Humberto Maturana

Todas as coisas estão cheias de deuses – ou de informação – Anthony J.Fedanzo Jr.

Todas as coisas estão cheias de deuses – ou de informação
Anthony J.Fedanzo Jr.
Social Biol. Struct. 6 :135-138 (1983) Academic Press, London..

            O conceito de informação tem dois sentidos claramente distinguíveis: um sentido estrito, que é uma restrição imposta a um conjunto de possibilidades; e um sentido mais impreciso e metafórico de informação como significado. Inúmeros autores, de Shanon (1978) até Miller (1978) e Bunge (1979), entre outros, insistiram enfaticamente neste ponto.

Apesar destas palavras de cautela, freqüentemente esta distinção é apagada ou ignorada nos escritos dos sociobiologistas. Não levar em conta esta distinção tem a conseqüência perniciosa de explicar o obscuro pelo mais obscuro, ou mesmo de alimentar a crença de que se fez um avanço no conhecimento quando de fato apenas se insistiu sobre um conceito equivocado. Nesta discussão, eu argumento que a adoção pouco crítica da noção de informação e seus primos conceituais deixa muitos autores na posição de imitar a afirmação de Thales de que “Todas as coisas estão cheias de deuses” (Aristóteles, de Anima, A5, 411 a 7). Em conseqüência, a ambigüidade em torno do termo informação permite que seu papel nestes textos se assemelhe a uma forma de vitalismo. Se a ambigüidade é resolvida e o sentido do termo informação é esclarecido, outros problemas emergem, entre os quais o problema importante de saber como os eventos discerníveis descritos pelo termo informação em sentido estrito interagem com aqueles descritos pelo sentido significado do termo informação .

O problema aberto para a sociobiologia e para muitas outras ciências interdisciplinares é o seguinte. Se a informação é usada no sentido estrito, como é usada na engenharia de comunicações, ela não consegue traçar uma ponte entre estrutura e função, entre mente e matéria, programa e hardware, cérebro e consciência, e problemas similares; ao passo que, se a informação é usada no sentido mais impreciso de significado, as análises não conseguem ligar-se à compreensão contemporânea da genética e da história evolutiva. A solução é desenvolver uma teoria da informação que defina e explique os dois domínios fenomênicos denotados pelos dois sentidos do termo informação. Nós sabemos que eles interagem, e queremos saber exatamente como eles interagem.

Os conceitos e expressões encontrados em textos de sociobiologia que são relacionados com ou derivam da noção de informação em seu sentido estrito são os seguintes, (dentre outros): negentropria, auto-organização, sinais de controle, sistemas cibernéticos, leitura do DNA, teleonomia, codificação, padrão genético, e assim por diante. Conceitos e expressões relacionados com ou derivados da noção de informação no sentido de significado são, entre outros: autopoiese, consciência, comportamento inteligente, aprendizagem, consenso socio-cultural, memória, experiência, e assim por diante. Apenas nos últimos 4 volumes do Journal for Social and Biological Structures pode-se achar mais de 15 artigos que empregam diretamente um ou ambos os sentidos do termo informação. Estes artigos são comentados brevemente abaixo numa ordem cronológica aproximada.

Goodwin (1978) fala de “formação de padrões” baseado no sentido estrito de informação. Ele distingue este sentido do sentido de significado, mas não consegue dizer como um se relaciona ao outro. Richerson e Boyd (1978) empregam “codificação e herança” como um recurso em sua descrição do processo evolutivo humano. Seu relato não une o conhecimento e o lado sociocultural da evolução à base genética onde a codificação tem lugar.

Pattee (1978) discute a complementaridade das teorias causais e não-causais do comportamento humano. Ele nos acautela explicitamente contra o uso pouco crítico do termo informação, sem estipular em qual dos sentidos ele é usado. No entanto, a visão de Pattee sobre complementaridade sugere que não há necessidade de unir os dois sentidos. A aceitação de duas descrições paralelas ou complementares do comportamento consciente deixaria intocado o grau de precisão esperado de ambas, a questão de como eventos ‘mind-like’ (‘mentais’) afetam eventos ‘body-like (‘cerebrais’) mesmo quando elas se derem em dois sistemas de explicação separados. Isto não é simplesmente expressar preferência por uma teoria em particular, mas argumentar que a complementaridade nas explicações tem muito a ver com o que constitui uma explicação aceitável baseada na natureza dos fenômenos envolvidos. Na física determina-se experimentalmente que existem duas medidas irreconciliáveis de eventos quânticos, e então uma complementaridade de construções explicativas parece justificável. Não existe um tal grau equivalente de certeza de que os dois sentidos do termo informação sejam intrinsicamente irreconciliáveis.

