Humberto Maturana

Tudo é dito por um observador

Tudo é dito por um observador
Humberto Maturana

In: Gaia – A Way of Knowing. Political Implications of the New Biology
W.I.Thompson (ed.) Lindsfarm Press, New York, 1987. pp 65-83.
Tradução de Nelson Vaz e Cristina Magro.

                   Em primeiro lugar, antes que eu chegue ao que quero dizer sobre cognição, preciso frisar que não estou procurando um princípio explicativo. Em parte, eu penso que princípios explicativos não funcionam, que toda vez que alguém tem um princípio explicativo, o que está fazendo é inventar um mecanismo para esconder o que se quer explicar. Então, o que pretendo fazer é especificar um problema, e especificar também o que penso constituir uma explicação; então, discutirei, da minha perspectiva, uma maneira de me dirigir ao problema. De certa forma, estou pedindo a vocês para aceitar como um problema o que vou propor como um problema, aceitar como uma explicação o que vou propor como uma explicação, e, finalmente, a aceitar como uma resposta o que vou propor como uma resposta. Mas estou sendo explícito, e para tornar claro que estou sendo explícito, vou destacar isto aqui: E, ao lado disso, desenhar um olhOlho-em Tudo é dito

Agora, qual é o problema? Quero pensar sobre a cognição, então o problema é conceber qual é o problema na cognição. Penso que toda vez que desejamos saber se alguém sabe ou não sabe alguma coisa, nós lhe fazemos uma pergunta; e esta pergunta exige que ele, ou ela, faça alguma coisa. Se você quer saber se alguém conhece arquitetura, você lhe pergunta como ele, ou ela, construiria um prédio, como procederia para construir um prédio com tais e tais características. Se ele, ou ela, mostra isto de uma maneira satisfatória para quem fez a pergunta, então o questionador pode dizer que ele, ou ela, conhece arquitetura. A mesma coisa se aplica à biologia, física, ao budismo, ou a uma religião qualquer, a qualquer coisa. Então, o problema é identificar a conduta adequada, identificar o que constitui uma conduta adequada, isto é, uma conduta que satisfaça a quem fez a pergunta. Se pergunto a alguém: “Você conhece biologia?” e ele responde “Sim, conheço biologia; sou um especialista em tal e tal coisa”, e, em seguida, lhe faço uma pergunta que ele responde dizendo ou fazendo alguma coisa que reconheço como uma conduta adequada naquele domínio, então, posso dizer “”Sim, ele sabe”. E penso que é isso que sempre fazemos. Na verdade, não temos outra forma de avaliar o conhecimento. Então, tomo a conduta adequada como uma expressão de conhecimento. Se meu problema é a cognição em si mesma, ou o conhecimento, e reconheço que há conhecimento pela conduta adequada, então, meu problema será identificar a conduta adequada, ou, mostrar como surge tal conduta adequada.

E o que seria uma explicação? Usualmente, quando você faz uma pergunta – pede a alguém para explicar alguma coisa – você espera que a pessoa produza uma resposta que é satisfatória. O que significa satisfatória? Significa que você não continua perguntando. Quando uma criança chega para sua mãe e pergunta “De onde eu vim?”, a mãe dá uma explicação. Ora, através dos tempos, as respostas dadas pelas mães variaram. No meu tempo, as mães mencionavam as abelhinhas fecundando as flores, e coisas deste gênero; e as crianças iam embora brincar, completamente satisfeitas com a resposta – até o dia seguinte. Aquilo era uma explicação para a criança, pelo menos até o dia seguinte, quando, ou a mesma pergunta, ou uma nova pergunta aparecia, porque a explicação dada não era mais satisfatória. Então, o ouvinte, o questionador, é aquele que decide o que será a explicação: o que satisfará a sua curiosidade. Isto significa que, se vou falar sobre cognição, preciso fornecer uma explicação que tem a ver com a conduta adequada, e preciso ser muito claro sobre o que vou aceitar como uma explicação.

