Inéditos

Subjetividade (2017)

                   Subjetividade

                  Quando afirmo que anticorpos específicos são rótulos funcionais colados em imunoglobulinas naturais que atribuem uma direcionalidade (uma especificidade, uma capacidade reagir com certas substâncias) a um grupo (muito numeroso, centenas de milhares) destas imunoglobulinas (Vaz, 2011; 2016), não afirmo que isto é simplesmente “imaginado” por imunologistas, que perderam sua capacidade de pensar “objetivamente”. Estou, na realidade, fazendo uma afirmação muito mais geral a respeito do que podemos dizer sobre a realidade dos fenômenos que chamamos de imunológicos.

                  Semelhança com imagens internas de Jerne

                  Este modo de ver tem uma ligação muito sutil com uma das três ideias[1] que levaram Jerne a propor sua teoria da rede: a ideia de imagens internas. Esta ideia passou pela imunologia sem ser percebida pela maioria, porque ela implica em uma inversão total na maneira usual de pensar em imunologia. Usualmente se pensa que o organismo “reconhece o desconhecido”, ou seja, reage a materiais que lhe são estranhos, reage a antígenos. Para Jerne, as “respostas imunes” só ocorrem quando o material externo encontra uma similaridade com imunoglobulinas já presentes no organismo – suas “imagens internas”. Como estas imunoglobulinas participam de uma rede que é “organizada”, ou seja, criam uma certa ordem (Eigen-states, auto-estados) através de suas conexões internas (todos os anticorpos são também anti-anticorpos), a reação com o material externo (o antígeno) cria uma perturbação na rede idiotípica que é registrada como uma “resposta imune específica”. Mas esta “resposta” não surgiu pelo encontro do inesperado, mas sim foi possível porque o material externo guardava semelhanças com componentes que o organismo já possuía: suas imagens internas.

                  Uma escolha infeliz

                  Jerne tinha um capacidade notável de escolher nomes errados para suas ideias. Em 1955, chamou sua teoria “Teoria da seleção natural da produção de anticorpos” e, naturalmente, todos pensaram que se tratava de uma aplicação à imunologia da ideia de “seleção natural”, de Darwin”. Mas Jerne (1955), assim como Talmage (1957a,b) baseava seu raciocínio na imensa pluralidade das imunoglobulinas que podem servir como “anticorpos” para um dado “antígeno”. Sim, estas imunoglobulinas eram “selecionadas” pelo antígeno; Talmage escreveu um pequeno artigo com um título que dizia exatamente isto: “”Especificidade imunológica, combinações especiais de globulinas naturais selecionadas fornecem uma alternativa ao conceito clássico.” (Talmage, 1959). Mas este não era o aspecto central da teoria: a teoria falava da imensa pluralidade de “anticorpos naturais”, isto é, de imunoglobulinas produzidas por espontaneamente pelo organismo. Era algo pertinente à construção e manutenção do organismo, parte da espontaneidade do viver [2]. Mas isto não estava claro no título da teoria enão foi percebido exceto por uma meia dúzia de pessoas.

                  David Talmage foi uma destas pessoas, mas Burnet, certamente não. A teoria de seleção clonal (Burnet, 1959) que surgiu como “uma modificação da teoria de Jerne” como consta de seu título original (Burnet, 1957), é um retrocesso que afirma que o antígeno é necessário para a ativação dos linfócitos e, portanto, a produção de anticorpos deixa de ser natural (espontânea). A teoria de Jerne é uma teoria sobre o organismo; a teoria de Burnet é uma teoria sobre linfócitos.

                  Assim como Jerne não deveria ter colocado o termo “seleção natural” em sua teoria de 1955, não deveria ter escolhido o termo “imagem interna” em sua teoria de 1974. Ele poderia ter chamado os antígenos de “imagens externas de imunoglobulinas”. Talvez, então, a imunologia tivesse mudado.

 

Bibliografia

Burnet, F. M. (1957). “A modification of Jerne’s theory of antibody production using the concept of                clonal selection.” Austr.J.Sci. 20: 67-69.

Burnet, F. M. (1959). The Clonal selection theory of acquired immunity. Cambridge, Cambridge       University Press.

Jerne, N. K. (1955). “The natural selection theory of antibody formation.” Proc. Natl. Acad. Sci.        U.S.A. 41: 849-857.

Jerne, N. K. (1974). “Towards a network theory of the immune system.” Ann. Immunol. 125C:          373-392.

Talmage, D. W. (1957a). “Allergy and immunology.”

                  An.Rev.Med. 8: 239-256.

Talmage, D. W. (1957b). “Diversity of antibodies.” Journal of Cellular and Comparative         Physiology (Journal of Cellular Physiology presently ) 50(S1): 229–246.

Talmage, D. W. (1959). “Immunological specificity, unique combinations of selected natural                globulins provide an alternative to the classical concept.” Science 129: 1643–1648.

Vaz, N. M. (2011). “The specificity of immunological observations.” Constructivist Foundations        6(3): 334-351.

Vaz, N. M. (2016). “Self-tolerance revisited.”

                  Stud Hist Philos Biol Biomed Sci 55: 128-132

 

 

[1] As três ideias são: (a) reações idiotio-anti-idiotipo (ou seja, anti-anticorpos fisiológicos); (b) imagens internas, como descrito no texto; e (c) Eigen-states (auto-estados) como também descrito no texto.

[2] Esta ideia, de que (a) os anticorpos já existem antes da chegada do antígeno, é uma das tries ideia poderosas na teoria de 1955; as outras duas são (b) a imensa pluralidade destas moléculas; e (c) o fato de que sua produção era espontânea e não “instruída” pelo contato com antígenos.