A discussão de Wheeler (1978) sobre altruísmo emprega a negentropia como um recurso explicativo. Este uso deixa intocado justamente o problema de se entender como os eventos caracterizados pela genética se tornariam significantes como comportamento altruístico. A negentropia não sugere maneira alguma pela qual “mais ordem” tem o sentido de “bom” que o altruísmo implica. Hill (1978), Jantsch (1979) e Elsasser (1979) invocam todos um sentido mais ou menos estrito de informação quando se referem à auto-organização, controle e sistemas cibernéticos. Nenhum destes autores oferece uma menção convincente ou mais do que casual de como o sentido estrito da informação, implícito nos conceitos dos sistema que eles utilizam, se traduz no sentido de significado exigido quando eles discutem o comportamento individual ou social.

A discussão de Bunge(1979) de problemas correntes de biofilosofia menciona a existência de um problema de clareza e intenção quando a noção de informação é usada em filosofia biológica ou social. Bunge aparentemente acredita que a maior parte desta confusão potencial pode ser resolvida pela adesão ao sentido estrito do termo informação. Conceitos como “sinais de controle” e “rede de informações” parecem satisfazer sua necessidade de relacionar eventos descritos separadamente pelos dois sentidos do termo informação. Vale notar que Bunge ataca a teleonomia e outros termos orientados no sentido de informação como significado, acusando-os de serem de algum modo vitalistas.

A tentativa de Cook (1979) de desenvolver uma teoria de sistemas que cruzem muitos níveis é baseada em “estruturas informacionalmente idênticas”. Nesta expressão Cook visa o sentido estrito de informação, mas muda para o sentido de significado sem justificar a transição, notando apenas que no nível do indivíduo e no nível cultural o outro sentido é mais apropriado à sua discussão dos isomorfismos subjacentes. Maturana e Guiloff (1979) discutem a inteligência como produto de organismos autopoiéticos que podem criar “um acoplamento estrutural ontogenético” com outros organismos para formar o conhecimento consensual, e com o ambiente para outros propósitos. O consenso supõe o sentido de significado do termo informação, mas eles não o relacionam aos fatores genéticos ou ambientais caracterizados pelo sentido estrito de informação.

Comfort (1980) discute modelos de evolução e adota o sentido estrito de informação quando se preocupa com teorias genéticas, e o sentido de significado quando envolvido com assuntos culturais. Ele não enfrenta o problema de esclarecer como os dois sentidos se relacionam, embora mostre alguma sensibilidade de que existe um problema em se mostrar como os dois sentidos interagem.

Goldman (1980) usa negentropia no sentido termodinâmico para discutir o estado energético de elementos de um sistema. Ele argumenta que a organização de elementos do sistema é o fator chave na emergência de sistemas vivos, incluindo aqueles com funções cognitivas superiores. Ele não explica como a organização dos elementos interage com ou se transforma em informação no sentido de significado. Por outro lado, Rosen (1980) não acredita que a negentropia seja um conceito útil para a compreensão dos seres vivos uma vez que suas propriedades interessantes, ligadas à sociobiologia, parecem ser mais dinâmicas que termodinâmicas. Ele não tenta mostrar como a interação dos fenômenos caracterizados pelos dois sentidos da informação podem se relacionar.

Ginberg-Zylberbaum (1980) e Ingber (1981) discutem o cérebro como um órgão processador de informações. Eles parecem adotar o sentido estrito do termo informação mas nenhum dos dois mostra como ele se relaciona ao sentido de significado. O modelo holográfico das funções do cérebro de Pribram (1979) sofre de deficiências similares. O conteúdo de informação do holograma é tido como dado, como também o é seu significado. O conteúdo de informação é o sentido estrito do termo, mas como este sentido se relaciona com o sentido de significado não é abordado pela teoria holográfica.