Agora, sou um biólogo, um cientista, então só aceitarei como explicações aquelas que sejam científicas. Mas o que é uma explicação científica? Usualmente as pessoas pensam que as explicações científicas têm a ver com previsibilidade, que respostas ou proposições que nos permitem fazer previsões são explicações científicas. Mas, em minha opinião, isto não é assim. As explicações científicas não têm a ver com a previsibilidade; a previsibilidade pode surgir, mas não é o ponto central. O ponto central de uma explicação científica é a proposição de um mecanismo. Você tem uma pergunta – por ex.: como um cavalo se movimenta? O movimento do cavalo inclui o trotar, e você quer explicar isto. A explicação científica seria uma descrição do mecanismo que gera os movimentos do cavalo. Se você quer explicar o relâmpago, você tem que apresentar um mecanismo que gere o relâmpago. Este mecanismo será apresentado em termos de certas idéias que você tem sobre nuvens, fricção, cargas eletrostáticas, coisas deste gênero, mas o que você está realmente propondo em uma idéia central é um mecanismo que gera o fenômeno que você quer explicar. Primeiro você observa o fenômeno que você quer explicar, o que constitui a pergunta; segundo, você tem que fornecer um mecanismo. Não existe explicação científica se você não fornecer um mecanismo. Mas isto, isoladamente, não é suficiente. O que também é necessário para tornar uma explicação científica – e aqui é onde surge o problema da previsibilidade – é que o mecanismo proposto gere não apenas o fenômeno que você quer explicar, mas também outros fenômenos que você pode observar.

Considerar outros fenômenos a observar é um requisito das explicações científicas porque os cientistas afirmam que o que eles dizem tem algo a ver com o mundo em que vivemos, e que os fenômenos que eles querem explicar são fenômenos do mundo. Eles afirmam que as proposições que fazem têm uma relação particular com os mecanismos que geram os fenômenos porque existe algum isomorfismo, alguma correspondência em estrutura, entre os mecanismos propostos e os mecanismos do mundo onde são gerados os fenômenos que eles querem explicar. Mas desde que se pode inventar muitos mecanismos possíveis para gerar um fenômeno particular, o cientista precisa selecionar nesta multidão de mecanismos, um no qual ele deposite mais confiança, porque ele parece ter a ver com o mundo que habitamos. Por isso é que ele procura outros fenômenos que serão gerados pelo seu mecanismo explicativo e que pertencem ao mesmo domínio que o fenômeno que ele quer explicar.

Então, como cientista, proponho um mecanismo. Digo “Aha! Este mecanismo gera este fenômeno.” É claro, pois propus um mecanismo especificamente porque ele gera o fenômeno que constitui minha pergunta. Mas então olho para este mecanismo e vejo que ele pode gerar também outros fenômenos, por exemplo, o fenômeno A, que é diferente do fenômeno que eu estava explicando. Isto é, outro fenômeno que ocorre no mesmo domínio do fenômeno que eu estava estudando. Então, olho em volta, e acho este outro fenômeno, e então posso dizer “Aha! Minha explicação foi validada, minha hipótese foi validada. Esta é uma explicação científica.” E é isso. Não mais que isso, não menos que isso. Quando tempo esta explicação vai durar? Até que encontre outro fenômeno que não seja gerado por ela. Neste momento, preciso entender que minha explicação não é mais uma explicação científica. Tenho que desprezá-la e inventar um novo mecanismo que gere não somente os fenômenos anteriores mas também outros no mesmo domínio que considero importante, mas que não eram gerados pelo mecanismo original.

Então, se quero uma explicação científica da cognição, preciso fornecer um mecanismo que gere a conduta adequada – animal e humana – assim como outros fenômenos que eu possa observar no mesmo domínio. Se puder fazer isso, então, por todos os padrões científicos, propus uma explicação científica do fenômeno da cognição – se é que você aceita que o fenômeno da cognição está propriamente descrito formulando o problema em termos da conduta adequada.

O que eu preciso fazer em seguida, então, é mostrar como a conduta adequada surge em qualquer sistema. Isto pode ser feito, desde que disponhamos de uma linguagem adequada para tanto. Primeiro vou fazer um par de esclarecimentos.

