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O cadáver no elevador

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O cadáver no elevador [1]

Richard C. Lewontin

Há uma história sobre um rabino encantado, em seu leito de morte, que sussurra para seu principal discípulo: “A vida é como uma rosca” (Life is like a bagel). A frase se espalha rapidamente pela multidão que espera do lado de fora: “O rabino disse que vida é uma rosca”, até que, na periferia da multidão, ela alcança o bobo da cidade, que pergunta, “O que quer dizer isso?: A vida é como uma rosca?”. A pergunta se espalha de volta através da multidão: “O que quer dizer isto?” até que ela alcança o leito do rabino, “O que significa: A vida é como uma rosca?”, “Hã” diz o rabino, dando de ombros fracamente, “Então, a vida não é como uma rosca.”

Pela intervenção oportuna de uma mente ingênua, fomos salvos de mais uma metáfora. Não somos forçados a viver nossas vidas como se elas fossem (roscas) grossos anéis sem emendas, sem começo nem fim, com uma casca dura mas macios por dentro, substanciais na periferia mas com um buraco no centro. Mas nem sempre somos tão afortunados. Nem todo filósofo tem um bobo apontado pelo Divino para acordá-lo de suas divagações. Pelo contrário: nossa visão do mundo é tão dominada por metáforas poderosas que, freqüentemente, transformamos semelhanças em identidades. A vida deixa de ser como uma rosca e se torna uma rosca.

A metáfora-tornada-real mais poderosa e influente da civilização ocidental, certamente, é a criada por René Descartes, em 1637, na parte V de seu Discurso Sobre o Método e elaborada, posteriormente, em seu Princípios de Filosofia. É a metáfora do organismo como uma máquina,

“…uma máquina que, tendo sido feita pelas mãos de Deus, é incomparavelmente mais bem feita em seus movimentos que qualquer outra inventada pelo homem.”

E, ainda:

“ se existissem tais máquinas, que tivessem os órgãos e a aparência de um

macaco ou outro animal irracional, nós não teríamos maneira de perceber que elas não eram exatamente da mesma natureza que os animais…” (1)

Na verdade, o mundo inteiro, o animado e o inanimado, é como um relógio:

“ Eu descrevi esta terra e todo o mundo visível em geral como se ele fosse uma máquina, na forma e no movimento de suas partes …. por exemplo, quando um relógio marca as horas por meio das engrenagens das quais é construído, não é mais natural que ele o faça do que é para uma árvore produzir seus frutos. ” (2)

O que aconteceu , desde 1637, é que, na mente dos cientistas naturais e de uma boa parte dos cientistas sociais também, o mundo deixou de ser visto como se fosse uma máquina, e passou a ser visto como uma máquina. O reducionismo cartesiano, que considera o mundo inteiro das coisas como, de fato, um artefato eletro-mecânico muito complexo, não é, simplesmente, o modo de pensar dominante nas ciências naturais, mas sim o único modo de pensar a penetrar a consciência da grande maioria dos cientistas modernos. Não é exagero dizer que a maioria dos cientistas nem sabe como pensar sobre o mundo exceto como uma máquina.

A demonstração de que os organismos vivos, em todos os seus aspectos (com exceção da mente consciente dos seres humanos) podem ser explicados como sistemas mecânicos, estava no cerne do argumento de Descartes do “mundo como um relógio”. A parte V do Discurso contém uma discussão prolongada da circulação do sangue, baseada, em parte, no De motu cordis et sangui, de William Harvey – embora, no característico estilo gaulês, Descartes se refira a Harvey como “um médico inglês que quebrou o gelo nesta área” (3). Uma das duas grandes ironias da história do pensamento Cartesiano é que a biologia não se tornou verdadeiramente mecanicista e reducionista até 250 anos depois de Harvey. O que Newton fez para a Física do fim do século XVII e Lavoisier fez para a Química no fim do século XVIII, não ocorreu na Biologia até que Darwin propôs uma explicação mecânica para a evolução, e a escola alemã do Entwicklungs mechanik propôs um modelo físico-químico do desenvolvimento embrionário, no final do século XIX. A outra grande ironia, é que a Biologia será, provavelmente, a ciência que destruirá a hegemonia do pensamento cartesiano: última a chegar, e primeira a sair.