A partir desta rápida revisão podemos nos convencer da importância central da noção de informação, num sentido ou no outro, na construção de teorias interdisciplinares. No que concerne à sociobiologia, a informação é importada de alguma outra área e tanto sua definição quanto adequação são tidas como razoavelmente estabelecidas. Este fato parece ser a alma do fracasso em se mostrar como os dois sentidos – o estrito e o impreciso – interagem. O problema não é restrito à sociobiologia, mas a sociobiologia parece perpetuá-lo.

A contribuição de Bateson (1974) para o problema foi dizer que informação é “uma diferença que faz diferença”, uma observação que fornece um ponto de partida, mas não uma hipótese ou uma afirmação testável. Bateson parece apontar que a natureza da mudança (movimento no sentido da Física) em sistemas genéticos e conceituais precisa ainda ser elucidada dentro de uma perspectiva unificadora. Argumentos que mostram analogias de função em diferentes níveis de sistemas podem ser taxonomicamente importantes, mas até agora não forneceram resultados interessantes que se apliquem ao problema em questão.

Se a história da teoria geral dos sistemas é um indicador para outros campos interdisciplinares, tal como a sociobiologia, então os sociobiologistas devem logo reconhecer que depois de construídas as taxonomias e traçadas as analogias para os diversos níveis e estágios da evolução humana, permanecerão problemas ainda mais fundamentais, um dos quais é compreender como os dois sentidos do termo informação interagem e, de fato, se transformam um no outro.

Poucos, se é que algum dos autores citados acima o fez, tentaram levantar o problema dos dois sentidos da informação como um problema a ser resolvido. O que tentei mostrar aqui foi a presença de um problema ubíquo que torna suspeito o trabalho destes autores enquanto não for resolvido. Pode ser perfeitamente aceitável passar de um sentido de informação ao outro, mas o que precisa ser mostrado em primeiro lugar é porque isto é aceitável; isto não pode ser simplesmente admitido. Parece claro que os problemas sociobiológicos levantarão o problema de como o sentido de comunicação e o sentido de significado da informação se relacionam. Parece então apropriado que os sociobiologistas façam um esforço nesta direção.

 

Referências

Bateson, G. (1974) Steps to an ecology of mind, New York, Ballantine Books.

Bunge, M. (1979) Soc. Biol. Struct. 2: 155-172.

Cook, N.D. (1979) Soc. Biol. Struct. 2: 315-332.

Comfort, A.(1980) J. Soc. Biol. Struct. 2: 211-223.

Elsasser,W.M. (1979) J. Soc. Biol. Struct. 2: 229-234.

Goldman, S.(1980) J. Soc. Biol. Struct. 2: 331- 360.

Goodwin, B.C.(1978) Soc. Biol. Struct. 1:117-125.

Grinberg-Zylberbaum, J. (1981) Soc. Biol. Struct. 4: 201-210.

Hill,J. (1978) Soc. Biol. Struct. 1: 377-386.

Ingber,L.(1981) Soc. Biol. Struct. 4: 211-224.

Jantsch,E.(1979) Soc. Biol. Struct. 2: 87-92.

Maturana, H.R. and Guiloff,G.D. (1980) The quest for the intelligence of intelligence. Soc. Biol. Struct. 3:135 -148.

Miller, J.G. (1978) Living Systems McGraw Hill, New York.

Pattee,H.H. (1978) Soc. Biol. Struct. 1:191-200.

Pribram,K. (1979) Soc. Biol. Struct. 2: 65-72.

Richerson, P.J. and Boyd, R. (1978) Soc. Biol. Struct. 1: 127 -154.

Rosen,R.(1980) Soc. Biol. Struct. 3:363-365.

Shannon,C.E.(1948) The Mathematical Teory of Communication,  Urbana, University of Illinois Press.

Wheeler, H. (1978) Soc. Biol. Struct. 1: 307- 318.

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Tradução: Nelson Vaz, UFMG, Belo Horizonte