Blog da SBI

Temos um projeto em comum de país?

Temos um projeto em comum de país?
(texto de acompanhamento de entrevista de Humberto Maturana a CNN-Chile em maio de 2014)

https://www.youtube.com/watch?v=OiL7bH-rlxo

140625-SBlogI

 

Com sua habitual combinação de clareza e profundidade, Maturana responde a perguntas sobre a reforma educacional proposta no Chile (que inclui a gratuidade universal), mas ao fazê-lo, como é de seu costume, amplia enormemente a pergunta e indaga: “O que queremos mudar? O que queremos conservar? Temos um projeto comum de país?” E diz que, pessoalmente, quer conservar a democracia; e que a democracia não é um projeto político, mas sim uma forma de conviver. Esta atitude pode ser entendida como esquivar-se a comentar o aspecto político da questão (como comenta Francisco Lanas Palacios no mesmo Youtube) ou como um comentário didático não ideológico (como comenta Klaus Bohle).

Assistir e discutir este video é uma atividade que interessa a um curso como o que ainda conduzo para uma dúzia de alunos na UFMG (Imunologia e Autopoiese). Naquele curso, conversamos inicialmente sobre algo que pode não estar suficientemente esclarecido: “O que queremos mudar ou conservar? Temos um projeto comum, objetivos comuns de como conduzir nossas conversas?”

Caminho (celere) para meus 78 anos e lhes asseguro que venho de uma época em que o acesso à informação era muito mais restrito que hoje. Em minha juventude, não havia televisão no Brasil. Não existia a Xerox, eu tinha que copiar manualmente o que me interessava; não imaginávamos sequer que pudessem existir computadores, muito menos algo como a internet. Hoje o problema se inverteu, há uma avalanche de informação de todos os tipos e qualidades. Um “detector de lixo” talvez seja algo muito útil a todos nós.     Podemos planejar aquilo que vamos utilizar como objeto de discussão?

Em nosso curso pergunto: “O que queremos conservar?” O que queremos estabelecer como modo de convivência no decorrer de nossos encontros? Que responsabilidades estamos dispostos a assumir? Que perguntas queremos considerar e tentar responder? O que vamos considerar como respostas satisfatórias? Que meios de comunicação além de nossos encontros pretendemos usar? Vamos estabelecer uma forma de conviver democraticamente e respeitar a legitimidade do outro? Como? Queremos conversar inicialmente sobre isto? Ou está pressuposto que cabe a mim, o professor, lhes ensinar o que fazer e pensar? Que tipo de perguntas queremos entreter? (nosso entretenimento) (nosso entretempo)

                  As perguntas da imunologia

(“Responda depressa: a pergunta prá tua resposta inda é essa?” Ana Caetano)

As perguntas (e as respostas) subentendidas em um curso usual de imunologia são aquelas contidas nos livros-texto de imunologia. A imunologia é uma prática biomédica, com raízes na biologia e na medicina e boa parte da atitude dos médicos em relação à prática médica depende do entendimento da imunologia: a natureza de doenças infecciosas, alérgicas e autoimunes; transfusões e transplantes; testes sorológicos de diagnóstico; o uso de vacinas anti-infecciosas; as complicações da gravidez; a fragilidade da infância e da senilidade; etc. Tudo isto tem a ver com a atividade de linfócitos, a produção de anticorpos, e fenômenos correlatos.

As perguntas que estão na base do pensamento médico atual e do entendimento público sobre tais problemas, todas dizem respeito a respostas imunes específicas e seu controle ou regulação. Mas, atualmente conhecemos fenômenos que nos levam a questionar seriamente estas crenças e propor outras maneiras de ver. O organismo é muito mais que um respondedor a estímulos antigênicos e a maneira tradicional de ver a imunologia trás consigo muitos paradoxos.

Meu questionamento desta visão tradicional surgiu de experimentos que realizei há quase 40 anos atrás, cujos resultados são muito claros, mas abrem direções inesperadas. Constatamos que quando um animal ingere uma proteína como alimento, sua atividade imunológica “específica”, voltada para esta proteína em particular, é seriamente modificada. Como esperado, surgem alguns anticorpos (do isotipo IgA) nas mucosas do corpo mas, inesperadamente, o animal diminui muito a capacidade de responder com uma formação progressiva de anticorpos (reatividade secundária) quando é injetado repetidamente com esta mesma proteína, como se supõe que ocorra com as vacinas anti-infecciosas. Esta “perda” pode ser transferida de um animal a outro por uma transfusão de linfócitos, portanto, não é uma “perda” mas sim um reposicionamento do organismo, uma estabilzação robusta de sua atividade imunológica.