Há duas grandes fontes de desafio ao cartesianismo. Uma parte dos marxistas, que percebem o reducionismo como um reflexo da revolução política burguesa individualista dos séculos XVII e XVIII e se opõem à atomização do mundo em partes e peças separadas. A outra tem origem em biólogos que estudam o sistema nervoso, ou o desenvolvimento embrionário, campos que progrediram muito pouco ao usar os mesmos modelos físico-químicos tão fecundos em outros campos de investigação. Ambas estas fontes de descontentamento estavam presentes na Conferência de Bressanone, organizada pelo grupo de Biologia Dialética, em 1980, agora publicada, sob os títulos Against Biological Determinism e Towards a Liberatory Biology.

Até mesmo os títulos revelam uma oposição dialética. O grupo reunido em Bressanone incluía biólogos interessados na função do cérebro, no desenvolvimento embrionário, e em evolução. A maioria era de marxistas, embora dois deles, Gerry Webster e Brian Goodwin, se auto intitulassem “estruturalistas”; como prova, terminaram seu ensaio com uma frase de Levi Strauss – embora fosse uma citação bem marxista (4). Todos os cientistas lá reunidos tinham, em comum, uma frustração com uma metáfora que é também uma visão do mundo, e parece obstruir tanto o processo de compreender o mundo físico, como de modificar o mundo social. Quando Alexis de Tocqueville se sentou na Câmara dos Deputados, em 24/02/1848, para apreciar a dissolução da monarquia burguesa, ele observou que “os homens da primeira revolução estavam vivos em todas as mentes, seus efeitos e suas palavras presentes em todas as memórias”. Então, a Conferência de Bressanone, conscientemente, se comparou a outro congresso revolucionário, quando usou as seguintes linhas iniciais em seu manifesto: “Um estranho destino se apossou na filosofia tradicional da mente no ocidente” – não exatamente, um fantasma rondando a Europa, mas quase isto.

A abordagem que a História Natural adota para compreender o mundo, consiste de uma tentativa de reconstruir as causas dos acontecimentos a partir da observação de sistemas em seu estado normal de movimento ou quietude (estase). Por outro lado, a abordagem experimental utiliza perturbações como suas principais ferramentas. O objeto sendo estudado é empurrado, puncionado, mordido, pedaços e partes são dele removidos, agentes estranhos são a ele acrescentados, e o funcionamento geral do sistema é perturbado com a esperança de que a resposta a estas alterações revele o seu funcionamento interno. Uma anedota conhecida é a do psicólogo que provou que as aranhas ouvem com as pernas, treinando-as a andar ao som de sua voz e, então, observando que elas não mais respondiam com o movimento quando suas pernas eram amputadas – pois ficavam surdas.

Giorgio Bugami e Lesley Rogers mostraram em seus ensaios sobre o reducionismo da medicina, que a lógica ex juvantibus[2] confunde a causa de uma doença com seu tratamento. Se a administração de dopamina a um paciente reduz os tremores da doença de Parkinson, então a doença de Parkinson deve ser causada por um deficit de dopamina. Se, por outro lado, a administração de uma droga antagonista da dopamina, reduz os sintomas da esquizofrenia, então, um excesso de dopamina é a causa da esquizofrenia. Todos aprendemos na escola que as bactérias são a causa das doenças infecciosas; ainda assim, há muitos “portadores sãos” do bacilo da tuberculose hoje em dia, enquanto nossos avós nas fábricas e oficinas do passado, regularmente contraíam tuberculose e morriam dela. Em vista da história das doenças infecciosas dos últimos 150 anos, é pelo menos igualmente sensato dizer que o capitalismo desregulado é a causa da bronquite, quanto dizer que o bacilo de Koch é a causa da tuberculose.

Claramente, o fracasso da psiconeurologia em entender as doenças mentais e neurológicas, está ligada à crença reducionista vulgar segundo a qual, se um comportamento é modificado por uma pílula, ou um bisturi, então, a causa do comportamento foi atingida. A lógica ex juvantibus tem também impactos sociais e políticos, desde que a psicologia tem sido usada pelo Estado para “curar” prisioneiros violentos de suas reações “patológicas” ao sistema penal. O psicólogo que amputava as pernas das aranhas estava bem no espírito da psiconeurologia moderna.

