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Teorias de Cognição em Imunologia – Tauber (2013)

Teorias da Cognição na Imunologia

Alfred I. Tauber

Hist. Phil. Life Sci., 35 (2013), 239-264

Universidade de Boston 22 Hardy Lane, Boscawen, NH, 03303 EUA  Ait@bu.edu

 

Resumo

A imunologia contemporânea estabeleceu sua teoria fundamental como uma expressão da identidade pessoal, na qual um “eu imunológico” (the immune self) é defendido pelo sistema imune. A proteção deste agente requer, supostamente, uma capacidade cognitiva. O eu (self) e o estranho (nonself) são percebidos e, em consequência, discriminados com base em tais informações; um apercebimento sobre o ambiente é assim conseguido e trajetos ativação são ativados e isto torna possível o início de uma resposta imune. Este chamado paradigma cognitivo engloba funções como “percepção”, “reconhecimento”, “aprendizagem” e “memória” para caracterizar processos imunológicos, mas o caráter conceitual destas funções tem significados que variam de acordo com a teoria adotada. Quando diferentes entendimentos do que seja a cognição são considerados, a infra-estrutura conceitual da Imunologia muda: extensões da compreensão psicológica convencional sobre a cognição representacionista que está baseada em uma dicotomia sujeito-objeto sugerem noções de agência; alternativamente, formulações de percepção que dispensam a noção de representação e outras noções de agência, podem reconfigurar a epistemologia dominante na imunologia atual.
Palavras-chave – sistema imune, autoimune, cognição, percepção, representação, epistemologia

Ao abordar a base conceitual da defesa do hospedeiro, ou seja, manter a integridade do organismo, a teoria imunológica incorpora as características cardinais de uma agência: admite que existe um “eu” (um “self”); que este sujeito tem certas características que o identificam, entre as quais a tolerância (ou não-reatividade) imunológica que distingue o que é “eu” do “outro” (ou não-eu); a discriminação “self”/ non-self; e que a identidade surge como um processo de desenvolvimento, que pode ser modulado através da vida, mas existe essencialmente como um “espaço” protegido de silêncio – de não reatividade imunológica. Assim, a imunidade requer uma capacidade “cognitiva” que percebe o “outro”, isto é, aquilo que provoca respostas imunes no organismo. Esta caracterização acarreta uma vasta construção filosófica:

A função da cognição (e de uma gama de capacidades proto-cognitivas) é permitir ao agente lidar com a complexidade ambiental. […] Podemos pensar em cognição como uma “caixa de ferramentas” biológicas usadas para controlar o comportamento; uma coleção de capacidades que, combinadas, permitem que os organismos estabeleçam vários tipos de coordenação entre suas ações e o mundo. Esta caixa de ferramentas inclui as capacidades de percepção, representação interna, memória, aprendizagem, a tomada de decisões e a geração da conduta. (Godfrey-Smith 2002, 135)

Enriquecendo sua rica história evolutiva (Margulis, Asikainen e Krumbein 2011), as categorias básicas da cognição humana foram extrapoladas para animais (Bekoff, Allen e Burghardt 2002), para bactérias (Ben-Jacob Et ai. 2004; Ben-Jacob, Shapira e Tauber 2005), para células do câncer (Ben-Jacob, Café e Levine, 2012) e, no caso aqui examinado, para o sistema imune (Tauber 1994, 1997, 2011).

Muita coisa merece ser desempacotada com relação a esta extrapolação: uma descrição funcional inclui uma construção teleológica; funções de ordem superior (memória, aprendizagem, tomadas de decisão, a conduta ou reações ao meio) estão ligadas à percepção através de uma “representação interna” e (também) a noções em grande parte não declaradas (não explicitadas) de agência que organizam o aparato cognitivo. Com a noção de agência, a estrutura epistemológica do mundo é uma transmissão, que na ciência cognitiva contemporânea e na filosofia moderna tradicional adota vários modos de representação. De fato, as concepções de agência e o representacionismo se reforçam mutuamente em apoiar o “eu imunológico” como uma construção teórica.

Uma orientação “ecológica” alternativa – que devemos a J.J. Gibson – oferece uma visão da cognição que dispensa as representações e fornece um modelo cognitivo de “apresentação” (a “presentacionistal” model). Explicar essa visão alternativa nos remete a desenvolvimentos experimentais recentes na imunologia que inserem as funções imunológicas em contextos ambientais, nos quais a imunidade individual é considerada como parte de funções de troca mais amplas que as funções dirigidas a mecanismos defesa de indivíduos (Tauber 2008a, 2008b). E de interesse particular para a imunologia, a ciência que supostamente define a discriminação próprio-estranho (self / non-self) (e, portanto, o estabelecimento da identidade), qualquer versão das noções de cognição na visão de Gibson, desloca a ideia de uma estrutura da cognição fundamentada em um sujeito epistemologicamente autônomo. Em vez da percepção entendida como algo realizado por um sujeito limitado (involucrado, incorporado) a cognição é concebida como um processo dinâmico e dialético em que o organismo é considerado em seu pleno ambiente contextual. Nesta perspectiva, a cognição substitui um agente que emprega representações com propósitos cognitivos, por um agente em que o caráter imediato da percepção não requer qualquer função intermediária.

E esta posição da agência é ainda mais relativizada pelo desenvolvimento recente das teorias da “cognição incorporada” (embodied cognition), nas quais uma triangulação deve explicar a conduta entre o mundo, o corpo e o cérebro. Este modelo “enativo” (enactive) no qual a cognição é descrita como uma “promulgação” do mundo através da cognição “incorporada” (embodied) afirma que a percepção pode ser explicada Independentemente de processos computacionais ou representações, devido ao papel constitutivo que o próprio corpo adquire no processamento cognitivo (Shapiro 2011).

Consideradas de forma ampla, as alternativas ao representacionismo variam do “conexionismo”, que enfatiza as características globais de um sistema neurológico caracterizado por elementos em operações distribuídas (ao contrário do processamento simbólico localizado), até programas enativos, que descartam completamente as representações e afirmam que as mentes não precisam manipular o “conteúdo” informacional ou mesmo que a mente deva conter “conteúdos” para dar conta da intencionalidade (Hutto e Myin 2013). Embora isto esteja longe de estar resolvido, alguma variante do representacioismo domina claramente o pensamento na arena mais ampla das ciências cognitivas, enquanto aqueles que se opõem à teoria representacionista afirmam que ela é incapaz de dar conta das crenças populares (sobre o conhecer) e das interpretações presentes no debate entre os filósofos (Dennett 1991; Godfrey-Smith 2004; Rey 1997; Clapin 2002; Frankish 2004; Ramsey 2007; para uma revisão ver Stich e Warfield 1994).

A imunologia foi arrastada para estas controvérsias em virtude de seu profundo comprometimento com o caráter cognitivo das funções imunológicas. Embora um modelo representacionista tenha dominado a teorização imunológica, pesquisas recentes apoiam a utilidade de uma orientação “ecológica”, que reflete um interesse crescente na biologia de sistemas, onde o organismo se torna um “nódulo” em uma rede ecológica (Tauber 2012). Esta abordagem explora a integração de funções (por exemplo, de desenvolvimento, metabolismo, imunidade) e, portanto, enfatiza as interconexões, a dinâmica reguladora e estruturas organizacionais de construções holísticas, onde os indivíduos são submetidos a relações de vários tipos (Gilbert, Sapp e Tauber 2012). Neste aspecto, a proposta ecológica de Gibson substitui a estrutura sujeito-objeto de um eu (um self) que vê um mundo (non-self) por uma estrutura em que os organismos estão em diálogo dialético com seu ambiente, orgânico e inorgânico. Quando aplicada à imunologia, esta mudança, fragiliza o paradigma prevalente desta ciência particular que até agora se dedicou a discriminar o eu do não-eu, e também, mais amplamente, desafia o atomismo que subjaz a biologia do século XX.