Uma entidade, qualquer coisa que possamos distinguir de alguma maneira, é uma unidade. Como distinguir tal unidade? De diversas maneiras. Por exemplo, posso fazer uma distinção concreta, em termos de apanhar alguma coisa, ou fazer uma distinção conceitual, especificando um procedimento que saca esta unidade de um fundo (background) – que é especificado ao mesmo tempo quando faço a distinção. Isto é, quando digo que alguma coisa é uma unidade, também estou especificando o fundo (o resto, o background). É isto o que fazemos continuamente. Se eu perguntasse quantas almofadas existem aqui na sala, vocês as contariam. E, em contá-las, vocês estariam distinguindo almofadas, realizando a operação de distinção que as saca do fundo. Vocês podem concordar ou discordar na contagem de alguma outra pessoa, mas se vocês discordam, significa que vocês aplicaram procedimentos de distinção diferentes, estão distinguindo coisas diferentes. Mas, se vocês concordam, se vocês estão usando o mesmo procedimento de distinção, vocês contarão o mesmo número de almofadas, de cadeiras, de lâmpadas, ou o que quer que seja – pessoas, cães, pulgas, o que seja. Quando era estudante em Harvard, tive a honra de ser o único estudante no curso de Artrópodos que conhecia pessoalmente pulgas, carrapatos, e toda a sorte de parasitas. Era muito interessante. Eu era o único capaz de fazer tais distinções.

Um segundo esclarecimento, é que nós podemos distinguir, e distinguimos, dois tipos de unidades – as simples e as compostas. Sempre que distinguimos alguma coisa como um todo e não a decompomos em partes, nós a distinguimos como uma unidade simples. Idealmente, a palavra “átomo”, significa exatamente isto. Se distinguo meu relógio como uma unidade simples, então, ele é um relógio atômico – se vocês preferem. E, a unidade simples, no momento em que você a distingue, é especificada pela operação de distinção em termos de certas propriedades. Você pode girá-la, por exemplo, ou usá-la para apontar porque ela é comprida, e assim por diante. A operação de distinção especifica ou indica as propriedades que caracterizam a unidade simples.

Mas nós também podemos distingüir unidades compostas. Nós dizemos que o relógio é feito de tantas partes, de tantas coisas que podem ser separadas. Os componentes da unidade são as coisas que podem ser separadas. Na realidade, o átomo foi um átomo por muitos e muitos anos, até que a descoberta da radioatividade permitiu que ele fosse decomposto, e então ele não era mais um átomo. Nós ainda o chamamos de átomo, mas acontece que há procedimentos para tratar o átomo como uma unidade composta.

Agora, quando a unidade distinguida é simples, a tarefa é simples. Especificamos propriedades, e isto é suficiente. Mas quando a unidade é composta, há um problema com os componentes, com suas relações. Existe um problema de composição – como são unidas as partes?

Aqui, posso fazer uma distinção que só se aplica às unidades compostas. Distinguo dois aspectos das unidades compostas, e afirmo que todos nós fazemos isto. Um aspecto tem a ver com a organização da unidade composta, que se refere as relações entre os componentes que fazem com que a unidade seja o que você afirma que ela é. Por exemplo, uma cadeira é um unidade composta. As relações entre as partes que constituem uma cadeira são a organização. Se eu serrar a cadeira em muitos pedaços, e separar estes pedaços, você diria que ainda tem uma cadeira? Não, você não diria. Você diria “Porque você desorganizou minha cadeira?”. Eu destrui a cadeira desorganizando-a. As relações entre os componentes, então, – aquilo que faz da cadeira uma cadeira – são sua organização. Uma unidade é uma unidade composta de algum tipo enquanto sua organização for invariante. Uma cadeira será uma cadeira enquanto sua organização for a organização de uma cadeira.(Incidentalmente, esta é a razão pela qual eu nunca usarei a noção de auto-organização, porque isto não pode ser assim. Operacionalmente isso é impossível.) Isto é, se a organização muda, a coisa muda. Uma cadeira é uma cadeira, uma unidade composta de um tipo particular, somente enquanto sua organização for invariante.

O segundo aspecto das unidades compostas, tem a ver com sua estrutura. Por estrutura quero dizer o que a maioria das pessoas querem dizer por estrutura – os componentes e as relações que constituem uma unidade particular. Uma cadeira particular é feita de uma maneira particular, com componentes particulares e relações particulares entre eles. Outra cadeira, pertence a mesma classe, é uma cadeira, é chamada uma cadeira, porque ela tem a mesma organização. Mas ela tem uma estrutura diferente. O tipo de componentes que constituem uma cadeira são diferentes dos tipos de componentes que fazem outra cadeira.

