Francisco Varela

Varela – O caminho do Meio- 1981


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“O observador” – desenho de Francisco Varela

 

Maneiras Vivas de Fazer Sentido

Um caminho do meio para a neurociência

Francisco J Varela

Faculty of Sciences, University of Chile, Casilla 653, Santiago, Chile

 

LIVING WAYS OF SENSE MAKING.A middle path for neuroscience

Invited Lecture, International Symposium on “Order and Disorder”

Stanford University, Palo Alto, California, Sept 13-15,1981.

( Maturana was a co-author in the original manuscript.)

Este simpósio foi organizado com a idéia de que, nos últimos anos, muitos cientistas têm desafiado os conceitos tradicionais de ordem e desordem. Este é um pensamento ambicioso e não muito modesto; na verdade, esta palestra é uma crítica explícita e desavergonhada do programa dominante atual nas ciências do cérebro e da conduta [1], à qual adiciono uma proposta alternativa. No entanto, para nós está claro que só podemos apresentar estas idéias namedida em que existiram mudanças correspondentes em outras disciplinas científicas que tornam esta reunião de todo possível.

Ordem é ordem em relação a alguém ou algum ser que adota uma postura em relação à mesma. No mundo dos seres vivos, a ordem é na verdade inseparável das maneiras pelas quais os seres vivos fazem sentido, de forma que podemos dizer que eles têm um mundo. Associamos tais atividades com animais dotados de um sistema nervoso, e consideramos tais ações como atos cognitivos. Ordem e conhecimento estão entrelaçados: é evidente. Como cientistas, buscamos mecanismos para explicar a origem de tais atos cognitivos, e dar conta até mesmo de nosso sentido de ordem. Sem referência a esta base fundamental, o objetivo deste Simpósio não poderia ser alcançado. Afirmamos que o modo atual de ver as maneiras adotadas pelos seres vivos para fazer sentido, precisa ser re-examinada. E para isto nos voltamos agora por meio de uma ilustração que usaremos para alavancar o argumento geral.

 

A cor

                  A mundo de cores a nosso redor parece ser tão naturalmente parte dos objetos, que uma foto colorida parece um análogo natural do que deve se passar na cabeça daqueles que possuem uma visão de cores normal. Se algo nos parece mais branco que outra coisa, deve ser porque estamos recebendo mais luz refletida. E se algo nos parece vermelho, deve ser porque recebemos luz de um espectro com comprimentos de onda maiores.

Entretanto, quando examinamos mais de perto a situação, nos surpreendemos. E nos surpeendemos muito, porque quando realmente medimos a luz a nosso redor, não encontramos uma correlação um-a-um entre o fluxo de luz de vários comprimentos de onda e as cores que associamos aos objetos [2]. Isto se deduz trivialmente ao observarmos os cuidados que os fotógrafos tomam ao ajustar suas câmeras à menor variação da iluminação.

Neste ponto, pensamos: Bem, pode ser que o olho tenha algum mecanismo esperto que compensa as mudanças de iluminação, e extrai de todas aquelas mudanças alguma qualidade estável dos objetos, tais como sua reflectância. Na verdade, um raciocínio físico nos diz que podemos pensar na luz que perturba a retina como resultado da reflexão de um objeto sob uma dada iluminação, então, como algo proporcional ao produto destas duas variáveis. Deste raciocínio, se segue que o mesmo fluxo de luz pode ser o resultado de um número infinito de combinações de reflectânias e iluminações.

Isto nos coloca em uma situação inteiramente circular. A retina é perturbada por um fluxo de luz, produto da iluminação e da reflectância. Entretanto, nem a iluminação, nem a reflectância são constantes em nosso campo normal de visão, e nenhuma das duas é conhecida de antemão. No sentido de “recuperar” a reflectância como uma propriedade do objeto, teríamos que fazer uma comparação com algum padrão. E certamente, não fazemos esta comparação cada vez que apreciamos uma laranja em cima de uma mesa, seja lá de que forma desequilibrada ela esteja iluminada, porque tal comparação requereria a referência a uma iluminação fixa. Somos, então forçados a concluir que a sensação de cor é independente do fluxo e da distribuição de comprimentos de onda da luz refletida por um objeto.