Todo animal come centenas de proteínas diferentes; esta mudança ocorreria com todas elas? Sim, elas são afetadas. E o conjunto de proteínas que surgem como produtos da flora intestinal, seriam também afetados por este mesmo mecanismo? A resposta experimental foi novamente, sim. Estes resultados criam um cenário surpreendente porque, quando somadas, as proteínas dos alimentos e as produzidas pelo microbioma nativo, constituem, de longe, a forma mais comum e cotiniana de exposição a “antígenos”. Nossos dados, nos anos 1970, mostravam que a forma de “resposta” a esta “estimulação” não era o estabelecimento de uma reatividade progressiva, ou de uma “memória” imunológica, como se supõe ocorrer no uso das vacinas e supostamente seria o mecanismo da proteção anti-infecciosa. Nosso corpo não reage progressivamente à grande maioria dos “antígenos” com os quais entramos em contato natural.

Na última década, algo sensacional tormou este problema irrecusável: a mudança em nossso modo de entender o mundo mcrobiano. Os micróbios (bactérias, archeas, fungos e proteozoários) são centenas de vezes mais numeroso, diversificados e ubíquos do que imaginávamos; estão nas nuvens, estão enfiados em rochas vulcânicas, e fomam um filme contínuo no fundo dos ocenaos. E são muito, muito numerosos. Há 10-20 células microbianas vivendo sobre o nosso corpo, na pele e nas mucosas, para cada célula de nosso organismo. Isto nos obriga a mudar nosso entendimento sobre as doenças infecciosas, porque elas passam a ser acidentes de percurso, muito raros. E nossa atividade imunológica em relação a todos estes microorganismos é da mesma qualidade de nossa atividade em relação aos alimentos, quase sempre uma dinâmica de assimilação e não de repulsa. Vivemos, enfim, em harmonia imunológica com nossos micróbios e nossos alimentos. É difícil manter os conceitos que durante um século e meio nortearam as buscas de nossa forma de reagir a “materiais estranhos”(antígenos).  Nosso entendimento mais básico sobre a imunologia deve mudar.

Nosso curso na UFMG aborda esta mudança no modo de ver e sua repercussão em várias atividades médicas e biológicas. Vários professores convidados abordam conosco áreas que vão da embriologia, à acupuntura, da linguística à psiquiatria, da filosofia à epidemiologia, para ampliar nosso modo de ver.

                  As perguntas da Biologia do Conhecer

Os temas que abordo naquele curso e no blot da SBI têm a ver com a imunologia em si mesma. Outros temas têm a ver com nosso entendimento sobre os seres vivos em seu viver e, em particular, sobre o que fazemos nós como seres humanos em nosso viver juntos, em nossa convivência, em nosso conviver na linguagem humana. Em 2011, publiquei “The specificity of immunological observations” (Constructivist Foundations, 6, 334-351)  e outra versão do mesmo tema em “Observing Immunologists”(Neurociências, 7, 140-146). Observo a mim mesmo e aos imunologistas observando.

Muitas vezes a discussão destes temas são rejeitadas como “pouco objetivas”, ou “subjetivas”, como se fôssemos forçados a acatar os argumentos de pessoas que acreditam ter um acesso privilegiado à uma realidade final, a como as coisas de fato “são”, sem maiories interpretações (Um dos pequenos livros de Maturana se intitula “La Objetividad: Un Argumento para Obligar” (Santiago, Dolmen, Ediciones, 1992)). Então, ou concordamos com estas pessoas e acatamos o que elas dizem, ou, mais cedo ou mais tarde seremos negados por elas.

O trabalho de Maturana, conhecido por Biologia do Conhecer e da Linguagem, se dedica a entender o que fazemos, como seres humanos, mesmo quando já nos encontramos na linguagem humana e perguntanmos como fazemos isto. Boa parte de sua obra escrita está acessível na internet e há mútiplas entrevistas com ele no Youtube.  A aplicação deste conhecimento – deste modo de ver – à imunologia é uma alternativa para assimilar fenômenos que a visão tradicional tem dificuldade em explicar, e é também a possibilidade de sugerir novas abordagens de pesquisa à atividade imunológica.

Vitor Pordeus é um batalhador em uma outra fronteira, que mescla a medicina (a psiquiatria) e a imunologia nestes problemas. Ele crê que a imunologia tradicional é um dos pilares de uma forma inadequada e cruel de encarar a medicina e o adoecer. Procurem o Vitor na internet. Conversamos muito sobre isto e volta e meia participamos juntos de aconrecimentos públicos; outras vezes ele faz videos informais de nossa conversa e os coloca na internet. Recentemente, ele esteve em Belo Horizonte para uma conversa com a dúzia de alunos de Biologia que frequenta nosso pequeno curso na UFMG e, nesta ocasião, aqui em casa, fez 4 videos com os seguintes endereços eletrônicos:

https://www.youtube.com/watch?v=TBkF1hhlLGk

https://www.youtube.com/watch?v=qPbXahqto1E

https://www.youtube.com/watch?v=7trnLpkSSSc&list=UUsxg9UB96KlDLUVPJLM9nlw

http://youtu.be/KxCUOCMUktY