Andrew Pickering

Teatro Ontológico (2010)

Teatro Ontológico
Andrew Pickering

The Cybernetic Brain: Sketches of Another Future
(Capítulo 2)
University of Chicago Press (2010)

     “Nosso mundo terrestre é grosseiramente bimodal em suas formas:
as formas presentes no mesmo ou são extremamente simples,
como um relógio parado, então nós as desprezamos,
ou são extremamente complexas, e então pensamos nelas
como sendo muito diferentes,
e dizemos que elas têm vida.”
Ross Ashby, Design for a Brains (1960, 231-2)

No capítulo anterior, abordei a cibernética por um ângulo antropológico – esboçando alguns aspectos de uma estranha tribo e seus interessantes projetos e práticas, perto de nós no espaço e no tempo e, ainda assim, de alguma forma diferente e em grande parte esquecida. Os capítulos seguintes também podem ser lidos com um espírito antropológico, como adições a este quadro. É uma boa estória, creio eu. Mas podemos dizer mais sobre a substância da cibernética antes de entrar em detalhes. Até aqui descrevi a cibernética como uma ciência do cérebro adaptativo, o que está certo mas não é suficiente. Para desenhar o cenário do que se segue precisamos de uma perspectiva mais ampla se formos ver como os diferentes pedaços se encaixam e o que eles compõem. Para realizar isso, quero falar agora de ontologia: perguntas sobre como o mundo é, que tipo de entidades o povoam, como elas interagem umas com as outras. O que quero sugerir é que a ontologia da cibernética é uma ontologia estranha e não familiar, muito diferente da ontologia das ciências modernas. Quero sugerir também que a ontologia faz uma diferença – que a estranheza de projetos específicos da cibernética vai junto com a estranheza de sua ontologia.[1]

Um bom lugar para começar é com Bruno Latour (1993) e sua história esquemática mas perspicaz. Seu argumento é que a modernidade se superpõe a um certo dualismo entre coisas e pessoas; que os principais aspectos do Ocidente moderno podem ser relacionados aos padrões dicotômicos de pensamento que são agora institucionalizados em escolas e universidades. As ciências naturais falam de um mundo de coisas (tais como elementos químicos e quarks) do qual as pessoas estão ausentes, enquanto que as ciências sociais falam de um domínio caracteristicamente humano no qual os objetos, se não estão inteiramente ausentes, estão pelo menos marginalizados (fala-se do “significado” de “quarks” em vez de falar dos quarks em si mesmos). Nossas principais instituições de produção e transmissão do conhecimento, então, nos apresentam uma ontologia dualista; elas nos ensinam como pensar sobre o mundo desta forma, e também nos fornecem os recursos para agir como se o mundo fosse assim.[2]

Contra este pano de fundo a cibernética aparece como inevitavelmente estranha e não- moderna, para usar o termo de Latour. No nível mais óbvio, cérebros artificiais – máquinas como as “tartarugas” (de Grey Walter) e o homeostato (de Ashby) ameaçam a fronteira moderna entre a mente e a matéria criando uma brecha através da qual, digamos, a engenharia pode se derramar sobre a psicologia e vice-versa. A cibernética nos propõe uma ontologia não-moderna na qual as coisas e as pessoas não são, afinal, tão diferentes assim. O sub-título do livro fundador de Norbert Wiener – “Controle e Comunicação no Animal e a Máquina”, já se move nesta direção e boa parte da fascinação com a cibernética deriva deste desafio à modernidade. No mundo acadêmico, são precisamente os pesquisadores que percebem os atalhos das disciplinas modernas que são mais atraídos pela imagem do cyborg – (cyb-org – o organismo cibernético – como uma unidade de análise não-moderna (tendo Haraway 1985, como texto chave).

A qualidade não-moderna, não dualista da cibernética se tornará evidente nas páginas que se seguem, mas este não é o único aspecto não familiar da ontologia cibernética sobre qual queremos atentar. Um outro aspecto surge sob o rótulo do tempo e da temporalidade. Podemos grosseiramente dizer que as ciências modernas são ciências do puxa e empurra: alguma coisa já identificável no presente causa algo, faz com que as coisas aconteçam desta maneira ou de outra no mundo natural ou social. Menos grosseiramente talvez, a ambição é uma ambição de prever – a obtenção do conhecimento geral que nos capacitará a calcular (ou, retrospectivamente, explicar) porque as coisas do mundo se comportam desta maneira ou de outra. Como veremos, entretanto, a visão cibernética não era uma visão de puxa-empurra; em vez disso, ela era uma visão do que vem adiante. O que determinava a conduta de uma “tartaruga” (de Grey Walter) quando colocada no mundo não era uma causa que existia no presente; era o que quer que a tartaruga encontrasse neste mundo. Então a visão que a cibernética nos oferece não é de um mundo caracterizado por causas concebíveis, mas a de um mundo no qual a realidade está sempre “se fazendo”, para tomar emprestado uma expressão de William James.

Poderíamos dizer, então, que a ontologia da cibernética era não-moderna de duas maneiras: na sua recusa em separar coisas de pessoas, e em um processo temporal que era evolutivo, em vez de causal e calculável. Mas podemos ir adiante nesta questão da ontologia.

Minha própria curiosidade sobre este tema surgiu de meu livro The Mangle of Practice (1995). A análise da prática científica que desenvolvi ali apontava, ela mesma, para os aspectos ontológicos estranhos que acabo de mencionar: eu argumentei que precisamos de uma análise não-dualista da prática científica (o termo que utilizei foi “pos-humanista”); que o quadro deveria ser evolutivo e antecipatório (forward-looking); e que de fato deveríamos entender estes dois aspectos como entrelaçados constitutivamente: o acoplamento recíproco entre pessoas e coisas acontece no tempo, em um processo que por falta de um termo melhor eu chamei de “transfiguração” (mangling); mas rio-acima (antes) destas ideias, por assim dizer, estava o contraste entre o que chamei de idiomas representacionista e performático para pensar sobre a ciência. O idioma representacionista compreende a ciência, acima de tudo, como um conjunto de representações da realidade, enquanto que, o idioma performático que eu defendi em meu livro sugere que deveríamos partir do entendimento da ciência como uma maneira de acoplamento (engajamento) performático com o mundo. Desenvolver este pensamento nos ajudará a entender mais claramente como a cibernética se afastou das ciências modernas. [3]

O que está se sugerindo agora não é que as caixas pretas
se comportam de alguma maneira como objetos reais,
mas sim que os objetos reais são de fato todos eles
caixas pretas, e que estivemos operando
com caixas pretas por todas as nossas vidas.