Os usos políticos do reducionismo não se limitam ao tratamento de prisioneiros recalcitrantes. Teorias sobre o corpo físico e sobre o corpo político aparecem juntas no determinismo biológico, uma ideologia que tanto justifica a situação social atual, quanto argumenta que ela é uma conseqüência natural dos fatos da vida.

Para os sociobiologistas e os que acreditam em meritocracias de classe e de sexo, as propriedades da sociedade são determinadas por propriedades intrínsecas de seres humanos individuais; indivíduos são a expressão de seus genes, e genes são apenas moléculas auto-replicantes. Somos egoístas porque somos formados por DNA egoísta. Como Richard Dawkins diz em O Gene Egoísta, nós somos robots controlados por nossos genes, corpos e mentes. Assim sendo, a política se torna um ramo da biologia molecular, e nossas instituições sociais e políticas são tão imutáveis quanto as substâncias químicas que nos compõem.

Os primeiros ensaios na Conferência de Bressanone, mostram como o reducionismo cartesiano, com sua ênfase nos elementos individuais e nos mecanismos de relojoaria que os relacionam, serve tanto como um espelho, quanto como uma base teórica para uma sociedade de alienação e divisão de trabalho governada pelas leis férreas do comportamento econômico.(5)

A confusão entre a perturbação (do sistema) com a causa (de um comportamento do sistema) está claramente posta (talvez melhor que em qualquer outro lugar) no chamado “dogma central da biologia molecular”. De acordo com este dogma, as proteínas que constituem os nossos corpos estão codificadas nos nossos genes, nas moléculas mestras do DNA. Desde a conceituada revista Science até o Reader’s Digest, espalhou-se a informação de que os genes fazem proteínas e as proteínas fazem a nós. Em um ensaio que provocou grande controvérsia, mesmo entre os biólogos dialéticos reunidos em Bressanone, Ruth Hubbard acentuou que os genes não “fazem” proteínas e que o DNA é apenas parte de um complexo conjunto molecular, que deve permanecer íntegro e funcionante em seu lugar para a criação dos materiais que compõem nossos organismos. O DNA, em si mesmo, não faz nada, nem mesmo mais DNA, de forma que ele não é, sequer, auto-replicante. Nem são auto-replicantes os genes que herdamos porque o espermatozóide e o óvulo dos quais todos nós começamos continham um grande número de enzimas e compostos ricos em energia, todos unidos em estruturas microscópicas no interior destas células. (6)

É precisamente no mecanismo da herança que o processo dialético da vida se manifesta mais claramente.(7) Genes individuais contêm, realmente, em suas seqüências de DNA a informação para especificar que esta e não aquela proteína será feita. Em si mesma, a montagem das proteínas requer a participação de enzimas, que são, elas próprias, proteínas e, portanto, adquiriram suas estruturas em outras seqüências de DNA. Mais ainda, as enzimas fazem o DNA novo utilizando o DNA preexistente como modelo. Então os genes “fazem” proteínas que “fazem” genes, enquanto que as proteínas, “fazem” genes, que “fazem” proteínas.

Existe ainda um outro viés ideológico no “dogma central” da genética que não foi abordado no ensaio de Hubbard: a crença na dominância do trabalho intelectual sobre a mera produção, ou, a supremacia do planejamento sobre a execução. Falamos de Queops “construindo” a grande pirâmide e de Napoleão “conquistando” a Europa, mas é claro que foram os trabalhadores egípcios que construíram a pirâmide, e os soldados franceses que consquistaram a Europa. Na produção da metáfora que domina a biologia molecular, os genes desempenham o papel de planos (plantas arquitetônicas), de desenhos que contêm a verdadeira essência das coisas a serem construídas, enquanto que as enzimas e a estrutura das células são “meramente” a maquinária de produção em si própria, um poder de trabalho indiferenciado que pode ser colocado a qualquer serviço. Não é preciso ser marxista para perceber a penetração evidente da visão burguesa no mundo da biologia.