Isto já é meio perturbador para nossa maneira usual de pensar. Mas as coisas são piores do que parecem. Não somente nossa suposição sobre a correlação cor-comprimento de onda é violada, mas também outra suposição ingênua: a de que a experiência cromática está associada a uma propriedade local do objeto colorido, em vez de ser um propriedade do campo visual inteiro.

Neste ponto, você pode pensar o que será isto de que falo, de forma que vou me voltar para uma ilustração. Considere dois projetores arrumados como na Figura 1. Um dos projetores é equipado com um filtro vermelho. Se colocarmos a mão em frente do projetor sem filtro, e desde que não fizemos nada exceto obstruir a luz branca, esperamos ver uma sombra vermelho escura sobre um fundo vermelho claro. E isto é precisamente o que vemos. No entanto, se fgora projetamos uma sombra a partir do projetor vermelho, esperaríamos ver uma sombra cinzenta no fundo vermelho claro. Mas a sombra se mostra verde (turquesa). No entanto, um espectrofotômetro voltado para a mesma nos diria que o fluxo de luz daquela região turquesa, em sua composição espectral, é branco.

 

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Figura 1 – A ilusão de cor

                Este experimento sobre as “sombras coloridas” [3] é um dos melhores exemplos conhecidos de uma anomalia, para usar a termnologia de Thomas Kuhn. E o apresento aqui exatamente com esta finalidade. Como todas as anomalias, ele é tratado como um paradoxo. A pergunta usual é: “Bem, mas qual é a cor real da sombra?” Ou, se diz que se trata de uma ilusão cromática. Como se ainda pudéssemos confiar na correlação cor-comprimento de onda, o que certamente não podemos, como vimos. Mais ainda, o que é tornado bem claro neste experimento, é que a operação normal do sistema visual, ou seja, o papel das margens ou das descontinuidades no nível de atividade dos neurônios da retina e sua interconectividade, é o que torna o campo visual inteiro uma unidade.

                  Discutamos isto mais um pouco através de outra demonstração que expande a precedente. Considere os mesmos dois projetores da Figura 1, mas agora colocamos em ambos uma cópia do mesmo diapositivo, contendo uma arrumação em xadrez de brancos, cinzas e negros, como na Figura 2.

 

fig-2-tons-de-cinza-que-adquirem-corFigura 2. Tons de cinza que adquirem cor

As imagens dos dois diapositivos são precisamente superpostas. Desde que mantivemos o filtro vermelho em um dos projetores, o que obtemos é um conjunto de vermelhos e rosas de diferentes densidades. No entanto, se agora girarmos 90º um dos diapositivos, o resultado é uma imagem policromática, contendo pequenos quadrados amarelos, azuis e verdes, assim como outros vermelhos e rosas de diferentes densidades [4].

O efeito deste experimento é bastante dramático: surgem imagens policromáticas onde esperaríamos vários tons de rosa e vermelho. Este efeito policromático é devido à simples desigualdades nas relações branco-para-branco e vermelho-para-vermelho através das margens dos pequenos quadrados em consequência da rotação de um dos diapositivos. Como pode acontecer isto? O fluxo de luz que chega à retina, de fato, perturba três mosaicos diferentes, mas entrelaçados, de cones que constituem três superfícies retinianas: as retinas “vermelha”, “verde” e “azul”, cada uma caracterizada pelo foto-pigmento de seus cones que têm curvas de absorção superpostas cujas diferentes sensibilidades têm picos em volta de 590, 540 e 450 nm, respectivamente.

Mais ainda, estas três retinas não são de forma alguma idênticas ou homogêneas; por exemplo, a retina “vermelha” tem uma densidade de cones cerca de cinco vezes maior que a retina “azul”, e ligeiramente menor que a retina “verde”. Além disso, a conectividade interna da retna resulta resulta em que, para qualquer fluxo de luz impingindo sobre um local da retina, o efeito que as diferenças locais de atividade das três superfícies de receptores têm, acontece a cada uma delas no resto da retina [5]. Desta maneira, são gerados valores de referência internos, e desvios abruptos de tais valores de referência nos níveis locais de atividade, se tornam diferenças que fazem diferença; dentro dos limites de tais desvios de uma referência interna, uma cor uniforme é percebida.