Aqui, vamos detalhar o desenvolvimento dessas posições teóricas contrastantes e realçar certas características conceituais da teoria imunológica que brota da adoção de uma ou outra visão. Começamos com um resumo dos aspectos principais no desenvolvimento das orientações conceituais que competem para explicar a atividade imunológica e a compreensão do fenômeno perceptivo invocada em cada uma destas formulações.

 

 As teorias representacionistas do significado da imunologia

O desafio básico enfrentado pelos primeiros imunoquímicos tinha a ver com a enorme diversidade de estruturas antigênicas, qualquer uma delas capaz de iniciar respostas imunes. Em outras palavras, como explicar a extraordinária diversidade de reagentes (anticorpos) necessários para lidar com esta imensa diversidade antigênica? Como uma extrapolação de teorias de interações químicas do final do século XIX, foi proposta uma teoria “instrutiva” da formação de anticorpos (proteínas que se ligam ao antígeno) considerando que os antígenos (isto é, as substâncias que iniciam as respostas imunes) atuariam como moldes sobre os quais uma imunoglobulina adquiriria a forma de um anticorpo específico (Silverstein 2009, 49-54). Esta teoria postulava que os anticorpos possuem uma plasticidade especiall, que lhes permite sofrer alterações de froma adequadas para se ligar à substância alvo. [1] Em primeiro lugar, quais características do molde o tornariam um alvo adequado (um antígeno que requer) a formação de anticorpos, só poderiam ser especificadas de uma forma muito geral, admitindo que que a classe de proteínas antigênicas era aquela capaz de ser “reconhecida” como um alvo potencial. Neste modelo o anticorpo deve encaixar no antígeno em questão e que este encaixe serve como espelho preciso dos domínios estruturais necessários para que isso ocorra. Isso pode ser interpretado como um evento perceptivo; mas, se isto pode ser correlacionado com um modelo de processos cognitivos humanos é toda uma outra história.

Os modelos “instrutivos” (de moldagem) não conseguiam explicar nem o aumento exponencial na produção de anticorpos que caracterizam a resposta imune, nem a “memória” que condiciona uma resposta imune mais intensa após uma segunda exposição ao mesmo antígeno. Um mecanismo biológico era necessário para explicar a dinâmica da produção dos anticorpos. Essa orientação biológica teve origem na década de 1950 (Silverstein 2009) quando Macfarlane Burnet (1957) e David Talmage (1957) propuseram, independentemente, que a resposta imune surge a partir da seleção de elementos que ligavam antígenos em uma biblioteca de anticorpos e receptores análogos em linfócitos (as células responsáveis pela síntese de anticorpos e que também mediam as chamadas reações celulares). Eles postularam que este evento de ligação do antígeno inicia uma resposta celular que levaria ao aumento acentuado da produção de anticorpos que caracteriza resposta imune. Subsequentemente, a sequência molecular dessa resposta imune foi caracterizada detalhadamente como resultante do evento inicial do acoplamento de determinantes estruturais correspondentes do antígeno com um sítio de ligação correspondente na imunoglobulina (anticorpo) ou receptores em linfócitos. Tal acoplamento dependeria da complementaridade estrutural de domínios que permitem o evento da ligação, que então desencadeia uma cascata de caminhos diversos que, em seu conjunto, constituem a resposta imune. Geralmente dirigido contra agentes nocivos ou substâncias e organismos patogênicos esta chamada teoria da seleção clonal (TSC) está baseada num preceito fundamental: o repertório de anticorpos e linfócitos para a ligação ao antígeno já está pré-estabelecido no sistema imune como uma “biblioteca” a partir da qual o antígeno “seleciona” as proteínas (os anticorpos ou receptores de linfócitos) com as quais farão a ligação apropriada (Burnet 1959).[2]

Note que tanto a seleção clonal como as teorias instrutivas requerem que exista uma complementaridade para a ligação antígeno-anticorpo apropriada, e assim estas teorias compartilham a mesma construção representacionista, embora baseada em um mecanismo biológico: em vez de postular a produção ativa de uma molécula complementar (por moldagem), como nas teorias instrutivas, a TSC descreve o sistema imune como constituído por um conjunto pré-existente de “representações” de anticorpos já disponíveis para a ligação do antígeno, e embora o mecanismo de seleção de anticorpos seja diferente (do mecanismo proposto para a percepção psicológica), a mesma noção de complementaridade estrutural se mantém. Com a elucidação de como os mecanismos genéticos explicam a vasta coleção de possíveis anticorpos e receptores de linfócitos, a TSC substituiu definitivamente o modelo da moldagem (Podolsky e Tauber, 1997).[3]

Sem nos determos nos detalhes científicos da resposta imune, mencionemos que o reconhecimento do antígeno requer um “processamento” que foi visto como uma forma de mediação cognitiva entre os componentes do sistema imune (do “self”) e o outro (“nonself”) encontrado. Em um sentido formal, o anticorpo representa o antígeno (é sua representação) e, de fato, tanto na TSC quanto na teoria de moldagem o reconhecimento imunológico é marcado por uma formulação representacionista. A interação entre o mundo (a saber, o antígeno ambiental, o estranho) e o organismo (o sistema imune atuando como um agente; ver Crist e Tauber 2001) exige graus de correspondência entre eles para estabelecer uma base comum para “in-formar” o sistema imune da presença e do caráter do “outro” (nonself). Assim, o anticorpo representa o antígeno para o sistema imune e, portanto, a realidade dos objetos do mundo é percebida, o que, por sua vez, conduz a um processamento de ordem superior. Vista assim, a imunidade constitui tanto um braço perceptivo como uma função efetora como um processo cognitivo coordenado (assim como correr de um tigre é o resultado de perceber uma ameaça letal).

Nos termos originais de Burnet da dicotomia self-nonself, o evento cognitivo era simples: se um anticorpo reconheceu um antígeno, esse antígeno era definido com estranho (“nonself”) e, assim, estava marcado para ser eliminado do organismo. Neste esquema, o “eu” (o self) não era reconhecido, porque durante o desenvolvimento todos os clones de linfócitos (células produtoras de anticorpos) que reconheciam componentes do organismo, foram destruídos, deixando apenas células com receptores capazes de reconhecer uma substância estranha, tóxica ou patogênica. [4] Subsequentemente, quando a autoimunidade foi reconhecida como parte da fisiologia normal, teorias mais elaboradas foram construídas para explicar a tolerância, o mecanismo pelo qual as a reatividade (ao self) é eliminada como consequência do reconhecimento de antígenos naturais ou “auto”-constituintes. De fato, a imunogenicidade de um antígeno (o grau da resposta que ele evoca() varia com (1) o contexto fisiológico mais amplo no qual o antígeno aparece, e (2) a “memória” armazenada no sistema imune em relação às interações anteriores com esse antígeno. Assim, o “significado” de um dado antígeno não é necessariamente pré-determinado, mas sim emerge no contexto da sua apresentação (Tauber 1997). A apreciação da complexidade da resposta imune tem enfraquecido o modelo Burnetiano estrito de discriminação self-nonself, e com ele, o simples arcabouço estímulo-resposta foi substituído por uma compreensão mais complexa da regulação imunológica para dar lugar ao processamento contextual e dinâmico (cognitivo) do evento de ligação antígeno-anticorpo (Cohen 2004, Vaz et al., 2006). Deixando de lado por enquanto estes desenvolvimentos conceituais, consideremos o modo de cognição implícito no eu imunológico Burnetiano.

