Miriam Graciano

Sobre Lacan e Maturana (1992)

Fafich, UFMG
Um comentário sobre:
Vincent Kenny and Phillip Boxer (1992)
Constructivist origins for a third-order cybernetics
Communication & Cognition 25(1):73-100.

Como observador, aceito pressupostos ao me direcionar na investigação de um universo particular que eu próprio delimito. Toda investigação, experimental ou teórica, a que me proponho está previamente definida por uma linguagem através da qual delimito campos de ações e, com a qual  configuro esta ou aquela realidade.

Para se confrontar Maturana, um neurobiólogo, com Lacan, um teórico da psicanálise, faz-se necessária a pergunta pela linguagem – “O que é a linguagem?” pois para Maturana e Lacan, “a linguagem” são coisas totalmente distintas.

Para Maturana, “a linguagem” é um fazer particular do humano, um fazer que envolve descrições de descrições tratando tais descrições como objetos em um domínio de interações. A linguagem se daria, portanto, em coordenações de coordenações de conduta através das quais realidades se configurariam. Esta postura não implica em uma objetividade, não diz respeito a representações do mundo, mas sim a configurações de mundos no linguajear. Por outro lado, assim definida, a linguagem também não implica em uma subjetividade, pois, como coordenações de coordenações condutuais, a linguagem é algo intimamente ligada ao fazer de um grupo, e não a um sujeito, à sua fantasia ou ao seu desejo.

Para Lacan, “a linguagem” seria uma cadeia de significantes. Ele extrai esta noção  da linguística de Saussure, que divide a palavra em significante e significado. Em Saussure, o significante é a imagem acústica como, por exemplo, o som da palavra árvore; o significado é o conceito que temos de árvore. Na linguística de Saussure, imagem acústica e conceito, ou seja, significante e significado, formariam uma unidade inseparável a ser representada. Lacan, porém, estabelece uma separação entre significante e significado, ao ligar Saussure a Freud, pois o significante “árvore” em Lacan não remete mais ao conceito de árvore mas a uma cadeia de significantes da qual  tentamos  obter um significado. Desta forma, para Lacan, “a linguagem” é intrínseca a uma subjetividade, pois um significante está sempre nos remetendo a outro sigificante cujo significado não é dado pelos objetos enunciados, mas pelo sujeito da enunciação. Segundo esta visão, a linguagem seria o reflexo de um mundo subjetivo interno independente dos objetos.

Estabelecidas estas distinções fundamentais entre as teorias de Maturana e Lacan, como confrontá-las?

Kenny e Boxer, os autores do artigo em questão, tentam uma conciliação entre estas duas teorias deixando perpassar uma nítida opção por Lacan, uma vez que advogam a necessidade de uma Teoria do Sujeito e utilizam o esquema lacaniano de análise de discursos como uma espécie de matriz  dentro da qual procuram encaixar a teoria de Maturana.

Tal análise tem problemas de cunho epistemológico.  De um modo geral, as teorias representam um corpo fechado de idéias coerentes consigo mesmas; abstrair parte(s) de uma teoria para associá-la(s) a outra teoria representa frequentemente a negação de uma destas teorias em detrimento da outra. Isto é algo inteiramente distinto da busca de elementos em uma dada teoria no intuito de uma abordagem ampliada da mesma.

Como analisar uma teoria (ou um discurso) lançando mão de premissas que são invalidadas por esta mesma teoria? Como analisar, a partir da aceitação da subjetividade, um discurso que, em sua própria definição, exclui a existência absoluta de sujeitos e objetos? Seria possível analizar, a partir da aceitação da subjetividade, uma linguagem que define sujeitos e objetos como surgidos na linguagem e não anteriores à linguagem? 

Pois é a partir da aceitação do pressuposto da subjetividade, e da busca por uma Teoria do Sujeito, que Kenny e Boxer focalizam a Biologia do Conhecer de Humberto Maturana. Logo no início do artigo, eles criticam a direção epistemológica apontada por Maturana, porque ela não produz uma Teoria do Sujeito. Ao fazer tal crítica os autores estão desconhecendo e negando uma parte fundamental da Biologia do Conhecer – aquela que afirma ser(em) a(s) realidade(s) configurada(s) no linguajear.

Vejamos mais detalhadamente o que cada um destes pontos significa, e porque utilizá-los na análise da Biologia do Conhecer, independentemente daquilo que ela nos tenha a dizer.

A  existência de uma realidade subjetiva é fundamental às teorias psicanáliticas, uma vez que elas se definem enquanto um campo de estudo voltado à questão do sujeito e à tentativa de compreensão desta realidade – ainda que afirmando, paradoxalmente, a impossibilidade do conhecimento, como veremos mais adiante.

Em Lacan temos uma supremacia do sujeito, é ele que enquanto sujeito do desejo mapeia a si mesmo e ao universo à sua volta; o que mantem o homem vivo é o caminho do desejo. Entretanto, o desejo é algo incognoscível a partir do qual se tece uma ética – por isso a afirmação: “o ceticismo é uma ética”. Esta ética de que nos fala Lacan, é a ética que torna possível tanto a convivência familiar quanto a convivência com a querra ou com a existência de campos de concentração nazistas. A ética lacaniana é uma ética de validação dos comportamentos socialmente mais questionáveis e atrozes calcada no desejo de um sujeito.