Ross Ashby, An Introduction to Cybernetics (1956, 110)

Ross Ashby dedicou o capítulo mais extenso de seu livro de 1956, (Capítulo 6) An Introduction to Cybernetics às “caixas pretas” no qual ele disse o seguinte: “O problema da Caixa Preta surgiu na engenharia elétrica. O engenheiro recebe uma caixa fechada que tem terminais de entrada (input), aos quais ele pode trazer qualquer voltagem, choques ou outras perturbações, como lhe aprouver, e terminais para saída (output) que ele observa da maneira que puder.” A Caixa Preta era um conceito chave no desenvolvimento inicial da cibernética, e muito do que tenho a dizer aqui pode ser articulado em relação a ela. O primeiro ponto a notar é que Ashby enfatizava a ubiquidade de tais entidades. Esta passagem segue com uma lista de exemplos de pessoas tentando interagir com Caixas Pretas: um engenheiro que recebe uma “mira” selada de um avião bombardeiro que não está funcionando direito; um clínico que estuda um paciente com lesões cerebrais; um psicólogo que estuda um rato em um labirinto. Ashby então diz: “Não preciso dar mais exemplos porque eles estão presentes por todo lado. A teoria da Caixa Preta, no entanto, é de aplicação mais ampla que estes estudos profissionais” e ele dá um exemplo deliberadamente mundano: “A criança que tenta abrir uma porta, tem que manipular a maçaneta (o input) de forma a gerar o movimento desejado da fechadura (o output); e ela tem que aprender a controlar um através do outro sem ser capaz de ver o mecanismo interno que os conecta. Em nossa vida diária somos confrontados a todo momento com sistemas cujos mecanismos internos não estão plenamente abertos para inspeção, e que precisam ser tratados pelos métodos apropriados às Caixas Pretas (Ashby 1956, 86). Para Ashby, portanto, as Caixas Pretas são ubíquas e são mesmo um aspecto essencial da construção do mundo. Podemos dizer que a cibernética admite e elabora a ontologia das Caixas Pretas, e isto é o que precisamos explorar em mais detalhe.

A seguir podemos notar que a ontologia das Caixas Pretas é uma imagem performática do mundo, Uma Caixa Prteta é algo que faz alguma coisa, algo sobre o qual fazemos alguma coisa e ela faz algo de volta – um parceiro, como eu diria, uma dança de agências (Pickering, 1995). Por outro lado, o conhecimento de seu funcionamento não é intrínseco à concepção da Caixa Preta – é algo que pode brotar, ou não, de nossa experiência performática com a Caixa Preta. Podemos também notar que há algo correto nesta ontologia. Estamos realmente entrelaçados com sistemas vivazes que agem e reagem às nossas ações, que vão de outros seres humanos a plantas e animais, até as máquinas e a matéria inanimada, e podemos prontamente inverter a ordem desta lista e dizer que a matéria inanimada está ela mesma entrelaçada com sistemas vivos, alguns humanos mas na maioria não humanos. É que o mundo é assim mesmo.

A ontologia das Caixas Pretas, portanto, parece completamente razoável. Mas tendo reconhecido isso, pelo menos duas posições do mundo das Caixas Pretas, maneiras de estar no mundo se tornam visíveis. Uma delas é a posição da ciência moderna, isto é, uma recusa em tomar as Caixas Pretas pelo que elas são, uma determinação de romper através de suas paredes e compreender seu funcionamento interno de uma maneira representacionista. Todas as leis da natureza dos cientistas almejam fazer isso, fazer a Caixa Preta, ou tornar classes de Caixas Pretas transparentes ao nosso entendimento. Esta posição é tão familiar que, pelo menos eu, considerava impossível achar uma alternativa para isso. Ainda assim, como se tornará claro, da perspectiva da cibernética, esta atitude pode envolver um desvio, um desvio que nos afasta do desempenho (da performance) e se dirige ao espaço da representação, que tem o efeito de ocultar o mundo do desempenho para nós. As ciências modernas nos convidam a imaginar que nossa relação com o mundo é basicamente uma relação cognitiva – nós agiríamos no mundo através do conhecimento que temos dele – e que, inversamente, o mundo é este lugar que pode ser conhecido através dos métodos e do idioma das ciências modernas. Podemos dizer que as ciências modernas nos apresentam uma ontologia moderna do mundo como um lugar conhecível e representável. E, ao mesmo tempo, os produtos das ciências modernas, o conhecimento científico em si mesmo, reforça esta visão. A Física teórica nos faz relatos sobre as propriedades de entidades ocultas como quarks ou “cordas” e não diz nada sobre o desempenho dos cientistas, seus instrumentos, e a natureza de onde emergem estas representações. Isso é o que eu quero dizer por ocultar: os aspectos performáticos de nosso ser são não-representáveis no idioma das ciências modernas.[4]

A força dessas afirmações deve se tornar mais clara se nos voltarmos para a cibernética. Embora eu vá qualificar esta afirmação mais abaixo, posso dizer no momento que a marca (a característica) da cibernética era rejeitar o desvio através do conhecimento – ou, em outras palavras, manter a convicção de que, em situações importantes, este desvio seria um equívoco desnecessário e, em princípio, impossível. A posição da cibernética era uma preocupação com o desempenho pelo desempenho, em si mesmo, não como uma pálida sombra da representação. E para ver o que isso significa, é talvez mais simples pensar sobre as máquinas cibernéticas iniciais. Podemos, por exemplo, imaginar um termostato altamente sofisticado que integrasse a leitura de sensores para formar uma representação do ambiente térmico e então transmitisse instruções para o sistema de aquecimento com base em transformações computacionais desta representação (de fato, Ashby imaginou este dispositivo; ver capítulo 4).  Mas o termostato lá de casa não faz isso. Ele simplesmente reage direta e performaticamente à sua própria temperatura ambiente, desligando o aquecimento se a temperatura sobe demais e vice-versa.[5]

E o mesmo pode ser dito sobre dispositivos cibernéticos mais sofisticados. As tartarugas (de Grey Walter) se engajavam diretamente, performaticamente e de forma não-representacional com o ambiente no qual elas se encontravam, e assim também ocorria com o homeostato (de Ashby). Então, a ideia expressa no capítulo anterior, de que as tartarugas e o homeostato eram modelos do aspecto performático, e não do aspecto cognitivo do cérebro.

