Gregory Bateson

Vaz – Entre o acaso e o controle: Bateson e a evolução

Entre o acaso e o controle: Bateson e a evolução

Nelson Vaz

Bateson-photographer

Gregory Bateson, fotógrafo

O problema de uma abordagem diferente dos problemas biológicos, que seja mais ampla ou mais adequada àBiologia, está sumarizada no título de uma dos últimas gravações de Gregory Bateson, em Esalem (“Bateson tapes”): “Nem mecânico nem sobrenatural” (Bateson, 1980). Bateson inicia o seminário propondo que a Epistemologia tem uma face biológica, porque são os seres vivos que conhecem as coisas e os fenômenos. Diz também que: “…(N)ão ter ideias sobre estes problemas é uma forma de epistemologia e pensar que não ter ideias não constitui uma forma de epistemologia, é uma forma ruim de epistemologia”. Em outras palavras, o problema de “Qual é a de tudo isso?” (What it is all about?) é um problema que já nos preocupa, mesmo quando dizemos que ele não nos preocupa.

A ciência é uma criação recente, tem cerca de 300 anos , é muito mais nova que as religiões ou a tecnologia – embora, frequentemente, confundamos ciência com tecnologia. Nessa sua curta vida, a ciência substituiu a explicação sobrenatural proposta pelas religiões para a origem e natureza dos seres vivos e dos fenômenos biológicos por explicações mecânicas (mecanicistas). Acontece que quando removemos a Mente Suprema, quando removemos o Criador e suas criaturas, em seu lugar tende a surgir o Acaso, o incompreensível do sem limite e sem-razão.

Bateson propõe que a imagem do Deus judaico-cristão da cristandade moderna é uma entidade híbrida, parte transcendente, parte imanente, porque deriva da fusão de religiões babilônicas e egípcias. Ele propõe que:

“(Um desses sistemas religiosos) embora muito orgulhoso de ser monista (especialmente na versão judaica, e no ramo islâmico do mesmo conjunto de religiões), no meu ponto de vista, é essencialmente dualista. Porque Deus está separado de sua Criação, e a Criação é um dos componentes do dualismo; Deus é o outro.” (Bateson, 1980).

Bateson afirma que o perigo no dualismo cartesiano é que, ao separar a matéria e a mente, colocamos uma acima da outra ou, pior, passamos a negar uma delas: ou negamos a mente, ou negamos a matéria.

Seria obrigatória a essa escolha entre o mecânico e o sobrenatural? A visão transcendental moderna, segundo Bateson, está expressa por William Paley, um teólogo e também biólogista marinho que, em 1750, argumentava que “É impossível olhar para a pata de um caranguejo e não ver um projeto”. Dizia ele:

“Olhe para seu relógio: ele, obviamente, foi projetado para medir o tempo; e, o que existe no fundo da palavra projeto, é que houve alguém responsável por ele, um projetista, o inventor do relógio. Olhe para a pata de um caranguejo, e veja como a penúltima articulação se adianta às demais, e permite que um lado da pinça morda sobre o outro. Isto, obviamente, foi projetado para ser assim. E é impossível imaginar coisas sendo projetadas no mundo, sem que exista um projetista. Esta noção de projeto, propósito, etc, tornou-se central em toda esta controvérsia, e permanece assim até o presente.” (Bateson, 1980).

Bateson foi um grande defensor de Lamarck e da importância das ideias de Lamarck na criação da Biologia moderna. Ridicularizado por suas idéias sobre a herança de características adquiridas, Lamarck é totalmente ignorado pelos biólogos modernos [1]. Mas, nas primeiras versões da “Origem das Espécies”, Darwin, que tinha uma ideia sumária e errada sobre a herança, também usou a idéia de que os caracteres adquiridos eram herdados. Ao dizer que os efeitos do hábito são herdados, Lamarck fundia uma visão materialista com uma visão mentalista da evolução e esse é um lado bom. Mas havia també um lado ruim; essa é uma idéia ruim, que esconde um erro lógico, que pode ser entendido examinando o trabalho de Paul Kemperer sobre as rãs-parteiras (midwife-toads) (Koestler, 1971).

Em sua maioria, as rãs copulam na água e os machos possuem uma placa áspera nas patas dianteiras, que os ajuda a segurar o corpo escorregadio da fêmea. As rãs-parteiras copulam em terra e o macho não tem essas placas ásperas nas patas. Kamperer afirmava que, ao criar rãs-parteiras na água, os machos desenvolviam as placas ásperas, mesmo que voltassem a se reproduzir em terra firme (Koestler, 1971). Por esse raciocínio, as rãs-parteiras que copulavam em terra tinham a opção de desenvolver as placas ásperas, se criadas na água; mas, essa opção era perdida logo que as rãs eram criadas na água, pois elas não mais perdiam as placas quando criadas em terra. E isso não pode funcionar assim. A influência do hábito sobre a evolução não é tão simples quanto a teoria de Lamarck gostaria que fosse.

