimentos do embrião.

 

A dinâmica de desenvolvimento é toda entrosada e se desenvolve sistemicamente. Usualmente não vemos isso como uma história. Mas é uma história. É uma deriva. Porque se uma coisa não ocorre, a coisa seguinte não pode ocorrer. E esta coisa que ocorreu é consequência do que ocorreu momento anterior.

 

Vejamos isto caminhar como algo desencadeado no processo de fecundação. Os animais são muito exigentes na escolha do lugar onde põem seus ovos; os ovos não são postos em qualquer lugar. Há uma pequena ilha na região central-sul do litoral chileno, que tem um grande bosque, e é o único lugar do mundo onde existe um pássaro marinho, que vive no oceano e não vem nunca à terra, exceto para fazer seu ninho. Não sei porque vêm a esta ilha em particular, porque há outras ilhas por perto que também têm bosques. Fazem os ninhos em pequenas cavidades do tronco das árvores no bosque. Passam o dia no mar e voltam à noite. Infelizmente, os habitantes desta ilha descobriram que não há nada mais delicioso que os filhotes deste pássaro. Estes pássaros agora correm o risco de extinção.

Mas os animais põem seus ovos em lugares escolhidos cuidadosamente, em geral o lugar de onde saíram eles próprios. Geralmente são ambientes muito estáveis. O pássaro também se assenta sobre os ovos e mantém constante sua temperatura. Os amniotas se desenvolvem em ambientes que ou são muito estáveis ou são controlados pela atividade parental.

 

Então, mesmo que não vejamos isto como uma história, trata-se realmente uma história, uma deriva. E no curso que se desenvolve, embora não tenha alternativa, a direção vai se determinando momento a momento, não está determinada por nenhum lugar. É importante ter isto em vista em várias dimensões. Por isso lhes dizia que esta é a questão fundamental da Biologia, porque se eu digo, no desenvolvimento, que este é o infantil (acaba de sair do ovo) e este é o adulto, na evolução, também posso dizer, este é o ancestral e este é o derivado. Este é o momento de nascer e este é o momento de reproduzir-se um âmbito de conduta.

 

Então, esta é a abordagem da neurociência à Biologia. Não digo isto porque sou um gênio e consigo colocar todas as dimensões da Biologia em uma única equação, mas porque todos têm a ver com este processo. A Biologia é o estudo de fenômenos históricos que se dão como consequência da existência e da realização dos seres vivos. Então o que vou encontrar em uma dimensão, também posso encontrar em outras dimensões. E isto não se passa desta maneira por ser uma característica dos seres vivos: toda vez que tivermos uma situação sistêmica constituída desta maneira, vou encontrar o mesmo tipo de fenômeno. Um sistema que se realiza em uma dinâmica contínua de interações com seu meio, conservando sua organização nesta dinâmica, seja qual for a natureza deste sistema, vai dar lugar aos mesmos fenômenos. Com isso quero dizer que todas mudanças históricas são conservadoras, inclusive as mudanças estruturais humanos, na medida em que ocorram desta maneira.

Podemos falar mais sobre isto depois, mas por agora creio que é suficiente.