E daí? Quero dizer que a cibernética removia o véu que as ciências modernas colocam sobre os aspectos performáticos do mundo, inclusive os de nosso próprio ser. As máquinas cibernéticas iniciais, em vez disso, nos colocam em confronto com desempenhos engajados interessantes que não envolvem um desvio através do conhecimento. A expressão que chega em minha mente neste ponto é a de um teatro ontológico. Quero dizer que a cibernética ensaiava para nós uma ontologia não-moderna em um duplo sentido. A contemplação de termostatos, tartarugas e homeostatos nos ajuda, primeiro, a entender a visão ontológica de uma forma mais geral, uma visão do mundo como um lugar de desempenhos contínuos e interligados. Podemos pensar na tartaruga, por exemplo, a explorar o mundo como um pequeno modelo do que o mundo é, em geral, como um ícone ontológico. Indo na outra direção, se adotamos a visão ontológica, então, construir tartarugas e homeostatos são exemplos de como ancorar esta visão no mundo das coisas e realizar coisas práticas, como na robótica, na ciência do cérebro, na psiquiatria e assim por diante. Os muitos projetos cibernéticos que analisaremos podem todos ser vistos como figurantes de um teatro ontológico neste duplo sentido: como auxílios à nossa imaginação ontológica, e como exemplos do tipo de tarefas que podem caber na imaginação não-moderna do mundo.[6]

Este contraste moderno/não-moderno é um ponto chave em tudo o que se segue. Quero em particular mostrar que o fio condutor que corre através da cibernética britânica foi a ontologia performática não-moderna que acabo de esboçar. Toda a estranheza e fascinação deste trabalho se entrelaça com esta visão não-familar do tipo de lugar que o mundo é. E posso imediatamente adicionar um corolário a esta observação. No que se segue, estou interessado na cibernética como um teatro ontológico em ambos os sentidos que descrevi – tanto como um auxílio à nossa imaginação e como exemplo do fato de que, como disse antes, a ontologia faz uma diferença. Quero mostrar que a maneira pala qual imaginamos o mundo e a maneira pala qual nós agimos neste mundo são processos que informam um ao outro. Os projetos cibernéticos, em qualquer campo, parecem muito diferentes dos projetos cognatos modernos. Deste ponto, podemos prosseguir em diversas direções. Primeiro, vou considerar a pergunta: “E daí?”; e então vou descrever alguns detalhes importantes; finalmente, poderemos voltar à crítica da cibernética e à política da ontologia,

“A essência da vida é seu caracter continuamente cambiante;
mas nossos conceitos são todos descontínuos e fixos…
E você não pode colher a substância da realidade com eles,
da mesma forma que não pode colher água com uma peneira,
mesmo se ela for muito fina.

William James, “Bergson and Intellectualism”
(1943 [1909, 1912], 253)

 

Por que deveríamos nos interessar pela cibernética? Por acaso a ciência moderna e a engenharia não nos serviram bem nas últimas centenas de anos? Claro, suas realizações foram prodigiosas. Mas ainda penso de algumas razões pela qual pode ser interessante e útil tentar entender o mundo de uma maneira diferente.

  1. É um exercício de ginástica mental: the White Queen (ou seja lá quem for) imaginar uma dúzia de coisas impossíveis ante do café da manhã. Alguns de nós se divertem buscando novas maneiras de pensar, e algumas vezes isto conduz a algum lugar (Feyerabend 1993).
  2. Talvez a ciência moderna tenha se dado bem demais. Tornou-se difícil para nós reconhecer que muito do nosso ser não tem um aspecto cognitivo e representacional. Imagino que eu possa entender como funciona a fechadura de minha porta, mas eu não preciso fazer isso. Estabeleci uma relação performática satisfatória com maçanetas muito antes de pensar em mecanismos. Uma ciência que nos ajudou a tematizar o desempenho (performance) como algo anterior à representação pode nos ajudar a colocar em foco estes aspectos (não cognitivos, não representacionais) de nosso ser. E, claro, além do domínio humano, a maioria do que existe não tem a opção de seguir um desvio cognitivo. Seria bom ser capaz de pensar explicitamente sobre relações performáticas entre as coisas também.
  3. Talvez haja frutos positivos neste movimento para além do representacionismo da ciência moderna. Na engenharia, o termostato, as tartarugas, o homeostato e os outros projetos científicos não-modernos que estaremos olhando, todos apontam nessa direção.
  4. Talvez em se dar bem demais, a ciência moderna, na realidade, tenha nos cegado para todos aqueles aspectos do mundo que ela não consegue agarrar com firmeza. Eu me lembro de pensar, enquanto trabalhava como um físico, por que os quarks permanecem sempre ligados uns aos outros e refletia ao mesmo tempo que nenhum de nós era capaz de calcular em qualquer detalhe como a agua sai de uma torneira. Os teóricos contemporâneos da complexidade argumentam que os métodos da ciência moderna funcionam muito bem com sistema “lineares” mas não funcionam com sistemas “não-lineares” – e que, em algum sentido, estes últimos constituem a maior parte do mundo. Stafford Beer sugeria este argumento em seu primeiro livro, Cybernetics and Management, onde ele argumentava que podemos pensar no mundo como constituído de três diferentes tipos de entidades (Beer 196 59, 18). Vamos ver isto em mais detalhe no capítulo 6, mas, brevemente, Beer dividia as entidades em; sistemas “simples”, “complexos” e “excessivamente complexos”. De acordo com Beer, os primeiros dois tipos eram em princípio conhecíveis e previsíveis e, portanto, suscetíveis aos métodos da ciência moderna e da engenharia. Os sistemas “excessivamente complexos”, por sua vez, não são suscetíveis. Estes sistemas são tão complexos que nunca poderemos entende-los de maneira representacionista e eles mudam no tempo, de forma que o conhecimento no presente não assegura como eles se comportarão no futuro. A cibernética, na definição de Beer, era a ciência de sistemas excessivamente complexos que nunca poderemos entender claramente.