Bateson nos diz, em seguida que Alfred Russel-Wallace, o jovem biólogo que apresentou junto com Darwin a Teoria da Seleção Natural à Royal Society, intitulava seu texto “Sobre a Tendência das Variedades em Divergir”- ou algo semelhante, fazendo referência a mudanças direcionais. E que, no corpo da carta, ele diz:

“Muitos acharão isto difícil de compreender – este princípio da seleção natural – mas ele é, em verdade, muito simples. É o mesmo princípio do “governador” da máquina a vapor. Este mecanismo funciona de tal maneira que a menor variação da norma é corrigida imediatamente de volta para a norma.” (Bateson, 1980). Nessa idéia está a raiz das idéias expandidas na Cibernética, de Nobert Wiener (von Foerster, 1981; Stengers, 1985).

“No mundo da Cibernética – na máquina a vapor com um “governador”, na casa aquecida com um termostato, etc – o que faz acontecer as coisas é uma diferença, não exatamente uma causa. Em nossos órgãos sensoriais, as diferenças é que importam” (Bateson, 1980).

Bateson propõe que “toda a vida “mental” de um ser vivo não está baseada em quantidades, mas sim em diferenças de quantidades” (Bateson, 1980). E aponta para as diferenças como aquilo que torna possível as distinções que fazemos:

“Quando dizemos, “aquele objeto vermelho”, a palavra “vermelho” não representa uma diferença entre o objeto e a parede por detrás dele; nós dizemos que o objeto é vermelho; mas ele não é. Ele só é vermelho em relação a um fundo com o qual ele contrasta” (Bateson, 1980).

Com isso, Bateson conclui que :

“(P)odemos fazer uma visão gêmea do mundo, na qual as duas metades da visão gêmea estão conectadas. Não temos mais a “mente” separada do mundo, espiando, olhando o mundo; temos a “mente” dentro da “matéria”, agindo dentro dela e sendo, de fato, uma função da organização da matéria (Bateson, 1980).

Creio que Bateson colabora de forma muito poderosa para criar uma maneira de pensar nos fenômenos biológicos que não é “nem mecânica nem sobrenatural” e que isso permanece sendo muito importante para nós. Porque estamos proibidos se passear publicamente com a teleologia, “propósitos” não devem ser nunca invocados para uma explicação biológica. Bateson diz “A seleção natural ajudou um pouco nesta história, mas, de muitas maneiras, ela parecia muito pouco convincente” (Bateson, 1980). Porque a seleção natural ainda tem o acaso, mecânico, agindo como fonte de diversificação e não há como encaixar a conduta dos seres vivos (ou, o hábito, como dizia Lamarck) na evolução.

Entre o acaso (a ausência total de leis (ou anomia) e o controle por uma entidade externa ao sistema (ou alonomia), existe a possibilidade de estudar a autonomia, isto é, a possibilidade de estudar o que os sistemas realizam com base em sua própria estrutura. O que Maturana denomina “determinismo estrutural” (Maturana e Varela, 1980; Magro, Graciano e Vaz, 1997; Maturana, 1998)

Bibliografia

Bateson, G. (1980) Nem mecânico nem sobrenatural. Seminário em Esalem. Fita de audio. Transcrita e traduzida por N. Vaz.

Koestler, A. (1971) The case of the midwife toad. London: Picador.

Maturana, H. (1997) Ontologia do Conversar. Em C Magro, M Graciano e N Vaz, N., eds.

Belo Horizonte: Editora UFMG. pag 199-218

Maturana, H.R. and Varela, F.J. (1980) Autopoiesis and Cognition. The Realization of the Living. Dodrecht: Reidel.

Maturana, H. (1998) Emoções e linguagem em educação e política. Belo Horizonte: Editora UFMG. Tradução de José Fernando Campos Fortes

von Foerster, H. (1981) Observing Systems. Seaside, California: Intersystems Publications.

Stengers, I. (1985) Les généalogies de l’auto-organisation. Cahiers du CREA 8: 7-104.

Wiener, N. (1950) The human use of human beings, Cybernetics and society. New York: Avon Books.

[1] Para um breve comentário sobre Lamarck, ver Miriam Graciano