Na verdade, a qualidade escorregadia à qual chamamos “cor”, não pode ser explicada se procuramos explicá-la em termos de propriedades do objeto a serem captadas pelo observador. Na verdade, só podemos dar conta da experiência cromática ao revelar sua constituição através das coerências internas das atividades neuronais relativas que surgem no sistema nervoso.

Há mais detalhes desta especificação cromática das dimensões da conduta, mas não vamos nos referir a estas tecnicalidades aqui.

                  O programa representacionista

Nesta ocasião, a coisa mais interessante para examinar nesta ilustração sobre a cor é indagar: por que deveríamos sentir que há algo que nos surpreende sobre isto? Por que nos sentimos impelidos a descrever as sombras coloridas como ilusões, e por que nos sentirmos desconfortáveis com a falta de correlação entre a cor e o comprimento de onda?

A surpresa e o desconforto só podem provir de uma fonte: um hábito profundamente arraigado de nosso pensar, na ciência e em outras áreas. Queremos questionar este hábito profundamente arraigado que é explicitamente manifestado pelos estudiosos de neurociências. Chamamos a isto de programa representacionista. Isto está enraizado em um complexo de noções que se tornam visíveis em sua forma atual com o advento da engenharia de comunicação e a ciência de computadores, mas que tem raízes muito mais antigas nas preferências anglo-saxônicas. Em sua forma mais básica, esta crença diz: o sistema nervoso opera capturando aspectos do ambiente e construindo representações do mundo em que o animal vive para serem usadas em ações adaptativas do organismo. Este programa considera os aspectos do ambiente a serem representado como tão poderosos e centrais, que eles são a orientação primária para o estudo das formas neurais e da conduta.

Uma análise representacionista se incicia por isolar um modo particular de atividade de um componente neural (digamos, respostas cromática de uma célula ganglionar da retina) ou uma conduta particular (digamos, a discriminação de cores), e encarar isto como uma característica singular. Em seguida, esta característica é explicada em termos de alguma forma de adequatio rei ad cerebrum, quer por uma descrição funcional através da qual se admite que ela representa o objeto por sua referência a um suposto valor biológico (o reconhecimento de cores é adaptativo em encontros sexuais), ou, através da análise do componente neural em termos de como ele supostamente contém o aspecto do ambiente (como o vermelho é codificado e processado depois que incide sobre os receptores).

Uma forma extrema deste modo de ver é a chamada doutrina da célula única da percepção sensorial [6], na qual a corrrespondência cérebro-mundo é mediada através da atividade de células individuais. Esta teoria tem estado sob crítica constante nos últimos nos, no entanto, os itens conceituais porpostos para substituí-la são igualmenre representacionais; por exemplo, na forma de canais calibrados-por-frequência (frequency-tuned channels) [7]. A atitude fundamental ainda é a mesma: há um mundo exterior que precisamos conhecer, e a tarefa do sistema nervoso é fazer isto por captura de suas características.

Neste ponto, neurocientistas protestarão e dirão que estou distorcendo o que eles dizem. Não é por acaso bem aceito que há um papel desempenhado por distorções internas, tais como o controle eferente da percepção sensorial? Por acaso, a idéia de geração central de padrões não é amplamente utilizada? Ou, de modo mais geral, e mais próximo à visão de psicologistas cognitivos: Não está claro que precisamos formar algum esquema interno para a integração senso/motora?

O ponto que fazemos aqui, no entanto, é bem diferente. As pessoas em geral evitam um confronto direto com uma teoria rival, e não negam o ponto de vista do opositor, mas sim evitam sua lógica interna e sua estética obrigatória. Concretamente, isto significa o seguinte movimento: aceitar o ponto de vista do oponente, mas circunscrever seu domínio de ação tão estreitamente, que ele não pode ter importância real na explicação desejada. Para o caso da eferência sensorial, por exemplo, o programa representacionista diz aproximadamente o seguinte: isto importa somente em circunstâncias nas quais há necessidade de ajustar a sensibilidade do animal a um novo nível de estimulação, então, isto é irrelevante na maioria das situações.