Voltarei várias vezes à ideia de sistemas excessivamente complexos de Beer, conforme prosseguirmos, e tentarei adicionar mais músculos a ela. Este é o aspecto da cibernética que mais me interessa: o aspecto que admite uma ontologia da incogniscibilidade, como poderíamos chama-la, que tenta se endereçar à problemática de lidar performaticamente com sistemas que podem sempre nos surpreender (e isto nos leva de volta ao cérebro adaptativo, e, novamente, a sistemas não-humanos que não têm a opção de fazer um desvio cognitivo). Se há exemplos dos sistemas excessivamente complexos de Beer no mundo, então uma abordagem não-moderna que reconheça isso pode ter valor (em vez de, em paralelo a uma abordagem moderna que nega isso)  Não é fácil, claro, dizer onde está a linha divisória entre aspectos do mundo que são excessivamente complexos em vez de apenas muito complicados. A ciência moderna admite implicitamente que tudo no mundo será eventualmente assimilado a seu esquema representacionista, mas o horizonte de tempo para isso é infinito. Aqui e aqora, portanto, uma posição cibernética pode ser apropriada em muitos momentos. Aqui é onde a ginástica intelectual se torna séria, e onde a história da cibernética pode ser muito necessária como um auxílio à imaginação.

Posso também assinalar que meu interesse na cibernética surge originalmente de uma convicção de que há realmente algo correto em sua ontologia, especialmente na ontologia do não-cogniscível que acabei de mencionar. Como disse antes, cheguei a algo muito parecido com isso em meus estudos empíricos sobre a história da ciência moderna, embora a substância do conhecimento científico nos fale de uma ontologia diferente. Eu carecia do vocabulário, mas eu poderia ter descrito a ciência moderna como um sistema adaptativo moderno que estabelece acordos performaticamente com um mundo que é sempre surpreendente. Naquela época, eu pensava nisso como uma solução puramente teórica. Quando pressionado a respeito de suas implicações práticas, eu não tinha muito a dizer: a ciência moderna parece se dar muito bem, mesmo quando ela obscurece (em meu modo de ver) sua própria condição ontológica.[7]

A história da cibernética, no entanto, me ajudou a ver que a teoria, mesmo a nível da ontologia, pode ser baixada à Terra. Os projetos cibernéticos apontam para a possibilidade de um trabalho construtivo novo e distinto que leva a sério uma ontologia não-moderna em todos os tipos de campos. Em minha perspectiva, eles mostram até onde o “mangle” (a transfiguração) pode nos levar. E vale a pena dizer algo mais. Teoria não basta. Não podemos deduzir o homeostato (de Ashby), ou a psiquiatria de Laing, a ou a máquina Musicolour de Pask, a partir da ontologia da cibernética ou do “mangle”(a transfiguração). Os projetos específicos não estão  já presentes na visão ontológica, de alguma maneira. Cada momento requer uma trabalho criativo; algo tem que ser acrescentado à visão ontológica para especificá-la e assegurá-la. Isso mostra por que precisamos nos interessar por manifestações particulares da cibernética assim como por imaginações ontológicas. De meu ponto de vista, isto é como a cibernética nos leva além do “mangle” (da transfiguração).[8]

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Agora, para os detalhes. Primeiro, o conhecimento (o conhecer). Até aqui, a discussão enfatizou o aspecto performático da cibernética, mas é importante reconhecer que a cibernética não era simplesmente e diretamente anti-representacionista. Modelos representacionistas do ambiente econômico de uma firma, por exemplo, faziam parte do modelo viável de sistema (VSM, Viable System Model) de Beer. Quando apreciamos isso, a clara divisão que fiz entre a cibernética e a ciência moderna parece se turvar, mas creio que é melhor mantê-la. Por um lado, quero notar que muitos processos cibernéticos não tinham este aspecto representacionista. A grande vantagem que Beer via na computação biológica era ser imediatamente performática, sem envolver desvios através do espaço das representações. Por outro lado, quando as representações apareciam em projetos cibernéticos, como no VSM, eles estavam imediatamente engrenados no desempenho (performance) e não eram fins em si mesmos. Beer valoriza o conhecimento, mas ao mesmo tempo suspeita muito dele – suspeita especialmente de nossa tendência a misturar representações do mundo, e por nos ligarmos a representações às custas do desempenho (performance). Podemos então pensar que a cibernética apresentava uma epistemologia performática, diretamente ligada à sua ontologia performática – uma visão do conhecimento como parte do desempenho, mais do que como um controle externo desse desempenho. Ocorre que essa é também a apreciação do conhecimento que documento no meu livro The Mangle of Practice (A Transfiguração da Prática).

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Agora que temos estes dois termos filosóficos sobre a mesa – ontologia e epistemologia – posso dizer algo mais sobre meu papel nessa história. No capítulo 1, disse que qualquer um pode ter sua própria história da cibernética, e esta é a minha. Escolhi o elenco de carácteres e também quais aspectos deles vou destacar. Mas, além disso, a ênfase na ontologia é mais minha que dos próprios ciberneticistas. É a melhor maneira que encontrei para agarrar aquilo que é menos familiar e mais valioso para a cibernética, mas o fato é que o termo “ontologia” não tem destaque na literatura cibernética. O que chamo de ontologia cibernética tende a ser tomado como certo (taken for granted) na literatura, ou sequer recebe o rótulo de ontologia, enquanto que o termo “epistemologia” é muitas vezes discutido explicitamente e tem se tornado mais evidente com o tempo. Os ciberneticistas contemporâneos usualmente distinguem entre uma cibernética “de primeira ordem” (digamos, de Grey Walter e Ashby) e uma de “segunda ordem (de Bateson, Beer e Pask), que muitas vezes é definida como a diferença entre a cibernética “do observado” e a cibernética “de observar” sistemas. Isto é, a cibernética de “segunda ordem procura reconhecer que o observador científico é parte do sistema a ser estudado, e isto por sua vez, leva ao reconhecimento de que o observador está “situado” e vê o mundo através de uma dada perspectiva, em vez de gozar de uma “vista a partir de lugar nenhum” destacada e onisciente. O “conhecimento situado” é um conceito difícil e enigmático, que intensifica o interesse na problemática do conhecer e da epistemologia.

Que devo dizer sobre isso? Primeiro, tomo a ênfase cibernética na epistemologia como um sintoma da dominância do inquérito especificamente epistemológico da filosofia da ciência na segunda metade do século vinte, associado com a chamada virada linguística nas ciências humanas e sociais, uma insistência dualista de que embora tenhamos acesso a nossas próprias palavras, à linguagem e às representações, não temos acesso às coisas em si mesmas. A cibernética, portanto, cresceu em um mundo no qual a epistemologia era a coisa importante, e a discussão da ontologia estava proibida (verboten).