No cenário de Burnetiano, o significado do antígeno é determinado pelo sua reatividade com um anticorpo ou receptor linfocitário adequado, isto é, sua ligação com veículos que representam o antígeno para o sistema imune. Assim, a cognição neste modelo epistemológico requer uma representação do mundo que serve como “linguagem” da percepção e permite assim um meio eficaz de Interação entre o organismo e seu ambiente. E assim como nas teorias representaçionais da mente (do fenômeno mental, do conhecer), onde as representações de palavras capturam o estado do mundo, da mesma maneira o anticorpo transporta o significado e é a base de “reconhecimento” através da qual o antígeno é “conhecido”. Note que embora a TSC eventualmente tenha superado o modelo de moldagem, ela se manteve fiel à mesma noção conceitual de representação: representações (na forma de anticorpos de ligação) devem estar disponíveis para que o sistema imune seja capaz de discernir o mundo dos antígenos e no evento de reconhecimento – novamente requerendo uma correspondência estrutural entre o antígeno e o anticorpo – ocorre algo semelhante a um processo cognitivo. Simplesmente, o mundo antigênico é percebido através da re-apresentação desse mundo a si mesmo e o “significado” desse encontro é então derivado através de uma “gramática” imune que foi desenvolvida para “aprender” o que é estranho (non-self). E assim como a mente processa a pergunta da minha esposa, “Você ouviu esse barulho? “, assim também uma resposta imune pode ocorrer como resultado do reconhecimento de um distúrbio invasor representado em seu próprio domínio de conhecimento. Implícita nesta formulação está uma noção de agência, de algo que recebe as representações, as processa e responde adequadamente. O “eu imunológico” cumpre esse critério convencional de cognição representacionista.

 

A teoria não-representacionista de Jerne do significado imunológico

Embora a TSC tenha crescido em importância durante a década de 1970, Niels Jerne apresentou nesta época uma proposta radicalmente diferente de organização imunológica. Para ele, em vez do sistema imune concebido como uma coleção de categorias e subconjuntos de linfócitos, secretando substâncias imuno-estimuladoras e inibidoras (essencialmente um modelo mecânico, estratificado com alças de retrocontrole (feedback) de primeira ordem), ele propôs uma estrutura de enovelada composta por uma rede complexa multiconectada (Jerne 1974, Eichmann 2008). Jerne argumentou que os anticorpos formavam um sistema de interações auto-reguladas que resultavam em uma rede, ou grade auto-organizada. Este modelo, constituído por unidades de reconhecimento interligadas, propôs que cada componente reage com outros componentes para formar um sistema auto-referencial. Neste esquema, o anticorpo não apenas reconhece o antígeno estranho, mas também é capaz de reconhecer outros anticorpos.[5] Não há diferença entre o “reconhecido” e o “reconhecedor” uma vez que determinado anticorpo pode servir a ambas as funções.

Assim, Jerne postulou uma regulação imunológica baseada no estado do sistema como um todo, e supostamente quando antígeno invade e perturba o equilíbrio estável (steady state) da rede, ocorre a “ativação”. No entanto, o uso da linguagem estímulo-resposta distorce a formulação Jerneana, porque nos modelos da rede, invasões do organismo não iniciam “respostas imunes” como tais. Em vez disso, o que até agora se referia como ativação de uma resposta cognitiva, agora se refere a uma atividade dinâmica que se deve à ruptura do equilíbrio da rede. À medida que a reação segue seu curso, emerge um novo estado estacionário. Observe que a rede não possui um “verdadeiro” estado de repouso, porque compensações ocorrem constantemente em tal sistema dinâmico. A atividade imunológica é então concebida como uma série incessante de perturbações e compensações recursivas (Vaz e Varela, 1978), na qual o “conhecimento” imunológico se desloca-se de um significante para a relação significada (a modalidade interior-exterior) no sentido em que o significado está firmemente alojado dentro do próprio sistema. Nenhuma representação é necessária e, claro, também nenhuma noção de agência. Simplesmente, a estrutura sugerida para a cognição foi reformulada.

A teoria da rede de Jerne leva a uma compreensão da cognição completamente diferente da noção baseada em agentes, como na formulação de Burnet, na qual o self-imune segue um esquema representacionista que deriva de modelos do pensar humano, isto é, no qual o anticorpo “vê” um antígeno e depois transmite uma mensagem para o sistema na forma de um sinal para um “comando central”. O sujeito (o eu imune, o self), em um paralelo mental de um conhecedor animal, responde à representação. Consequentemente, o anticorpo “representa” o antígeno para um “agente” imunológico de forma análoga a “olhos” que representam o mundo para um “sujeito”. Em contraste, o modelo de rede não requer nenhuma representação, pois a percepção está inserida em um sistema sem hierarquia cognitiva: o aparelho perceptivo e o mundo que é percebido formam de uma única peça (Varela et al., 1988). Em outras palavras, o self e o non-self são substituídos por uma construção singular, isto é, a rede em si mesma.

De acordo com a orientação baseada em redes, a noção de agência como um sujeito que processa dados, é substituída pela percepção concebida como uma perturbação do sistema. Note-se, a rede é formada por ligações entre os seus constituintes, e “ativação” significa alguma ruptura de um estado de equilíbrio, portanto, o “significado” desta perturbação depende do grau de ruptura da uma rede integrada de conexões. Tal percepção não utiliza representações e então sugere uma formulação cognitiva em que “o que-é-percebido” é aquilo que interage diretamente com a rede imunológica. O evento reconhecedor ocorre sem processamento de ordem superior, porque o antígeno se encaixa na rede, não como uma representação, mas como um componente – embora seja um componente que rompe ligações anteriores e, portanto, provoca um estado de desequilíbrio. E, o que é mais importante, o sistema imune só “sabe” de si mesmo – a discriminação self / nonself foi eliminada dos cálculos da imunologia, porque se uma substância fosse verdadeiramente estranha, ela não seria reconhecida, isto é, não haveria nenhum meio pelo qual o sistema imunológico interagiria com ela.

Assim, ao contrário do TSC, onde o self é um “espaço negativo” (a tolerância é um “buraco”, um vazio), na formulação de Jerne o sistema imune em si, e a auto-imunidade, em sua concepção mais ampla, é o eu-imunológico. A rede, então, ignora o nonself como tal; neste esquema, o non-self só aparece como “absurdo” (non-sense) (ou como “ruído”). Simplesmente, o outro (non-self) não existe em um sistema fechado. A antigenicidade é apenas uma questão de grau, onde o “self” evoca um tipo de resposta, e o “nonself” evoca outro tipo, baseado não em sua estranheza intrínseca, mas sim porque o sistema imune vê este antígeno estranho no contexto de uma perturbação, invasão ou degeneração. Certos antígenos são tolerados (causam perturbação mínima da ordem da rede) enquanto outros provocam uma forte resposta imune por causa da ruptura que provocam na dinâmica normal do sistema.

Enquanto a TSC protege a identidade, a rede constitui essa identidade por processos auto-referenciais (de auto-definição). Como a rede está voltada a ver apenas a si mesma e é cega ao “non-self”, ela não define “nonself” como algo estranho. Assim, o que é “estranho” é identificado a partir de um ponto de vista externo, porque o sistema, fechado em si mesmo, não só não identifica o outro (como outro), mas em sua completude, também não se define como um self, porque não tem nenhum apercebimento de seu existir isolado (in its own selfness). Em suma, a rede de Jerne simplesmente “sabe”; em contraste, o self imunológico de Burnet, é um conhecedor que identifica algo. Portanto, enquanto o paradigma cognitivista de Burnet se refere a uma estrutura sujeito-objeto, no caso da rede a função identidade não pode ser definida a partir do interior sistema. A definição do self e do nonself surge estritamente da perspectiva de um observador externo, que observa a operação do sistema.(This does not belong to Jerne’s ideas at all. I (Vaz) said that, I wonder if Tauber said it also)

E aqui podemos ver que a principal contribuição conceitual de Jerne foi mostrar a distinção de caracterizar o sistema imunológico a partir de duas perspectivas, a perspectiva da rede e a nossa própria perspectiva (humana, de pessoas) (idem). Nós vemos o sistema respondendo e aquilo que excita uma resposta, e nós interpretamos isso como uma resposta cognitiva a um estímulo externo [6]. Consequentemente, a partir da posição vantajosa do cientista, “imunidade” não pode escapar à epistemologia do conhecer. E extrapolando a partir da experiência humana, o esquema cartesiano desliza discretamente para a modelagem dessa cognição em termos de sujeito e objeto. Assim, a rede escapa à metafísica cartesiana, isto é, sem criar um agente que coloca em seus devidos lugares os sinais vindo do exterior. Simplesmente, a inovação de Jerne ofereceu um modelo de cognição independente da noção de agência, e com esse movimento ele destacou a diferença entre a perspectiva do observador e o solipsismo da rede. Neste aspecto, Jerne não considerou como os sistemas biológicos são (estão) abertos, que as fronteiras fisiológicas são filtros, e que a imunologia é uma ciência ecológica definida na interface de inter-relações (inter-relationships) e intercâmbio (Tauber 2008a; 2008b); então a ideia de um sistema “autónomo” é prima facie incompatível com necessidade de integrar várias funções biológicas Nessa perspectiva, a teoria é incapaz de explicar a tolerância e os mecanismos reguladores que devem ser considerados ao longo de todo o contínuo da reatividade imunológica – desde o insulto inócuo, à invasão nociva.