A admissão de alternativas em princípio não significa, necessariamente, que surjam caminhos experimentais. A maioria dos neurocientistas está disposta a aceitar que nem tudo é uma representação. No entanto, face a uma conduta ou um aspecto da sinaptologia do cérebro, eles buscam atividades neurais que correspondam a uma conduta adaptativa no mundo. Este é um hábito conceitual profundamente enraizado, em volta do qual toda a neurociência moderna se constituiu. É o hábito de tomar as descrições das interações que o organismo atravessa como o fio condutor na busca de uma explicação para suas consequências. Isto equivale a tomar toda interação como sendo, de alguma maneira, instrutiva, de modo que suas consequências precisam ser representações sobre as quais o sistema nervoso opera para gerar condutas adaptativas. Este hábito parece reforçado por seu sucesso em projetar artefatos de engenharia e computadores. Mas seríamos simplesmente descuidados se empregássemos tal estratégia em nossas tentativas de entender os seres vivos e a cognição sem um exame mais atento.

                  Um caminho do meio para a neurociência

                  Um aspecto deste descuido é simplesmente não levar a sério a arquitetura do sistema nervoso e o que ela implica para sua operação. Por exemplo, para cada bibra nervosa que ingressa no cortex vinda de uma célula ganglionar da retina (via núcleo geniculado), há cerca de 100 outras fibras de outras áreas corticais e sub-corticais que entram na mesma região topográfica [8]. Podemos ter alguma esperança de encontrar de encontrar nos chamados “sinais” partidos do mundo e que trafegam pelo nervo ótico, algum guia sobre o que se passará no cortex?

Seguramente, por muitos anos se sentiu que a descoberta dos chamados “detectores de aspectos “ (feature detectors) na retina e no cortex eram sinais de um grande avanço em nossa compreensão dos mecanismos cerebrais, porque eles eram incorporações (embodiments) de representações.[9] No entanto, passados muitos anos, podemos agora ver que respostas celulares repetidas somente são obtidas sob condições experimentais estabilizadas [10] e que a maior parte da atividade neuronal observada parece extremamente variável, porque é influenciada por muitos fatores diferentes. Além disso, esquemas classificatórios alternativos podem ser criados sem implicar nenhuma descrição de aspectos (features), mas somente em termos da consistência interna de parâmetros locais, tais como a geometria de campos reativos, o curso temporal da resposta, ou outras características particulares do neurônio [11].

Ainda mais, o que está claramente despontando para muitos estudiosos de neurociências é a necessidade de confrontar – com toda a sua assustadora dificuldade – o fato de que a análise de células isoladas não nos levará muito longe.

Na verdade, podemos descrever a lógica de operação do cérebro como uma hiererquia enredada de comparações superfície-a-superfície. Começamos a ter alguma idéia sobre como expresar isto mais explicitamente em alguns casos particulares, tais como mecanismo visuais[12], ou como mapear tal atividade global usando métodos óticos que envolvem o cérebro inteiro.

Levados a sério, estes rumos de pesquisa em neurociência significam uma mudança radical em nossa maneira de ver o funcionamento do cérebro. Para nós, eles significam um afastamento da visão do cérebro como um artefato que recebe entradas (inputs) na forma de informações sobre as quais deve agir. Em vez disso, significa nos aproximarmos de uma visão do cérebro como um sistema caracterizado, não por seus estímulos (inputs), mas pelo fechamento operacional de seus estados dinâmicos, definidos como um equilíbrio relativo da atividade de superfícies neurais, de tal maneira que toda mudança de estado no sistema pode apenas conduzir a outra mudança de estado no próprio sistema. Neste programa alternativo, a pesquisa interessante é tornar explícita a dinâmica e a estabilidade das diversas formas adotadas por tal fechamento de estados internos sob contínuas perturbações partidas do meio[13].