Conta-se que Thomas Henry Huxley, quando desfiado a explicar porque, apesar de gerações e gerações de circuncisões, os judeus continuavam a nascer com prepúcios, respondeu imediatamente: “Existe uma divindade que dá forma às nossas extremidades, a despeito do acabamento grosseiro que damos a elas”. Nenhum campo de pesquisa produziu mais crises de desconfiança no reducionismo cartesiano que o estudo do desenvolvimento embrionário. Há muitos exemplos de grandes embriologistas do século passado que começaram como mecanicistas e terminaram procurando a mão imortal que construía as simetrias que eles encontravam. O grande embriologista alemão Hans Spemann pensou que encontrara a pista dos organizadores químicos do desenvolvimento, até que um de seus auxiliares, Hoftreder, mostrou que podia induzir embriões de rã a construir olhos e pernas acessórios simplesmente espetando-os com cerdas de escovas de dentes ou pedaços de celofane de maços de cigarros. Hans Driesch, um dos fundadores da Entwick lungsmechanik, terminou sua carreira como um crente do vitalismo e da parapsicologia.

O problema está em que, muitas vezes, embriões em desenvolvimento reagem a perturbações, simplesmente, ignorando-as. A capacidade de um embrião de rã acabar resultando em uma rã adulta normal a despeito de agressões e insultos impostos pelos embriologistas, levou muitos biólogos a acreditar em alguma força misteriosa ou vontade interior contida na matéria viva. Assim, o reducionismo cartesiano nos leva a analisar uma perna como sendo composta de dedos, um pé, uma canela, cada uma destas estruturas composta de ossos, músculos, nervos, vasos sanguíneos e pele. No entanto, se alguém amputa o broto que daria origem a uma perna em um embrião de anfíbio, separa as células do broto umas das outras, e depois as reagrega ao acaso, e devolve o agregado ao lugar de onde foi retirado, desenvolve-se uma perna normal. É como se cada célula contivesse a informação “perna”, sem saber se ela vai especificar um dedo ou uma canela, um osso, um músculo, ou um nervo. Ao contrário de uma máquina, cuja totalidade é criada pela justaposição de peças com funções e propriedades diferentes, as porções e pedaços de um organismo em desenvolvimento parecem encontrar sua existência como uma conseqüência da posição espacial em que elas se encontram em momentos críticos do desenvolvimento embrionário. Tais objetos (embriões), se parecem menos com máquinas que com uma linguagem (uma língua humana), cujos elementos, apesar de superficialmente parecidos em sua forma, adquirem significados diferentes dependendo do contexto em que aparecem. As enormes diferenças entre sistemas que são “como-máquinas” e sistemas “como-linguagem” se tornam muito evidentes nas tentativas de construir máquinas de traduzir. Como é que se constrói uma máquina capaz de interpretar corretamente a tradução para o inglês das seguintes três frases do português: “tome conta disto”; “estou fazendo de conta“; e “conta como foi” [3].

No passado, a impossibilidade de explicar os problemas embriológicos pelo reducionismo cartesiano conduziu, alternativamente, a um holismo obscurantista, ou, pior, à crença em forças vitais imateriais. Os membros do Grupo de Biologia Dialética que se preocupam direta ou indiretamente com problemas do desenvolvimento (8) são, acima de tudo, materialistas e, portanto, rejeitam o vitalismo. Mas eles rejeitam também o holismo, assegurando que as propriedades fisicoquímicas das moléculas e organelas são verdadeiramente importantes para a compreensão do desenvolvimento. Afinal, é muito importante saber que os organismos são feitos de carne e sangue, e não de pedra. As soluções propostas pelos Dialéticos, embora não sejam todas homogêneas, são versões do que poderia se chamar relacionalismo restrito (constrained relationalism). As propriedades dos organismos são conseqüências dos tipos particulares de interações que ocorrem em seus componentes materiais; portanto, são regras de interação o que devemos estudar. Mas estas interações, embora únicas ao ocorrer entre duas partes componentes do organismo, são também restritas pela natureza das partes em si mesmas. As propriedades da água são o resultado de uma interação única (original) entre o hidrogênio e o oxigênio (diferente da que resulta na água oxigenada, por exemplo); mas os tipos de interação das quais o oxigênio pode participar são diferentes das que, digamos, o nitrogênio pode participar; e, em algum grau, elas são previsivelmente diferentes.