Então, a organização é invariante e é comum a todos os membros de uma classe particular de unidade composta, mas a estrutura é sempre individual. Cada unidade particular tem uma estrutura que realiza a organização, e é feita destes componentes particulares, e as relações concretas, particulares, que fazem esta unidade em particular. Mas não somente isso. Se eu viesse com uma faca e, secretamente, fizesse cortes, pequenos buracos em sua cadeira, você não me perguntaria porque eu desorganizei sua cadeira; você me perguntaria porque eu mudei sua cadeira. Eu haveria modificado sua cadeira, mas ela ainda seria uma cadeira.

Então, a estrutura de uma unidade composta pode variar sem que sua organização seja destruída. Se você destrói a organização, você não tem mais a unidade, e sim uma outra coisa; no entanto, você pode mudar a estrutura sem mudar a unidade em termos de sua identidade de classe, em termos do tipo de unidade que você tem. Se a gente chega em casa, e descobre que as crianças cortaram os cantos da mesa, nós dizemos “O que vocês fizeram com a mesa?”, mas continua sendo uma mesa. Da mesma forma, vocês continuam dando o mesmo nome as crianças por toda a vida; existe alguma coisa constante nas crianças, embora elas cresçam, e o nome que se aplica a este invariante é organização, embora a estrutura varie.

Na realidade, em sistemas dinâmicos, como os sistemas vivos, a estrutura está variando continuamente. Vocês estão variando de estrutura agora. Quando eu me movo, eu mudo minha estrutura, porque a estrutura está tanto nos componentes quanto nas relações entre os componentes. Felizmente, eu posso mudar de estrutura sem perder minha organização. Enquanto eu puder fazer isso, ou enquanto isto acontecer comigo, estou vivo.

Mas , vejam, que esta é uma situação muito interessante, porque quando nós olhamos para as coisas desta maneira, que é o que nós fazemos nas situações corriqueiras, nós abrimos uma avenida para falar de mudança e de invariância nos sistemas vivos. Os biologistas sabem disso, e quando falamos de crescimento e evolução, estamos falando de condições sob as quais alguma coisa permanece invariante – a organização da entidade da qual falamos – enquanto alguma coisa muda – sua estrutura.

No entanto, ainda temos um problema. Se a explicação que o cientista propõe tem que ser um mecanismo – e, como eu disse, a explicação científica implica em um mecanismo – então, esta explicação ou hipótese precisa satisfazer as condições que fazem de alguma coisa um mecanismo. Isto é, ela precisa ser a descrição ou a construção de uma entidade cuja estrutura – as relações e mudanças de relações entre os componentes presentes – determinam o que acontece com ela. Em outras palavras, desde que uma explicação científica implica a proposição de um mecanismo, isto significa que, aconteça o que acontecer ao sistema, que está, ele próprio, sendo proposto pela hipótese do mecanismo que vai gerar o fenômeno, ele está determinado por sua estrutura. Está determinado pelos componentes e pelas relações entre componentes que o constituem. Isto significa quando você tem um sistema estruturalmente determinado, ou um mecanismo, e você faz alguma coisa com este sistema, tudo o que acontece com ele não depende do que você fez com ele. Se você tem uma geladeira, por exemplo, as mudanças que ela sofre nos seus aspectos dinâmicos não dependem do que você faz com ela; elas dependem de como a geladeira é feita. Nós sabemos disto muito bem pelo uso das máquinas automáticas (pushbutton machines), nas quais você aperta um botão e alguma coisa acontece – ela lava, ela brilha, ou toca música – faz algo que não é determinado pelo apertar do botão, mas, sim, desencadeado pelo apertar do botão.

Então, nos sistemas estruturalmente determinados, em mecanismos ou sistemas que são definidos e constituídos estruturalmente, o que acontece ao sistema depende de como ele está feito. As interações que o sistema atravessa podem somente desencadear mudanças nele. Você não instrui o sistema, você não especifica o que vai ocorrer no sistema. Você o destrava.

E os sistemas vivos, se eles vão ser explicáveis, precisam ser tratados como sistemas estruturalmente determinados, definidos por certas organizações. Então eles precisam ser sistemas nos quais o que quer que lhes aconteça está determinado por sua estrutura. As interações que eles atravessam apenas desencadearão mudanças neles; as interações não especificarão o que acontecerá com eles.