Neste ponto, alguns de você dirão que estou brincando. Que estou dizendo que o que se passa “do lado de fora” não importa para os sistema nervoso; que ele se comporta como uma mônada solitária que molda o mundo de acordo com seus caprichos. É claro que não estamos propondo isto. Tratar os sistema nervoso como uma mônada dissociada equivaleria a obscurecer o ponto que defendemos, levando-o ao absurdo. Levar o ponto ao absurdo significa transformá-lo no oposto lógico do paradigma representacionista. Na verdade, para o programa representacionista está implícito (ou é posto explicitamente) que o mundo e suas qualidades são primários, e que ele informam diretamente o sistema nervoso em termos do que colher e sobre o que agir para gerar a conduta adaptativa. Neste ponto de vista, as interações entre o organismo e seu ambiente são instrutivas. O oposto lógico, seria dizer que é o organismo que inventa o mundo, e coloca no mesmo a mobília que deseja – um tipo de cérebro kantiano, ou uma mente solipsista.

Nossa posição pede um caminho do meio dialético. Queremos caminhar no fio da navalha entre o representacionismo de Scylla e o solipsismo de Carybdis, nos colocando firmemente no meio.[14]

Em termos pragmáticos, o que significa isto? Significa levar em conta, explicitamente, as condições de nossas descrições, através dos quais passamos entre o organismo como um sistema em sua própria lógica interna, e, de volta, ao organismo como uma unidade em suas interações. Neste vai-vem entre estes dois diferentes domínios de descrição, nós como observadores estabelecemos como válidas certas restrições no ambiente às quais o organismo precisa satisfazer. Então, para a visão, agindo como físicos concordamos que não pode haver conduta sem interações com a luz. E que tal luz não pode ter um comprimento de onda muito superior ao vermelho, pois não será capaz de deslocar electrons de órbitas moleculares; nem poderá ser muito inferior ao violeta, pois quebraria ligações químicas. Mas dentro destas amplas restrições, os processos que a luz desencadeia ao perturbar os receptores visuais podem seguir um ou outro em um amplo leque de possibilidades. Qual será a efetivamente seguida é determinado em cada organismo de acordo com a estrutura de seu sistema nervoso, e portanto, de acordo com a história do organismo [15] .

Para nós, olhar para a coerência da clausura gerada internamente é o fillium ariadnis do problema. Então, a discriminação de cores como uma conduta não poderia existir sem interações com a luz como descrevemos; mas a cor não está no fluxo de comprimentos de onda da luz. Esta propriedade da luz a qual chamamos “comprimento de onda” é motivo para múltiplos modos de dimensionar regularidades internas através do reino animal, todas elas viáveis dentro das amplas restrições estabelecidas por aquilo que chamamos propriedades da luz, mas estas propriedades não são a cor. O padrão efetivo de coerências no sistema nervoso de um animal sob perturbações visuais especifica sua conduta cromática como um domínio de distinções cromáticas. Mas tal conduta cromática não é um encaixe ótimo a um ambiente ideal de objetos coloridos, mas sim é um dos muitos diferentes trajetos de coerências estruturais internas dentro das amplas restrições estabelecidas pelas estruturas primárias: o organismo e a luz. Nosso universo de cores não é nem arbitrário, nem a expressão de um encaixe ótimo ao ambiente: é a expressão de nossa dinâmica atual de estados, como resultado de um dos trajetos filogenéticos possíveis entre muitos outros construídos na história evolutiva dos sistemas vivos.