A teoria de Jerne estimulou um intenso programa de pesquisas que emergiu na década de 1980, mas o interesse na hipótese da rede em si mesma essencialmente expirou na década seguinte.[7] No entanto, um elemento básico da noção de Jerne sobre a cognição imune foi revivida e aparece hoje em diferentes formas, que podem ser agrupadas em uma abordagem “contextual” para conceituar a regulação imunológica (Tauber 2012). Esses modelos afirmam que componentes do sistema imunológico respondem mutuamente ao mundo antigênico através da formação de redes reguladoras compostas por várias células, citocinas (mediadores de regulação), receptores de antígeno e anticorpos em um sistema de auto-regulação (Coutinho et al., 1984, Borel, 1986, Varela et ai. 1988; Cohen 1992a; 2004; Grossman e Paul 1992; 2001; Vaz et al. 2006; revisto em Tauber 1997; 2011; Podolsky e Tauber 1997).Trabalhando em paralelo, os principais componentes celulares detectam características diferentes de qualquer alvo (do hospedeiro ou externo) e, depois de fazer suas respectivas “observações”, relatam seus achados característicos aos outros componentes. Em outras palavras, o sistema imune responde à sua própria resposta exatamente como Jerne argumentou: é o padrão de cognição, e não alguns interruptores que podem estar ligados ou desligados (determinado pelos critérios self versus non-self) que é crítico para a capacidade de resposta. Portanto, assim como os cones da retina podem sentir apenas três cores, então também o fazem três tipos de células imunes ao dar origem a um sistema cognitivo que percebe, processa e age sobre a informação que surge como um produto do sistema perturbado do seu estado de repouso (Cohen 2004, 178-180) 8. Estamos a um passo de postular a ideia de que nada é intrinsecamente estranho ou nativo: apenas o contexto designa o caráter de um antígeno, o que é uma característica cardinal da proposta de Jerne. E com essa mudança, uma revisão da teoria dominante da imunologia fundamentada na discriminação self-non-self exige uma nova avaliação.

 

 O confronto de Jerne com a discriminação self / non-self

Em termos de nossa discussão, a questão teórica cardinal que diferencia as teorias burnetianas e jerneanas dependem da centralidade do conceito do “self imunológico”. Como mencionado, a teoria de Burnet baseou-se em um arcabouço no qual a discriminação self-nonself podia ser explicada (Burnet e Fenner 1949) e portanto afirmou o eu-imunológico como o princípio organizador central da função imunológica. Este ponto de vista tem dominado a imunologia pelos últimos 40 anos; que Jerne não tenha levado em conta a discriminação self-non-self além dos auto-estados (Eigen-states) do sistema, acabou condenando sua teoria (Vaz e Varela 1978; Cohn 1981; 1985; 1986; 1987; Coutinho 1995; Tauber 1998; 2000). De fato, a ideia de que o sistema imune era “completo” (Coutinho 1980) destaca o desafio teórico do modelo de Jerne.

A completude excluía a noção de discriminação self-non-self como função-chave da imunidade, pois de acordo com os princípios da teoria de Jerne, o repertório de anticorpos não exclui receptores para componentes do próprio corpo. De fato, as respostass imunes dirigidas contra substâncias exógenas são, em certo sentido, acidentais (Vaz e Varela, 1978, Ramos, Vaz e Saalfeld 2006; Eichmann 2008, 119). E a partir desse ponto de Vista, o paradigma evolutivo básico no qual o sistema imune tem sido concebido, ou seja, para combater patógenos, foi subordinado à função de estabelecer a identidade do organismo. Neste modo de ver, a integridade (o processo de proteção) admite que a identidade foi estabelecida. Mas a identidade imunológica é um processo contínuo de Identificação e se a individualidade (selfhood) permanecer como uma estrutura, a teorização deve ser entendida como um processo dinâmico, no qual nenhuma definição da identidade como uma entidade foi estabelecida.9 Apesar dos apelos do paradigma predominante, os critérios para estabelecer o eu imunológico não foram estabelecidos e, além disso, a discriminação self-nonself não pode explicar várias funções imunológicas (Tauber 2000, 2010, 2012). Além de descrições incompletas da tolerância imunológica, discrepâncias que brotam de um contínuo de reações autoimunes – variando de processos fisiológicos e inflamatórios normais a doenças descontroladas iniciadas por uma reação imunológica danificada, isto é, um estado desregulado de vigilância normal (Cohen 2004) – enfraqueceram a dicotomia Burnetiana do self / non-self. Na verdade, a autoimunidade é um achado comum intrínseco ao comportamento das funções de vigilância do sistema imune e, portanto, um componente importante da fisiologia normal (Tauber 2010) 10. A reatividade imune é, de fato, bidirecional – o sistema imune se torna semelhante a Janus ao olhar para dentro e para fora simultaneamente (Tauber 1998). A autoimunidade normal desafia o arcabouço estímulo-resposta subjacente a uma dicotomia self-non-self. Dadas as dificuldades de definir o eu imunológico 11, talvez o sistema imune tenha que bastar-se a si mesmo? E se essa visão for adotada, o mantra da discriminação self-non-self da imunologia contemporânea exige uma reforma radical.

Por um lado a metáfora do “eu imunológico” tem valor heurístico, mas ela obscurece a dinâmica da autoimunidade normal (como discutido acima), e a complexa identidade de organismos que vivem em estreitas relações simbióticas com miríades de outras espécies (Gilbert, Sapp e Tauber 2012) e as trocas cooperativas e ambientais expostas em ecologias complexas (Tauber 2008a; 2008b). Uma consideração apropriada do ambiente natural inteiro do animal de forma considera a imunidade como uma função com a dupla capacidade de diferenciação (defesa) e de integração, e nesta visão, os limites da identidade (selfhood) se tornam difíceis de traçar. De fato, se o sistema imune for considerado ecologicamente, ou seja, se ele for embutido nesse mundo e estruturado epistemologicamente por esse ambiente, a agência, na forma usual de agência individual, é eclipsada por uma formulação diferente das relações biológicas (Gilbert, Sapp e Tauber 2012). Contudo, a imunologia tem deveres relacionados à sua própria história, onde a relação de defesa do hospedeiro deu origem à própria ciência da imunlogia, e em grande parte, ainda o faz. A lógica da agência decorre da compreensão implícita de que proteger algo requer que este algo seja identificado como uma entidade.