Este é um ponto muito sério, um ponto que não deve ser compreendido de forma superficial. O que eu estou dizendo é que nada pode acontecer a um sistema estruturalmente determinado que não esteja determinado pelo próprio sistema – determinado por como ele está construído, por sua estrutura. Vocês são forçados a aceitar isso se querem que eu forneça uma explicação científica dos sistemas vivos, porque eu não posso fornecer uma explicação científica de sistemas que não admitem hipóteses mecanísticas experimentais. Então, se vocês querem que eu forneça uma explicação científica que tenha a ver com qualquer coisa que os sistemas vivos fazem, tais como a conduta adequada, então, vocês estão me pedindo para tratar o organismo ou o sistema vivo como um mecanismo, como um sistema estruturalmente determinado.

Para um sistema mudar a sua dinâmica de estados, para ele mudar o que faz, embora mantenha a sua identidade e ainda possamos chamá-lo pelo mesmo nome, ele precisa mudar sua estrutura. Se eu tenho um amigo que era católico e virou budista, seu comportamento será diferente, então houve uma mudança estrutural. Ele não poderia mudar seu comportamento se sua estrutura não mudasse.

Mas a estrutura de meu amigo está mudando de qualquer forma, porque ele é um sistema dinâmico, de maneira que isto não é um problema. O problema está em saber qual mudança estrutural ocorreu quando ele mudou de católico para budista. Nosso problema, na verdade, é explicar a conduta adequada, mostrar como surge a conduta adequada. Este é um problema de mostrar como a estrutura de um ser vivo muda de forma que nós vemos surgir uma conduta adequada em particular que nós não víamos antes, ou, de presenciar a persistência de uma conduta adequada embora nós saibamos que a estrutura está variando, e o meio no qual o sistema existe está variando também. O problema está em manipular o problema da variação estrutural e mostrar como um organismo, que existe em um meio e que opera de forma adequada às suas necessidades, pode atravessar um contínuo de mudanças estruturais tal que ele continua agindo adequadamente no seu meio, muito embora o meio esteja mudando. Muitos nomes podem ser dados a isto; poderia ser chamado aprendizagem. Mas nós também temos a questão de entender como o organismo tem uma conduta adequada no lugar onde o encontramos. E vamos responder a esta pergunta primeiro.

Porque um organismo, um sistema vivo, uma pessoa tem a conduta que tem onde nós a encontramos? Porque me comporto da maneira que me comporto? Esta é uma pergunta que também tem a ver com a evolução, porque, no sentido de entender o que ocorre na evolução, é preciso entender o que tem lugar no indivíduo através de sua história de vida, durante sua ontogenia. Eu vou responder esta pergunta do comportamento em termos gerais.

Se eu tenho um sistema vivo (Figura 1) – e embora eu não vá entrar em detalhes aqui, eu desenho um sistema vivo desta forma porque ele é um sistema fechado, uma sistema que somente gera estados em autopoiese – então, este sistema vivo está em um meio com o qual ele interage. Sua dinâmica de estados resulta em interações com o meio, e a dinâmica de estados no meio resulta em interações com o ser vivo. O que acontece nessa interação? Desde que este é um sistema estruturalmente determinado – e eu não posso falar como um cientista se eu não tratar os sistemas desta maneira – o meio desencadeia mudanças de estado no sistema, e o sistema desencadeia mudanças de estado no meio. Que mudanças de estado? Uma mudança que é permitida pela estrutura do sistema.

ser-vivo-meio

Figura 1: O organismo em seu meio.

                  Existem, é claro, muitas mudanças de estado que a estrutura de um sistema particular permitiria, e aquela que ocorre depende de circunstâncias particulares. Então, na interação entre um sistema vivo e seu meio, embora o que aconteça no sistema esteja determinado por sua estrutura, e o que aconteça no meio esteja determinado pela estrutura do meio, é a coincidência destes dois fatores que seleciona quais mudanças de estado ocorrerão. O meio seleciona as mudanças estruturais no organismo, e o organismo, através de suas ações, seleciona as mudanças estruturais no meio. Que mudanças estruturais têm lugar no organismo? Aquelas determinadas por sua estrutura. Que mudanças estruturais têm lugar no meio? Aquelas determinadas por sua estrutura. Mas a seqüências destas mudanças é determinada pela seqüência das interações. O meio seleciona um trajeto de modificações estruturais que o organismo atravessa durante sua vida.