Em oposicão à ética lacaniana, Maturana propõe uma ética calcada na aceitação do outro enquanto legítmo outro na convivência. Esta ética está fundamentada em nossa biologia e é por ela determinada, pois deriva de um modo particular de vida. Para Maturana, vivemos continuamente em dois domínios distintos, o domínio da fisiologia e o domínio da linguagem. É no domínio da linguagem que nos constituimos como seres humanos. A linguagem surge como fruto de um modo de vida gerado no compartilhamento de alimentos, no sexo frontal, na sexualidade perene, na participação do macho nos cuidados com a prole, na convivência gregária etc. Enfim, a linguagem surge em um contexto de relações afetivas estreitas de aceitação do outro, e é através dela e com ela que configuramos um mundo ético, explicitado e fundamentado  em  nosso evoluir ontogenético.

É através do exemplo dado por um campo de concentração (entre outros) que Kenny e Boxer questionam esta ética explicitada na Biologia do Conhecer. Particularmente, não vejo nenhum problema em compreender um campo de concentração como o não-cumprimento desta ética, como uma não-observação daquilo que nos é tão peculiar, que é a nossa história evolutiva. Por outro lado, julgo desnecessária, senão danosa, uma ética que, no afã pela explicitação do desejo, admita a dominação e a submissão de uns sobre outros.

Para Maturana, emoções são configurações corporais que delimitam domínios de ações. A emoção que torna possível a aceitação do outro como legítimo outro na convivência ele designa de amor. Amor para Lacan é transferência, é desejo de ser amado. Com a adoção deste posicionamento (amar é desejar ser amado) os autores defendem a idéia de que espaços de convivência são formas de acoplamento estrutural social que se fazem possíveis não pela aceitação do outro como legítmo outro, mas por um desejo que é individual.

Porém, sendo o desejo algo da ordem do incognoscível, fica assim invalidada toda e qualquer possibilidade de conhecimento, incluindo a própria teoria lacaniana – como aliás é proposto por alguns teóricos da pisicanálise (Clavrel, 198?): a psicanálise, em oposição às ciências, consiste em um não-saber.

O artigo de Kenny e Boxer consiste em uma negação da Biologia do Conhecer ao reafirmar uma realidade subjetiva; ao questionar a possibilidade do conhecimento; ao igualar o conceito  de linguagem em Maturana ao conceito de discurso em Lacan; ao igualar a noção de objetividade entre parênteses (uma noção básica, em Maturana) à noção de alienação; ao substituir o conceito de autopoiese por um conceito de naughto-poiesis (nenhuma-poiese, poiese de nada); ao afirmar, em relação ao amor, que ele é transferência; e ao contrapor-se à Biologia do Conhecer quando  afirma que o “ceticismo é uma ética”  (Kenny e Boxer, p.79).

Kenny e Boxer não aceitam a distinção entre coordenações de coordenações condutuais e coordenações de ações, interpretando-as igualmente como um ato que torna homens e animais conscientes de ações, mas não explica a auto-consciência. Entretanto, a noção de coordenações de coordenações condutuais é bastante distinta da noção de coordenações de ações. A primeira diz respeito a uma atividade peculiarmente humana, que é o linguajear, ou seja, diz respeito à descrição de descrições, e não a um mero comportar-se ou agir em uma sequência de coordenações de ações. Por outro lado, coordenações de coordenações de ações também não podem ser interpretadas como “tornar-se consciente através de ações”como propõem Kenny e Boxer (p.91). A consciência se dá na linguagem, é um subproduto da linguagem. É nela e com ela que surgem o “eu” e o “outro”, “sujeitos” ou “objetos”. Kenny e Boxer também desconsideram essa premissa fundamental da Biologia do Conhecer, pois a criticam por pagar a perda da objetividade  com o alto preço da ausência do sujeito (Kenny e Boxer, p.90).     

A subjetividade só existe em oposição a uma objetividade, e dizer que a realidade é subjetiva é só uma maneira contraditória de se afirmar que a única realidade objetivamente possível é a realidade de um sujeito – como se sujeito e objeto não fossem o que são enquanto o são um para o outro. “O sujeito só é sujeito para um objeto e o objeto só é objeto para um sujeito.”(Hessen, 1976)

                 

Resta indagar: se tudo que nos é dado é dado pelo sujeito, como compreender a existência de teorias? Mediante a afirmação da subjetividade, com a perda da universalidade, só nos é possível invalidar o conhecimento e as teorias científicas. Se desejamos uma teoria alternativa que leve em conta o universo do indivíduo, e que faça frente à certeza da objetividade científica, é necessário aceitar com ela a idéia de que não existem objetos nem sujeitos, mas apenas a linguagem através da qual configuramos realidades, incluindo aí a realidade subjetiva de que nos fala a psicanálise.

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Hessen, J. (1976) Teoria do Conhecimento.

Arménio Amado, Coimbra, 1976, p.26