Devido ao status científico problemático de uma tal entidade como o eu-imunológico, como podemos explicar o valor desta construção? Em parte, a metafísica da identidade pessoal permeada por um apercebimento autoconsciente de si mesmo em um mundo de outros facilmente adota o sistema imunológico como expressão biológica da realidade social de um mundo concebido como competitivo e potencialmente perigoso (Haraway 1989; Martin 1994). O sistema imunológico confere proteção, bem como define essa identidade, pelo menos biologicamente, e a tentação imediata de ver essas funções seguindo trajetos paralelos, tem sido amplamente registrada (Tauber 1994). Afinal, evidências vindas na medicina dos transplantes e das doenças infecciosas têm mostrado como a imunidade funciona para definir a identidade humana ao nível primitivo da saúde e da doença. Mas a nossa preocupação aqui não é sobre como esta metáfora foi desenvolvida, mas sim sobre como a extrapolação do pensamento representacionista se apossou na ciência e, por sua vez, apóia o uso do eu (selfhood) como uma metáfora em imunologia.

 

O dilema de Jerne e resposta de Gibson

Uma década após Jerne apresentar sua teoria da rede, ele estendeu a descrição da rede como análoga à linguagem humana e, portanto, introduziu explicitamente o dilema da representação na imunologia (Jerne 1984, 1985). Ironicamente, ao introduzir uma metáfora da linguagem, ele obscureceu o desafio subjacente que sua própria abordagem sistêmica representava para a construção representacionista dominante.

O repertório imunológico de anticorpos que conferem especificidade na reação com o antígeno reside numa porção da molécula de imunoglobulina denominada de “região variável”. Nesta sua última formulação, Jerne considerou esta área como um léxico (uma coleção) de frases (diferente de um vocabulário de palavras). E ressuscitando o modelo instrutivo (de moldagem) da formação de anticorpos, considerou a série de aminoácidos presente nesta região variável possui uma imagem espelhada da estrutura que corresponde e permite a ligação ao antígeno. Em outras palavras, uma “frase” (uma sentença) é reconhecida e representada no sistema imune. Esta diferença de propostas entre representar para uma faculdade cognitiva versus representar um constituinte dentro de um sistema enfatiza a posição teórica da Teoria da Rede. Além disso, Jerne desenhou um paralelo entre a gramática geradora de Chomsky para propor que uma “competência para usar a linguagem” (language competence) é inata ao cérebro humano (Jerne, 1985, 852). Portanto, Jerne argumentou que, assim como o cérebro, o sistema imune possui uma propriedade codificada por DNA, que, assim como o cérebro, possui uma função mental – a linguagem. Nesta construção Jerne adotou implicitamente características do corpo como uma entidade e da mente como um processo: o anticorpo é a entidade e a operação da rede é o processo. Esta revisão do modelo original (feita por Jerne) apresenta uma série de dilemas.

Ao traçar um paralelo com a linguagem, Jerne introduziu na teoria imunológica o problema mente/corpo derivado das discussões sobre a consciência humana. A linguagem é a voz da mente, ou é a própria mente? (Tauber 1994, 169-171) E, subjacente a esta questão está a questão sobre o que é significado e como ele é gerado. Para abordar esta questão geral, críticos subsequentes propuseram que a semiótica poderia ser aplicada à imunologia (Sercarz et al., 1988): um sistema semiótico é composto de sinais, um sistema no qual a relação entre os signos e o que eles significam refletem uma convenção, e, portanto, em uma determinada linguagem, os sinais têm significado apenas dentro do sistema em que funcionam. Levando adiante essa analogia, os críticos assinalaram que uma reação estímulo-resposta não se torna semiótica, pois não há sinais utilizados, e desde que a resposta imune é considerada meramente como a Interação antígeno-anticorpo, ela não atende ao padrão da semiose (Bona 1987). Mas o sistema de Jerne o qualifica (como semiótico) porque os elementos da rede se comunicam entre si através do auto-reconhecimento (o entrelaçamento) dos seus componentes mesmo na ausência do reconhecimento de antígenos. Consequentemente, “o mesmo receptor responde tanto ao “sinal” do antígeno, sua imagem interna. A partir disso, pode-se ver que a rede é sua própria rede de sinais que “vê” em si mesma o sinal do antígeno “(Golub 1988; ênfase presente no original). Mas permanece a questão de como o “significado” é gerado no sistema imune.

O significado na linguagem, de acordo com a semiótica, é baseado em uma palavra que serve como um sinal, que consiste em sua relação como significante para o significado (Saussure 1983). O sinal transmite significado ao indicar algo extra – seu referente. Mas, ao classificar os sinais e seus sistemas, quais são os mecanismos para mostrar como os sinais se tornam significantes? “Não há um mecanismo explícito para a origem do significado. É um pouco como ler um texto de taxonomia antes que a seleção natural tenha sido proposta como mecanismo para a origem da diversidade “(Varela 1988). É por isso que escolher entre uma explicação taxonômica (estruturalista) versus uma explicação geradora para o significado tem-se revelado intratável (ver Celada, Golub, Prodi, Varela, Viola em Sercarz et al., 1988).
Em outras palavras, no contexto imunológico, os modelos atuais de cognição não podem decidir se o reconhecimento de anticorpos “constitui uma «comunicação celular», análoga ao significado definido pela discurso na linguagem, ou … [se] esse reconhecimento é mais propriamente visto como um sofisticado padrão de estímulo-resposta, que mantém a “comunicação” simplesmente como uma metáfora alternativa “(Tauber 1994, 171).

Existe uma outra concepção de cognição que supere esse impasse, que abra mão do compromisso subjacente com a (o conceito de) agência que está na base de todas essas formulações cognitivas? Uma epistemologia da interação imune sem representação, de fato, é sugerida pela extrapolação da psicologia ecológica de J.J. Gibson, que afirma que a percepção surge da ressonância entre as estruturas e dados sensoriais (Gibson 1966, 271). Porque os animais evoluem em seus ambientes, diz Gibson, seus meios de percepção, sua capacidade de extrair informações sobre essas ecologias, está pré-programada, ou talvez, melhor dizendo, está interconectada com o mundo fenomênico através de esquemas organizacionais e, portanto, contextualizados dentro do sistema de percepção. Assim, o ambiente em que o sujeito empírico vive, já está organizado e é significante para ele porque – como coloca Ben-Ze’ev (1993, 70-71, ver Gibson 1979) – o sistema cognitivo envolveu as “categorias” que tornam os dados significativos. Nesta visão ecológica, o ambiente existe em um nível de descrição diferente do mundo físico, porque o ambiente só pode ser percebido como significante, isto é, precisa ter um conteúdo informativo como resultado do acoplamento do aparelho perceptivo com o mundo. Consequentemente, as informações significam entradas (inputs) que estimulam o sistema. “Apercebimento” (awareness) exige que essa entrada (esse input) possua um carácter reconhecível. Simplesmente, a informação é apenas aquilo que já é significativo.

Assim, na visão gibsoniana, o que é percebido não é sensação crua, dados sem sentido, mas sim dados já significativos, informação específica da espécie, isto é, um apercebimento de conteúdos significativos. Esse significado deriva de uma construto relacional, ele depende e se realiza dentro de todo um sistema de coordenadas cognitivas que evoluíram para recolher essas informações do ambiente. Assim, o mundo não pode ser descrito como independente do agente que o percebe, e assim o hiato epistemológico entre o mundo representado e o sujeito separado dele desaparece como um artifício metafísico da divisão cartesiana. Dado que o mundo percebido não pode ser definido independentemente do agente que o percebe, não há nenhuma lacuna a ser violada. Além disso, uma vez que o mundo é estruturado pelos agentes perceptivos, as informações só se tornam informativas se estiverem de acordo com as estruturas cognitivas existentes para serem informadas. Nestes termos, ao invés de ser detectada e codificada (como no paradigma dominante da cognição representacional), a informação como tal emerge do plenum. Nenhuma mediação por representações é necessária, porque a ordenação destes dados surge dentro do próprio sistema perceptivo organizado para ver o mundo como uma apresentação direta (Shanon 1993, 122).