Existem transformações estruturais, é verdade, que resultam da própria dinâmica do sistema, mas aquelas que têm a ver com o meio são selecionadas através de interações com o meio. Dois organismos idealmente iguais no estado inicial, mas em meios diferentes, atravessarão seqüências diferentes de interações. Então, terão histórias pessoais diferentes, histórias individuais, seqüências diferentes de mudança estrutural.

Quando eu era estudante de medicina, outros estudantes caiam no sono nas aulas de anatomia. E então o professor costumava dizer “Por favor, acorde seu amigo; eu acho que ele vai ser um professor de anatomia quando crescer; ele está dormindo agora.” Eu não dormia nas aulas, então, eu nunca me tornei um professor de anatomia.

Então, na relação particular de dois sistemas que têm estruturas diferentes e independência com respeito à interação, cada um seleciona no outro um trajeto de modificação estrutural. Se a história de interações é mantida, o resultado é inevitável: as estruturas dos dois sistemas terão histórias coerentes, embora em cada um deles as mudanças estruturais sejam determinadas pela estrutura.

Assim, depois de uma certa história de interações, nós como observadores observaremos uma certa correspondência nas estruturas dos dois sistemas. E essa correspondência não é acidental. É o resultado necessário desta história, a ontogenia do indivíduo em seu meio.

Esta congruência que observamos não é acidental. Isto, em si próprio, em princípio, explica os aspectos mais salientes da conduta adequada. A conduta adequada é a conduta que é congruente com as circunstâncias na qual ela se realiza. A conduta é alguma coisa que se vê, as mudanças de estado de um organismo em seu meio, como vistas por um observador, por um olho, este sujeito que enxerga, e descreve essas mudanças de estado do organismo em seu meio como conduta.

O que estou dizendo, então, é que a história de vida de todo organismo é uma história de mudança estrutural em coerência com a história de mudança estrutural do meio em que ele existe, realizada através da contínua e mútua seleção das respectivas mudanças estruturais. A congruência entre o organismo e seu meio, então, é sempre o resultado de sua história. Isto é válido para cada organismo, para cada indivíduo. Cada organismo começa sua existência como uma célula, e como uma célula ele tem certas estruturas iniciais. A estrutura inicial de cada organismo, no começo de sua história, é, ela própria, o resultado de uma outra história, que é a história da filogenia – a seqüência de reproduções levando à aquela célula que é o início de um organismo particular. E nesta história da filogenia, teve lugar o seguinte:

Em cada passo reprodutivo de cada vida prévia ao organismo individual, o organismo então existente reproduziu no mínimo dois outros organismos do mesmo tipo, e aqueles que puderam realizar-se e atingir o estágio reprodutivo, participaram do prosseguimento da linhagem. Os outros, que não atingem este estágio, não participaram do prosseguimento da linhagem. Aqui, a participação ou não-participação numa linhagem, alcançar ou não alcançar o próximo estágio na reprodução, depende, é claro, de se a ontogenia se realiza ou não. Se a ontogenia é realizada, isto é, se o organismo vive até se reproduzir, ela é realizada apenas se o organismo mantém invariante sua correspondência com o meio. Sua estrutura está mudando, e o meio está mudando, mas a coerência com o meio é mantida invariante. A adaptação é uma invariante. Se a adaptação não fosse uma invariante, ela cessaria, e o organismo se desintegraria, morreria.

Então, cada célula é ela própria o resultado de uma longa história, que implica milhões de anos, uma história de sucessivas reproduções bem sucedidas, e toda célula pertence a uma das muitas linhagens que possivelmente derivaram de um ponto comum em um passado remoto. Mas através dessa história o fenômeno da organização da célula, a condição de viver, permaneceu invariante. Estruturas do organismo mudaram como resultado de uma contínua seleção através de mudanças estruturais, através das interações do organismo com seu meio.

Assim, não somente estamos aqui agora como resultado de nossas histórias individuais, mas estamos aqui agora como resultado da história de nossos ancestrais. De certo modo, todos temos a mesma idade, e todas as nossa células têm a mesma idade – milhões de anos – se nos vemos não apenas nossas ontogenias individuais, mas também a filogenia, a história que é responsável pelas mudanças estruturais que nos conduziram a nosso tipo particular de coerência. Este tipo particular de coerência aparece expresso na conduta adequada.