Para nós, a origem do conhecimento e do fazer sentido, portanto, não se parece ao projeto de um sistema que é otimizado para corresponder a um dado padrão externo. Diríamos que ele se assemelha mais a uma bricolagem, uma escultura dinâmica, a construção de estruturas com os materiais disponíveis a um organismo que ele articula ao passo que eles surgem em uma deriva que segue um de muitos trajetos possíveis. Neste processo, qualquer trajeto de bricolagem surgirá do processo de seleção por consequências. O chave para este processo é que as consequências de uma interação derivarão não da natureza da perturbação que a desencadeos, mas sim da maneira pela qual a estrutura compensa tais interações de acordo com sua paisagem dinâmica; o resultado global é mudança na estrutura em uma manutenção contínua da integridade do sistema em seu meio [16]. Um trajeto de seleção por consequências é uma história de validações internas de interações por uma entidade autônoma, tal como um organismo dotado de um sistema nervoso. Novamente, apenas recentemente começamos a ter uma idéia de como descrever este tipo de fenômenos de maneira não-representacional, por exemlo, em uma paisagem dinâmica. O termo “creodo”, cunhado por Waddington em um contexto embriológico, parece ser o mais adequado para designar tais trajetos resultantes de diferentes histórias de seleção por consequência [17].

Na verdade, a idéia de que um sistema nervoso deva ser caracterizado como tendo clausura operacional, exige uma revisão da postura tradicional, desde que ela se articula em uma mudança de ênfases : de uma postura que vê o organismo engajado em interações instrutivas com seu ambiente, para uma que enfatiza a maneira autônoma própria do organismo em seu ambiente. De fato, a importância da autonomia do ser vivo, expressa em um contexto científico moderno, é a chave para esta mudança de postura [18].

Conexões

Seria muito perturbador se falássemos de tudo isto e não encontrássemos propostas convergentes nascendo nos últimos anos em diferentes áreas da ciência, assim como entre pensadores sociais e filósofos [19]. Neste sentido, nossa decrição do sistema nervoso é caracterizada pela clausura operacional e a noção complementar de autopoiese, que descerve a organização do sistema vivo, fazem parte de uma tendência geral de sensibilidades contemporâneas na ciência [20].

Particularmente importantes para nós, são as críticas atuais do programa na teoria evolutiva, com sua ênfase na adaptação como um processo que conduz a um encaixe ótimo, e a seleção natural como seu único mecanismo. Este programa adaptacionista, ironicamente, está fora de compasso com o pensamento pluralístico original de Darwin, que propunha a seleção natural como um mecanismo que apenas dava forma às condições globais para a viabilidade do organismo. Dentro do intervalo permitido pela seleção natural, os trajetos específicos e os padrões adotados por uma árvore filética, não são gerados por um processo otimizador [21], mas efetivamente “dependem mais crucialmente das restrições (embriológicas e fisiológicas) que restrigem trajetos e modos possíveis de mudança, de forma que as próprias restrições se tornam aspectos dos mais interessantes na evolução” [22] Para o pensamento em evolução, o adaptacionismo tem um papel isomórfico ao representacionismo.

De fato, vemos como um fio unificador que motiva muito do trabalho apreentado neste Simpósio, a tendência a transformar o estudo das coerências internas geradas por um unidade como fio condutor para compreender sua fenomenologia. Isto engloba muitos diferentes campos de desrição e muitas abordagens nas quais a auto-referência começa a aparecer, não como um transtorno do qual devemos escapar, mas como o material básico a partir do qual a emergência de ordem e de sentido pode ser compreendida, seja no viver, na cognição, em textos ou na sociedade. Naturalmente, cada disciplina deve encontrar sua própria especificidade sob este vasto guarda-chuva de resonâncias frouxamente rotulado de auto-organização.

Antes de concluir, vamos sumarizar. O núcleo de nossa proposta para o caminho do meio da neurociência é o acoplamento (viz. the bootstrap) entre as coerências internas da clausura operacional do sistema nervoso, e seus creodos resultantes de uma história de seleção por consequências. Tomamos estas noções como aplicáveis e próprias para os sistemas vivos em todas as suas formas [23].

Mas algumas destas novas visões sobre ordem e desordem que nos reuniram aqui, e certamente a proposta atual, encontrarão fortes resistências. Cremos nisto porque, se levado a sério, o programa proposto aqui envolve o abandono das noções de representação e de informação como fios condutores úteis à pesquisa. As raízes destas resitências são profundas. Elas são não menos que as resistências de nos afastarmos da tradição monumental da Física, onde o fio condutor principal da pesquisa era a causa com um agente iniciador, típica da mecânica clássica. Esta é precisamente a mesma lógica das representações e das interações instrutivas. Em uma visão do caminho do meio do viver, o principal fio condutor para a pesquisa é a articulação (bootstrap) entre a lógica interna da unidade, e sua história de seleção por consequências. Esta é uma situação totalmente nova, tão acessível ao estudo científico quanto as causas mecânicas, mas crucialmente diferente, e própria a um reino diferente de fenômenos [24].