Este esquema de apresentação de gibsoniano é facilmente aplicável à concepção original de Jerne de uma rede de cognição imunológica (Jerne 1974). O meio ambiente já está codificado no sistema cognitivo como significativo, porque o antígeno já “se encaixa” na rede e, portanto, transporta um conteúdo informacional. E em vez de representar o mundo para o “eu imunológico”, a construção da rede elimina a dicotomia “self” e “nonself”, porque o significado surge dentro do próprio sistema. O mundo externo não tem representação, pois ele já foi incorporado ao aparelho perceptivo. Na verdade, a única realidade conhecida pelo sistema imune é a sua própria atividade. Então, no esquema da rede, a “cognição” não se baseia em nenhuma forma de correspondência entre alguma representação e o representado; o significado reside apenas como conteúdo informativo derivado dentro do próprio sistema. Assim, a rede imune compreende (engloba) sua própria realidade. E em relação à tarefa de modelar a regulação imunológica, esta orientação gibsoniana oferece um alternativa provocante à teoria imunológica da individualidade (selfhood) que domina a Imunologia e as explicações anteriores da cognição imunológica.

Confrontando modelos representacionistas de cognição

A introdução do conceito de rede anunciava o desenvolvimento subsequente de abordagens sistêmicas à modelagem das reações imunológicas (Tauber 2012), e a questão geral da regulação tornou-se uma preocupação central, na qual “dinâmicas complexas que dão origem a adaptação e a aprendizagem contínuas, à memória, reconhecimento de padrões e controle global coletivo” assumem a primazia (Mitchell 2006, 1205). E com este programa, surge uma crítica relacionada ao representacionismo, porque Jerne, talvez inadvertidamente, seguiu a orientação de uma filosofia que se opunha radicalmente a modelos e às noções de agência em que se ela se baseava. Neste sentido, sua teoria descreve uma visão da percepção muito em desacordo com as tendências dominantes da ciência cognitiva e do representacionismo nas quais, por exemplo, a inteligência artificial está fundamentada. Assim, estas opiniões que se opõem – Burnetiana e Jernrana – têm um interesse mais geral no esclarecimento do caráter da cognição em geral, porque os problemas que confrontam o representacionismo, que gravitam em torno dos problemas de referência e significado (originalmente colocados em termos da consciência humana), como vimos nas seções anteriores, uma teoria da imunidade baseada em noções de individualidade e cognição está enquadrada nesta construção. E se a imunidade imunológica reflete a concepção de um homúnculo que separa a si próprio (o self) do outro (nonself), então, as mesmas questões que confrontam atualmente a filosofia da mente estão latentes na teoria imunológica organizada em torno da dicotomia self / non-self. Discernir essas questões levanta novas maneiras de entender como uma noção de identidade (selfhood) subjaz a compreensão dominante da imunidade, invocando a modos de representação para fundamentar suas funções cognitivas.

Quando a identidade (selfhood) incorpora as funções imunológicas, acoplando a agência a modelos representacionais de percepção, ela completa um retrato de um sujeito biológico que navega o mundo com um aparelho cognitivo tomado como empréstimo de modelos da cognição humana. Usar um modelo representacional não apenas implica em adotar critérios de cognição como eles são amplamente compreendidos psicologicamente, como também reciprocamente, apoia a noção de identidade (selfhood) imunológica. Em outras palavras, uma lógica circular confere ao representacionismo uma confirmação de seu próprio modelo de cognição, e isso concomitantemente apoia a ideia de agência que deriva conhecimento de acordo com essa formulação. Note que tanto os elementos da cognição imunológica – a noção de um agente e a invocação da percepção representacional – se apoiam um no outro. E claro, profundos precedentes históricos sustentam esta relação.

Epistemologicamente, um agente conhecedor (uma entidade que conhece) tem sido tradicionalmente colocado em termos de representações mentais. Como Richard Rorty disse sobre a sabedoria convencional de seus colegas filósofos:

Saber é representar com precisão o que está fora da mente; então, entender a possibilidade e a natureza do conhecimento é entender a maneira pela qual a mente é  capaz de construir tais representações. A preocupação central da filosofia é ser uma  teoria geral da representação, uma teoria que dividirá a cultura em áreas que      representam bem a realidade, aquelas que a representam menos bem, e aquelas que não a representam de todo (apesar de sua pretensão de fazê-lo). (Rorty 1979, 3)

Uma posição semelhante apoia as tentativas contemporâneas mais influentes ao fornecer uma teoria naturalista do conteúdo mental e criar uma teoria das propriedades físicas ou biológicas dos estados cerebrais que são suficientes para fazer destes estados representações do mundo (por exemplo, Fodor 1987; Dretske 1988). Nesses relatos, “cognição é representação mental”: pensa-se a mente como operante na manipulação de símbolos que representam características do mundo ou representam o mundo como existindo de uma certa maneira “(Varela, Thompson E Rosch 1991, 8; ênfase no original). Esta abordagem caracteriza a mente como um sistema computacional que opera em representações linguísticas, que reflete compromissos naturalistas a partir das ciências cognitivas, neurologia e psicologia (Chase e Reynolds 2010, 202-210).

A teoria da imagem representacional do mundo tem validade no senso comum e é amplamente admitida como correta. De fato, a visão de que estados representacionais internos formam a base da cognição humana é tão profundamente enraizada que alguns acreditam que o abandono deste paradigma seria “sem comparação, a maior catástrofe intelectual da história de nossa espécie “(Fodor 1987, xii). Nessas teorias inspiradas na cibernética, as representações são definidos em termos de um código definido – simbólico e estático – que compreende um vocabulário regido por uma sintaxe. Contudo, tal conceito de código redutor, inspirado no computador, composto de representações, baseia-se numa visão da linguagem em que os significados são fixos. Aqueles que se opõem a esse esquema argumentam que os significados mudam com o contexto de uso. De fato, a manipulação de modelos baseados em computador de representação simbólica têm destacado que os elementos do programa da máquina são tratados unicamente em operações sintáticas sem referência à sua interpretação e, portanto, o modelo Fodor-Dretske da representação “não leva a sério as propriedades especiais da práticas interpretativas humanas; a interpretação não é apenas uma tentativa revelar a estrutura oculta de uma máquina complexa” (Godfrey-Smith 2004, 150). Nesta visão crítica, a linguagem é eficaz na medida em que as palavras não podem ser reduzidas a características semânticas necessárias e suficientes. Simplesmente, a linguagem é “incompleta” e a polissemia (os múltiplos significados das palavras e expressões) permite à linguagem a plasticidade de apresentar o mundo e o pensamento dinamicamente (Shanon 1993, ver também Dennett 1981; 1991a; Varela, Thompson e Rosch 1991; Ben-Ze’ev 1993; Franco 2004; Ramsey 2007; para uma revisão ver Stich e Warfield 1994).

Assim, apesar do sucesso do paradigma cognitivo desenvolvido para máquinas, o dilema filosófico permanece: de que maneira a mente escapa de suas próprias representações para adquirir conteúdo além das representações deles mesmos? Nos modelos representacionais, pensa-se que os olhos processam imagens como uma câmera de vídeo, e como na visualização mecânica, construímos um “teatro Cartesiano” (Dennett 1991b) para apresentar essas representações à experiência consciente. E esta “imagem da mente […] está tão arraigada em nossa tradição filosófica que é quase impossível escapar de sua influência, mesmo quando suas falhas são reconhecidas e repudiadas ” (Davidson 2001, 34). O modelo sofre de um impasse lógico, no qual o postulado de algum “vidente interior” introduz uma regressão infinita (há um vidente dentro do vidente, etc.). O que está sendo representado para quem? E, além disso, quem é este (esta entidade) que registra? Uma visão representacional da mente cria o problema de referência para si mesmo, e uma solução atraente pode ser encontrada na integração do conhecedor com o conhecido (por exemplo, como discutido acima em termos da orientação ecológica de Gibson). E com esse movimento o lugar “daquele que percebe”, do agente que deve interpretar dados sensoriais, é radicalmente expurgado.