Agora, eu entendo que vocês podem pensar que há um truque nesse problema da conduta adequada, então talvez eu possa ilustrar a idéia com uma anedota que eu li no Time Magazine alguns anos atrás. Um jovem estudante tinha que fazer uma prova de física. O professor lhe forneceu um altímetro e lhe disse que determinasse a altura na torre do campus. O aluno foi a uma loja, comprou um rolo de barbante, subiu na torre, amarrou o altímetro no barbante, baixou-o até a base da torre, e então mediu o barbante: 32 metros e 50 cm. Reprovado. Ma o aluno apelou, e a comissão de educação, ou coisa assim, lhe deu outra chance de ser examinado pelo mesmo professor. Então o professor lhe forneceu o altímetro e o mandou determinar a altura da torre do campus. Desta vez, o estudante arranjou um goniômetro, para a medida de ângulos, afastou-se da torre, e usou a altura do altímetro para triangular a torre. Reprovado. Nova petição, nova concessão, nova solicitação para determinar a altura da torre com o altímetro. Agora, a torre tinha uma linda escada helicoidal, que o estudante subiu a cada degrau medindo o corrimão com o altímetro, determinou o passo do parafuso, e , de novo, conseguiu um resultado. Este estudante perverso inventou sete maneiras de determinar a altura da torre com o altímetro sem ler o altímetro! É claro, a pergunta é: ele sabia física? Ele tinha a conduta adequada? Quando o professor o reprovou, pareceria que ele não tinha a conduta adequada. Ele não mostrou a conduta adequada às circunstâncias em que a pergunta foi formulada. Então, se a coisa crucial era a opinião do professor, ele falhou. Mas a comissão de educação tinha uma outra opinião, então, ele não falhou.

Agora, o professor que determina a conduta adequada fundamental para nós é a vida. Se permanecemos vivos, temos a conduta adequada. E, se nos reproduzimos, participamos de uma linhagem. No entanto, se o critério é determinado pelo professor, nós temos conduta adequada somente na medida em que satisfazemos as exigências do professor.

Poderia isto que eu disse em termos tão gerais – que se aplica obviamente ao nosso apelo fundamental, que é o de viver – se aplicar também à conduta adequada ou inadequada frente a um professor? Sim, e vou mostrar como.

Suponha que em vez de considerar o meio que eu postulei inicialmente – um meio físico inerte, alguma coisa que chamaríamos não viva – eu coloque um outro ser vivo. Ainda terão lugar as interações que descrevi, mas haverão outras interações. Meu argumento original ainda se aplica a estas outras interações, porque o fenômeno da interação seletiva, da seleção de mudanças estruturais no outro, não depende das características do agente que desencadeia a mudança, desde que a interação aconteça. Na verdade, é o organismo quem especifica o que ele admite como uma interação. Cada um de vocês especifica o que admite como interação. Para outras coisas vocês são como que transparentes. Vocês não entendem o que eu digo quando uso uma língua desconhecida; são vocês que especificam que idiomas vocês entendem.

Assim, não existem restrições nas coisas com que se pode interagir, mas se a outra entidade acontece ser um ser vivo, então nós temos uma adaptação que envolve outro ser vivo. E a invariância da adaptação envolve o outro ser vivo. Quando isto ocorre, afirmo, embora sem entrar em detalhes, que temos um domínio lingüístico. Quando quer que tenhamos organismos que, através de uma história de interações continuam interagindo um com o outro, nós temos um domínio lingüístico.

Mas notem que a adaptação, a invariância da adaptação, é uma coerência estrutural, significando que a estrutura do sistema pode ser descrita como possuidora de uma correspondência mútua de uma maneira dinâmica. Chamei isso de acoplamento estrutural. A mesma coisa ocorre entre organismos. Se existe coerência nas história de interações, eles se adaptam mutuamente. E eles continuarão interagindo um com o outro enquanto houver coerência, enquanto continuarem mutuamente adaptados, porque cada interação resultará na seleção de uma mudança estrutural particular. E, de novo, sempre que isto tem lugar, se estabelece um domínio lingüístico.

Se este domínio lingüístico permite uma recursividade em interações lingüísticas, então, nós temos uma linguagem, mas eu não vou entrar nisto aqui.