Segundo, o meu próprio campo de trabalho, os estudos de ciência (na sociologia) conduziram a si mesmo para um canto em sua ênfase intensificada na epistemologia, e este livro poderia então ser visto como minha tentativa de escapar desta armadilha. De novo, é claro, surge a pergunta : “E daí?” Palavras são baratas; o que importa se uso a palavra “ontologia” mais do que os ciberneticistas? Na verdade – embora esta não seja a razão para escrever este livro – alguma coisa pode estar em jogo aqui. Como a própria ontologia, falar sobre a ontologia pode fazer uma diferença. A maneira pela qual concebemos um campo está ligada à sua agenda de pesquisas. Ver a cibernética como sendo primariamente sobre a epistemologia é convidar uma agonia sem fim sobre a responsabilidade pessoal do observador sobre suas afirmações cognitivas. Muito bem. Mas o outro lado disso é o desaparecimento da materialidade do desempenho (da performance) neste campo. Todas aquelas máquinas, instrumentos e artefatos maravilhosos ficam marginalizados s tomamos a cibernética como sendo primariamente sobre o conhecimento (o conhecer) e a “situação” do observador (o observador situado). Tartarugas, homeostatos e computadores biológicos, a máquina Musicolour, a arquitetura adaptativa – todos estes passam a ser apenas história com relação à cibernética de segunda ordem.Costumávamos fazer as coisas como fazíamos na juventude; agora nós fazemos uma epistemologia mais séria.

Evidentemente, creio que esta posição está equivocada. Estou interessado na cibernética como o campo que ancorou a ontologia não-moderna no planeta, e a ensaiou e a mostrou para nós em projetos reais. Penso que precisamos de mais coisas deste tipo, não menos. Eu não inventei esta história; não tenho imaginação suficiente para tanto; levei anos para destaca-la e lutar com ela. Mas os capítulos que se seguem, na verdade, são um convite ao redirecionamento da cibernética. Penso que o campo pode ser muito mais vivaz e importante no futuro se prestarmos atenção à minha descrição de seu passado.

Agora vamos ao ponto mais escorregadio deste capítulo. Comecei com as Caixas Pretas e os diferentes posicionamentos sobre as mesmas na ciência moderna e na cibernética: a primeira procurando abri-las; a última imaginando um mundo de desempenhos no qual elas permanecem fechadas. Esta distinção funciona muito bem se quisermos pensar sobre o trabalho de ciberneticistas de segunda ordem, Beer e Pask, e também Bateson e Laing. Nada mais precisa ser dito aqui para introduzir estas pessoas agora. Mas isto não funciona tão bem para os ciberneticistas de primeira geração, Grey Waltwer e Ashby, e este ponto requer algum esclarecimento.

Eu citei Ashby antes ao definir a problemática das Caixas Pretas em termos de um engenheiro sondando a Caixa com inputs elétricos e observando seus outputs. Infelizmente para a simplicidade de minha história, a citação de Ashby prossegue assim: “Agora ele (o engenheiro) deve deduzir o que conseguir sobre o conteúdo da Caixa”. Esta “dedução”, nem é preciso dizer, é a marca distintiva da posição científica, o impulso para abrir a caixa, e toda uma ala da cibernética de Ashby (e aquela dos estudantes em Illinois nos anos 1960, onde estava Ashby) gravitava em torno desta problemática. Neste ponto estou tentado a usar meu privilégio de autor e dizer que não vou entrar nos detalhes deste trabalho no que se segue. Embora tecnicamente fascinante, ele não engrena muito com as preocupações ontológicas que orientam este livro. Além de um interesse geral em abrir as Caixas Pretas, Ashby (e Grey Walter) queriam abrir uma Caixa Preta em particular, o cérebro, e é impossível evitar uma discussão sobre este projeto específico aqui – ele foi demasiadamente central no projeto da cibernética [9]. Preciso observar o seguinte:

Vistos por um ângulo, as tartarugas e o homeostato funcionam bem como um teatro ontológico não-moderno. Estas máquinas interagiam com seu mundo e se adaptavam ao mesmo performaticamente, sem nenhum desvio representacionista; seus mundos permaneciam como Caixas Pretas desconhecíveis para as máquinas. Este é o quadro que quero contemplar. Mas por outro ângulo, Grey Walter e Ashby permaneciam seguramente dentro do espaço da ciência moderna. Com cientistas do cérebro, eles queriam abrir o cérebro à nossa compreensão representacionista através de uma clássica manobra centífica – criando modelos de seu interior. Estes modelos não eram usuais, desde que tinham a forma de máquinas em vez de equações no papel, mas seu impulso era o mesmo: precisamente entrar na Caixa Preta e iluminar o interior do cérebro adaptativo.

O que podemos tirar disso? Claramente, este ramo da cibernética era um híbrido do moderno com o não-moderno, apresentando atos muito diferentes de teatro ontológico na dependência do ângulo com que fossem olhados. Eu poderia então dizer que o convite no que se segue é olhar para eles por um ângulo não-moderno, desde que este é o aspecto de nossa imaginação que mais precisa ser estimulado. Mas, como veremos em detalhe depois, também é instrutivo olhar para eles mais de perto por um ângulo moderno. Podemos distinguir pelo menos três aspectos nos quais a cibernética de Grey Walter e Ashby de fato se afastaram do paradigma da ciência moderna.

Primeiro, as ciências como a Física descrevem um campo homogêneo de entidades e forças que carecem de um lado de fora, um exterior – um cosmos de massas pontuais que interagem de acordo com uma lei do inverso dos quadrados da distância, digamos. A modelagem cibernética do cérebro, em contraste, imediatamente cria um outro externo – o mundo desconhecido ao qual o cérebro se adapta. Então mesmo que os modelos do cérebro na cibernética inicial possam ser colocados em uma linhagem moderna, eles necessariamente trazem consigo esta referência ao engajamento performático com o desconhecido, e é isto que eu focalizarei nos capítulos que se seguem.

Segundo, em vez de pensar sobre o exterior, podemos pensar sobre o interior dos modelos do cérebro cibernético. As tartarugas e o homeostato eram exemplos daquilo que o biólogo teórico Stuart Kauffman (1971) chamou de “explicação por articulação de partes” [10]. Os exemplos de Kauffman têm origem na biologia do desenvolvimento na qual apelamos para propriedades de células individuais, digamos, para explicar a morfogênese em um nível mais alto de agregação celular. Os modelos de cérebro de Grey Walter e Ashby tinham exatamente esta qualidade, de integrar partes atomizadas – vávulas, condensadores, e assim por diante – para conseguir uma conduta de nível mais alto: a adaptação. Este é um estilo muito diferente de explicação daquele usado pela Física moderna, que tem como objetivo uma representação calculável de algum domínio uniforme – partículas carregadas que respondem identicamente a um campo elétrico, por exemplo. E vale a pena notar que a articulação de partes imediatamente coloca o desempenho (a performance) como tema central. Ficamos mais ligados no que as entidades fazem do que com o que elas são. Grey Walter e Ashby não estavam explorando as propriedades de interruptores e válvulas: eles estavam interessados em ver como estes elementos se comportariam quando combinados. Por este ângulo também, a modelagem cibernética do cérebro mais uma vez dramatiza o engajamento performático, desta vez dentro do cérebro.