Claro está que, uma coisa é propor uma biologia relacional; outra, muito diferente, é transformar esta proposta em atos práticos. Um dos exemplos mais simples de uma força que é criada pelos próprios objetos que estão sob sua influência é um campo gravitacional; mesmo assim, uma descrição completa do que acontece quando somente três corpos (Terra, Lua e Sol) interagem, ainda nos escapa. Se o desenvolvimento é realmente, em um sentido importante, uma conseqüência das relações entre as coisas, como iremos reduzir esta imensa complexidade relacional a um conjunto manipulável de regularidades? E como iremos fazer isto utilizando um método experimental que está ligado à análise cartesiana?

Se pensar sobre o desenvolvimento embrionário causou problemas aos reducionistas cartesianos, pensar sobre o cérebro levou todo mundo à desorientação. A solução de Descartes ao problema da mente foi, como sabemos, excluí-la da máquina universal e afirmar que a alma era separada do corpo (res cogitans separada da res extensa). Na biologia do século XX, porém, o dualismo cartesiano é simplesmente inaceitável. Quer sejam reducionistas, holistas ou dialéticos, todos concordam em que todas as coisas do mundo são alguma manifestação da matéria ou da energia. Os reducionistas interpretam este materialismo de uma forma bastante ingênua, que propicia até algum divertimento em uma ciência realmente desanimadora. Assim, por exemplo, estava na moda há algum tempo atrás supor que memórias específicas existiam codificadas em moléculas específicas de ácidos nucleicos, e vários relatos, hoje desacreditados, mostravam que uma planária poderia aprender o que outra planária sabia simplesmente comendo a outra. Afinal – continuava o raciocínio – os genes não são feitos de DNA? e não são uma memória de nossos ancestrais? O preço de uma metáfora é a eterna vigilância!

Uma tentativa mais séria tem sido a de traçar analogias entre o cérebro e computadores eletrônicos – uma metáfora com conseqüências administrativas, desde que ela conduziu à criação de vários Departamentos universitários devotados ao estudo da inteligência artificial. Embora estes grupos hajam produzidos alguns robots elementares e alguns programas engenhosos para a solução de problemas, incluindo alguns capazes de resolver provas de geometria do curso secundário, existe hoje um consenso universal de que, se o cérebro é como um computador, ele é como um computador que não foi sequer projetado.

Entre as dificuldades da analogia como o computador, está a de que, ao contrário do que ocorre nos computadores, a memória humana não arquiva acontecimentos específicos em pontos específicos, e novas experiências podem, na verdade, induzir a formação de novos circuitos. Mesmo assim, todo materialista deve admitir que, se fosse possível construir com transistores e fios ou qualquer tipo de hardware uma cópia exata do meu cérebro, e colocar as correntes elétricas fluindo através dos seus circuitos, como elas estão fluindo agora em meu cérebro, esta máquina poderia haver escrito esta frase. Isto é: ela poderia haver contemplado sua própria existência.

A visão reducionista da relação do cérebro com a mente tem sido, ou assegurar que o cérebro produz a mente, ou de pura e simplesmente negar a relevância do “mental”, alegando que o “mental” e nada mais que um estado do cérebro. Em ambos os casos, o cérebro físico está no centro das atenções, o objeto adequado de estudo para os cientistas, enquanto que a mente pode ser deixada para as ruminações, alegadamente ineficazes, dos epistemologistas, lingüistas e psicólogos, nenhum dos quais atingirá jamais a raiz das coisas.