 

O dilema da agência

A complicação filosófica que foi traçada para os modelos representacionistas de cognição encontra sua pronta expressão na construção de uma identidade imunológica. Como já discutido, a partir da perspectiva da terceira pessoa, o imunologista lê o sinal imunológico e lhe atribui um valor, o classifica, isto é, uma resposta imune “significa” que algo estranho foi identificado; por outro lado, o silêncio denota a identidade mantida (selfness). Contudo, no próprio sistema não existe nenhum leitor … existe apenas o próprio sistema.

Na concepção de rede, a noção de agência, de um eu que enfrenta o mundo (e, portanto, exige estratégias defensivas), desaparece na medida em que o sistema já “sabe”; a agência desaparece à medida que a estranheza desaparece por si mesma nesta formulação e, com ela, a ideia de representação. Em suma, o eu imunológico, e a “cognição” de um tal agente, é uma construção daquilo que o cientista projeta de sua própria visão cartesiana da agência. E em termos de críticas contra as filosofias representacionais da mente, surge a mesma questão: quem, de fato, está lendo a mensagem? No caso de funções imunológicas, claramente que lê a mensagem é o cientista, e se a noção de identidade (selfhood) for removida da teoria imunológica, outros modos de cognição, independentes de modelos de representação, se apresentam como alternativas.

Esta orientação geral também tem sido defendida por Nelson Vaz (2011). Seguindo Humberto Maturana (2002), Vaz não considera o sistema nervoso ou o sistemas imune como sistemas “cognitivos”. Em vez disso, esses sistemas são vistos como redes fechadas de atividades neurais ou imunológicas, que começam e terminam dentro da própria rede. Portanto, a cognição não é um item na província da caracterização fisiológica. Portanto, as descrições de sistemas vivos, por um lado, e organismos por outro, pertencem a dois domínios independentes de descrição: os sistemas vivos são descritos numa perspectiva estrutural, e os organismos são descritos em uma perspectiva relacional. Porque os organismos, e suas mentes, são descritos como entidades inteiras que interagem com outras entidades desse mesmo tipo, todos estes fenômenos pertencem ao domínio interacional de descrição, isto é, ao comportamento. Assim, a mente e a linguagem não podem ser descritas em termos do corpo, porque pertencem a descrições de relações organísmicas (coisas que os organismos fazem). E porque esses dois domínios – a mente e o cérebro – não se cruzam, observações sobre um destes domínios não são pertinentes ao outro domínio. Seguindo essa orientação, “aprendizagem”, “memória” imunológica, “reconhecimento”, etc., são funções do organismo inteiro; as células e moléculas que constituem o sistema imune não são em si mesmas cognitivas, exceto quando usadas metaforicamente em suas descrições materiais (Vaz, comunicação pessoal). A partir desta posição, a cognição se torna uma categoria de funções de organismos (isto é, não se presta a ser descrita em termos do sistema imune ou do sistema nervoso) e confundir esses diferentes domínios de descrição é cometer a “falácia mereológica” (Bennet e Hacker, 2003, Talllis, 2011). Simplesmente, “a mente não está na cabeça: a mente está em comportamento “(Maturana 1985, ver também Bateson 1973; Pordeus et ai. 2009; Vaz et ai. 2006; Vaz 2011) .12

Não é preciso detalhar as discussões sobre a redução da mente ao cérebro como uma nota promissória não-resgatada para apreciar esta discussão em termos que voltam pelo menos a Spinoza: enquanto o materialismo eliminativo argumenta que nada “existe” além de partículas e forças em alguma multidimensionalidade, isso não quer dizer que os seres humanos vivem em uma realidade unificada ou que podem conhecer o mundo como uma ontologia singular. “Mente” e “corpo” compreendem duas categorias distintas pelas quais o mundo é descrito. Maturana baseia-se nessa perspectiva, ou seja, um erro de categoria é cometido quando alguém tenta atribuir estados mentais a estados cerebrais. Claramente, o dois tipos de descrição estão relacionados, mas seus respectivos idiomas, embora correlacionados, não são transponíveis um ao outro de nenhuma maneira direta. Atribuir um local a uma experiência emocional ou visual não é explicar a consciência, um raciocínio ou sentimento. Tudo o que se pode dizer, na melhor das hipóteses, quando olhamos para uma imagem do cérebro é, “olhe, a emoção é processada aqui; a visão ali; e o sentimento ali mais adiante “. Mas descrever a experiência é ir além do domínio material, porque todas as categorias de cognição não são apenas globais e relacionais, mas também a linguagem empregada para descrever eventos materiais não pode capturar a própria experiência.

Nessa visão, o eu, e o eu imunológico em particular, são construções de uma descrição global de algo que exibe capacidades cognitivas (entre outras capacidades). Essas aptidões são mediadas por sistemas que podem ser descritos em parte em termos físicos, mas as moléculas e células das quais o sistema imunológico extrai a sua funcionalidade global apenas dentro de um contexto organísmico. Simplesmente, o organismo confere as propriedades cognitivas ao sistema imune, e não ao revés. A cognição deve ser entendida como uma categoria de comportamento, que se torna uma propriedade do organismo, e não uma função de seus sistemas constitutivos. E talvez mais ao ponto, o agente que experimenta deve ser definido em termos de suas funções, portanto o processo e as relações substituem a entidade, e com essa mudança, a identidade emerge no comportamento. Não há um eu (self) como tal.

 

Conclusão

Neste artigo, considerei compreensões que competem para explicar a percepção, uma baseada na noção de identidade autônoma (selhood) com seu acompanhante- o modo de representacionista de entender a cognição; e, uma segunda formulação na qual a representação, passa a ser um processo de segunda ordem, e foi substituído pela apresentação. Nessa última formulação, a cognição e as noções de agência que apoiam essa construção, são reconhecidos como produtos do ponto de vista de uma terceira pessoa. Portanto, a adoção dos programas defendidos por Gibson ou por Maturana, leva à desconstrução da individualidade. O desafio filosófico é evidente e a centralidade da representação serve como fulcro da análise: o arcabouço cartesiano denota um modo de cognição, no qual um agente, vivendo autonomamente no mundo, requer representações desse mundo. E na imunologia, esta orientação fundamental faz da discriminação self/ non-self a própria base da atividade imunológica.

Se a identidade imunológica reflete uma concepção subjacente de um homúnculo que separa a si próprio do que não lhe pertence através de uma faculdade cognitiva (por exemplo, Cohen 1992b; 2004), então as mesmas perguntas enfrentadas pela atual Filosofia da mente estão latentes na teoria imunológica contemporânea. O discernimento dessas questões levanta uma nova dimensão na crítica da identidade imunológica. Com a simples invocação do conceito de agência, a fraqueza da “Teatro Cartesiano” no ambiente imunológico se torna evidente: o sistema imune não é dotado de reflexão; ele percebe sem a interposição de um agente que reveja suas descobertas. O cientista observa e constrói o self e sua cognição. O fenômeno e o julgamento desse fenômeno têm características epistemológicas diferentes que devem ser mantidas separadas. Simplesmente, uma falácia simpática é cometida quando o sistema imunológico se torna-se um self imunológico (Tauber 1999; 2000). Nessa perspectiva, os modelos aplicados à função imunológica ilustram orientações teóricas que competem entre si, e iluminam a infra-estrutura filosófica profunda que as orienta.

Não precisamos julgar as controvérsias que gravitam em torno do paradigma cognitivista dominante, que vão à profundidade das questões conceituais que estão nas bases da Filosofia da mente. Basta observar que a imunologia é atraída para essas discussões, porque as maneiras de ver o mundo e a nós mesmos constituem nossa compreensão mais profunda de nosso próprio ser. Esses compromissos profundos são assumidos relutantemente mesmo quando a se admite uma objetividade científica (Tauber 1994). Assim, através da resistência aos desafios contra os modelos dominantes de identidade imunológica, podemos apreciar o forte domínio da metafísica cartesiana e ver como a cognição é Interpretada e as noções de agência subjacentes a essa formulação.