Terceiro, podemos levar esta linha de pensamento adiante. Este é o lugar para mencionar o que penso ser a descoberta  da complexidade cibernética. Em um nível “atomizado”, Grey Walter e Ashby compreendiam suas máquinas muito bem. Os componentes individuais eram simples e circuitos elementares eram bem compreendidos – resistências, condensadores, válvulas, interruptores, alguns fios para as conexões. Mas a descoberta da complexidade foi de que tal conhecimento não é suficiente quando se trata de compreender a conduta do agregado; esta explicação por articulação de partes não é tão direta quanto podemos imaginar; que especialmente – e em contraste com exemplos paradigmáticos da ciência moderna – previsões da conduta global na base da compreensão atomizada pode ser de uma dificuldade próxima do impossível. Grey Walter relatou que ficava surpreso com a conduta de suas tartarugas. Ashby foi confundido e ficou frustrado com o sucessor do homeostato – uma máquina chamada DAMS – tão confundido nele ficou que eventualmente abandonou o projeto dos DAMS como um fracasso. Podemos dizer, então, que tanto Grey Walter quanto Ashby descobriram em seu ataque científico ao cérebro, que mesmo sistemas muito simples podem ser, ao mesmo tempo, sistemas excessivamente complexos, nos termos de Beer. Os exemplos favoritos de Beer para tais sistemas eram o próprio cérebro, a firma, e a economia, mas mesmo os pequenos modelos de cérebro de Grey Walter e Ashby caíam nesta classe também. Duas observações se seguem.

Primero, a despeito do impulso científico moderno por trás de sua construção, podemos tomar a próprias  tartarugas, e, especialmente o DAMS, como exemplos do teatro ecológico, em um sentido um tanto diferente daquele descrito acima. Isto é, poderíamos tentar imaginar o mundo como povoado por entidades como as tartarugas e os DSAMs, cujo comportamento não poderemos nunca prever inteiramente. Esta é outra maneira pela qual a abordagem científica moderna ao cérebro de Grey Walter e Ashby realmente acarretam uma elaboração adicional da ontologia não-moderna que este livro focaliza. É também uma reformulação de minha colocação anterior sobre o caráter híbrido destes experimentos. Visto através de uma das pontas do telescópio, os modelos cibernéticos do cérebro lançam uma luz genuinamente científica sobre o cérebro – em adaptar-se a seus ambientes eles representam um avanço no entendimento do funcionamento interno do cérebro. Mas, vistos através da outra ponta do telescópio, eles nos ajudam a imaginar o que é um sistema excessivamente complexo. Se “brinquedos” como estes , para usar uma expressão de Grey Walter, podem nos surpreender, a ontologia cibernética do não-conhecível parece menos misteriosa, e os projetos cibernéticos parecem fazer mais sentido. Continuando com esta linha de pensamento, no capítulo 4 podemos seguir uma linha do trabalho de Ashby em pesquisas matemáticas de Stuart Kaudffman e Steve Wolfram. Eu mencionei acima um trabalho filosófico importante de Kauffman. Mas o problema aqui é um outro aspecto de sua biologia teórica. Em simulações de sistema complexos em computadores ao fim dos anos 1960, Kauffman notou a emergência de estruturas simples que tinham sua própria dinâmica, com a qual ele podia interferir mas não controlar. Estes sistemas, também, podem ajudar a dar substância à nossa imaginação ontológica. Na compreensão do trabalho de Bateson, Laing, Beer e Pask,  é crucial a ideia de interação performática com sistemas que não são apenas não-conhecíveis, mas que também têm sua dinâmica interna – que funcionam de sua própria maneira. Wiener derivou a palavra “cibernética” da palavra grega para “timoneiro”; Pask certa vez comparou a gerência de uma fábrica a pilotar um veleiro (capítulo 7); e o sentido de navegar do qual precisaremos em capítulos subsequentes é exatamente o sentido de participar de maneira performática (em vez de participar através de uma computação representacionista) da dinâmica de velas, ventos, lemes, marés, ondas e tudo o mais. O lema de Wolfram em A New Kind of Science (2002) é “condutas extremamente complexas a partir de sistemas extremamente simples” e esta é precisamente a frase que se encaixa com a descoberta inicial da complexidade na cibernética. Enquanto os ciberneticistas construíram máquinas, o trabalho de Wolfram deriva de experimentos com sistemas matemáticos formais muito simples chamados autômatos celulares (cellular automata, CA). E a descoberta de Wolfram foi de que sob a mais simples das regras, a evolução temporal dos CAs pode ser incompreensivelmente complexa – a única maneira de saber o que tal sistema fará é coloca-lo em ação e observar. Novamente chegamos à ideia de uma dinâmica endógena imprevisível, e os CAs de Wolfram podem, portanto, funcionar também como um teatro ontológico para nós no que se segue – pequenos modelos das entidades fundamentais da ontologia cibernética. Em sua grosseira imprevisibilidade, eles fazem aparecer, como que em um passe de máquina, eles criam para nós o que poderíamos chamar de uma ontologia do devir. Muito do que discutiremos aqui tem como problemática a questão de como se conduzir em um mundo assim. Novamente, no caso de Kauffman e Wolfram, um certo carácter híbrido da ontologia é evidente. De maneira classicamente moderna, Wolfram gostaria de saber quais são os CAs que estão em ação no mundo. A recomendação aqui é olhar pela outra ponta do telescópio – ou segurar a outra extremidade do bastão – e focalizar as propriedades matemáticas literalmente imprevisíveis de sistemas como estes como um meio de imaginar de maneira mais geral como o mundo é.[11].[12]

-x-

O fato é que todo o nosso conceito de controle é ingênuo,
primitive e contaminado com uma ideia de causalidade
quase punitive. Para a maioria das pessoas
(e isto tem um a grande reflexo sobre uma sociedade
sofisticada) é um processo grosseiro de coação.

Stafford Beer (1959, 21)

O modo de representar da ciência moderna busca
e captura a natureza como uma coerência calculável
de forças….a Física…estabelece a natureza para
mostrar-se como uma coerência de forças calculáveis
e previsíveis.