Os Dialéticos de Bressanone, porém, visualizam a simetria mente/cérebro como dois aspectos da mesma realidade, cada um expressando aspectos diferentes da mesma realidade(9). O significado e a sintaxe, por exemplo, não estão no cérebro, embora exista uma configuração única do cérebro em correspondência com cada pensamento. Existe, simplesmente, um conjunto de correspondências entre estados cerebrais e estados da mente e, por sua vez, estes se manifestam na experiência social. Stephan e Beatrice Chiroer afirmam que estados físicos da neocórtex, do sistema límbico e dos núcleos cerebrais, estão representados no ser humano individual, respectivamente, como pensamentos, sentimentos e ações. E, na sociedade, como fatos, valores e práticas (10). Mudanças que nascem da atividade em um nível, não “causam” mas sim são manifestadas, representadas nos outros níveis.

Se, por um lado, os participantes da conferência de Bresannone estão, sem dúvida, corretos ao afirmar que o cérebro e a mente são dos aspectos da mesma realidade, não está claro como poderíamos usar esta compreensão para entender o seguinte problema biológico: porque nós pensamos com nossos cérebros e não com nossos narizes? De alguma maneira, a justaposição de elementos físicos e de funções que existem em nossas cabeças possui um aspecto, o mental, que é negado às nossas partes inferiores e às formas inferiores de vida. A resposta não reside no material físico em si mesmo mas, de alguma forma, na estrutura do sistema nervoso central como um sistema. Mas o estudo de todas, ou de uma parcela significativa das interconexões e das oscilações pareadas de milhões de células cerebrais nos parece uma tarefa que consumiria os 3 bilhões de anos de que dispomos antes que o Sol se transforme numa estrela gigante vermelha e destrua toda a vida. Precisamos encarar a possibilidade de que nunca entenderemos a organização do sistema nervoso central, a não ser em um nível muito superficial.

Qual é, então, a inspiração que o pensamento dialético oferece? Simplesmente não é apenas a idéia de que as coisas interagem para produzir propriedades emergentes que não estavam presentes nos componentes originais. Mesmo o reducionismo vulgar concorda em que o hidrogênio e o oxigênio são gases tóxicos mas a água é molhada e sustenta a vida. E a dialética deve significar mais do que dizer que uma coisa pode ter dois aspectos diferentes e igualmente válidos, desde que isto foi resolvido no Conselho de Nicaea, 1500 anos antes de Hegel e Marx.

O que caracteriza o pensamento dialético é a rejeição dos termos que colocam todas as questões em algum ponto de uma linha entre explicações pelas propriedades de partes, por um lado, e explicações pelas propriedades emergentes dos “todos”, por outro. Não que um “todo” seja mais que a soma de suas partes, mas que as partes, em si mesmas, são re-definidas e re-criadas no processo de interação entre elas.

Assim, os sociobiologistas, reducionistas que são, afirmam que as limitações dos seres humanos individuais criam restrições para a sociedade, mas, na verdade, a organização social é a própria negação das limitações individuais. Nenhum ser humano pode voar simplesmente agitando seus braços e pernas. Mesmo assim, nós voamos devido à existência de aviões, pilotos, combustíveis, rádio – todos produtos de nossa organização social. Mais importante: não é a sociedade quem voa, mas sim indivíduos que adquiriram a propriedade de voar às custas da socialização. Os geneticistas reducionistas dizem que o DNA é auto-replicante, mas nem o DNA, nem qualquer componente celular, pode se reproduzir em isolamento. Através de sua organização em células, que são sistemas auto-replicantes, as moléculas individuais adquirem a propriedade da auto-replicação.

A biologia cartesiana objetifica (reifica, coisifica) os organismos. Eles são vistos como conseqüências passivas de forças internas e externas, genes e ambientes. Os organismos são objetos; as forças internas e externas, os sujeitos. O que a biologia dialética procura fazer é quebrar a alienação do sujeito e do objeto, insistir na interpenetração de gene, organismo e ambiente.

Assim, em vez da metáfora da adaptação do organismo ao um “nicho” ambiental preexistente, a biologia dialética enfatiza a forma pela qual os organismos definem e alteram seus ambientes no processo de suas vidas. Organismo e ambientes estão em um contínuo “vir a ser”, determinando mutuamente um ao outro.