Um último ponto. Uma coisa é considerar, e talvez ser convencido, que precisamos abandonar uma atittude representacionista para o entendimento do sistema nervoso dos animais. Outra coisa muito diferente é admitir com toda a seriedade que o mesmo se aplica à nossa própria cognição e à forma pela qual entendemos nosso próprio conhecimento.

Esta aplicação de segunda-ordem do caminho do meio, se quiserem, pode se mostrar mais difícil ainda de absorver, porque ela envolve o abandono do hábito entrincheirado de confiar no mundo como algum ponto de referência fixo a ser representado, ou então, de tomar o sujeito como o agente iniciador e, portanto, também um ponto de referência. Se estamos certos, nossa vida humana, nosso experienciar exatamente neste momento, é apenas um dos muitos creodos possíveis de conheciomento, onde o imenso fundo (background) de nossa estrutura biológica e prática social é inseparável das regularidades que discernimos tanto no mundo quanto no self. Quando seguimos esta lógica completamente, podemos entender o mundo em que nos encontramos de uma maneira nem separada, nem distante. Mas também como um mundo que não tem nenhum ponto de referência fixo.

 

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NOTAS

[1] o termo é usado no sentido técnico definido por Lakatos (1970) em sua análise da atividade científica como ação coletiva.

[2] para uma discussão, ver Beck (1972) e a demonstração particularmente clara de Land e McCann (1971)

[3] um fenômeno primeiramente descrito por Otto von Guericke, em 1672.

[4] Este experimento é um exemplo de fenômenos estudados por Edwin Land (1964). O uso da rotação de pranchas com xadrez cinzas, como descrito aqui, foi primeiro descrito por Maturana et al. (1968)

[5] Uma forma que esta disposição de campo-inteiro pode tomar, éum uso difuso da interação lateral. Isto é mais precisamente expreso como uma convolução na qual cada valor local é dependente de valores em pontos vizinhos. Ver Horn (9174) e Marr (1974).

[6] Ver Barlow (1972). As seguintes citações de livros conhecidos também transmitem o mesmo sabor: “ O cerebro é um conjunto interessante decélulas que continuamente recebem informação, a elaboram e percebem, e tomam decisões” (Kuffler & Nichills, 1976, page 3) “Achei necesseario supor que quem percebe tem certas struturas cognitivas que funcionam para captar a informaçnao que o anmbiente oferece (Neisser, 1976, p xii).

[7] ver Richards(1979) para uma discussão recente

[8] ver, por exemplo, a discusssão de Baraitenberg (1962)

[9] Maturana et al. (1959); Huber and Wiesel (1962)

[10] Ver por exemplo Horn & Hill(1969) sobre o efeito da inclinação do corpo na resposta do cortex visual; Fishman & Michael (1973) e Morrel (1972) para o efeito da estimulação auditiva; e Hubel & Wiesel (1962), Rose (1974) e Hoepner (1974) para outros parâmetros que afetam resposta visuais.

[11] Rowe & Stone explicam estes pontos claramente.

[12] ver, por exemplo, Schwartz (1980), Julesz (1981) e Marr & Poggio (1979) para alguns exemplos deste tipo de trabalho, embora estes autores não concordem necessariamente com nossa interpretação. Ver Também, Maturan, Varela & Frenk (1972)

[13] Para a apresentação original deste argumento, ver Maturana e Varela (1980).