Martin Heidegger “The question concerning technology”
(1976 [1954] 302-3)

 

Temos que aprender a viver na superfície de planetas
e subjugar o que encontramos à nossa vontade.
Administrador da Nasa, new York Times, 10 Dezembro 2006.

 

Quero encerrar este capítulo pensando na cibernética como política, e para fazer isso podemos apanhar um fio que deixei pendurado no capítulo anterior. Ali eu descrevi algumas críticas à cibernética e indiquei maneiras possíveis de responde-las. Estamos agora em posição de considerar um exemplo final. Antes da especificidade de suas aplicações históricas, a maior parte da desconfiança sobre a cibernética está centrada em uma só palavra: “controle”. Wiener definiu o campo da cibernética como a ciência do “controle e da comunicação”. A palavra “controle” está por todo lado na literatura cibernética, e aqueles entre nós que têm prezam muito as liberdades humanas, reagem contra isso. Já há controles mais do que suficientes impostos a nós; não queremos uma ciência para apoiá-los e torná-los mais eficientes.

Os ciberneticistas, especialmente Stafford Beer, lutavam contra esta condenação moral de sua ciência, e eu posso indicar a linha de resposta. Precisamos pensar sobre os possíveis significados do termo “controle”. O sentido a que nos opomos é certamente aquele de controle como dominação – o espectro do Big Brother a vigiar e controlar os movimentos de todos – pessoas reduzidas a autômatos. Na verdade, se esta visão de controle pode ser associada a alguma das ciências, estas seriam as ciências modernas. Embora o termo não seja muito utilizado ali, as “ciências reais” de Deleuze e Guatarri, alinhadas com a ordem preestabelecida, que aspiram compreender o funcionamento interno do mundo através do conhecimento e então domina-lo e coloca-lo inteiramente à nossa disposição. Além das ciências naturais, uma ambição explícita em grande parte das ciências sociais americanas através do século vinte, foi a “engenharia social”. Heidegger (1976 [1954]) compreendia as ciências como parte integral do projeto geral de enquadrar (“enframing”) e subjugar (a natureza). E o ponto que preciso frisar aqui é que a imagem cibernética de controle não era esta.

Assim como a psiquiatria de Laing era algumas vezes descrita como anti-psiquiatria, os ciberneticistas britânicos, pelo menos, podem ter sido retoricamente aconselhados a descrever a si mesmos como envolvidos na empreitada do anti-controle. E para entender o que isso significa, precisamos apenas nos referir à discussão anterior sobre a ontologia. Se a cibernética é apresentada como uma ontologia na qual as entidades fundamentais são sistemas dinâmicos em evolução em um devir imprevisível, dificilmente ela poderia estar envolvida no negócio do Big Brother – dominação do estilo e enquadramento. Dessa visão, segue-se imediatamente que o mundo do enquadramento fracassará. A tarefa inteira da cibernética era compreender como se conduzir em um mundo não-enquadrável, que não poderia ser subjugado aos propósitos humanos – como fazer máquinas e construir sistemas capazes de se adaptar performaticamente ao que quer que surja em seu caminho. Um aspecto-chave de muitos exemplos que examinaremos é aquele da pesquisa “aberta” (open-ended) – de sistemas que exploram seus mundos para ver o que eles têm a oferecer, de mau e de bom. Para tomar emprestado outro termo de Heidegger, isto é um exemplo de “revelação” e não de “enquadramento”- uma abertura para possibilidades em vez de uma determinação fechada para conseguir um objetivo predeterminado, venha o que vier (embora obviamente esta afirmação precise ser detalhada na medida em que prosseguimos). Este é o sentido ontológico no qual a cibernética aparece como uma das ciências nômades de Deleuze e Guattari, que atrapalham a ordem estabelecida.

Um tema que aparecerá do capítulo sobre Ashby em diante, por exemplo, é aquele da noção cibernética de “projeto” (design), que é muito diferente da noção familiar usada na ciência moderna e na engenharia. Se nossa noção de projeto envolve a formulação de um plano que então é imposto sobre a matéria, a abordagem cibernética, em vez disso, envolvia uma interação contínua com materiais, humanos e não-humanos, para explorar o que poderia ser conseguido – algo que poderia ser descrito como uma abordagem evolutiva ao projeto, que necessariamente envolvia algum grau de respeito pelo outro.

Os leitores podem decidir por si próprios, mas meu sentimento é, portanto, de que a crítica da cibernética que está centrada na palavra “controle” está mal dirigida de maneiras importantes. Os ciberneticistas britânicos não eram uma versão cientifizada do Big Brother. De fato, como disse, a crítica seria melhor dirigida à ciência moderna que à cibernética, e isso nos conduz à questão da política ontológica. O período durante o qual escrevi este livro não foi um período feliz, e o futuro parece cada vez mais sombrio. Em nossas interações com a natureza, 150 anos de enquadramento do rio Mississsipi pelo corpo de Engenheiros do Exército Americano chegou a um fim (temporário) com a chegada do furacão Katrina, a inundação de New Orleans, muitas mortes, destruição maciça de propriedades e o deslocamento de centenas de milhares de pessoas. Em nossa conduta entre nós mesmos, a tentativa dos Estados unidos de enquadrar o Iraque – a instalação da “liberdade e democracia” – tornou-se outro desastre de assassinato, desordem e tortura.

Em um de seus últimos aparecimentos públicos, Staffiord Beer (2004 [2001], 853) argumentou: “No mês passado (setembro de 2011), os trágicos eventos em New York, interpretados pela cibernética, parecem muito diferentes da interpretação dada por líderes mundiais – e, portanto, as estratégia gora implementadas parecem equivocadas do ponto de vista da cibernética”. Talvez tenhamos nos excedido um pouco com a ideia de que podemos entender e enquadrar o mundo. Talvez possamos lidar com alguns exemplos que estão diante de nossos olhos e imaginar e atuar no mundo de maneira diferente. Tais exemplos são oferecidos nos capítulos que se seguem. Eles demonstram concretamente e de formas muito variadas a possibilidade de uma visão não-moderna do mundo, uma posição de revelação em vez de enquadramento junto com uma ontologia do não-conhecível e do devir. Portanto, segue-se o convite para ver as cenas seguintes da história da cibernética como esboços de um outro futuro, modelos para outra maneira de prosseguir, um convite elaborado em mais detalhe no capítulo 8.