Agradecimentos:

Este artigo se beneficiou enormemente de um diálogo contínuo com Nelson Vaz, que me envolveu generosamente em discussões que ajudaram a definir melhor as posições aqui apresentadas e própria compreensão do problema. Reconheço com gratidão suas ideias filosóficas e sua camaradagem intelectual.

Alfred Tauber.

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NOTAS

[1] Tais princípios de aposição derivaram de duas tradições de pesquisa: 1) química coloidal, na qual a ligação de substâncias requeria complementaridade estrutural entre reagentes (Bogue 1924a; 1924b; Loeb 1924), e 2) a química orgânica e a bioquímica, que empregaram a metáfora da o ” chave na fechadura” ao descrever como os substratos se encaixam em enzimas (Fruton 1999, 151-160). Adequadamente, Molecular resultantes do “ajuste” ótimo de uma substância a uma proteína, o que facilitou a Quer a troca química de um composto progenitor com o seu produto sequencial (como em catálise) ou, no Caso de reações imunes, a ligação de vários produtos químicos a anticorpos (medidos como “afinidade” e “Avidez”, Arrhenius 1907; Ehrlich 1908; Mazumdar 1995). Teorias da Cognição da Imunologia 243 A

[2] Niels Jerne propôs pela primeira vez um mecanismo de seleção pelo qual o antígeno se liga a um anticorpo adequado Selecionados de um grande repertório preexistente (1955). Ao colocar a “seleção natural” de anticorpos O nível da sua produção, nomeadamente os linfócitos, os imunologistas chamaram a atenção para esta O ator central nas reações imunes. “Clonal” refere-se à linhagem singular das células que produzem a Anticorpo ou possuindo o receptor apropriado, isto é, cada clone de linfócitos se reproduz exponencialmente Como resultado da ligação do seu antigénio correspondente (Burnet 1959).

[3] Os biólogos moleculares mostraram, em meados da década de 1980, que os anticorpos eram derivados de Elementos que proporcionaram inúmeras permutações estruturais e que os sítios genéticos responsáveis Para o reconhecimento antigénico foram sujeitos a um elevado grau de mutação somática. Assim, por recombinação Mecânica e “ajuste fino” somático uma biblioteca de anticorpos é gerada para servir como o pool do qual Imunidade específica.

4 Burnet propôs que o animal, durante o desenvolvimento pré-natal, exercesse uma função purgante de Linfócitos auto-reativos de modo que todos os antígenos encontrados durante este período atingissem um status de neutralidade (Burnet e Fenner, 1949). Em versões mais recentes desta teoria, a depleção de células T explica o mecanismo que libera o corpo da atividade imune auto-dirigida (Kisielow et al 1988).

5 Jerne construiu sua teoria de rede sobre o conceito do idiotipo, isto é, todos os anticorpos induzidos por um antígeno específico compartilhavam um conjunto de determinantes antigênicos únicos contra os quais podiam ser gerados anticorpos “anti-idiotípicos”. A “idiotipia” refere-se assim às propriedades antigénicas da região variável (a região que liga o antigénio) de um anticorpo e é este sítio que bloqueia os anticorpos em conjunto para formar a rede constituída por uma vasta gama de interacções auto-organizadas (Eichmann 2008 , 76ff.).

[6] As Nelson Vaz reminded me, Jerne confided to his biographer Thomas Söderqvist that “the difference between antibodies
and gamma globulins [immunoglobulins] exists only in the mind of the immunologist” (Söderqvist 2003, 185).

[7] Apesar de algumas aplicações bem sucedidas no tratamento de doenças auto-imunes (Eichmann 2008, 88-91), A pesquisa inspirada pela teoria da rede de Jerne decaiu por várias razões: 1) as experiências foram mal aplicadas Para avaliar as respostas clonais e, assim, negar a própria construção teórica da rede (Coutinho 1995); 2) a idiotipia não conseguiu competir com novos insights sobre as vias regulatórias que foram superpostas Na rede de anticorpos (Constantin Bona em Eichmann 2008, 137-139, Ron Germain em Eichmann, 2008, 164); 3) ceticismo sobre a importância da rede idiotípica na regulação imunológica (William Paul em Eichmann 2008, 161); 4) a falta de poder explicativo (Klaus Rajewsky em Eichmann 2008, 162); 5) uma mudança de moda em que um poderoso programa reducionista substituiu a teoria (Antonio Coutinho em Eichmann 2008, 148, Hans Wigzell em Eichmann 2008, 178); E 6) Jerne não conseguiu tirar as consequências conceituais completas da rede como “fechadas” (Vaz 2011).

8 Um tal esquema postula a geração de “sinais de perigo” resultantes de fontes internas e Insulto externo como o elemento disruptivo (Matzinger, 1994, revisto em Podolsky e Tauber, 1997).

9 O deslizamento de preservar a integridade ao estabelecimento da identidade reflete um erro de categoria que (Tauber 2003), e continua até mesmo entre aqueles que simpatizam com a Uma orientação jerniana. Curiosamente, enquanto alguns têm putatively procurou omitir o eu imune como um governo (Por exemplo, Varela et al., 1988), as noções de selfhood ainda subjazem várias teorias contextuais (Critiqued em Tauber 2011), onde um “homunculus” (Cohen 1992b) ou mesmo um conceito Burnetian-inspirado Do egoísmo (Grossman e Paul 1992, 2001) obscurece a percepção crucial de Jerne de que a distinção self-other Como uma extensão metafórica da identidade pessoal humana distorce o caráter da percepção imune.

10 Novos métodos – empregando grandes painéis de antígenos, processamento automático de dados e aplicação De estatísticas multi-paramétricas – foram concebidos para avaliar o sistema como uma Entidade (Tauber 2012). Tais estudos têm oferecido cada um uma imagem “snap-shot” do sistema imunológico como um Total, onde os perfis de anticorpos representam a reactividade imune ao longo de uma ampla gama de especificidades de anticorpo. O exame de estados normais revela o estado do sistema imunológico como faz o seu trabalho diário, não contra Patogénios, mas de acordo com o seu papel na fisiologia vulgar (por exemplo, Haury 1997, Quintana 2006)

11 Há pelo menos meia dúzia de diferentes concepções do que constitui o eu imunológico (Matzinger 1994, 993): 1) tudo codificado pelo genoma; 2) tudo sob a pele incluindo / excluindo imune Sites “privilegiados”; 3) o conjunto de péptidos complexados com complexos de apresentação de antigénios de linfócitos T Dos quais vários subconjuntos disputam inclusão; 4) superfície celular e moléculas solúveis de linfócitos B; 5) um conjunto de proteínas corporais que existem acima de uma certa concentração; 6) a própria rede imunológica, concebida. Embora essas versões possam estar situadas ao longo de um contínuo entre um severo reducionismo genético E construções complexas de organismos (Tauber 1998, 1999, 2008a, 2008b, Gilbert, Sapp e Tauber 2012), cada um compartilha um relacionamento inseguro com o modelo dicotômico original de Burnet de si e outro que Residem nas próprias origens da imunologia (Tauber 2003).

12 Embora Vaz e eu afirmemos que a “cognição” (como a individualidade, self hood) é uma construção projetada pelo cientista a partir se seu próprio ponto de vista, chegamos às nossas conclusões a partir de diferentes perspectivas filosóficas. Enquanto eu sou mais solidário com a orientação de Gibson (como discutido acima) e vejo um contínuo entre essa posição até enativismo proposto por Francisco Varela (Varela et al., 1988, Varela, Thompson e Rosch 1991), Vaz segue a formulação da autopoiese como desenvolvida por Maturana (2002). As diferenças entre asposições teóricas de Maturana e Varela, respectivamente, são apresentadas por Maturana (2012).

Agradecimentos:

Este artigo se beneficiou enormemente de um diálogo contínuo com Nelson Vaz, que me envolveu generosamente em discussões que ajudaram a definir melhor as posições aqui apresentadas e própria compreensão do problema. Reconheço com gratidão suas idéias filosóficas e sua camaradagem intelectual.

Alfred Tauber.