Certamente, quando um professor e um estudante têm uma história de interações, a conduta adequada do estudante será revelar uma coerência no domínio de interações com o professor. Se tal coerência é interrompida em algum instante, então o estudante não terá uma conduta adequada aos olhos do professor. Mas o estudante e o professor selecionam um no outro trajetos de modificação estrutural enquanto eles mantiverem a relação.

Na medida em que eu mostrei a vocês o mecanismo pelo qual a conduta adequada é gerada, eu respondi à pergunta que propus sobre o problema da cognição. Lembrem que eu não perguntei, “O que é cognição?” Eu somente perguntei, “Sob que circunstâncias nós reconhecemos que há cognição?” Eu mostrei as circunstâncias que geram o fenômeno que reconhecemos como cognição. Mas eu fiz também uma outra coisa: Eu tracei uma identidade entre a cognição e o viver, pelo menos em termos absolutos gerais que têm a ver conosco como sistemas vivos. Existem outros domínios, mais restritos de cognição e, com respeito a estes, eu disse que, em qualquer domínio de convivência que nós estabelecemos com outro organismo, o outro organismo observará em nós um comportamento cognitivo – observará em nós a conduta adequada. Pelo que eu disse, o fenômeno da cognição é necessariamente relativo ao domínio no qual se observam coerências estruturais que são resultantes das histórias de interações dos organismos.

Finalmente, eu apresentarei um par de idéias interessantes, embora não possa desenvolvê-las aqui.

Quando você tem linguagem, o que você tem é a possibilidade de um comportamento que um observador descreverá como recursões em um domínio lingüístico consensual. Estas recursões podem se dar por causa de uma peculiaridade muito interessante no sistema nervoso. O sistema nervoso é um sistema fechado, uma rede fechada de componentes que interagem uns com os outros, e nos quais a dinâmica de estados é uma contínua mudança de relações de atividade que geram relações de atividade na mesma rede. Que relações de atividade e que mudanças de relações de atividade têm lugar? Aquelas que são determinadas pela estrutura do sistema nervoso. Então, pode-se mostrar que, em termos de descrição, porque a descrição é conduta neste domínio lingüístico de coerências mútuas, a linguagem não está no cérebro ou no sistema nervoso, mas sim no domínio das coerências mútuas entre os organismos. Quando o observador observa que isto tem lugar, e que as distinções realizadas aqui podem ser recursivas, podem ser distinções de distinções neste domínio, então nós temos uma linguagem. Mas isto só pode ocorrer porque está ocorrendo em um sistema fechado. Para o sistema, para nós em nosso sistema nervoso, o ato de apanhar uma folha de papel é uma série particular de mudanças de relações de atividade no nosso sistema nervoso. Beber água, é outra série de mudanças de relações de atividade em nosso sistema nervoso. Falar é outra série de mudanças. Do ponto de vista do que se passa dentro do organismo, tudo se passa no organismo de uma maneira fechada. Mas para o observador, as coerências aparecem como linguagem, ou interações lingüísticas, coisas deste gênero. E isto é o que permite, afinal, que sua própria dinâmica de estados em um domínio lingüístico opere como seletor de suas mudanças de estado.

……

Tradução: Nelson Vaz e Cristina Magro……..

A Editora da UFMG e a Palas Athenas publicaram coletâneas e traduções de textos de Maturana:

Maturana, H. (1997) Ontologia do Observar – Humberto Maturana.Belo Horizonte: Editora UFMG/Org: Cristina Magro, Miriam Graciano e Nelson Vaz

Maturana, H. (1998) Emoções e linguagem em educação e política.Belo Horizonte: Editora UFMG/Trad:José Francisco Campos Fortes

Maturana, H. (2001) Cognição, Ciência e Vida Cotidiana.Belo Horizonte: Editora UFMG/Org: Cristina Magro e Victor Paredes.

Maturana, H. e Varela, F. (2001) A árvore do conhecimento. As bases biológicas do entendimento humano. São Paulo, Palas Athena.

Maturana, H. e Verden-Zöller, G. (2004) Amar e brincar – Caminhos esquecidos do humano.São Paulo, Palas Athena.

——-

Acessar pela internet o Instituto Matriztica matriztica.org> para consulta de textos e outras informações. Entre muitos outros textos, recomendo: Maturana, H. (2002) Autopoiese, Acoplamento estrutural e Cognição: Uma história dessas e de outras noções na biologia da cognição.