Este livro não é um argumento de que a modernidade possa ser esmagada e que a ciência como a conhecemos precisa ser abandonada. Mas minha esperança é de que ele possa fazer alguma coisa para enfraquecer o feitiço que a modernidade lançou sobre nós. O monoteísmo ontológico não está mostrando uma visão agradável.

NOTAS

[1] Prosseguindo na linha de pensamento do Capítulo 1, devo notar que nem tudo que é contado como cibernética fala das preocupações ontológica que nos preocupam aqui. Para mim, o interesse dos ciberneticistas britânicos é precisamente que o trabalho deles nos conduz em uma direção cibernética. Novamente, há aspectos do trabalho de Walter, Ashby e outros que obviamente não estão ligados às minhas preocupações, e eu não os exporei em detalhe algum. O interesse na ontologia, portanto, é outro princípio de seleção histórica que orienta este livro.

[2] “Moderno” é uma palavra com mais ressonâncias e associações do que preciso, mas não encontro uma palavra melhor. Este parágrafo e os que se seguem procuram definir meu próprio uso da mesma. A articulação por Descartes do dualismo entre o corpo e a mente – a ideia de que são feitos de coisas diferentes – foi um momento chave na história da modernidade então concebida. Da mesma forma, a Revolução Científica: a leis do movimento de Newton ao especificar propriedades regulares na matéria, independentes de qualquer poder humano; também a ênfase colocada pelo Iluminismo na razão como uma propriedade especial e definitória do humano, Nossas instâncias científica e do senso comum em relação ao mundo, penso eu, permanecem em grande parte dentro do espaço assim definido, e então são “modernos” nesta definição.

[3] O setor dominante na filosofia da ciência do século vinte apresentava o mundo material como um substrato passivo que era a origem das afirmações observadas, e elas mesmas eram ou a base para a indução científica ou uma restrição dedutiva na construção de teorias. Neste modo de ver, não há espaço para pensar sobre os aspectos preformáticos do mundo e nosso envolvimento com estes aspectos na prduçnao do conhecimento.

[4] Esta é uma caracterização grosseira da ciência moderna, embora não seja enganadora. Uma discussão detalhada e com exemplos demandaria todo um outro livro. Devo frisar então que meu objetivo aqui não é fazer justiça plena à ciência moderna, mas sim estabelecer um contraste iluminador que colocará auqilo que considero como os aspectos-chave da cibernética – e estes são os tópicos deste livro. Estabelecer este contraste serve para intensificar minha própria r tendência a dicotomizar, enquanto que, também do lado cibernético, há detalhes que podem turvar esta distinção – alguns dos quais são discutidos abaixo. Canguilhem (2005 [1983])aponta as diferentes ontologias adotadas pelos cientistas e historiadores de ciência – uma fixa, outra flúida – mas não desenvolve esta observação, e a trata simplesmente como um fato sobre os dois campos. Agradeço a Hans-Jorg Rheinberger por trazer este ensaio à minha atenção.

[5] Isto traduz um argumento devido a van Gelder (1995).

[6] Por ainda outro ângulo, as sugestões nos capítulos seguintes não são de que as afirmações ontológicas surgiram antes e de alguma forma deram origem a projetos cibernéticos específicos, e também não é o reverso disso. Estou interessado em entender como a ontologia e estes projetos se entrelaçaram e deram origem um ao outro.

[7] Então, meu argumento em The Mangle of Practice era de que o mundo material como explorado pela ciência moderna é em si mesmo um sistema excessivamente complexo nos termos de Beer. Os cientistas, no entanto, adotam uma posição particular neste mundo, construindo sua experiência em termos de entidades fixas (cujas propriedades, na prática, em si mesmas, evoluem). Em minha perspectiva ontológica. A ciência moderna lê o mundo “contra o pelo” (against the grain) e The Mangle of Practice (A Transfiguração da Prática) desfez isso lendo as ciências “contra o pelo”.

[8] No segundo postscript ao The Mangle eu sugeri a ideia de que minha análise poderia ser uma Teoria de Tudo (Theory of Everything) como os físicos gostam de dizer em suas teorias. Mas tarde entendi que a história de uma teoria de tudo podia ser entendida de duas maneiras muito diferentes. O sentido dos físicos é de que uma teoria matemática completa da qual todos os fenômenos do mundo possam ser deduzidos, pelo menos em princípio. Este é o sentido de uma teoria de tudo como “o fim da ciência”. A ontologia não-moderna do The Mangle por sua vez sugeria um horizonte sempre infinito de engajamentos construtivos com o mundo – na ciência moderna como um encontrar sem fim; na cibernética uma apresentação sem fim desta ou daquela situação, desta maneira ou de outra.

[9] No trabalho de Grey Walter, especialmente, o interesse en m desempenhos (performances) estranhos e estados alterados pode ser visto como parte de uma tentativa de mapear relações input-output do cérebro visto como uma Caixa Preta , e posso fazer outra conexão de volta ao The Mangle of Practice (A Transfiguração da Prática) aqui. No primeiro postscript ao livro, comentei sobre a variedade aparentemente ilimitada de poderes materiais e performances que se manifestaram na história da ciência e contrastei isso com os parâmetros históricos aparentemente invariantes da agência humana. Em uma tentativa de tornar o quadro simétrico mencionei um par de exemplos de agência humana ‘não-padronizada” mas fui incapaz de fornecer uma documentação convincente. Eu não sabia então que a própria cibernética tinha se metido em explorações desta área e tinha me esquecido que os anos 1960 foram uma época de ouro para o mesmo tipo de experimentação na vida diária

[10] Kauffman (1971) identifica explicitamente este estilo de explicação como “cibernético”; eu retorno ao trabalho de Kauffman mais abaixo.

[11] Os parágrafos anteriores não pretendem sugerir que os ciberneticistas foram os primeiros a descobrir a existência de sistemas imprevisivelmente complexos. O “problema dos três corpos” já existia muito antes da cibernética. O argumento é que a descoberta da complexidade na cibernética emergiu de uma maneira específica dentro da estrutura de projetos-chave. Ainda mais, veremos que os ciberneticistas se endereçara m a esta problemática de maneiras muito diferentes das de autores usualmente associados com a “complexidade”, incluindo Kauffman e Wolfram. Para relatos da história recente sobre o caos e a complexidade, ver Gleick (1987) e Waldrop (1992), nenhum dos quais menciona a cibernética. Para uma versão pre-Katrina desta história ver (Pickerinh (2008b)

[12] Para a versão pre-Katrina dessa estória, ver Pickering (2002); para uma versão post-Katrina, Pickering (2008b).