O problema da biologia dialética é transformar sua visão em resultados concretos. Um dos participantes da Conferência de Bressanone disse a seus amigos, ao regressar, que ele havia comparecido aos funerais do reducionismo. Se assim foi, os coveiros tiveram um dia de folga, pois eu estou certo de ter visto o cadáver subindo no elevador em meu Departamento, na semana passada. Até agora os dialéticos apenas interpretam a ciência de várias maneiras; a questão, no entanto, é mudá-la.

 

Notas e bibliografia

  1. Descartes,R. (1637) Discours de la Methode, Reimpressão Librarie Philosophique, J.Vrin, Paris, 1947.
  1. Descartes,R. (1644) Les Principles de la Philosophie, Art 203, In Oeuvres et Lettres, Gallimard, Paris, 1963.
  1. Consta que Descartes conhecia um relato de segunda mão do trabalho de Harvey,                sem haver realmente lido seu livro. Quando, mais tarde, o leu, descobriu que não            concordava com Harvey em todos os pontos.
  2. “A história conduz a todas as coisas com a condição de que a deixemos para traz.”
  3. Hilary Rose e Steven Rose, “On Opposition to Reductionism”; Martin Barker, “Biology and Ideology: The uses of Reductionism”; Janna L. Thompson, “Human Nature and Social Explanation”; Linda Byrke, “Cleaving the Mind: Speculations on Conceptual Dichotomies” (Referências incompletas no original disponível).
  1. Claudio Scazzochi, em “Reflections on the Limits of Biological Reductionism”se opõe vigorosamente a este ponto.(Referência incompleta no original disponível).
  2. O leitor pode notar que, mesmo ao escrever sobre alternativas à metáfora cartesiana, sou levado a usar, eu mesmo, a metáfora em palavras como “mecanismo”, “produção” e “maquinária”.
  3. Gerry Webster e Brian Goodwin, “History and Structure in Biology”, Jonathan Cook, “Neo-Darwinism in Developmental Biology”; Allan Muir,”Holism and Reductionism are Compatible”; Giacomo Gava,”Hierarchical Structures and Structural Descriptions”; Werner Callebaut, “Reduction Reassessed” (Referências incompletas no original).
  4. Steven Rose, “From Causation to Translation: A Dialectical Solution to the Reductionist        Enigma; Chris Sinha,”Negociating Boundaries: Psychology, Biology,                  Society (Referências incompletas no original)
  5. Stephen Chiroer and Beatrice Chiroer,”Toward a Theory of Human Systems”; Mae wan-Ho and Peter Saunders, “Adaptation and Natural Selection: Mechanism and Theology”; Patrick Bateson,”Synthetizing Views about the Origins of Behaviour”; Bruno d’Udine and Enrico Alleva,”On the Teleonomic Study of Maternal Behaviour.”

N.T.:       A frase mencionada no texto “porque nós pensamos com nossos cérebros e não com nossos narizes?” lembra um famoso trabalho de Warren McCulloch Porque a mente está na cabeça e as respostas, mais recentes de Maturana A mente não está na cabeça:

McCulloch,W.S.(1951) Why the mind is in the head  In L.A.Jeffres Cerebral Mechanisms in Behavior, the Hixon Symposium New York, John Wiley, pp. 42-111. (reprinted in McCulloch,W.S.(1965) Embodiments         of Mind, Cambridge, Mass. MIT Press, pp.72-141.

Maturana,H.R.(1985) The mind is not in the head (A Mente não está na cabeça)J.Social Biol. Struct. 8 : 308 – 311. (Academic Press, London.)

[1] Lewontin R.C. (1981) The corpse in the elevator, In The New York Review, 20/01/1981, Book Reviews Resenha de Rose,S. & The Dialectics Biology Group, editors, Towards a Liberatory Biology: Against Biological Determinism, Allison & Busby, Schocken Books, New York. Tradução: Nelson Vaz, UFMG <nvaz@icb.ufmg.br>

[2] O diagnóstico ex juvantibus significava “diagnosticar pelo tratamento” (diagnosis ex juvantibus), era uma estratégia clínica comum, hoje abandonada.

[3]No original inglês, o autor pergunta como traduzir para o francês “Fruit flies like bananas”(As moscas das frutas gostam de bananas) e “Time flies like an arrow”(O tempo voa como uma flecha).