[14] Claramente, um mapa de três (ou quatro) pontos desta situação é super-simplificado. Há aqueles que verão a si mesmos como parcialmente ali. Isto é inevitavelmente assim, mas o ponto, precisamente, é um apelo à clareza pela apresentação do que acreditamos serem as questões-chave teóricas que teremos que aceitar, ou rejeitar, como linhas de orientação da pesquisa. Um comprometimento parcial, só pode produzir resultados parciais. Aqui está uma tipologia prática de abordagens à neurociência que tem, muito convenientemente, a presente abordagem em seu centro: (a) Percepção direta: o programa Gibsoniano (1980) é o melhor expoente desta forma não-comprometida de representacionismo. Em seguida, colocaríamos Barlow (1972) com sua doutrina de percepção por células únicas. (b) Computacional/representacional: que reúne a maioria dos psicólogos cognitivos, pesquisadores em Inteligência Artificial e onde os neuro-cientistas se localizariam. Como linhas de orientação da pesquisa encontraríamos alguma forma de adequatio rei ad machina, mas somos forçados a ver um nível “algorítimico” ou “computacional” que é compreensível apenas em termos da própria estrutura do sistema. No estudo da visão, isto está mais claro, por exemplo, no trabalho de E. Land e D. Marr. Para mais nesta direção, ver Fodor (1980) e Ullman (1980). (c) Construtivismo: nesta posição já ultrapassamos a mediana, e o aspecto mais fundamental está em estruturas inatas de orientação interna; pouca ou nenhuma referiencia é feita às restrições e interações que o observador descreve no ambiente. Ver, por exemplo, von Glaserfeld (1979); (d) Solipsismo pleno, a la Berkeley o qual, que eu saiba, não tem servido recentemente de inspiração para estratégias de pesquisa.

[15] Neste ponto, não deve escapar à atenção do leitor que descrevemos coisas como luz e sinapses através de nosso sistema nervoso e de nossa visão, e que toda descrição das propriedades do organismo e seu ambiente é baseada em operações de distinção que nós realizamos. Estamos, portanto, inescapavelmente, em uma situação circular, uma situação constitutiva que é problemática apenas quando tentamos negá-la, como faz a atitude representacionista. Esta hierarquia entrelaçada de descrições é parte inseparável do que propomos aqui como um caminho do meio para a neurociência, mas um que não teremos oportunidade de descrever em mais detalhe. Para mais nesta direção, ver Maturana e Varela (1980) e também Varela (1979).

[16] Usamos a expressão “bricolagem” como proposta por Jacob (1978) para o caso do pensamento evolutivo. O termo seleção por consequência é devido a Skinner (1981). Não é necessário dizer, no arcabouço de Skinner, o papel de coerências internas não é considerado.

[17] “Creodo” é um termo derivado das palavra gregas para “necessidade” e “caminho”. De acordo com Waddingtoon, um creodo é “uma trajetória temporal de mudança desenvolvimental (que surge) das características da organização circular fechada do sistema de genes e citoplasma. Creodos são um tipo de fenômeno que ocorrem em muitos outros campos também (Waddington, 1960, p.82).

[18] Para uma discussão plena da noção de autonomia e suas muitas ramificações, ver Varela (1979)

[19] É particularmente notável que alguns filósofos contemporâneos de clara descendência anglo-saxônica, adotaram recentemente a crítica do representacionismo e seu papel nas ciências. Ver Rorty (1979) e Malcom (1977).

[20] Ver Maturana and Varela (1980) e para mais discussão sobre autopoiese em um panorama amplo, ver Zeleny (1980).

[21] Para uma discussão explícita deste ponto importante,ver Oster & Rocklin (1979).

[22] Gould and Lewontin (1979, p.594). Este artigo é uma crítica excelente do programa adaptacionista por dois dos estudiosos da evolução. O presente artigo é devedor de uma grande influência do artigo de Gould-Lewontin. Para mais nesta visão, ver Riedl (1980).

[23] Para uma discussão sobre a mecânica clássica neste contexto, ver Progogine & Stengers (1979)

[24] Esta epistemologia sem-alicerces tem sua expressão, na tradição ocidental, em pensadores tais como Merleau-Ponty e Heidegger. Mas ela é plenamente expressa e de maneira incomparavelmente mais rica na tradição madhyamika da India medieval. Ver, por exemplo, Candrakirti/Spring (1980) onde a noção de uma epistemologia do caminho do meio é tomada de seu originador Nagarjuna.